samedi 22 août 2009

O Gavião Branco


Uma vez mais tive de acartar com as malas às costas da Avenida de Madrid até à Sacadura Cabral. Era, praticamente, só atravessar a Avenida de Roma. Era quase em frente! Chegado lá, subir aqueles três andares! Bati à porta e foi a Dona Alice quem me veio abrir. Instalei-me no quarto onde já dormiam o António e o meu irmão Fernando. A minha cama ficava logo ali à entrada, ao lado direito da porta. Era um quarto bastante espaçoso mas apenas com uma janela constituída de três frestas. Além das camas e da janela, apenas um grande guarda-roupa para os três ocupantes. Felizmente, como sempre, tinha poucas roupas. No Tique-Taque tinha os meus uniformes, e depois apenas algumas camisas e uns três pares de calças.

A Dona Alice era uma mulher simpática e sempre muito sorridente. Ela mostrou-me a casa toda. Tinha um pequeno quarto com porta para a escada onde dormiam o Zé Barbeiro e o Guilherme, o galã lá da casa. Tinha a pequena casa de jantar com uma mesa com lugar para seis pessoas, e uma grande janela para a rua. O quarto dela e do marido, o Camaradinha, era o mais pequeno da casa toda. Ao fundo do corredor tinha a casa de banho dum lado o quarto de dois irmãos nortenhos que trabalhavam nas obras, cujos nomes se piraram da minha memória. Tinha também uma grande marquise onde ela passava as suas tardes a lavar roupa, engomar, e a passar a ferro. Por vezes, um bocadinho de renda.

Ela deu-me todas as informações acerca das regras da casa. Cada rapaz pagava 600.00 escudos por mês, o velho sistema de cama, mesa, e roupa lavada. Só um banho por semana! Não trazer amigos ou amigas lá a casa, que era uma casa séria!
Ela tinha uma filha, a menina Luisa, que se tinha casado com um malandro e que se tinha divorciado, e que habitava ali perto. O seu marido, o Camaradinha, trabalhava como electricicista numa empresa qualquer na Baixa. Tudo óptimo para mim. O Tique-Taque era só a uns vinte metros, e tinha o meu irmão como companheiro de quarto e o António, que era um rapaz muito tímido, que não chateava ninguuém. Preparei-me para alo viver tranquilamente por algum tempo. Para mim, ficar muito tempo no mesmo sítio era como marcar passo sem chegar a parte alguma!

Apenas duas coisas eu nunca viria a saber: porque era que a esta pensão particular lhe chamavam o Gavião Branco, e por que razão chamavam Camaradinha ao marido da Dona Alice. Ele era talvez o marido, o pai, mas certamente nunca o patrão. O patrão lá em casa era, sem a mínima dúvida, a Dona Alice, com o seu eterno sorriso e os seus óculos a escorregarem!

No Tique-Taque, tanto eu como o Tété tivemos um certo pouco à vontade, nos primeiros dias. Depois readaptámo-nos rapidamente ao dia a dia corriqueiro das nossas funções. Então tudo me parecia mais fácil, morando ali a dois passos na pensão onde me tinha hospedado. Entretanto, como ia frequentemente a um Café ali no Campo Pequeno, tomar um café e ouvir o grande sucesso desses tempos, do filme “A Colina da Saudade”, aquela maravilhosa cantiga “Love is a Many Spledored Thing” no papa-moedas dessa nova invenção de máquinas onde se introduzia uma moeda de um escudo para escolhermos e escutarmos uma modinha ao nosso gosto incluída no menu, dei com um jovem que morava mesmo por cima desse Café, que também muito gostava desse sucesso e, assim, um dia ele convida-me a subir ao seu quarto para me conhecer um pouco melhor. Ele morava em casa duma tia, num daqueles quartos com porta para a escada. Isso dava-lhe muita privacidade para meter na sua cama quem muito bem entendesse. Graças a ele, quebrei a minha já longa abstinência. Ele chamava-se Tomé mas eu chamava-lhe Tótó. Era melhor um Tótó que nenhum Tété! Ele andava na Universidade a estudar Direito. Com já todos esses seus estudos, ele sabia muito bem como me endireitar. Foi uma relação que durou pouco tempo pois que ele era muito possessivo e eu demasiado inconstante, e sempre a seguir para onde o vento me empurrasse!

O ambiente no Gavião Branco era bastante agradável. O Guilherme, o galã, não me incomodava mesmo nada. Era bonitinho mas tão imbecil que não me despertava qualquer interesse fosse qual ele fosse. O Zé Barbeiro era um belo rapagão que queria ser toureiro e que tinha o físico e silhueta para tal, embora eu, mesmo morando ali a dois minutos a pé da Praça de Touros do Campo Pequeno, detestasse profundamente! Quanto a mim aquilo não era uma arte, era um abuso do homem sobre os animais! Era quase como nos tempos romanos, na arena do Coliseu a abarrotar de selvagens aos berros em cima das tribunas, enquanto os gladiadores se massacravam uns ao outros, e o Nero, baixando o polegar, a ordenava: matar!

