samedi 14 novembre 2009

Histórias de Papagaios












Outra história que eu gostaria de contar, é essa do papagaio! O Jardim Zoológico de Londres era ali mesmo ao lado do Primrose Hill Park. Eram dez minutos a pé! Fomos lá várias vezes mostrá-lo a visitas que vinham, de vez em quando, passar um fim de semana connosco. Mas a história do papagaio passou-se quando da nossa primeira visita a esse recinto. Uma tarde, não tendo qualquer saída programada, decidimos lá dar um salto para ver esses bichos selvagens privados de liberdade, ali prisioneiros de fossos ou de grossas grades, apenas para divertir as criancinhas! Detesto Jardins Zoológicos, mas nesse dia não tive outra qualquer alternativa que ceder à minha curiosidade. Esse parque cheio de árvores e gaiolas era, a despeito de tudo, uma bela experiência a ser vivida. Fomos visitar a escultura de Armstrong Jones, o então marido da Princesa Margaret, uma obra dum irreverente modernismo. Falo da escultura, não da Princesa! Depois vimos os leões, as girafas, os macaquinhos e, sobretudo, fiquei encantado com um papagaio enorme, de todas as cores possíveis e imaginárias, empoleirado no seu poleiro, com um ar muito chateado, talvez mesmo um tanto deprimido. Para o arrancar ao seu mutismo, comecei a fazer-lhe fosquinhas e vozinhas de papagaio, e ele, depois de me ter observado alguns minutos em silêncio, volta-se para mim e, numa voz rouca e irritada, pergunta-me alto e bom som:

- Are you alright?

Em outras palavras: “tás bom da pinha”? Claro que rimos desta saído do imperturbável papagaio! Ainda hoje, quando recordamos este inesperado incidente, rimos a bandeiras despregadas!

Passeios Nocturnos por Londres






Passear por Londres, conhecer Londres, foi outra das nossas preocupações! Aos fins de semana era a descoberta da Londres diurna, com passeios ao longo do Tamisa, visitar sítios históricos como a Torre de Londres com o seu Big Ben, e tantos outros sítios muito apreciados pelos ingleses e turismo internacional! Percorremos outros bairros, outras áreas menos conhecidas, mas à noite, era sempre Picadilly Circus com toda a sua fauna, cinemas, teatros, clubes e, sobretudo, a sua fauna! Um cuidado era preciso sempre ter! Esquivar certas propostas de drogas interditas! A melhor droga que me poderiam propor eram fechos-éclair de certas braquilhas a rebentarem de promesas que se me ofereciam ante os meus olhos e o meu apetite sempre devorador! O único inconveniente dessas nossas idas a Picadilly Circus, à noite, era a preocupação de não perdermos o nosso último combóio de regresso a casa. As nossas idas eram quase sempre para ir a um cinema ver um filme recentemente estreado, pois que nos dois cinemas em Belsize Park, ali mesmo ao lado de Chalk Farm, só mostravam filmes que, alguns, eu já tinha visto em Mafra! Mas Picadilly Circus tinha realmente um encanto muito especial!

Nossas Tórridas Saídas












As nossas saídas, depois de mais outro dia de árduo trabalho, se não houvesse nada de especial a ver na televisão, era irmos ao Pub ali na esquina entre Regents Park e Primrose Hill Road, tomar uma “pint” e rodar os olhos em busca de carne fresca. Penso que ambos começávamos a achar as nossas relações na cama um tanto repetitivas e insípidas. Tínhamos experimentado todas as posições do Kama Sutra e era tempo de mudar de panoramas! Nesse Pub haviam jovens tão carnívoros como eu e eventualmente o Pat. Eu mais do que ninguém! Sempre aquela fome insatisfeita e insaciável de carne fresca, de peixinhos a saltitar nas areias da praia antes de serem enlatados! Vê-los encostados ao balcão, aqueles traseiros sobressaindo, aquelas calças bem recheadas a esconderem grutas por mim ainda nunca penetradas, eram uma tentação de fazer ruir todos os muros da fidelidade, por mais sólidos que eles fossem! Como eu lhes costumava chamar: belas “espetadas” a pedirem espeto! E o meu espeto em febris palpitações de, tal como Vasco da Gama, descobrir domínios por mim ainda nunca exploradas!

