samedi 11 février 2012

O Acidente


Tudo na vida tem um começo e tem um fim. A vida é uma longa ou curta peça de Teatro. Umas vezes comédia, outras vezes dum acerbo dramatismo, mas um dia o pano terá que cair! Foi o que me ia acontecendo no dia 8 de Junho de 2011, às 15.30, em Meudon, quando fui fazer as compras para o jantar. Antes de atravessar a rua, na passarela, nos semáforos, aguardei que o senhor encarnado se fizesse verde, para eu atravessar a rua sem correr grandes riscos, mas, repentinamente, senti algo que esbarrou com a minha perna direita e, o que quer que fosse, foi tão rápido, que nunca saberei ao certo o que realmente se passou! Na minha memória, depois do tal "senhor encarnado" nos semáforos, a imagem seguinte que retive, foi eu estar numa maca, dentro duma ambulância, e ao abrir os olhos vi o belo rosto dum jovem bombeiro que tentava reanimar-me. Foi ele que me explicou o que se tinha passado:
Eu tinha sido colhido por uma mota, caído de costas, aberto o cotovelo direito, e uma fractura do crânio.
Depois dos primeiros socorros fui conduzido ao Hospital Becler, em Clamar, tendo antes telefonado ao Pat para que ele me viesse buscar.

Durante o trajecto, continuando a prestar-me os primeiros socorros, pondo pensos no meu cotovelo, cabeça e perna direita seriamente esfacelada, esse zeloso bombeiro explicou-me o que se tinha passado. Eu tinha sido colhido por uma mota, mas o motorista tinha seguido viajem sem me ter prestado os tais primeiros socorros. Que tinha sido um transeunte que tinha chamado os bombeiros, e que eu estava a ser conduzido ao hospital para mais eficazes hospitalares atenções !

Chegado ao hospital, prisioneiro da minha maca, nas Urgências, aguardei a minha vez de ser atendido.
Entretanto Pat tinha chegado e, colado à minha maca, muito preocupado, indagava acerca do que se tinha passado. Expliquei-lhe o melhor que pude, segundo o pouco que eu recordava. Fomos interrompidos por um enfermeiro que me veio buscar para me levar a uma dependência onde três médicos me aguardavam impávidos. Uma das médicas começou então as suas investigações. Cuidadosamente pensou as largas chagas na minha perna direita, pensou o meu crânio, e pôs-me dois pontos de sutura no meu cotovelo direito! Isto feito, informou-me que eu teria de esperar oito horas, antes de poder fazer um scanner para mais completas verificações!

Em baixo, numa espaçosa dependência muito escura, divida em pequenos espaços por uma cortina, vários acidentados aguardavam nas suas macas o momento de serem chamados para serem observados pelo scanner. Durante oito horas ali permaneci sem qualquer assistência, uma bebida, um afago, agredido pelos gritos de dor dos outros acidentados, meus vizinhos. Durante essas infinitas oito horas senti-me como um objecto ali posto de parte, não como um ser humano carente de atenções! Senti-me lixo à espera de ser despejado!

Às tantas, aparece-me, como caído do céu aos trambolhões, uma criatura doutros planetas que, sem me dizer uma palavra, me empurra corredores fora, e me abandona, sem qualquer informação, a um canto dum dos muitos corredores que tínhamos atravessado! Aguardei ali, possuído duma angústia asfixiante, até que outro marciano me veio buscar e me empurrou para dentro da dependência onde se encontrava o scanner, onde, igualmente, outro marciano rindo às gargalhadas duma anedota que o seu assistente lhe tinha contado, me enfia no scanner sem me dirigir uma palavra! Fiquei chocado com aquele tipo de serviços hospitalares onde os pacientes eram coisas e não pessoas!

Depois do scanner reconduziram-me ao meu buraco escuro e, uma vez mais, sem uma palavra, um sorriso, fui novamente abandonado sozinho com a minha fome, a minha sede, o imenso desejo de acender um cigarro, e, sobretudo, o pavor de ter sido ali esquecido para todo o sempre!
Horas depois, um médico, infinitamente humano e atencioso, me veio falar, perguntando como me sentia eu, que o scanner não tinha acusado nada de grave, e que eu podia ir para casa. Dito isto ele entrega-me um relatório dos meis primeiros socorros, desejando-me um bom restabelecimento. E que se eu tivesse dores durante a noite, tomasse uma grama de Doliprane todas as oito horas. Com um alívio imenso telefonei ao Pat, pedindo-lhe que ele me viesse buscar logo que pudesse. Era quase uma da madrugada!

Foi quase correndo que subi as escadas que levariam à entrada das Urgências, onde eu poderia enfim respirar um pouco de ar menos bafiento e fumar um cigarro! Chegado lá fora apercebi-me que eu não tinha cigarros comigo. Ansiosamente aguardei a chegada do Pat para que ele me fornecesse um desses diabólicos cigarros que matam, mas que, quando eu era miúdo, nos gigantescos cartazes por toda a parte em Lisboa, um belo mancebo sobre um imponente cavalo, apertando um belo cigarro entre os grossos lábios, ostentava em grandes letras: « Para ser Homem tem de fumar Marlboro ! »
Mal Pat chegou pedi-lhe um cigarro, mas ele também não os tinha com ele. Como ali à porta vários jovens médicos praticantes fumavam, perguntei se algum deles me podia dar um cigarro, mas fui totalmente ignorado. Continuava a ser uma coisa, não um dos seus semelhantes!

