samedi 30 janvier 2010

Abusos de Poder, Igual a Martírios




Para voltar de novo aos meus velhos tormentos, apareceram-me os meus primeiros problemas de saúde. Sem saber por que razão, comecei a ter inopinadas urgências de urinar. Eram todos os quartos de hora! dia e noite! Fui ver o meu médico. Ele, com uma carta por si manuscrita, enviou-me a uma clínica em Thiais para fazer um exame do qual eu nunca tinha ouvido falar, a que eu viria a chamar "bitoscopia", pelo facto de se tratar duma sonda que me enfiavam uretra acima - isto sem qualquer anestesia local - para investigarem não sabia muito bem o quê! Esse exame era extremamente doloroso pelo facto de haver uma pequena câmara na ponta dessa sonda, para que o cirurgião analisasse certos órgãos internos ali para as paragens do meu corpo que até essa data só me tinham dado prazeres incalculáveis!

Esse primeiro sacrifício pagão foi nessa clínica em Thiais. Quando dois jovens assistentes com cara de enterro me vieram chamar à sala de espera, fiquei contentíssimo da vida, pensando que esse cirurgião iria resolver-me esse tão desagradável problema sem grandes afazeres. Porém, enquanto aguardávamos a chegada do cirurgião, esses dois perturbados e perturbantes jovens pediram-me para me despir da cintura para baixo e me estirar naquela marquesa. Até ali tudo muito bem. O cagaço assaltou-me quando eles, enquanto um esterilizava um estranho utensílio, o outro pegou no meu sexo e começou também, com uma seringa, a injectar algo de oleoso dentro da minha uretra. Depois do embaraço foi o terror que de mim se apoderou! Momentos depois entra o cirurgião. Disse-me boa tarde e explicou o que me ia fazer. Que ia dar uma vista de olhos à minha bexiga. Que magoaria um pouco mas que não tínhamos outra alternativa! Depois foi avançando e comentando a viagem da minúscula câmara dentro de mim, desbravando os meus órgãos internos, dizendo que estava tudo na ponta da unha e que não precisava de qualquer intervenção cirúrgica. Depois retirou a sonda, descalçou as luvas, e disse-me que fosse para casa e que esquecesse o assunto!

Aliviado, depois dessa inesperada pavorosa experiência, regressei a casa e preparei-me uma vez mais para fazer face ao meu pobre futuro sem grandes expectativas! Uma outra rotina se instalou no meu dia-a-dia. Tudo poderia ter entrado nas normas se não fosse o problema das constantes corridas para a retrete para urinar. Voltei a visitar o meu médico, o qual se mostrou muito surpreendido, pois que tinha recebido uma carta de Thiais dizendo que estava tudo em regra com a minha bexiga. Depois de ter insistido que não era o caso, pois que o problema persistia, novamente ele me faz uma outra carta para outro urólogo numa outra clínica, para um duplo exame e um segundo diagnóstico.

Desta vez fui desaguar numa bela clínica em Ivry sur Seine, nas mãos dum cirurgião encantador que me propôs outra « bitoscopia » ! Depois de me ter queixado do horror que esse exame sem qualquer anestesia representava, ele prometeu-me fazer uma anestesia geral , mas que tinha de ser hospitalizado nessa clínica, para no caso de ele encontrar algo que fosse necessário rectificar, ele o pudesse fazer imediatamente!

Na data combinada, com o meu pequeno saco dos meus necessários haveres, lá me apresentei nessa clínica em Ivry. Claro que, muito bem recebido, acompanharam-me ao terceiro andar e apresentaram-me o meu confortável quarto com janela para a rua. Na manhã seguinte vieram-me buscar de padiola para me levarem para o bloco operatório. Na antecâmara deram-me uma injecção e imediatamente tombei na minha coma artificial Nem cheguei a ver o cirurgião que me iria operar. Horas mais tarde acordei no quarto de reanimação. Um enfermeiro veio buscar-me para me transportar até ao meu bonito quarto. Pelo caminho apercebi-me que eu tinha um tubo que me saía pela uretra, que aterrava num grande bocal de vidro. Fiquei aterrado. O bocal estava cheio de sangue. O enfermeiro ajudou-me a transferir-me para a minha cama, substituiu o ensanguentado bocal por um outro bocal mais apresentável e, afastando-se, disse-me que dentro de alguns momentos me seria servida uma refeição ligeira. Depois dessa refeição a enfermeira inspeccionou a minha sonda e, antes de sair, sugeriu-me que eu devia agora descansar um pouco.