Uma noite, agarrando o touro pelos cornos, convidei um desses bonitos traseiros a vir aterrar na nossa fofa cama. Pat ficou chocado mas, depois de ter provado essa nova modalidade de estarmos juntos, compartilhou o novo petisco que pareceu vir curar-me da atroz dúvida da fidelidade do Pat. Eu queria, precisava de o ver “atraiçoando-me”, para ter por fim a certeza que ele não era só meu! Ninguém é de ninguém, somos todos uns dos outros! Nessa noite foi a grande inauguarção do Triângulo das Bermudas! E foi bom termos ido tão longe! Nessa noite descobrimos que assim a nossa sexualidade ganhava novas dimensões! A vida é curta e não há tempo a perder! Nessa noite ambos vimos com os nossos próprios olhos o que ambos tanto temíamos! No meu caso eu ver o Pat cavalgado por outrem, o Pat ver-me cavalgar e der cavalgado! Assim ficavam as contas feitas! Nove noves fora: Nada! Nove noves dentro: Tudo! Era a grande taluda jogando apenas um único número, uma única vez! Isso libertou-nos de certas angústias e incertezas! Enfim livres de gozarmos a vida em cheio! Depois vieram o Pub de Camden Town, de Hampstead, e outros que foram só de passagem!

A Total Integração
















Com o rodar do tempo integrei-me totalmente no meio ambiente. Como, de resto, faço sempre que mudo de país e de culturas! Eu comecei a vestir-me como quase todos os londrinos, a comportar-me como eles, a ir aos mesmos Pubs que eles, a ter absolutamente a mesma rotina e mentalidade que os ingleses dessa época tinham! Como eu falava muito bem o Inglês e o sotaque londrino me entrara pelos ouvidos e se alojara no meu cérebro, como se tivesse sido uma nova cantiga que eu tinha aprendido da telefonia, muitos não acreditavam que eu não fosse inglês! Sobretudo sempre surpreendidos pelo facto de eu não ter quaisquer vestígios do caracterísrico sotaque português! Eu trabalhava, apanhava o Tube, e comportava-me como todos os demais lá nascidos e, sobretudo, não tinha ares de estrangeiro só de passagem. De resto, instalado no meu belo pequeno apartamento com o Pat, realizando um dos meus velhos sonhos de me estabelecer com alguém e deixar o putedo das ruas. Isso era precisamente o que eu mais louvava! Bem, o putedo das ruas, à socapa, nunca deixei totalmente. Eu era e sou um amigo fiel mas, na cama, como viajar, gostava de mudar de paisagens! O Pat foi o primeiro a aperceber-se disso! Eu já o sabia de longa data! Eu era um britânico pouco fiel à sagrada união perante Deus! Algo em mim me impedia de o ser! Gostava muito de bacalhau com batatas, mas não todos os dias! Uma boa guisalhada de vez em quando era sempre bem-vinda! Portanto eu era terrivelmente possessivo e queria o Pat só para mim! Ao ponto de, um dia, mentindo-lhe, dizendo que trabalhava até às onze da noite, para me meter debaixo da nossa cama para ver se ele, quando voltava do seu trabalho, engatava um gajo bonito para o meter na nossa cama. Nesse dia tive a grande surpresa de verificar que ele voltara sozinho e que depois dum duche se sentou na sala a ver televisão. Dum certo modo eu teria preferido que ele tivesse regressado com um belo matulão para me tirar de dúvidas e não mais pensar no assunto! Saí de debaixo da cama e abri docemente a nossa porta de entrada e bati com ela ruidosamente para ele pensar que eu tinha acabado o meu trabalho mais cedo do que o previsto! Nesse dia ele não se apercebeu mas, muitos anos mais tarde, contei-lhe esse incidente, e ele sorriu...

FIDDLER ON THE ROOF
















Outra grande recordação do mesmo tipo, foi aquela noite em que eu e o Pat, a Hella e o Mahmoud, fomos a um grande teatro do West End ver uma comédia musical com o Haim Topol: o “Fiddler on the Roof”! Estávamos todos muito ansiosos de ver esse grande actor israelita em carne e osso, sobre aquele grande palco, para vermos essa famosa comédia musical sobre uma certa comunidade judaica da Ucrânia. Quando as luzes se apagaram e a cortina lentamente se abriu e soaram as primeiras notas dessa espantosa comédia, o público levantou-se em massa para uma longa ovação! A peça foi um absoluto sucesso! Os actores foram todos formidáveis! A história envolveu-nos duma ternura muito “kasher”! A música e os cantos entravam-nos no mais profundo de nós, numa mensagem de amor de uns pelos outros que era de louvar, e uma grande chapada no anti-semitismo mundial!