A viagem de regresso a casa foi rápida, e mal subi os degraus que me separavam dos meus malditos cigarros, cai-lhes desalmadamente em cima, enquanto Pat preparou um bom café e umas sandes.
Depois dumas trocas de palavras e de cigarros, fomo-nos deitar. Cada qual na sua cama, no seu quarto, nas suas dúvidas e angústias!

Mal afundei a face na minha almofada, rapidamente mergulhei no mais profundo dos sonos. Não sei se tive sonhos ou pesadelos, sei apenas que, ao meio da noite, fui acordado por horrorosas dores no corpo todo! Dores diabólicas que nunca suspeitara podessem existir! Nesse momento compreendi por que razão o médico me tinha prescrito Dolipran, uma grama todas as oito horas! Levantei-me e alvoroçadamente tomei esse tal remédio! Momentos depois, as dores abrandaram e voltei a adormecer.
Durante catorze dias e catorze noites fui avassalado por essas dores escandalosas! Por sorte, o tratamento ajudou-me a suportar essas dores insuportáveis! Ao fim desses catorze dias, como prescrito, fui ao médico para ele me retirar os pontos do meu cotovelo, e pensei que o caso tinha ficado arrumado mas, muito pelo contrário, dores horrorosas começaram a roer-me de novo. Era domingo e quase meia-noite, e como as dores eram intoleráveis, chamei um médico de guarda, aqueles que nos socorrem quando toda a gente dorme ou foi de férias.
Esse médico, depois de lhe ter falado no meu acidente, explicou-me que as dores no corpo eram dores ósseas, que passariam com o tempo, mas, não sabendo o que fazer, chamou uma ambulância e reenviou-me novamente para esse pestilento hospital donde, duas semanas atrás, eu tinha tão alegremente saído!
Chegado às Urgências desse temido hospital, novamente me instalaram na mesma maca, nessa tenebrosa dependência onde reinavam os gemidos dos negligenciados pacientes, e a total indiferença dos enfermeiros.
Momentos depois apareceu um dos tais enfermeiros que se limitam a empurrar as macas, e acabei novamente enfiado num scanner. Depois duma rápida verificação, informaram-me que estava tudo muito bem, e devolveram-me ao breu da dependência das Urgências, sempre prisioneiro da minha maca, sem qualquer assistência!

Durante três dias e três noites aí fiquei abandonado às minhas dores, com apenas, quando eu pedia socorro, dois comprimidos para acalmar as dores. Ao fim desses três dias, depois de ter feito mais três scanners, queixei-me, que, ao menos, podiam pôr-me numa cama, num dos quartos do hospital!
Momentos depois transferiram-me para um quarto no quinto andar, partilhando com outro doente. Mas, para cúmulo da ineficácia desse hospital, o outro doente era um atrasado mental que quando ia à retrete defecava pelo chão, e limpava as mãos às paredes!
Chamei uma enfermeira e pedi-lhe que me enviasse alguém de responsável que me resolvesse esse problema! Momentos depois um médico veio visitar-me e anunciar-me que eu tinha um problema num rim e que eles não tinham serviço de Nefrologia, e que me iam transferir para um hospital em Villejuif. Eu conhecia esse hospital, quando morei nessa Vila, e que era tão pestilento como aquele onde então me encontrava. Recusei essa transferência ! Sugeriram-me então uma Clínica em Meudon Laforet, que eu bem conhecia e apreciava. Concordei, elevando as mãos aos céus!

Em boa hora cheguei a essa clínica em Meudon! Um sítio limpo e arejado, e as enfermeiras atentas constantemente aos cuidados com os seus doentes! Durante dez dias, sob morfina para aguentar as dores, fui lavado e alimentado com carinho! Não aprecio hospitais nem de clínicas, mas esta merece todo o meu respeito e admiração! Bem hajam todos aqueles que se ocupam de doentes que, para eles, não são doentes nem clientes, são pessoas!

Bem hajam todos aqueles que vieram a este mundo para fazerem o bem!

dimanche 14 mars 2010

O Regresso ao meu Antro Amado


Depois da grande surpresa de voltar a ver aquelas paredes onde fora tão feliz no passado, ainda mais surpreendido fiquei quando me levaram ao escritório do Fernando Lopes, o filho do proprietário, que era então o director da Alfa, me ter igualmente recebido de braços abertos e me ter proposto eu voltar às minhas funções de animador, com um programa diário de duas horas. Talvez mesmo, quem sabe? o regresso do a “Bica e Copo de Água”, como nos velhos tempos de outrora!

Para começar, como Meudon é bastante longe de Créteil - onde a Alfa se instalara - falou-se de eu me mudar para Créteil. Mas quando informei o Fernando Lopes das dificuldades de alugar casa, devido a esses indecentes acordos entre os Bancos e as Agências Imobiliárias, para que os alojamentos fossem vendidos e não alugados, para assim obrigar os interessados a recorrerem aos empréstimos feitos pelos Bancos, ele pediu-me para eu ir à Câmara Municipal me inscrever para obter um apartamento e que, depois, lhe trouxesse o número de meu dossier, pois que ele era muito amigo do Presidente da Câmara, e que lhe pediria para ele interceder a meu favor.