O Zé Barbeiro adquirira esse nome por ser barbeiro e trabalhar na barbearia mesmo em frente, onde eu ia cortar o cabelo e fazer a barba. Ele sim, ele despertava em mim uma certa muito irrequieta parte do meu corpo, mas nunca pus o pé na argola. Apenas uma vez, quando comparávamos o tamanho das nossas bandarilhas, para ver quem é que dizia: Ólé! Certamente que, se ele me tivesse dado uma boa estocada, me teriam cortado as duas orelhas! Várias outras vezes tive vontade de jogar esse mesmo joguinho mas as ocasiões nunca se apresentaram! O António era um bom rapaz, mas tão introvertido que nenhum gozo me dava. O Fernando, esse, sempre muito dependente de mim até ao dia do seu casamento com a Lucília, era um tanto como a PIDE lá em casa.
Fui ao casamento do Fernando e da Lucília, ali na igreja na Igreja de São João, na Praça de Londres. Foi um belo dia para os noivos e todos os convidados. Depois eles partiram para Paio Mendes, para a sua lua-de-mel na bonita casa onde a Lucília nascera, onde então habitava a sua velha mãe já um tanto dependente. Depois da lua-de-mel o Fernando voltou à Fábrica de malhas do nosso irmão Zé, no Cacém, e eles encontraram ali mesmo à porta da fábrica um belo apartamento onde se instalaram e fizeram dois filhos. Como a Lucília tinha o instinto do negócio e o Fernando andava farto de malhas, mudaram-se mais tarde para Olival de Basto, onde se instalaram confortavelmente. A Lucília abriu um pequeno comércio de mercearia, e aí viveram muitos anos!

A única coisa desagradável que aconteceu durante esse período no Gavião Branco foi, um dia a Dona Alice decidiu ir passar um fim-de-semana a Loures, em casa da sua irmã, na companhia do Camaradinha. A Dona Alice tinha instalado um telefone só para receber chamadas, pois que o disco para se poder discar um número estava aferrolhado com um cadeado. A Dona Alice passava a vida a cavalo na sua telefonia que só se ligava para ela ouvir os seus folhetins radiofónicos. Quando eram horas de ouvir “A Coxinha” ela desligava o telefone e a campainha da porta, pois que ela se punha literalmente a cavalo na telefonia e podiam cair bombas que ela não arredaria pé! A RTP (Rádio-Telavisão-Portuguesa) acabava de ter sido lançada, mas a Dona Alice não tinha os meios para comprar um televisor. Assim, a telefonia era a sua compensação. Eu já tinha começado a fazer figuração na RTP. Eles tinham posto um anúncio no Diário de Notícias a pedir figurantes e eu fui logo a correr! Fui a pé pois que eu corria mais rápido que os eléctricos do Campo Pequeno até ao Lumiar. Sempre que havia algo na RTP onde eu aparecesse íamos todos ver-me num pequeno Café da Avenida de Roma que tinha instalado um televisor para atrair mais clientela. Essas noites, para o meu ego, eram como dias de feira. Quando eu aparecia todos batiam palmas, mesmo que se tratasse dum filme muito dramático. Os outros clientes ficavam espantados, pois que nem sequer se apercebiam que era a mim que eles aplaudiam. Isso frustrava-me profundamente! Teria preferido que alguns deles me tivessem vindo pedir um autógrafo! Ora, como estava a dizer, quando a Dona Alice foi passar esse fim de semana a Loures, como ela não queria que gastássemos muita electricidade, e como o contador de electricidade se encontrava no corredor, ao pé da porta de se saída (e entrada) ela tirou os fusíveis e escondeu-os no seu quarto, cuja porta ela fechou à chave, pondo as ditas na sua malinha de mão. Nós ficámos furiosos, pois que embora fossem apenas dois dias, foram dois dias sem luz! À noite andávamos todos às apalpadelas com uma pilha de bolso para ir à casa de banho ou dum quarto para o outro. Ora nesse domingo havia um grande desafio de futebol entre o Sporting e o Benfica. O Guilherme queria por força ouvir o relato na telefonia mas não podia porque não tínhamos electricidade. Eu, que nunca fui nada de futebóis, mas como era muito benfiquista porque eles tinham um avançado-centro muito bonito que se chamava Rogério, também quis ouvir esse relato. O Zé Barbeiro sugeriu que podíamos ir até ao Café da Avenida de Roma ver o relato na televisão, mas eu decidi que ouviríamos o relato na telefonia da Dona Alice, pois que para isso pagávamos 600 escudos por mês para cama e mesa e roupa lavada! E telefonia, se faz favor! Como o meu quarto e o quarto da Dona Alice eram separados por uma porta interior, cuja, do lado do meu quarto, estava oculta por um largo guarda-roupa, e do lado da Dona Alice por um guarda-vestidos, passou-me pela cabeça desencostar o meu guarda-roupa para ver se essa porta também estava fechada à chave. Aí o grande problema! Essa porta não estava fechada à chave! Empurrei a porta que abria para o lado da Dona Alice, só uma gretinha para me deixar passar. Passei, olhei em redor e vejo os fusíveis um ao lado do outro a fazerem ó-ó muito tranquilamente em cima da mesa de cabeceira. Acordei os pobres dos fusíveis, agarrei neles e instalei-os lá, donde eles nunca deviam ter saído! Assim ouvimos o relato. Fiquei lixado pois que foi o Sporting que ganhou por causa daquele malvado de Peyroteu! Mas como a Dona Alice estaria de volta dentro de algumas horas, voltei a pôr os fusíveis na caminha. Regressei ao meu quarto pela estreita greta da porta, puxei docemente contra mim o guarda-vestidos da Dona Alice, mas ficou uma pequena greta entre o guarda-vestidos e a porta. Empurrei o meu guarda-roupa contra a parede e, Ponto Final! Mas esse ponto final saiu-me uma pobre vírgula sem defesa! A Dona Alice tinha um belo elefante de mogno em cima do seu guarda-vestidos, e o raio do elefante, para me estragar o arranjinho, caiu-me de pantanas. Ora a Dona Alice quando regressou foi direitinha ao seu quarto para ir buscar os fusíveis para ela poder ter luz e ligar a sua telefonia. Quando a luz deu à luz a Dona Alice deu com o pobre do elefante a fazer uma soneca em cima do seu guarda-vestidos. Imediatamente percebeu que alguém tinha entrado no seu quarto por essa porta que dava para o meu quarto. Nós estávamos todos muito felizes de termos a luz de volta, e no quarto do Guilherme e do Zé Barbeiro, havia uma grande algazarra acerca do Sporting-Benfica. O Zé era benfiquista e o Guilherme era sportinguista. A Dona Alice bate à porta deles e pergunta o que se passava? Para quê tanto chiqueiro? Onde é que ouviram o relato? Na minha telefonia, está visto, pois que o meu elefante tinham-lhe partido a tromba! Queria imediatamente saber quem foi o abusador que entrou no seu quarto para sacar os seus fusíveis! Eu, como sempre, muito assumido, disse que tinha sido eu, pois que não tinha achado justo que ela nos tivesse deixado dois dias sem electricidade! A Dona Alice muito arreliada, aponta-me a porta e, em altos berros, pediu-me para agarrar nas minhas coisas e tirar o cu da sua casa! Os outros rapazes intercederam, que se sentiam também responsáveis e que, de resto, ela não tinha o direito de me pôr fora antes do fim do mês. Ela aquietou-se um pouco, volta as costas dizendo: Assim Seja! E nós acrescentámos: Ámen!