Cinco dias estive nessa cama com uma muito regular mudança de bocais, refeições ligeiras, tomadas de temperatura, e um doce sorriso antes de sair, pedindo-me que tentasse dormir. As dores na uretra e aquela intrusão da sonda dentro daquilo de eu tanto me orgulhava, que me prestara grandes serviços no passado, mas que, desde que a Sida fez a sua aparição, apenas me servia para urinar e ocasionais sessões de desenrasca-te! A minha imensa frustração era perceber que aquela coisa que me tinha sido conferida para urinar e procriar, estava agora limitada a apenas quase um pequeno estorvo. Isso desmoralizava-me ao extremo das das minhas capacidades de agressões externas!

Ao fim desses cinco dias, uma manhã, um enfermeiro veio extrair a sonda da minha uretra e, pela primeira vez na vida, um muito atraente jovem se ocupava da minha intimidade, sem que ela, como no passado, engordasse com apenas um sorriso acompanhado duma piscadela de olho! Depois aconselhou-me um duche, e que me preparasse para regressar a casa e voltar dentro de dois dias para a necessária inspecção pós operatória. O cirurgião? Nem vistas! Devia já estar a jantar com a família e amigos, nalgum daqueles restaurantes muito chiques dos Campos Elísios!

O Doce Caramelo da Minha Alma






Pouco conformado com a minha sorte, lá ia reagindo o melhor que podia para não me deitar pela janela abaixo. O suicídio tornara-se-me numa intransigente obsessão! Saía bastante para fugir a tentações e fingir que ainda vivia. Ia ao Café ver gente, fazer as minhas compras, organizar o jantar, mas sentia-me sempre assustadoramente só desde o dia em que a Cookie fora abatida. Trabalho já nem me dava ao trabalho de procurar. Na minha idade já todas as portas se tinham fechado para mim! Restava-me o ficar em casa distraindo-me com o nosso pequeno computador. Escrever, para mim era uma frágil bóia onde me agarrava para ainda não soçobrar! O que me valia era que éramos frequentemente convidados a jantar em casa de colegas do Pat. Nesses dias não tinha que me preocupar com cozinhados e ainda por cima saía de casa, passar umas horas noutros ambientes menos tensos do que o meu caseiro dia a dia!

Um desses convites chegou-nos um dia de Boulogne, duma amiga do Pat que vivia só e tinha muitos gatos. Ela morava no último andar dum edifício que fazia esquina com a Rotunda Marcel Sembat. Normalmente íamos a um restaurante italiano ali muito perto, mas nessa noite ela decidiu preparar-nos uns bons petiscos em sua casa. Ela tinha aí uns quatro gatos, mas nessa noite encontrei um novo lindo focinho. Era um gato que ela encontrara perdido na rua e que o tinha trazido para casa a pensar em nós, que tínhamos perdido a Cookie. Claro que recusei! Eu não queria mais gatos na minha vida! Porém a páginas tantas esse belo gato amarelo e branco subiu para o meu colo, enroscou-se, começou a ronronar, e depois adormeceu. Ela virou-se para mim e atirou abruptamente:

- OK! Tu não o queres mas ele já te adoptou!

Moralidade da história: Depois dessa grande jantarada onde tínhamos chegado dois, regressou a Villjuif uma pequena família de três cabeças e três rabos. No carro ele continuou ao meu colo e mal chegámos a casa pu-lo no chão. Ele visitou a casa toda, fez dela o seu novo território, e nessa noite noite já dormiu connosco na nossa cama. Como ele era muito amarelo dêmos-lhe o nome de Caramelo!