Entretanto, enquanto aguardava os resultados dos esforços do Presidente da Câmara, foi-me proposto pela Ana Bela, (que todas as sextas-feiras falava de Poesia) eu participar no seu programa. Aceitei e imediatamente comecei a sentir-me de novo de volta a casa! O Filho Pródigo que, pouco a pouco, foi destituído de quaisquer oportunidades de voltar a ser, como dantes, o menino-prodígio!

No programa “Alameda dos Poetas”, da Ana Bela Cunha, todas as sextas-feiras das 10 ao meio-dia, tudo decorreu bem! A minha voz e a maneira de ler um texto começou a ser amplamente apreciada pelo auditório, e todas as semanas se falava dum poeta português. Sua biografia e obra. Os ouvintes que gostavam de participar telefonicamente, todos se mostraram entusiastas com a novidade! Eles recitavam poemas do Poeta do Dia ou poemas de sua própria autoria e, por vezes, para minha grande surpresa, poemas meus dos meus dois livros, Sombras ou Vagas!

A busca de apartamento em Créteil foi continuada, mas sempre sem qualquer sucesso! Só havia apartamentos à venda e, no Banco, visto a minha avançada idade, um empréstimo foi-me categoricamente recusado! Do Fernando Lopes ou do Presidente da Câmara, nunca mais obtive qualquer resultado, positivo ou negativo! Parece que, segundo um boato, um dos colaboradores ou responsáveis da Alfa, fora dizer ao Fernando Lopes que “o Rogério do Carmo já deu o que tinha a dar”! E desde ai tudo ficou a nadar em seco! Naufragado em fingimentos!

Uma vez mais, como ao longo de toda a minha vida, as invejas deram à luz a não-realização dos meus projectos e sonhos demasiado altaneiros! A minha presença, como várias vezes me aconteceu na minha vida profissional, uma vez mais incomodou os que me rodeavam, e assim, uma vez mais me cortaram as asas, para que eu não voasse mais alto do que aqueles que me temiam pelo meu profissionalismo!

Frustrado, decidi contentar-me com as minhas inglórias sextas-feiras apenas! Renunciei aos meus mais caros anseios e desejos de voltar a ser quem tivera sido nessa rádio!

Para preencher um pouco o meu tempo e calar a raiva que de mim se apoderara, continuei a escrever e a publicar no Facebook, a tentar lembrar a todos aqueles que pudessem eventualmente vir a ler-me, que eu ainda, a despeito de todas as manobras para me deitarem abaixo, continuava de pé! Pois que as árvores morrem de pé, a despeito de todos os mais inclementes vendavais!

jeudi 4 mars 2010

Saudades imensas do microfone



Depois desta abominável agressão da Ameline e indiferença do Hospital Quinze-Vingts, da desprezível apatia da Justiça, dos Ministérios e Imprensa, reduzido a quase nada depois de tantas raspagens inúteis para mim, mas muito rentáveis para os cirurgiões que apenas se preocupam em preencher camas nas clínicas onde operam, e dos "dépassements d'Honoraires" de que são peritos, para aumentar os seus ganhos diários sem demasiado mexerem o cu, resolvi pôr pedra no assunto e viver o que me restava de existência o melhor possível, tomando em consideração que eu estava reduzido aos restos mortais de quem eu tinha até então sido ! Aprendi a viver com os meus insultos à dignidade masculina, como as ejaculações retrógradas e ameaças de impotência, devido àquela raspagem da próstata que me resolvera problemas físicos e criado novos e graves problemas psicológicos ! Continuar a minha vida rindo de mim e daqueles que de mim se riem! E é precisamente o que foi a minha vida até ao dia em que, exausto de não ser mais ninguém, farto de viver num apartamento que me custava os olhos da cara, decidimos mudar de casa, pois que cada vez que mudo de casa eu principio uma nova vida. Novos projectos, novas perspectivas, novas crenças no futuro!

Assim, uma bela manhã, fomos até Créteil em busca dum apartamento. Entretanto, depois dos repugnantes acordos entre os Bancos e as Agência Imobiliárias, essas nojentas manigâncias dos Bancos para encherem ainda mais as suas caixas com as economias dos outros, de obrigar as pessoas a comprarem casa, e assim nos vermos forçadas a pedir empréstimos a esses elos dessa nefasta corrente que nos enforca ! As Agências concordaram em não alugar casas, e apenas terem a propor casas para vender. Negócios abjectos entre monopolizadores que devoram tudo à sua passagem, sem dó nem piedade pelos outros! Apenas os lucros eram, foram, e sempre serão, de maior importância! Uma espécie de obsessão, de grave doença mortal, pela eterna ambição de ficarem todos os dias um pouco ou, de preferência, muito mais ricos e poderosos, para se vingarem de certas humilhações sofridas num já distante passado, do qual, agora, nós não temos culpa alguma!