Chegado esse fim do mês, como a Dona Alice nunca mais tinha falado no assunto, continuei no Gavião Branco, e lá ia todos os dias, às cinco da tarde para o Tique-Taque em busca do meu Tété...

mercredi 19 août 2009

O AVIS
















No Avis a vida começou a correr-me melhor. Fora da alçada do Soares e agora nas mãos do Santos, que era para mim como um irmão mais velho, a vida sorria-me duma maneira muito mais descontraída.

Gostava muito da Dona Zita, que era a chefe das bilheteiras, e de todos os meus colegas. Foi uma fase bastante curta da minha vida, pois que O Tété metia-se em cavalarias altas e todos os lucros do Roma e do Avis - que se iriam muito em breve por água abaixo - evaporavam-se misteriosamente. No entanto, enquanto a coisa durou, eu fui muito feliz!

Estavam a mostrar então um filme sublime: era o “Madame Butterfly”, uma ópera de Puccini filmada nas belas montanhas do Japão, com actores profissionais dobrados pelas vozes de grandes sopranos e mezzo-sopranos, tenores e barítonos, grandes vozes líricas dessa época bafejada da minha vida.

No Avis havia muito menos trabalho. Era um cinema mais pequenos que o Roma, menos lugares, menos espectadores, menos clientes no Bar. Com os colegas tudo se passou pelo melhor, excepto um pequeno detalhe: O Tété, como eu tinha umas unhas muito bonitas, queria que eu fosse à sua manicura uma vez por semana, para ela me tratar das unhas e envernizá-las. Por essa razão ele não queria que eu lavasse os copos e as chávenas, que não molhasse as mãos. Assim, quem tinha de lavar a loiça toda era a Esperança, uma rapariga simples que morava no Alto da Serafina. Éramos muito amigos mas o facto de eu não tocar na loiça levava-a aos arames! Expliquei-lhe que eram ordens do Tété e ela começou a pensar e a dizer a quem calhava que eu e o Tété éramos amantes. A verdade é que, realmente, nunca nada se passou entre mim e o Tété, mas era evidente que o Tété tinha uma ternura muito especial pela minha pessoa. O Santos ficava muito espantado com todos aqueles rumores, mas continuava a ser aquele que eu ainda hoje considero um dos melhores amigos que tive na minha vida!

O meu dia a dia era chegar ao meu emprego por volta das duas da tarde para preparar tudo para a primeira matiné. O meu trabalho consistia apenas em tirar os cafés daquela famosa máquina dos Cimbalinos e, depois, meter-me por detrás duma cortina, durante a projecção do filme, a ver Madame Butterfly todos os dias três vezes por dia. Com esse maravilhoso filme aprendi a gostar de ópera e a interessar-me pelos cantores líricos dessa época. Um dos meus sopranos favoritos passaria a ser a Renata Tebaldi e o Beniamino Gigli enchia-me os ouvidos e alma de amor pela Ópera. Cheguei mesmo a comprar um disco de 78 rotações com essa ópera de Puccine. Disco esse que ainda conservo aqui entre as minhas velhas recordações que são agora relíquias desse meu já tão distante passado, quase de valor de antiquária!

Esse disco andou na minha mala desde essa data até aos dias presentes. Viajou comigo por esse mundo fora e, quando eu trabalhava em Zefat, em Israel, num hotel que tinha um grande terraço que dava sobre aquelas belas montanhas, ao pôr do sol eu punha o disco a girar naquele sistema sonoro que invadia o hotel todo, e ia para o terraço escutar essa obra-prima de Puccini contemplando esse sublime adeus ao dia que a natureza nos contempla todas as tardes, tingindo o céu de todos aqueles radiosos tons de púrpura anunciando que mais um dia das nossas vidas se foi para dar lugar a mais uma noite de repouso até ao alvor que ciclicamente nos desperta com os primeiros raios desse sol que infatigavelmente roda à volta deste planeta onde vivemos, esse planeta que um dia apagará todas as nossas chamas. Era um êxtase para mim e para todos os hóspedes que se sentavam nesse terraço a tomar um aperitivo antes de jantar.

Um entardecer em que não tive tempo de ir escutar a Madame Buterfly, um hóspede vem ter comigo à recepção, a perguntar-me se a Madame Butterfly estava de folga nesse dia, que a sua esposa - uma americana de certa idade com brincos pendurados nas orelhas que lhe desciam até aos ombros - me pedia encarecidamente que eu pusesse esse meu disco a rodar, pois que eram os melhores momentos que ela passava no hotel, o Hotel Rakeffet, que eu também tanto amei, e que hoje é apenas um Lar para os velhos ricaços lá do sítio. Esse sítio deslumbrante afagado pelas silenciosas montanhas que a cada instante mudam de cor. Sítio esse, hoje quartel general dos ortodoxos a porem uma sombra negra nessa paisagem inqualificável!