A presença do Caramelo na nossa casa e nas nossas vidas, trouxe-nos uma certa alegria de viver que tínhamos perdido quando o Pat levara a nossa querida Cookie ao matadouro. Mas o Caramelo não vinha tomar o lugar da Cookie, ele vinha simplesmente ser o mestre do seu território, não o da Cookie. Para nós Cokie estava no céu à nossa espera e enquanto esperávamos, o Caramelo para nos ajudar a esquecer a sua ausência. Muito rapidamente ele começou a ser o dono da casa e nós os seus serviçais amigos. Tive muitos gatos na minha vida, mas este, nunca saberei por que razão, amei-o como nunca amara todos os outros que tinham velozmente atravessado a minha estrada, mas que nunca foram realmente esquecidos ! A minha vida continuou sem eles, mas eles continuaram na minha vida! Desde o Farrusco, no Cartaxo, o primeiro gato da minha vida, e todos os outros que vieram depois, foram como elos duma corrente que me aprisionaria para todos o sempre. Ele já não era nenhum bebé, mas quando o levámos ao veterinário para o declarar e obter os documentos necessários das usas vacinas, ele disse-nos que ele devia ter aí os seus quatro anos!

Comprámos uma casinha para ele, assim como a sua nova casa de banho, brinquedos, pratos para lhe servir as suas refeições e, claro, carradas de doses individuais de paparoca para o nosso novo bebé! Uma coisa era certa, uma determinada obsessão de acabar os meus dias foi de férias por alguns tempos. Ele gostava muito do meu colo e eu muito da sua doçura. Ele tornou-se num grande companheiro de ditas e desditas! Para onde eu ia ele seguia-me! Pior do que um cachorro! Os gatos são normalmente muito independentes, mas o Caramelo era como uma parte de mim mesmo da qual nunca mais me separaria. A sua presença ajudava-me a de tempos a tempos esquecer o meu outro bebé que me era também tão caro e insubstituível: a Alfa!

vendredi 29 janvier 2010

A Indiferença, a Apatia Unviversal




E a minha vida lá prosseguia, indiferentemente! Tinha de ultrapassar o medo dos assaltos, as saudades da Coockie, o não ter outra ocupação do que olhar-me no espelho e notar que impiedosamente eu envelhecia. Um dia, ao olhar-me mais de perto, reparei nos papos que eu tinha sob os olhos e apercebi-me de que envelhecer era o pior dos insultos à dignidade humana!

O Pat saía de manhã e só voltava à noite, e eu via-me reduzido à minha solidão. A Alfa corria-me no sangue e no pensamento. Tristemente me apercebi que ninguém, nenhum de todos esses colegas com quem simpaticamente confratenizara na Alfa, se dava ao trabalho de me telefonar a indagar como estaria eu a viver esse doloroso afastamento dessa rádio que me tinha saído das entranhas.

Apenas uma vez o meu telefone tocou, graças a um dedo que discou o meu número dum dos muitos telefones da Alfa! Era o Castro a perguntar-me se eu estava à escuta da Alfa. Respondi-lhe negativamente e ele aconselhou-me a fazê-lo, pois que tinha uma grande surpresa para mim! Liguei o rádio e aguardei... Ora, a grande surpresa era que a Amália estava no seu programa em pessoa, lá nos estúdios. Fiquei varado com o acontecimento. Eu tinha-a entrevistado oito vezes, mas era sempre eu que ia procurá-la ao hotel em Paris onde ela se tivesse instalado. Logo após ter respondido à primeira superficial pergunta do Castro, a Amália perguntou:

- Onde está o Rogério?

Orgulhosamente o Castro respondeu:

- O Rogério já não trabalha na a Alfa!

Respondeu a Amália com tristeza na voz:

- Que pena! Eu tinha vindo para estar um bocadinho com ele... (SIC)!