A caminho de Créteil, em busca de casa, repentinamente me veio à ideia de dar um salto a Valenton, onde a Alfa se encontra instalada! Uma feroz saudade dos meus belos tempos frente a um microfone se apoderou de mim! Esses tempos em que eu, ao aperceber-me que, por detrás desse microfone se encontravam milhares de pessoas à escuta, que eu entrava em casa deles para lhes fazer companhia, estar com eles, trazer-lhes a minha grande vontade de os relembrar que o Português era a nossa língua materna, e acabar com essas misturas de Português e Francês, que resultou nessa extravagante linguagem que crismaram de "Imigrês"!

Depois de termos visitado todas as Agências Imobiliárias da cidade, chegámos à conclusão que era tempo perdido. Só casas e apartamentos à venda! Nada de aluguer! De regresso a casa, passámos por Valenton. Não resisti à tentação de ir embebedar os olhos naquela imensa fachada da minha Alfa. Ao mesmo tempo, talvez também fazer uma fotografia como recordação. Pat arrumou o carro dentro do "parking" da Alfa e eu saí do carro para, muito discretamente, fazer uma foto ou duas. Sobretudo eu não queria que ninguém notasse que eu tinha ali voltado sem ter sido convidado. Por acaso, o Paulo, um dos meus antigos colegas, estava a fumar um cigarro à porta, reconheceu-me ! Fez-me sinal para que eu me aproximasse. Hesitei, mas ele tanto insistiu que não resisti ao desejo enorme de lhe dar um grande abraço e talvez, discretamente, acariciar aquela parede contra a qual ele se apoiava. Depois desse curto abraço Paulo convidou-me a subir para me mostrar os progressos tecnológicos que a radio tinha sofrido e, ao mesmo tempo, dar um abraço à "malta"! Como uma donzela virgem com medo de ser violada, resisti, mas bem no fundo eu estava morto por subir e perder de novo a virginade e matar saudades de tudo e de todos.

Galguei as escadas a quatro e quatro, tão ansioso estava de rever os meus domínios de outros tempos! De rever a malta toda! Logo à entrada verifiquei que tinham havido muitas modificações! A pequena dependência que tinha sido o meu escritório com a Cássia, era agora uma pequena cabine de som, e a grande dependência mesmo ao lado, que outrora fora o espaçoso escritório da doutora, era agora um estúdio com uma grande mesa oval com muitos microfones à volta, para quando, deduzi, tivessem muitos convidados a fazerem algum muito importante debate! A primeira pessoa que procurei ver, foi o Fernando! E ele lá estava no seu pequeno mundo de computadores. Ao ver-me ele abriu-me os braços, e era evidente a alegria que ele sentiu ao ver-me, depois de 12 anos de separação. O Artur, ao topar-me, deu-me um abraço tão apertado que quase me quebrou o esqueleto! Depois vieram caras novas que nunca tinha visto antes!

mercredi 17 février 2010

Uma mulher foi-me ao olho!



Quando ele - esse belo jovem ginecologista - saiu do gabinete da Ameline, veio despedir-se de mim, dizendo-me até logo, no primeiro andar, para a "refracção" !
Mas certamente muito mais interessado num bom "aumento"... Esperei ainda até já não haver mais ninguém! Fui o último, uma vez mais, a ingressar nos domínios da bela Ameline! Ela fez-me um sinal com a cabeça (talvez para não gastar saliva) para que eu a seguisse. Entrei no seu gabinete, preparado para me sentar na tal cadeira frente ao canudo, mas ela impediu-me de o fazer, dizendo-me que nessa tarde ela não teria tempo para mim. Claro que, muito pouco sensato, lhe atirei que ela não tinha tempo para mim porque tinha dado o meu tempo ao seu amigo dos tempos da Universidade! Pois que ele tinha vindo sem consulta marcada e que ia submeter-se à refracção, ao passo que eu tinha esperado a manhã toda, que tinha ali o Pat que tinha faltado ao seu trabalho para me acompanhar, e isso não era justo! Ela esticou-me uma outra convocação para a semana seguinte, e virou-me as costas! O Pat ficou fulo e eu estava tão revoltado, que seria capaz de reconstruir o Muro de Berlim em dois segundos! O que ela acabava de me fazer era pura e simplesmente um abuso de poder!

Segundo a data que me tinha sido concedida para esse famoso retoque , lá estava eu uma vez mais na companhia do Pat aguardando ser chamado pela Senhora Dona Ameline para cumprir a sua tarefa! Como de costume fui o último a ser chamado. Depois das usuais verificações, mandou-me voltar ao primeiro andar às 14H30! Novamente pequena refeição num Café local, visita a uma casa de discos em busca de discos da Amália, e novamente a minha cadeira preferida, ao pé da janela, daquela minúscula sala de espera. Estavam apenas duas pessoas à minha frente. Pacientei resignadamente a minha chamada ao sacrifício! Como já era meu hábito, deitei-me naquela marquesa, e esperei até que a Ameline se decidisse a pegar dos seus utensílios para esses inesperados retoques. Durante o retoque ela palrou com os seus assistentes acerca do casamento ao qual ela tinha sido convidada no passado fim-de-semana. Desta vez ela não comentou o seu trabalho, apenas contava as peripécias desse copo de água presidido pelo Rabi Não Sei Quantos. Desta vez o Laser burilou o meu olho mais de 15 minutos. Achei estranho, mas como confiava no seu Sermão de Hipócrates, fiz-lhe confiança. Quando ela deu o seu trabalho por terminado arrancou as gazes da minha cara e pediu-me para me ir repousar o quarto ao lado.