Uma das mais bonitas recordações desses tempos do Avis foi aquela festa de aniversário desse cinema, quando o director organizou um “party” com muitos petiscos e bebidas, que convidou todo o pessoal para essa ocasião muito especial, tendo mesmo fechado as portas do cinema da parte da tarde. Nessa tarde não tivemos as duas matinés, apenas a sessão nocturna. Foi uma festa de arromba! A imprensa estava presente, e um dos fotógrafos fez fotografias de tudo e de todos. A Rita estava linda nessa tarde e foi ela a rainha dessa inesquecível festa!
Uma tarde, o fotógrafo veio oferecer-me uma cópia duma foto que ele me tinha tirado. Foto essa que também ainda conservo como uma relíquia encontrada nas escavações arqueológicas do Tempo e da Memória!

A fatalidade andava no ar! O Tété, cabecinha tonta, com a mania dos negócios e das grandezas, em busca da sua independência, de não viver às sopas do papá, meteu-se em negócios turvos, e foi tudo por água abaixo! Ele perdeu o Bar do Roma, assim como o do Avis, e teve de voltar aos domínios do seu pai. Assim eu e ele voltámos para o Tique –Taque, e os outros meus colegas foram à vida! Nunca mais soube nada deles! O destino nos reúne, o destino nos separa! As únicas coisas que me ficaram desses belos tempos do Avis foram uma foto e um disco que eu acartaria através do mundo, disco que escutaria quase todos os dias durante a minha longa vadiagem por alguns continentes:

“Madame Butterfly”!��

mardi 18 août 2009

O Macaquinho














Instalado na Avenida de Madrid, encetei uma relação muito filial com a dona da casa. Esqueceu-me o seu nome. Ela era casada e tinha um filho aí dos seus 20 anos que era um autêntico perigo para ele dormir no quarto mesmo ao lado do meu. Ela dormia com o seu marido num outro quarto com janela para as traseiras, onde tinham um pequeno quintal com algumas couves e algumas flores. O meu problema começou quando descobri que eles tinham um macaquinho adorável acorrentado dia e noite à sua casota de madeira com um telhado de zinco. O pobre não tinha liberdade alguma. Eu ia sempre que podia dar-lhe comer na boca. Eu punha-o no meu colo, punha-lhe um guardanapo à volta do pescoço, e dava-lhe colheradas de arroz cozido. Ele era louco por arroz! Como o alimentava três vezes por dia, uma relação de grande amor nasceu entre nós dois. Quando ele me via dava saltos de contentamento e saltava-me ao pescoço. Entretanto o Tété tinha tomado a exploração do Bar do Cinema Roma, que era ali mesmo à beirinha desse quintal das traseiras onde o meu querido macaquinho vivia como um prisioneiro em Alcatraz.

No Bar do Cinema Roma foi uma grande alegria para mim. Foi como se tivesse voltado aos meus tempos de menino, no Cine-Teatro de Mafra. Ganhava a minha vida e via filmes de borla. Esse Cinema foi inaugurado com o filme “Violetas Imperiais”, com a Sarita Montiel. Eu tinha colegas com quem adorei trabalhar. Havia o Soares que não ia muito à bola comigo porque tinha ciúmes de todas as atenções que o Tété me dispensava. O Soares era o responsável desse Bar, mas o Tété não lhe passava cartão. Penso mesmo que até o detestava. O Soares era um daqueles gajinhos de pequena estatura, tentando dar-se ares de muita importância lembrando-nos constantemente que o patrão era ele. Eu antipatizava profundamente com o Soares mas, por ouro lado, tinha um outro colega, o Santos, que viria a ser um dos muito poucos grandes amigos que tive na vida. Ele morava com a sua mulher e um filho na mesma pensão onde eu pernoitara umas tantas noites naquele divã na marquise, perto da Tentadora. Hoje não sei onde pára esse Santos que ainda recordo com tanta saudade! Será que ainda por cá anda? Será que ainda se lembra de mim? Ele que me protegia como se eu fossa seu irmão!

Havia também a Esperança, que servia e lavava os copos, e a Lucília, uma nortenha amorosa que um dia viria a casar-se com o meu irmão Fernando, que trabalhava nas malhas do Rubin, na Visconde Valmor, e que habitava em casa dum casal que alugavam quartos a rapazes, três em cada quarto. Eles tinham três quartos alugados e ocupavam precisamente o quarto mais pequeno lá da casa.

Eu gostava muito de trabalhar nesse grande Bar. Era só servir cafés e bebidas frescas aos clientes, durante um curto intervalo de quinze minutos. Eu era muito amigo da Dona Margarete, que era a chefe das bilheteiras. De vez em quando, durante a projecção do filme, eu ia debruçar-me sobre o baixo muro do quintal onde o meu pobre macaquinho queria saltar-me ao pescoço mas não podia por causa daquela curta corrente que o aprisionava. O muro era tão baixinho que eu facilmente o saltava para o ter nos meus braços durante alguns minutos. Sempre que eu punha no chão ele dava uns guinchos que aos meus ouvidos soavam como lágrimas de despedida. Também o seu nome se foi da minha mente depois de tantos anos que andei por esse mundo fora em busca de ventura e aventuras! Eu adorava esse bichinho e tanto pedi à dona que o deixasse livre dentro de casa, durante o dia, mas ela recusava dizendo que ele iria sujar-lhe a casa toda e quebrar tudo à sua passagem. Eu e o meu grande amor pelos animais, imediatamente compreendi que eu não poderia viver muito mais tempo nessa casa.