***

A outra vez que me telefonaram foi quando a Amália deixou este mundo! Um dos jornalistas, sabendo do meu amor por essa grande artista e sabendo que eu a tinha entrevistado oito vezes, queria entrevistar-me acerca dessa grande senhora! Perguntei-lhe quando seria a próxima vez que ele me telefonaria? Se seria quando o Carlos do Carmo a seguisse? Eu tinha sido operado a um olho e andava a ver tudo multiplicado por mil, e ninguém sabia das minhas desventuras, pois que nunca ninguém se tinha dado ao trabalho de me telefonar para saber se eu ainda estava vivo...

...Disseram-me que ia ver tudo duplicado!
Tudo menos a vida o ordenado!
Afinal por sete
Tudo acabei por ver multiplicado!

Minhas mãos
-Onde sempre apertei meus segredos-
Eram dois monstros
Cada uma trinta e cinco dedos!
Minha gata era uma centopeia
E meus amores
Se pelos dedos os pudesse contar
Setenta deles vos poderia desvendar!
Cortejo de amores imensa melopeia
Amores de neon amores à luz da candeia
Como meu segredo ainda é mais forte
De que a própria vida a própria morte
Aqui me fico aqui me calo
Grito de socorro ao mar lançado
Garrafa sem rolha nem gargalo
Grito pelo mar há muito já tragado!

Em minha casa
Sombras e vultos medonhos!
Ninguém sabia da minha existência
Total ausëncia dos meus sonhos
Cruel prematura decadência!

Vinte e oito telefones que não tocavam
Duzentos e dez amigos que não chamavam
Vinte e oito paredes que me asfixiavam
Sete bocas um só grito calavam!
Um peito onde sete gritos se fundiam
Quartorze olhos que se fechavam
Sete que cegavam
Vinte e um que nunca mais abriam!

Eu que na vida a amizade sempre cultivei
Só mais tarde verificara
Como sempre me enganara
Como sempre me enganei!
Os amigos são para as acasiões
As ocasiões não para os amigos!
E neste mar de desilusões
Fecharam-se-me todas as portas e todos os portões
E mesmo todos os postigos!

Aqui me fico em gestos quedos
A contar meus anseios meus degredos
Minha mão num triste adeus acenando
Minha mão a outra sepultando
Seus trinta e cinco dedos!

Na penumbra de uma capela de Paris
Trinta e cinco círios vão ardendo
E meus olhos lentamente vão morrendo
Afogados nas minhas lágrimas pueris!
Minhas mãos aos céus erguidas
Trinta e cinco dedos cada
Setenta despedidas
Setenta dedos entrelaçados
No meu peito setenta cruzados
Setenta contas dum longo rosário
Setenta contas desfiando
Setenta cruzes arrastando
No meu ingreme calvário!

Cabeça baixa olhos tão cerrados
Cabelos longos desalinhados
Foragido dos caminhos onde errei
Andrajos rotos enxovalhados
Espinhos em nuca bem cravados
Chagas que nunca sararei!
Lábios mudos lábios apertados
Sermões que jamais serão prégados
Missas que nunca resarei!
Oráculos nunca suspirados
Pregões nunca apregoados
Hossanas que nunca entoarei!


Rogério do Carmo
Paris, 18/8/1988

Os Três Malvados Assaltos






Tínhamos comprado aquele apartamento em Villejuif, o tal no 5, rue du Dr. Paul Laurens - 2° Esq., para ficarmos mais perto da Rádio Clube Português, naquela minha já tão antiga ambição de fazer rádio! Agradou-nos também o facto de a casa ficar ali mesmo em frente do Metro Louis-Aragon, assim como o Mercado e todas as outras lojas mais necessárias. Isto sem falar nos dois grandes Cafés e esplanadas ali mesmo à porta! Eu que tanto aprecio ir tomar um café de vez em quando e, sobretudo, ver gente e ouvir rir e falar todos aqueles encostados ao balcão, a virarem os traseiros aos que, como eu, preferimos sentarmo-nos uns momentos a descansar as pernas e a engordar os olhos e outras coisas mais! Além de tudo isso, Villejuif era uma vila calma e povoada por pessoas bem-postas e bem-educadas. O problema é que o que é bom acaba-se depressa! Rapidamente se começou a ver jovens com o boné de pala para trás, faca ao cinto, e "pitbulls" à arreata! Com a sua chegada partiram para bem longe esse grande sossego e bem-estar!