Um tanto aturdido, agarrado às paredes, mudei-me para o quarto ao lado. Eu via pessimamente Deitei-me na outra marquesa e, ao olhar o cartaz em frente, mal conseguia ver as letras gordas! As pequeninas tinham completamente desaparecido! Fiquei alarmado, mas pensei que isso passaria gradualmente. Ao fim desses 20 minutos de repouso, a visão continuava desastrosamente perturbada. Mal Ameline entrou nesse "quarto ao lado", amedrontadamente lhe disse que, parecia-me, desta vez a intervenção não tinha resultado. Eu via mal e porcamente! A sua reacção, olhos postos no chão, alto e bom som, alegremente, foi:

- Je saaaaaaaaaaaaais! (Eu seeeeeeei!)

Como podia ela saber os resultados antes de me ter inspeccionado o olho acabado de estar 15 minutos sob o Laser? Alarmado, levantei-me e sentei-me em frente do canudo. Ela olhou-me dentro desse olho e comentou os resultados aos seus dois estagiários. Um deles estava petrificado contra a parede atrás dela, e olhava-me com uma piedade infinita, e parecia-me à beira das lágrimas! Ele chamava-se Laurent. Não sei se era o seu nome ou apelido! Não percebi quais foram os comentários, porque tudo foi exposto em termos técnicos, os quais eu ignorava totalmente o sentido. Ela disse-me friamente que o trabalho estava feito, que voltasse dentro de dois dias, ao segundo andar, para verificações. Fui para casa lavado em lágrimas! Sentado ao lado do Pat enquanto ele conduzia de regresso a casa, apercebi-me apavoradamente que eu já não conseguia ler os nomes das ruas nem ver os números das portas. Confiei ao Pat os meus temores. Pat, como sempre, reconfortou-me dizendo que isso ia passar com o tempo!

Dois dias depois voltei a carregar o esqueleto até à Ameline para, depois de todos os outros terem passado, ser chamado a sentar-me diante do maldito canudo! Enquanto Ameline olhava para dentro meu olho e tomava apontamentos sobre o meu "dossier", anotando o que muito mais lhe convinha, repentinamente uma outra médica, como uma aparição, pediu licença à Ameline para deitar uma vista de olhos ao meu olho. Amelina cedeu-lhe o seu lugar, e essa senhora começou judiciosamente a espiolhar o meu olho. Depois de ter tudo muito bem vistoriado, voltou-se para a Ameline e disse-lhe autoritariamente:

- Ameline! O problema com o olho esquerdo do senhor Carmo " é que ele esteve demasiado tempo exposto ao Laser!

A senhora, da mesma maneira como apareceu desapareceu! Ameline retoma as suas rédeas e depois de pretender que estava a fazer o seu trabalho, disse-me que iríamos tentar mais um retoque, mas que não acreditava muito, pois que os resultados do prévio retoque eram irreparáveis! Depois enviou-me ao quarto ao lado para me dar outra data para essa nova tentativa! Nesse escritório, enquanto aguardava a decisão da senhora que procurava datas disponíveis sobre sobre o ecrã do seu computador, como ela tinha passado no gabinete da Ameline enquanto a outra médica inspeccionava o meu olho, perguntei-lhe quem era essa senhora que tinha vindo verificar o trabalho da Ameline sobre o meu olho esquerdo. Ela, sem tirar os olhos do ecrã, disse indiferentemente:

- Foi a responsável do Serviço, a Dra. Leroux Les Jardins!

Na data que essa senhora me deu para esse segundo retoque, voltei às mãos da Ameline, no primeiro andar.

Depois de alguns segundos de Laser, ela secamente me informou que não podia fazer mais nada. Que o problema era irreparável! Meses depois procurei a morada dessa outra doutora, para uma consulta privada em sua casa. Essa senhora, depois do obrigatório canudo, fez-me uma receita para fazer óculos para ver ao longe e outros para ver de perto. Quando, discretamente, lhe disse que a Amelina me tinha deixado sob o Laser demasiado tempo, que tinha sido de propósito, para se vingar. E contei-lhe tudo acerca das nossas disputas! Dra. Leroux Les Jardins soergueu os olhos dos seus papéis e disse-me que eu não devia estar bom da cabeça! Que essas coisas não se faziam! Não se faziam mas foram feitas! E agora aqui estou eu a escrever à pressa as minhas memórias, antes que os meus olhos se fechem para todo o sempre! Algumas vezes me passou pela cabeça fazer justiça com as minhas próprias mãos mas, ao pensar que ela iria direitinho ao céu e eu à prisão, mandei tudo, como se diz em Português da rua, "pó caralho"!