Entretanto o meu irmão Fernando, farto de malhas, pede-me para eu pedir ao Tété trabalho para ele nesse Bar. Penso que não foi apenas o desejo de deixar as malhas, foi, penso, muito mais a vontade de estar perto de mim. De um certo modo ele sempre procurou estar a meu lado, mesmo quando vivi em Paris ele pediu-me para o levar para a Cidade Luz! Foi nesse Bar que ele depois começaria a trabalhar e a namorar a Lucília. Eu continuava a ser o grande artista do Bar, aquele que, durante os intervalos, em quinze minutos, encarregado da máquina de café Cimbalino, dessas máquinas que tinham acabado de serem comercializadas, as tais dos famosos cafés Expresso. Eu parecia fazer parte dessa máquina! Cada vez que eu ia sacar o café já moído ao moinho, esse moinho contava as tiradas de doses para cada Cimbalino. Em quinze minutos, cheguei a tirar duzentos e quarenta e tal cafés. Várias vezes os clientes me cumprimentaram pela minha agilidade. Também muitas vezes o Soares, sempre invejoso da minha popularidade, me dizia para me despachar e não perder tempo com os clientes. Que eu estava ali para tirar cafés, não para ser a grande vedeta! Algo me segredava ao ouvido que eu tinha de mudar de casa por causa do macaquinho, e de emprego por causa dum macacão! E foi precisamente o que aconteceu!

O Tété tomou conta também do Bar do Cinema Avis, ali ao Arco do Cego, e pôs o Santos como responsável. Ora o Santos, consciente do mal estar entre mim e o Soares, pediu ao Tété para que eu fosse trabalhar com ele para o Avis. O Tété concordou e aí foi a grande passada das birras do Soares para os braços de alguém que muito me estimava. E não foi tudo! Como no quarto onde o Fernando dormia, ali na Sacadura Cabral, um dos três ocupantes casou e deixou a sua cama livre, o Fernando apresentou-me à Dona Alice, a dona da casa, e eu apanhei essa cama e deixei o meu tão querido macaquinho nas mãos de Deus e da sua má sorte. Desde esse dia em que fui transferido do Roma para o Avis, nunca mais lhe pus os olhos em cima.

Tantos anos depois, agora, aqui a contar-vos as minhas histórias, ele continua na minha memória e no meu coração. Coração esse que pede a Deus que ele não tenha sofrido muito naquela Alcatraz de trazer por casa, e que hoje se encontre muito feliz no céu dos macaquinhos tão adoráveis como ele! Liberto da sua curta corrente de ferro, possa agora flutuar à vontade no Paraíso, a brincar, livre como o vento, entre outros muitos macaquinhos tão adoráveis como ele!
Uma lágrima acabou de cair...

Os Três da Vida Airada


A vida não parava no Tique-Taque ! Era todos dias um trabalho arrasador. Mesmo assim, como só começava às cinco da tarde, ainda aproveitava as manhãs par dar uma ajuda na “Condotti”, uma botique de senhoras que era da Rita Schmulevitch, a lindíssima mulher do Tété, que era mesmo ao lado da porta do Tique-Taque, na esquina entre a Avenida de Roma e a Rua Sacadura Cabral, onde morava o meu irmão Fernando que trabalhava então numa fábrica de malhas na Visconde Valmor, propriedade dos pais da Rita. Rita Schmulevitch, essa fascinante judia que compartilharia comigo uma vida quase toda inteira!

Aparentemente eu tinha muito jeito para decorar as vitrinas e a Condotti tinha uma para a avenida de Roma e outra para a Sacaura Cabral! Foi ela, a Rita, quem me apresentou o Engenheiro Roque, que era uma homem muito belo e incerto acerca da sua sexualidade. Ele era definitivamente homosexual, mas tentava enganar os outros e a si próprio, mas sem realmente conseguir enganar fosse quem fosse. Foi ele que depois me confiou o trabalho de fazer as vitrinas do cinema Império e mais algumas botiques das Avenidas Novas. Tentei várias vezes seduzi-lo - ele passava as noites todas no Tique-Taque, a tentar seduzir o Tété, e estou quase certo que o Tété lhe fez o gosto ao dedo! E a outras coisas. - mas ou eu talvez não era o seu tipo de homem - não bom que chegasse para as suas sedas - ou receava que “se viesse a saber"”. Os tais tabus altamente hipócritas impostos por uma intransigente sociedade. Alguns dos portugueses que censuravam esta, como eles diziam, ultraje à masculinidade, alguns deles os apanhei nos parques de Lisboa em busca da realização dos seus “tão degradantes” fantasmas.

Eu continuava doentiamente enfatuado com o Tété mas não ousava deixar transparecer os meus sentimentos, temendo perder o meu emprego, e todo qualquer outro contacto com esse homem que eu idolatrava. A única solução para mim era trabalhar. Trabalhar para ganhar mais umas patacas e para que quando eu caísse à cama adormecesse imediatamente e não ter tempo sequer de apenas desejar ter o meu Tété ali a meu lado, beijar a sua boca, senti-lo nos meus braços, morder-lhe aquele lindo nariz arrebitadinho que me punha louco. Eu sabia que nunca realizaria aquele meu tão grande desejo que tinha de o esmagar sob o meu corpo, penetrá-lo até à raiz do meu sexo sempre brandindo por ele. Assim eu inventava trabalhos suplementares para me impedir de ter tempo de pensar nele nem na minha absoluta condenação a ter que abdicar ao seu amor, ao seu corpo, à sua vida. Só me autorizava certos delírios solitários!

Entretanto o Tété e a Rita tinham-se mudado do Rato para aquele moderno prédio cor-de-rosa do Areeiro. Depois de lhes ter nascido a Anaís - a única flor a despontar daquela estranha união entre a Rita e o Tété - precisaram de mais espaço. Anaís quase que cresceu no Tique-Taque. Ela era um bebé absolutamente fora deste mundo. Era um encanto vê-la vaguear entre aquelas cadeiras todas do Tique-Taque.