Para nós, depois de todas as obras que fizemos para que o apartamento ficasse como novo, era um inefável conforto viver ali num sítio tranquilo e bem verdejante. Até ao dia em que, voltando do meu trabalho na Torre Atlas, meti a chave à porta e ao abri-la deparou-se-me todas minhas roupas e sapatos, fotografias, todos os meus poemas e outras papeladas, espalhados pelo chão! A sensação ressentida foi precisamente aquela de se ter sido violado. Não o corpo mas sim os nossos domínios e privacidade! Imediatamente me apercebi do desaparecimento do nosso televisor, leitor de cassetes vídeo, e o Bar estava vazio. Era evidente que também tivessem procurado valores monetários, pois que as gavetas estavam todas abertas, despejadas, e os colchões de pernas para o ar! Não encontro palavras que possam descrever o que senti! Talvez apenas, como já o disse, ter sido violado por meia dúzia de bandidos! Era evidente que eles tinham entrado pela janela da varanda, que eu deixava sempre entreaberta para arejar, mas isto num alto segundo andar! Claro que a partir dessa data, antes de sair , tinha sempre o cuidado de verificar que todas as janelas estavam bem trancadas !

Todos os meus cuidados foram poucos mas, mesmo assim, meses mais tarde, voltaram a assaltar-nos. Desta vez, encontrando todas as janelas fechadas, arrombaram a porta. Desta vez o estrago ainda tinha sido maior! Quando eles pressentiram o meu retorno, saltaram pela janela! Esse famoso alto segundo andar! Penso que este tipo de jovens que vivem desses abusos é, são alpinistas profissionais. Desta vez não roubaram nada porque não tiveram tempo de acabar o seu trabalho! Eu tinha apenas ido à rua tomar um café ali num pequeno Café dentro do Metro e eles, se calhar estavam à coca, e pensaram que eu tinha tinha ido apanhar o Metro para ir até Paris. Isso lhes teria dado tempo que chegasse para fazerem limpeza geral! Mesmo assim, ainda tiveram tempo de encher duas malas com todos os meus CD! Nesse dia pensei que o melhor seria mudarmos de casa, de morada! Os nossos vizinhos - mesmo os do rés-do-chão - nunca sofreram esse mesmo tipo de investidas! Achei muito estranho! Falei com o Pat e decidimos vender o apartamento e ir alugar um outro algures menos selvático!

O anúncio foi posto numa Agência ali perto, mas ninguém se mostrou interessado durante uma longa temporada! Não tínhamos outra alternativa senão aguentar, mesmo temendo sermos assaltados à noite, durante o nosso sono. Mais o alto risco que isso representava! Tivemos de continuar a viver a nossa rotina o melhor que se podia! Não era mesmo nada fácil, mas realmente não havia qualquer outra solução que aguardar que alguém se interessasse na compra do nosso bonito apartamento!

Tempos mais tarde, estava eu em casa de janela entreaberta a fazer a limpeza quando, inesperadamente, ouvi uns estranhos ruídos vindos lá de baixo, do jardim que circundava o nosso edifício. Cheguei à varanda, olhei para baixo, e vi um jovem a trepar até à varanda do andar de baixo. Outros dois aguardavam sentados na relva, controlando as manobras. Quando lhes gritei que dessem a volta que eu lhes abriria a porta, os dois lá na relva agarram nos pés e piraram-se a grande velocidade. O que estava a chegar à varanda sob a minha, desprendeu-se e caiu sobre as lajes. Penso que partIu uma perna, pois que virou a esquina ao pé-coxinho! Eram, claro, aqueles folclóricos jovens que eu costumava ver lá em baixo, à esquina, sentados num baixo muro, a espevitarem os dentes e a fazerem festinhas nos seus colossais « pitbulls » !