Essas Longas Esperas no Tempo




Chegada essa data, novamente o Pat teve de ausentar-se das suas "obrigações profissionais" para me acompanhar ao hospital para esse famoso retoque! Enquanto aguardava a minha vez, quero com isto dizer, até que a Ameline muito bem entendesse vir à sua porta e apregoar o meu nome, reparei num belo jovem que, com o seu computador portátil sobre os joelhos, me parecia muito ocupado com os seus estudos. Ele era, claro, um rapaz de pequena estatura, cabeça coberta de loiros caracóis, olhos muito azuis e penetrantes, um sorriso de acordar a Bela Adormecida, que me deu ganas de o apertar contra o o peito, esmagá-lo entre os meus braços, até que da sua boca brotassem palavras escaldantes de amor e desejo! Fechar-lhe aqueles olhos azuis com um imenso e longo beijo sobre aquela boca vermelha e carnuda! Um delírio! Eu que me tinha divorciado dessas coisas, que, como Greta Garbo, me tinha retirado sob os meus óculos escuros e o meu sorriso enigmático!

Como sou muito comunicativo, rapidamente o abordei. Perguntei-lhe se esses computadores portáteis funcionavam à base pilhas. Ele olhou-me uns segundos nos olhos e murmurou :

- Que voz! Você devia trabalhar numa rádio! Essa voz é um desperdício apenas nos meus tímpanos!

Bem, engoli em seco, fiquei um tanto perturbado, pois que o meu corpo também acabara de ressuscitar do seu túmulo, sacudindo-se das suas cinzas!

Uma conversa muito íntima se estabeleceu entre ambos. Vim a saber que, a despeito dos seus ares de adolescente, era casado e tinha dois filhos. Que era médico, especializado em ginecologia! Ao saber da sua especialidade, cinicamente lhe sussurrei que ele era um oportunista! Tratar da saúde das mulheres... Ele sorriu e martelou :

- De mulheres e não só!

A desviar o meu embaraço e medo de cair de novo em antigas e pérfidas tentações, disse-lhe que Ameline era uma bela mulher, e muito "prestável"... Ele concordou! Que tinha feito os seus estudos com ela, na mesma Universidade, que tinha vindo apenas fazer-lhe uma pergunta acerca dos seus olhos, e que, mesmo sem ter consulta marcada, ela lhe tinha proposto fazer-lhe uma fracção de miopia nesse mesmo dia! Uma jóia de rapariga!

Nesse mesmo instante Ameline pôs o nariz fora da sua porta e chamou-o! Ele fechou o seu computador, ergueu-se, e ao afastar-se na direcção de Ameline, atirou-me uma olhadela de esguelha e, quando suavemente se afastava, as suas roliças nádegas, como num perverso sorriso, ondularam lascivamente ante os meus olhos embevecidos, mas temerosos de novamente tombarem nas minhas luxúrias incontroláveis de outras eras!

mardi 16 février 2010

Podres Abusos de Poder


















Uma manhã, como habitualmente todos os anos, fui ao melhor hospital do mundo de oftalmologia para fazer a minha anual inspecção dos lhos com o Dr. Larricart, esse maravilhoso homem que, já lá iam 30 anos, tomava conta dos meus olhos. Ele era um homem que eu admirava pela sua competência e amizade pois que, como lhe dissera um dia, depois de trinta anos de cumplicidade, nós tínhamos envelhecido juntos! Eu sabia o seu nome de cor porque só tinha um oftalmologista, mas ele também sabia o meu, e eu era apenas um das muitas centenas dos seus pacientes. Ele era um homem que ao passar mim na rua me cumprimentava dizendo-me "bom dia senhor Carmo"!

Ele operou-me do olho esquerdo duma catarata, mas como esse meu olho não era normal - tinha a retina muito próxima da córnea - ele receou fazer um implante de lentilha artificial, e deu-me óculos para fazer a correcção. Anos mais tarde operou-me doutra catarata, desta vez do olho direito. Desta vez implantou-me uma lentilha, e os resultados foram surpreendentes! Como, entretanto, os progressos tecnológicos da oftalmologia tinham avançado espectacularmente, ele pediu-me para ir consultar um outro oftalmologista desse mesmo hospital, o Dr. Werthel, com uma carta a pedir-lhe para ele examinar o meu olho esquerdo para ver se seria possível ele submeter-me algo de novo de que ele era o especialista. Dr. Werthel, depois de me ter observado longamente, disse-me que essa intervenção também, pela proximidade da retina à córnea, seria bastante arriscada! Aconselhou-me ir ver a Dra. Ameline - também desse mesmo hospital - para ver se seria possível fazer uma refracção de miopia desse mesmo olho. Ao sair das suas mãos fui imediatamente ao guichet onde se encomendavam as consultas e pedi uma data para essa senhora, a Dra. Ameline!

Na data obtida para a primeira consulta com a Ameline, ansiosamente, pus os pés a caminho para estar a tempo e horas para conhecer essa senhora que me ia fazer essa refracção de miopia. Corri até ao segundo andar, para onde me tinham indicado ser o seu consultório. Como tinha a minha convocação com a hora marcada, sentei-me e aguardei a minha vez. Estavam lá meia dúzia de pessoas que tinham chegado antes de mim. Às tantas, uma bonita mulher veio à porta chamar o seu próximo paciente, chamando-o pelo seu nome. Fiquei encantado! Ela além de ser talvez a pessoa que me ia ajudar a recuperar a vista do meu olho esquerdo, ainda por cima era uma mulher muito atraente!