Uma noite eles quiseram ir a uma grande festa na Embaixada de Israel em Lisboa e, como era o meu dia de folga, pediram-me para eu ir tomar conta da Anaís nessa noite. Nessa noite, antes de partirem, o Tété pôs à minha disposição o seu mini-bar e toda a sua biblioteca. Passei esse serão, até muito tarde, e visitar a sua vasta biblioteca muito rica em livros de arte e de ballet. Entre esses livros, encontrei alguns álbuns de fotografias da família e passei todo esse serão a ver o meu Tété crescer. Haviam fotos dele desde o berço até aos dias de então. Também vi muitas fotografias da Rita, que tinha nascido na Áustria e crescido em Lisboa, pois que para fugirem ao nazismo, os pais dela tinham vindo procurar abrigo nesta cidade, onde abriram aquele negócio de malhas na Visconde Valmor A Anaís não acordou uma única vez. Fui eu que tive de ser acordado quando eles regressaram da festa da Embaixada porque, depois duns whiskies e de ter fechado o último álbum, também, sem querer e sem dar por isso, adormecera.
Eles vinham um tanto “alegres” e acharam muita graça ao facto de eu ter adormecido. Deram-me uma gratificação e eu segui para a Guerra Junqueiro a imaginar o Tété meio embriagado, meio despido, esperando por mim na minha cama meia desfeita...

O Tique-Taque começou a ser frequentado por uma bela senhora da alta que, fizesse frio fizesse calor, andava sempre de casaco de peles. Ela era uma mulher muito bonita e cortejada. Claro que o Tété já a tinha frequentado no 26 Rua Feio Terenas, onde ela habitava. Ela tinha um grande apartamento com uma enorme sala. Penso que o pretexto do Tété para estar com ela foi alugar essa sala como seu escritório privativo. Era evidente que essa senhora, a Dona Maria de Lurdes, se aproveitou dessa desculpa para o levar para a sua cama.
A Dona Maria de Lurdes abriu uma pequena Casa de Chá na avenida de Roma, mesmo em frente do Cinema Roma, a que chamou “Anastásia”. Era apenas, à entrada, um pequeno balcão com muitas doçarias. As mesas eram no primeiro andar, depois de se ter subido uma pequena escada de caracol. Como ela sabia que eu estava livre até às cinco, pediu-me para eu a ajudar na sua Casa de Chá. Aceitei com muito gosto. Eu precisava de estar ocupado o tempo todo para não pensar no meu secreto amor proibido. Ela não me propôs nenhum ordenado. Era apenas as gorjetas e, como eu pagava uma soma bastante elevada pelo meu quarto na pensão, ela propôs-me eu deixar a pensão e vir viver em casa dela, pois que tinha um quarto disponível. Aceitei com ambas as mãos, ambos os pés, ambos os olhos, ambos tudo que eu tinha e ainda tenho neste meu corpo sempre tão acordado para tudo o que me possa ainda acontecer, mesmo que apenas por caridade.

Mudei-me para a Rua Feio Terenas carregando a minha mala com meia dúzia de trapos. Quase toda a minha vida vivi sem grandes bagagens. Eu pressentia que queria viajar e correr mundo, e que as malas seriam sempre um empecilho. Instalei-me nesse quarto, mesmo em frente da grande sala. Ao lado do meu quarto havia o quarto da Maria, a sua criada, que era a casa de jantar. Ao lado da casa de jantar era o quarto da Maria de Lurdes, que passava os seus dias na cama com o telefone na mão a falar sabia Deus com quem, e que só se arranjava à noite antes de sair para ir jantar fora com algum amante e só voltava de manhã para ir para a cama e voltar a pegar no telefone. Achava aquele ritmo de vida muito estranho e pouco saudável. Eu passei algumas noites na sala a ler e a escrever. Foi nessa sala que eu escrevi um poema intitulado “A Sala”. Um poema que, numa noite dum desejo abrasador do ter o Tété nos meus braços tive de desabafar, verter esse grande amor sobre o papel indefeso.

Havia também, no corredor, frente à cozinha, um outro pequeno quarto, onde dormia o Manuel, um garoto que ela tinha adoptado da Casa Pia quando o marido dela tinha pedido o divórcio e levado consigo o seu filho, o Nuno, que vivia com os avós paternos, mas que vinha sempre passar um dia com a mãe, de vez em quando. O Manuel era uma espécie de criado para todos os serviços. Ele era um mocetão um tanto pilante, mas muito apetitoso. Tudo correu muito bem até que um dia a Maria, que andava a trabucar com o Manuel, começou também a querer fazer umas horas extraordinárias comigo. O Manuel apercebeu-se das manobras da Maria e, uma manhã, pôs-se a correr atrás de mim com um facalhão da cozinha. Como o corredor era longo e logo ao fundo havia a porta de entrada que do interior era a porta de saída, pus os pés a caminho e só parei no Tique-Taque. Foi a única maratona que ganhei nos meus Jogos Desolímpicos!

Desesperado, sem saber onde arrumar os ossos nessa noite, lembrou-me de ir a uma Papelaria ali na Praça de Londres, onde costumavam pôr anúncios para vender ou alugar montanhas de pequenas coisas. Dei lá um salto, percorri todos os anúncios e dei com uma quarto para alugar numa casa particular, na Avenida de Madrid, mesmo por trás do Cinema Roma. Bati à porta da senhora. Ela mostrou-me o quarto, um quarto muito aprazível com janela para a rua. O quarto agradou-me e eu agradei à senhora. Paguei um mês adiantado e foi o Tété que no dia seguinte me trouxe os meus tarecos de casa da Maria de Lurdes.