Eu procurava compreender como era que Villejuif tinha sido invadida por esse tipo de adolescentes maltrapilhos. Certamente que eram resultados da união de todos os países europeus, que os políticos começavam a fazer para competirem com os Estados Unidos da América! Eles - penso - sonhavam e ainda sonham com os Estados Unidos da Europa! Agora todos os países que constituem esse continente têm liberdade de passarem as fronteiras sem terem de solicitar qualquer Visa! Assim cada qual faz o que muito bem lhe parece e vai onde muito bem lhe apetece, pois que esses jovens entre eles falavam uma língua que eu totalmente desconhecia! Assim cada país se tornou na montureira dos vizinhos do lado!

mercredi 27 janvier 2010

A Dolorosa Morte da Cuca





A minha vida, o meu destino, a minha odisseia, tinham de continuar! Novamente uma luta constante para sobreviver, pois que para viver o caminho parecia-me vedado. Não sabia que malditas forças me tinham tolhido os passos!

Voltar para a limpeza em casa dos outros começava a ficar fora de questão. Com os meus sessenta Outonos sobre as minhas espáduas, essa saída pareceu-me também sem qualquer entrada. O meu corpo começava a enviar-me incontestáveis mensagens dum irrevogável declínio físico! Tinha que olhar em frente em busca doutra quimera, doutros recursos de continuar a esbracejar até à outra margem!

Para ainda mais me abater, a Cookie - a quem eu ternamente chamava a minha Cuca - também com os seus vinte anos sobre o seu alquebrado lombo, começou a ter dificuldades para se deslocar. Ela a custo se arrastava para ir à sua toilette e ao seu pratinho para se alimentar. Tanto ao Pat como a mim mesmo, custou-nos muito vê-la acartar com tanto custo o seu pequeno já tão fatigado corpo. Pat levou-a ao veterinário mas, visto a sua elevada idade para um gato, ele aplicou-lhe, implacavelmente, o golpe de misericórdia! Aquela injecção, aquele corpo que deixou de arfar, aqueles tão lindos olhinhos verdes que para sempre se fecharam! Juntos chorámos essa grande companheira que tinha compartilhado connosco vinte anos das nossas existências, e jurámos solenemente: Basta de gatos, basta de tão dolorosas separações!

Durante meses a Cuca continuou a marcar presença naquela casa agora tão vazia! A despeito de termos deitado fora os seus pratinhos e a caixinha de areia onde ela tanto gostava de vasculhar, a cada instante os nossos pensamentos a procuravam. Uma vez mais a morte se me deparou como a única possível fuga ao sofrimento humano e animal!

Uma tristeza, uma sombra negra, pairou no ar até que o tempo injustamente apagou aos poucos aquela tão nossa preciosa e chorada presença. Gradualmente essa presença que tanto por vezes nos incomodava, transformou-se numa insuportável longa ausência! A jura ficou no ar: Não mais gatos! Não mais a perda de "alguém" que tanto amámos! Finito! Mais vale viver só do que demasiado bem acompanhado!

Ameaças Rondaram à Porta


O grande problema começou com a grande depressão que se instalou no mais profundo do meu ser. Psicologicamente eu ficara traumatizado até à ponta dos cabelos e das unhas dos dedos das mãos e dos pés! Eu tinha problemas para adormecer, dormia mal, tinha pesadelos de fazer acordar toda a vizinhança, e perdera o apetite. Sobretudo o de viver! Quando ia para a cama pedia a Deus que eu adormecesse depressa e nunca mais acordasse! Ao acordar pedia a Deus que a noite descesse rapidamente para eu voltar aos meus horríveis pesadelos de todas as noites! Arrastava-me da cama e metia-me num banho quente para ainda encontrar algo que ainda me dava algum prazer. Uma dessas manhãs, enquanto totalmente submerso no meu banho, ao abrir os olhos, deparou-se-me uma lâmina de barbear sobre a borda do lavatório, que parecia sorrir-me perniciosamente, como sugerindo-me um descer de pano:

- Pega-me! Quero-me perto das tuas veias! Preciso do teu sangue!