Quando chegou a minha vez, foi alvoroçadamente que me pus naquelas suas bonitas pequenas mãos milagrosas. Sentei-me frente àquele canudo pelo qual temos de espreitar. Ameline, depois de ter consultado o meu "dossier", sentou-se do outro lado, espreitando pelo outro lado do canudo, e começou a relatar-me o problema desse meu olho. Que era muito míope, mas que iria ser possível corrigir o problema! Que viesse no dia seguinte, dia 2 de Fevereiro, o meu aniversário, dia de festejar ou lamentar os meus 70 anos! Mas que viesse acompanhado, porque depois da intervenção eu ficaria com problemas de visão! Fui para casa a correr para fazer as minhas obrigações caseiras e, antes de mais nada, telefonei ao Pat, para ver se ele poderia estar livre no outro dia de manhã para me acompanhar ao hospital, para essa para mim tão importante intervenção!

Na manhã seguinte, depois dum rápido pequeno-almoço com o Pat, lá pegámos no carro e fomos até essa Rue Charenton, ali à Bastilha, para essa tão importante intervenção! Depois da chamada ao seu consultório, logo após um segundo estudo do meu olho, ela pede-me para estar de volta às 14H30, no primeiro andar, para ser então submetido a essa intervenção à base de Laser! Pat ficou furioso, pois que só tinha tirado a manhã! Fomos a um Café ali na Bastilha tomar uma bebida e telefonar para o O.E.C.D., a prevenir que ele não podia voltar da parte da tarde! Depois demos uma passeata, vimos as montras, e à hora requerida lá estávamos ambos nesse primeiro andar, onde se encontrava todos esses apetrechos para essa intervenção ao Laser! Enquanto esperávamos, como sou muito comunicativo, encetei uma conversa com uma senhora que lá estava com a sua filha, uma miúda dos seus 16 anos, que estava previsto de passar antes de mim! Depois dessa intervenção foi a minha vez!

Nesse pequeno bloco operatório, primeiro tive de me sentar em frente desse canudo para a Ameline, penso, tirar as medidas, ou fosse lá o que fosse! Depois deitaram-me na marquesa, cobriram-me a cara com umas gases, e logo Ameline começou o seu milagroso trabalho com o seu Laser. A operação durou uns 10 minutos. Depois pediram-me para me ir repousar sobre uma outra marquesa no quarto contíguo, a descansar uns 20 minutos, para depois ser observado para ver os resultados da refracção. Enquanto aguardava, surpreendidíssimo e felicíssimo, apercebi-me que eu podia ver lindamente! Num cartaz mesmo em frente, ali especado na parede, eu podia ler as letras miudinhas. Eu nunca tinha visto assim tão bem em tida a minha vida!

Ameline, esses 20 minutos passados, depois de ter terminado outra intervenção noutro paciente, veio ver-me sobre a minha marquesa. Pediu-me que me levantasse e que me sentasse ali em frente do tal canudo. Imediatamente ela relatou-me como se tinham passado as coisas. Que tudo tinha decorrido muito bem, que ia ver tudo um tanto turvo durante uns dias. Que voltasse dentro de dois dias para ver o andamento das coisas!

Pat, antes de voltar para o OECD, foi-me pôr a casa e, enquanto ele conduzia, eu via Paris tão nítida pela primeira vez! Eu estava contentíssimo. Eu podia até ler os nomes das ruas, os números das portas, e as placas do carro em frente do nosso! Fechei os olhos durante uns segundos, e sem que o Pat se apercebesse, agradeci a Deus aquele fabuloso milagre! Chegado a casa deitei-me para descansar um pouco, e nessa noite, para celebrar, fomos jantar a um restaurante italiano, ali mesmo à esquina da nossa rua!

Depois, durante todo esse mês, tive de voltar ao hospital para que Ameline seguisse as reacções do meu olho. Cada vez era sempre o mesmo problema. Eu chegava com a minha convocação para as 10H15 e era sempre o último a ser chamado! Mesmo aqueles que tinham convocações para o meio-dia passavam antes de mim! Nessa última consulta disse abertamente à Ameline que ela deveria respeitar os horários e não os seus preferidos serem contemplados com sua generosidade! Ela ficou fula e disse-me que "chez-elle" ela fazia o que muito bem lhe apetecia! Respondi-lhe que, "chez-elle", na sua casa, achava muito bem, mas que ali, no hospital, não era a sua casa, mas sim o seu local de trabalho! Que ela devia respeitar as suas obrigações profissionais! Isto dito e feito, ela pediu-me para me sentar diante do seu "canudo" e, dois minutos depois, declarou que o meu olho precisava dum retoque. Agarrou numa folha e deu-me outra data para esse referido retoque. Tomando em consideração que Ameline tinha assinado o "Sermão de Hipócrates", fiz-lhe confiança e aceitei a proposta!

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dimanche 7 février 2010

Das Clínicas a um Grande Hospital



Apanhei o Metro para ir até ao hospital ver esse professor que me tinha sido recomendado. O problema subsistia e quase todos os quartos de hora tinha de urinar. Quando ia algures de carro, não era problema. Parava numa ravina e dava largas aos meus desalentos! Mas numa carruagem de Metro não me dava ao desplante de sacar uma garrafa vazia do meu bolso, para aliviar a bexiga! Nem mesmo nas horas de ponta!