A SALA

De que me vale estar inerte na carpete
Ao canto da sala em ébria prostração
Como alguém tentando desesperadamente
Alhear-se da sua própria solidão?
De que me vale que a luz seja irreal
E as velas amarelas
E que a lua penetre diáfana pelo cortinado
A encher a sala de um belo tom azulado
Se em nada me ilumina esta imensa escuridão?
Que me importa que a música seja de sonho
E que chegue até mim numa carícia
Se não tenho ninguém a meu lado
A quem possa transmitir
Este frémito do meu corpo masturbado?
De que me valem cigarros ardendo mansamente
A crepitarem docemente junto aos meus ouvidos
Se tudo é ermo e vácuo em meu redor
Um redor onde me perco
Sem sequer tentar encontrar em mim
O que há em mim de melhor?
De que me vale recordar noites e noites sem fim
Uma voz que deixei de ouvir
Se não consigo deter em mim
Este desejo de partir?
Vou deitar mais vinho no meu copo
E pôr outro disco a girar
Acender outro cigarro e encher de fumo a sala
Falar sozinho para crer que estou acompanhado
E cobrir meus lábios sequiosos
Com meus próprios pulsos
A fingir que alguém me veio beijar.

Soprem as velas abram todas as janelas
Deixem o fumo sair e a noite alagar-me
Apaguem-me os cigarros e levantem-me do chão
Quebrem-me todos os discos e todas as garrafas
E beijem-me longamente para eu adormecer.
Mas não pensem que vou assim esmolar
Pela vida fora -aqui ali e mais além -
Não!
E se o telefone tocar se o telefone tocar
Eu não estou não estou para ninguém!
Rogério do Carmo
Lisboa, 16/10/1953

samedi 15 août 2009

A Pensão Areeiro

Para mim era verdadeiramente um luxo morar naquela pensão ali mesmo no Areeiro, uma das pérolas das avenidas novas. O supra-sumo da alta sociedade lisboeta desses tempos, para aqueles que ainda não tinham casa em Cascais. Os outros hóspedes eram realmente muito arrogantes e olhavam-me indiferentemente como se eu fosse lixo que devia ser deitado fora. Eu não pertencia ali naquelas altas esferas. Eles se calhar tinham sido natos e criados no Bairro da Lata, ali em Campolide, mas ambicionavam mudarem-se para o Palácio de Queluz o mais rápido possível! Entretanto teriam de se contentar com a Pensão Areeiro, ali nas Avenidas Novas! Já era qualquer coisa. Isto até poderem comprar casa em Cascais ou na Malveira da Serra! Eu também não lhes passava cartão nenhum. Achava-os lamentavelmente pirosos.

Houve porém, um incidente curioso. Quando eu chegava “a casa” deitava sempre uma vista de olhos pelo bengaleiro instalado logo no hall de entrada, onde a “patroa” costumava pôr o correio recebido para os seus distintos hóspedes. Um dia vou rebuscar as cartas todas para ver se havia alguma para mim e esbarro com uma de costas para cima, com a morada do remetente. Ora o remetente dessa carta era o do João Paulo Santiago, de Leiria. O meu velho amigo doutros tempos! Fiquei excitadíssimo! Pego na carta e vou a correr para o meu quarto e abro-a ansiosamente para ver qual a razão o João Paulo me tinha escrito, e como tinha ele sabido da minha morada. Começo a ler essa carta que começava assim:

“Caro Zé:”

Imediatamente compreendi que, por lapso, tinha entrado na vida dos outros! Volto o envelope e vejo que a carta tinha sido endereçada ao:

“Exmo. Senhor José Maria de Sá Caetano”

Repus a carta dentro do seu envelope e vou em busca da “patroa” para lhe explicar o que se tinha passado. A senhora dona “patroa”, pega na carta e disse-me que esse senhor habitava o quarto ali mesmo ao lado do meu. Pedi-lhe que lhe entregasse a carta com as minhas desculpas pelo meu engano. A senhora bateu à porta desse quarto e como não obteve resposta, meteu a carta por baixo da porta. E assim a assunto parecia ter ficado arrumado.

Dias mais tarde alguém bate à minha porta e apresentou-se como sendo o Exmo. Senhor José Maria de Sá Caetano. Pedi-lhe imensa desculpa e ele pareceu muito surpreendido de termos um amigo em comum: o João Paulo Santiago! Convidei-o a entrar e ofereci-lhe a única cadeira que tinha no meu quarto, a tal de dois braços , junto à janela, para onde eu atirava todas as noites a minha roupa para cima, quando, muito estafado, a altas horas da noite, voltava do Tique-Taque e me despia para ir para a cama!

Ele acomodou-se e eu sentei-me numa das esquinas da minha cama. Ele pareceu-me ser um homem muito reservado, um tanto distante, como se não tivesse mesmo nada a ver comigo. Um pouco como todos os outros hóspedes, simplesmente, entre nós dois havia algo de maior ou menor importância: ambos éramos amigos do João Paulo! Ele acomodou-se um pouco mais confortavelmente na sua cadeira de braços, disse-me que era de Leiria, e que era um grande amigo do João Paulo. Donde é que eu o conhecia? Disse-lhe que o conhecera em Mafra, onde ele fizera a sua tropa. Conversámos um pouco sobre esse estranho incidente e quando pareceu não haver mais nada a dizer, ele desculpa-se dizendo que trabalhava no Aeroporto da Portela, na Torre de Controlo, e que tinha de pegar o serviço dentro de uma hora. Apertou-me a mão e saiu apressadamente para não chegar tarde ao seu posto de muita responsabilidade nessa torre.

Depois deste encontro ainda esbarrámos um contra o outro na casa de jantar e algumas palavras foram trocadas. Uma vez falou-me dum projecto do João Paulo de deixar Portugal para se instalar na Rússia, se bem me recordo. Essa nossa passageira amizade foi de pouca dura mas, mesmo assim, um dia ele apresentou-me uma bela loira, a Berta, com quem tencionava casar muito em breve. Ela era uma rapariga encantadora, muito aberta e sociável. Um pouco do contrário do Zé, como comecei a tratá-lo. Eu não compreendia muito bem a personalidade do Zé. Ele parecia-me vítima dum complexo de superioridade mas, a meu ver, aquele complexo de superioridade era talvez a mascarar um outro complexo ainda muito mais complexo: o de inferioridade. Um pouco como os homens de pequena estatura que se dão grandes are a tentarem disfarçar a sua pequenez. O Zé não era nem grande nem pequeno, era um homem de estatura normal mas, não sei por que carga d’água, não se sentia bem dentro da sua pele. A verdadeira razão nunca a vim a saber.