A versão cinematográfica que mais tarde foi feita desta comédia, com o mesmo actor, comparado com ele sobre um palco, foi uma grande decepção! Haim Topol? Só em carne e osso! Que espanto de actor! Ele sabe e pode fazer tudo! Cantar, dançar, representar, escrever, e sabe Deus que mais! Que pena ele ter abandonado todos esses seus grandes talentos para se investir unicamente, nos Estados Unidos, à grande fábrica de fazer Dóllars, que são essas grandes empresas do venha a nós ao nosso reino! Lastimável que um homem com tanto talento como actor se tenha depois contentado com essas grandes produtoras de lucros! Ele ganhou muito dinheiro, mas nós perdemos um grande actor!

Frank Finley on the Cross








Uma das grandes inesquecíveis recordações desses tempos foram as nossas idas à Round House para assistir a espectáculos absolutamente únicos! Um deles foi uma peça com Frank Finley onde se contava a vida de Jesus Cristo. A peça foi realmente um espanto! Ná só a encenação e o trabalho dos actores, como, muito especialmente, os efeitos especiais criados sobre esse imenso palco! Não só a vida de Cristo foi contada duma maneira espledorosa com luzes, sons, música, e a interacção entre os actores e os espectadores sentados nas suas cadeiras, como aquela sensação de participar directamento ao que se passava sobre aquele palco transformado em grandioso calvário! O fim da peça foi a crucificação feite duma forma tão real, que cheguei mesmo a pensar que o actor tinha sido realmente pregado nessa cruz. Quando as luzes da sala se reacenderam, informando o público que a peça tinha terminado, todos se levantaram para regressarem às suas casas, menos eu. O Pat puxou-me pela manga mas eu não podia arredar pé! Eu queria ver, não sei se Jesus se Frank Finley, se ambos, serem despregados dessa vergonhosa cruz! O problema foi que a peça, segundo a encenação, acabava precisamente dessa maneira! Se a idéia tinha sido impressionar o público, o resultado, pela parte que me toca, foi garantido! Se ao menos tivesse havido uma cortina a ser puxada, mas essa cortina não existia nesse imenso teatro e nesse gigantesco palco.

Ao deixar a sala ainda me voltei uma vez mais na esperança de que o actor tivesse sido enfim removido dessa cruz, mas o actor continuava como morto sobre a sua muda cruz! Não só Frank Finley era um grande actor e tinha realmente morrido na cruz, ou eu era um pobre imbecil que foi para casa e nessa noite teve pesadelos horrorosos de complexos de culpabilidade! Nessa noite nem sequer consegui crucifar o Pat que me esperava na cama, de braços bem abertos e esticados na minha direcção, pedindo-me:

- Por piedade! Cricifica-me a mim também! Quero sentir o teu dardo, o teu fel!

vendredi 13 novembre 2009

Os Primeiros atritos
















Os primeiros atritos apareceram algum tempo depois quando o meu ciúme começou a ser um bicho de sete cabeças entre nós! Por outro lado, eu continuava a ser a mesma cabeça de vento que queria ser desejado por toda a gente que por mim passasse na rua! Foi nessa altura que começou a grande moda das calças “hipsters”, aquelas calças cujo cinto era abaixo dos ilíacos. Foram consideradas escandalosas porque mostravam ousadamente as formas do sexo masculino através do tecido. Eu, obsecado pelo desejo de acordar nos outros erecções indesejadas, como não tinha meios para comprar um par dessa obra prima do exibicionismo, decidi comprar um pouco de tecido muito fino, cortei o tecido, como tinha aprendido com o Godinho, em Mafra. Como não tinha máquina de costura, cosi-as à mão. Elas saíram-me tão justas que, como não usava nada por baixo, evidenciavam as formas do meu sexo duma forma embaraçosa. Pat gostava de me ver com essas calças vestidas, em casa, pois que temia que na rua elas excitassem outros homens como elas o excitavam a ele! Mas eu, com a minha necessidade de atrair as atenções e despertar alguns sonolentos fantasmas, andava sempre com elas Oxoford Street acima e abaixo, sentindo os olhos doutros homens a pastarem nas minhas avolumadas formas, pois que ao sentir-me desejado, eu próprio era vítima de erecções indesejadas! Frequentemente, cada vez que eu saía apertadinho nessas calças, era seguido por pretendentes a esfolarem-me vivo! Essas calças acabaram no lixo, senão o Pat me ter-me-ia deixado. E isso estava fora de questão! Hoje lamento tê-las deitado fora, pois que agora gostaria de as ter como relíquia, para o meu museu de ultrapassadas fantasias!