Chegado a esse hospital que visitava pela primeira vez, senti-me mais à vontade! Para começar havia urinóis por toda a parte! Depois de me ter apresentado à enfermeira-chefe com a minha carta, ela pediu-me os meus documentos e preencheu uma daquelas folhas que entram no mais recôndito da nossa intimidade. Para começar, a idade! Quando, a medo, lhe disse a minha idade ela, muito surpreendida, levantou os olhos do papel, olhou-me uns momentos e muito elogiosamente afirmou:

- Está muito bem conservado para a sua idade!

Mas o que ela não sabia era que a minha bexiga começava a mostrar a sua!

***

Depois duma meia hora na sala de espera, tendo visitado duas vezes aquela pia que me sorria sempre que por lá passava, finalmente fui chamado ao gabinete do Professor. Esse professor era um homem ainda bastante jovem e bem encarado para a sua posição. A minha posição é que começou a ficar um tanto desconfortável quando ele, depois de ter lido a carta, me pediu para me despir da cintura para baixo e deitar-me naquela mais uma marquesa. Fui novamente assaltado daquele terror que me faz tremer da cabeça aos pés quando o vi começar a preparar aquele tubinho que me parecia muito ansioso de me penetrar. Mas pela uretra! Certamente mais outra sessão de sadomasoquismo! A sua assistente amparava o meu indefeso órgão enquanto o Professor apontava para atirar. Fechei os olhos e prometi a mim mesmo que essa seria a última vez! Eu não alinho muito nessas experiências de depravados sexuais. Porém ele, lentamente, começou a fazer a sua viagem através da minha uretra, na direcção da minha próstata. Ele era realmente muito carinhoso e falava-me ternamente das suas pesquisas dentro de mim. Isso acalenta bastante as vítimas de certas intervenções cirúrgicas sem anestesia! Os resultados eram sempre negativos, nada de assinalar. Às tantas ele disse-me que ia fazer um bocadinho doer, mas que seria rápido! E muito rapidamente me apercebi que aquilo não era nenhuma prenda de Natal! Às tantas ele disse-me que estava tudo muito bem mas que a próstata é que estava numa lástima, que ia ser preciso operar-me o mais rapidamente possível! Depois desenfiou o tubo, descalçou as suas luvas de borracha, desmascarou-se, e foi sentar-se à sua secretária na pequena dependência contígua, e convidou-me a segui-lo!

Sentado na sua frente, enquanto ele folheava a sua agenda em busca duma data a propor-me para essa dita urgente intervenção, eu fazia as minhas preces para que toda aquela história acabasse airosamente. Ele estacou uns momentos sobre uma das páginas da sua agenda e, fixando-me interrogativamente, sugeriu-me uma determinada data, que aceitei sem pestanejar. Eu, além das correrias para a pia para fazer a vontade à minha bexiga, estava totalmente disponível pelos anos que me restassem. Ele preencheu uma folha e estendeu-me a cópia que estava por baixo. Nessa cópia tinha a data, mais uma série de análises que teriam de ser feitas antes de ser internado. Depois informou-me dos efeitos secundários dessa raspagem à próstata. Que depois da operação eu ficaria a ter o problema de ejaculação retrógrada, e que, eventualmente, com os anos, a impotência! No meu constante desejo de gozar com as minhas próprias misérias, disse-lhe que isso seria terrível, pois que o meu ganha-pão era actuar em filmes pornográficos, e que isso ia desgraçar a minha carreira! Ele, divertido, olhou-me sorridentemente e disse-me que ou eu teria de mudar de profissão ou mudar de próstata!

Depois, muito seriamente, perguntou-me onde tinha eu feito todas aquelas raspagens à bexiga, que a bexiga estava na ponta da unha! Respondi-lhe que tinham sido feitas em três diferentes clínicas Uma em Ivry sur Seine, outra em Clamart, e a outra algures, nos arredores de Paris. Ele olhou-me embaraçadamente e disse-me algo que tanto me chocou que enquanto eu for vivo jamais me passará da memória!

- Senhor Carmo! Na região de Paris há centenas e centenas de clínicas! Cada clínica tem 30/40 camas! E essas camas têm de ser preenchidas, senão é a bancarrota e essas clínicas têm de fechar a porta! Deixe-se de clínicas! Procure sempre um hospital do Estado, coberto pela Segurança Social! Que nos hospitais eu não tinha que pagar o quarto nem despesas suplementares além da televisão!
Eu não ousei dizer-lhe o que me ia na alma ! Sobretudo na cabeça! Senti uma revolta imensa! Por momentos senti vergonha, nojo, de ser humano! Penso que ele se apercebeu do que se passava na minha mente, pois que, a fechar, disse-me que havia demasiados médicos e cirurgiões em Paris, que nenhum deles queria trabalhar na província, pois que em Paris é que se fazia muito dinheiro! Que a maioria desses médicos e cirurgiões não tinham optado por essas profissões por vocação, mas sim que tinham sido forçados pelos seus pais, que queriam oferecer um bom futuro aos seus rebentos, pois que nessas ocupações se ganha muito dinheiro! Senti vontade de vomitar e pensei em alguém que tinha dito algures muitas verdades acerca dessa casta de castiços que só pensam em castiçais!