Num arrebate, seduzido por aquela diabólica alternativa, aquela sede de sangue, agarrei nessa lâmina e, dum golpe decisivo, cortei o pulso esquerdo! Mas ao ver o meu sangue começar a tingir a limpidez daquelas tépidas águas, ocorreu-me a dramática e penalizante surpresa que causaria ao Pat! Na minha gata que tanto ainda precisava do meu carinho e apoio para que o seu fim de vida fosse o menos penível possível! Dei um grito e saltei do banho! Enxuguei o meu pulso e cobri esse sangrento golpe com um pequeno penso adesivo, e jurei a mim mesmo ser forte, e não deixar que a Alfa - a quem eu dera a vida - não me roubasse agora a minha!

Quando o Pat voltou e viu aquele penso perguntou-me o que se tinha passado. Menti-lhe, dizendo que me tinha cortado acidentalmente com uma faca, ao preparar o jantar. Ainda hoje o Pat não sabe desse meu acto de desespero desse meu já tão longínquo dia!

samedi 23 janvier 2010

A Devastadora Ímpia Depressão




Ao chegar a casa, subir àquele segundo andar, foi como subir à torre mais alta dum fantasmagórico castelo, com ideias de saltar e ficar enterrado na terra lá em baixo, até aos tornozelos. Que os meus pés ficassem de fora para eu poder ir um pouco mais além! Mas ao abrir a porta a minha gata - a Cookie - já entorpecida pelos anos, roçou-se toda por mim. Peguei nela ao colo, encostei a minha face àquele doce focinho e imediatamente encontrei mais outra desculpa para continuar de pé! Ela precisava ainda tanto de mim! Encontrei nela uma basta razão para continuar de pé! De amar e ser amado! Nesse momento realizei que eu amava a minha gata e que ela me amava também! Como dissera um dia, daria a vida para nunca morrer, mas nesse momento senti que a morte seria talvez a melhor maneira de deixar de andar a mendigar por este mundo a rebentar de atrocidades, mas eu queria ser mais forte do que essa incontestável realidade! Ao olhar para a nossa mesa de casa de jantar, ali, onde a Alfa tinha sido gerada, essa rádio que para mim era como um filho que me tinha saído das minhas próprias entranhas, que tão malvadamente me tinha sido arrancada aos meus braços agora pendendo ao longo do meu corpo farto de labutar para encontrar sempre uma razão para avançar, pensei seriamente em recuar! Recuar até ao ventre de minha mãe. Se possível, até mesmo aos testículos de meu pai! A vida e a morte são tão naturais como fechar os olhos para lavar a cara, mas nesse dia eu não fechei os olhos sob a torneira para lavar o sal das minhas lágrimas! Senti-me como uma lâmpada fundida à espera de ser deitada fora, mas decidi carregar de novo as baterias e dar ainda à luz mais alguns sonhos ainda por serem inventados!

O meu maior problema era que eu tinha de fazer planos de futuro mas o futuro parecia ter deixado de existir para mim. Como se ele, de repente, me tivesse fechado a porta na cara! Eu que, na Alfa, tinha sempre tantos projectos de futuro, além de amar e ser amado! Percebera que nunca poderia ser amado por todos os meus colegas, por haver entre nós uma demasiado grande diferença de culturas e vivências. Eu tinha corrido mundos e eles tinham-se limitado apenas ao velho "em Agosto se Deus Quiser, vou de Férias a Portugal"! Eu falava uma língua morta e seis bem vivas, e eles falavam apenas uma mistura qualquer chamada "imigres"! Eu publicava livros que recebiam Prémios Internacionais, e eles nem sequer se davam ao trabalho ou ter a competência de escrever os seus próprios programas! Eu tinha feito um retrato dum rei português que tinha sido catalogado Património do Estado em Portugal! Eles nem sequer sabiam fazer um rabisco! Eu era extrovertido, sempre mostrando abertamente quem eu realmente era! Eles escondiam-se por detrás duma boca cerrada, que nada mais tinha para dizer que pequenos nada inofensivos insultos feitos de esguelha, ao passarem por mim! Lamentei imenso essas distâncias por eles próprios criadas, pois que gostava deles tal como eles eram e apenas pedia em troca que eles gostassem de mim tal como eu era! Esforços vãos!