Muitos anos mais tarde viria a reencontrá-lo em Londres, de ter gozado a sua hospitalidade, enquanto eu não encontrava casa própria. A Berta continuava encantadora, mas desta vez muito morena e um nadinha mais redonda. Eles tinham-se casado em Portugal e depois seguido para a Inglaterra em busca de melhores oportunidades. Eles tinham um filho aí dos seus dois anos que se chamava Paulo. Paulo era um miúdo tão divinamente encantador que lhe chamávamos Papu. Ele começou a ser o meu Papuzinho e Pauzinho ficaria para o resto da minha vida!

O nosso convívio não durou muito porque o meu quarto na Pensão Areeiro me custava uma pequena fortuna e decidi procurar quarto algures menos dispendioso. Acabei por encontrar um belo quarto numa outra pensão um pouco mais modesta e muito menos dispendiosa, na avenida Guerra Junqueiro.

A partir do dia em que deixei a Pensão Areeiro nunca mais tive qualquer contacto come o Zé, até essa data em Londres. Porém, nessa muito decente pensão da Guerra Junqueiro comecei a receber as visitas da Balbina, a minha querida Silvina. Mas como era uma pensão muito decente, não me autorizaram a receber mulheres no meu quarto e assim os meus encontros coma Balbina passariam a ser em Restaurantes, Cafés, e Cinemas. A Zinha vinha com frequência passar os meus dias de folga comigo. Não recordo exactamente qual o dia da semana, mas parece-me que eram as quintas-feiras. Ora, como eu não estava autorizado a receber mulheres no meu quarto, comecei a receber gajos que engatava na Praça de Londres. Mas depois de alguns corpo a corpo às escuras no meu quarto, também me proibiram de receber homens! Moralidade da história, em Portugal, nesses dias, era-se preso por ter cão e preso por não o ter! Recordo uma noite ter dado uma grande gargalhada ao pensar que talvez nessa pensão não fossem autorizadas mesmo as masturbações. Isto para não dizer punhetas!

Logo a seguir pensei:

Oxalá não seja também proibido rir neste país retrógrado! Eu quase que fugira de Mafra para me libertar das mentalidades dos mafrenses, escravos do que os vizinhos podiam pensar ou dizer, amarrados a tradições dos tempos da Maria Cachucha!

Gradualmente começou a alojar-se na minha mente um desejo renitente de mudar de país, mudar d’ares, mudar de culturas, mudar de língua, mudar de roupagens, mudar de vida!

Ir morrer longe!

vendredi 14 août 2009

A Clementina
















Foi então que realmente comecei a conhecer Lisboa. E a melhor maneira de conhecer esta então tão bela cidade, era fazê-lo a pé! E a pé a fiz quase toda. De baixo a cima, de lado a lado! Assim entre mim e Lisboa nasceu mais outra história de amor! Era a única grande cidade que eu começava a conhecer e a amar, considerando-a a mais bela do mundo inteiro. Isto antes de todas as outras que depois vim a conhecer e a amar também.
Mesmo assim Lisboa, na minha memória, continua a ser a minha cidade, embora me tenha depois apaixonado por tantas outras. Mais uma vez provei a mim mesmo que eu não era fiel a um só amor. O amor para mim era essencial. Eu queria amar todas as pessoas que passavam por mim sem me aperceber que eu era apenas uma cabeça tonta! Como dissera um dia a Florbela Espanca, eu queria amar este, aquele, o outro e toda a gente! Amar só por amar e não amar ninguém!

No Tique-Taque tudo corria pelo melhor. Ainda por cima, o senhor Jaime, aquele paternal homem que me ensinou a andar na Tentadora e a defender-me na vida, foi transferido também para o Tique-Taque e, assim, tinha a quem me apoiar nos momentos mais difíceis. Ele começou a personificar a imagem dum pai atento que nunca realmente tivera.
Como tinha muito tempo livre comecei a tentar integrar a vida lisboeta e descobrir assim todos os cantos e recantos belos e verdejantes de Lisboa. Um desses espaços, o Parque Eduardo VII que além de verdejante também me ofereceu algumas verdejantes aventuras por entre os buxos. Tudo começara naquela esplanada onde tinham um lago com cisnes. Nessa esplanada viria eu um dia a trabalhar como criado de mesa só duas semanas, quando duma passagem dolorosa da minha vida. Gostava desse trabalho mas fui despedido por suspeitarem que a minha sexualidade não estivesse dentro das ordens patriarcais!

Entretanto, sempre em contacto por escrito ou telefónico com as manas de Montachique, fui informado que as manas também tinham todas vindo para Lisboa trabalhar, e que habitavam as três num quarto particular ali na Martins Sarmento. Uma noite, no dia da minha folga, fui visita-las. Fiquei surpreendido de ver todas as três a compartilharem um quarto com a filha da dona da casa. Era um pequeno rés de chão com apenas uma cozinha e dois quartos. A dona da casa era a Dona Maximina - que viria a ser muito minha amiga - vivia com muitas dificuldades financeiras, pois que ela não trabalhava, e o seu marido tinha um ordenado mais que modesto. O quarto de passagem era o quarto da dona Maximna e marido, e o segundo quarto, a única janela que havia nessa casa, dava para a rua, era o quarto das miúdas. Ela tinha uma filha, a Clementina, a quem chamavam a Lica. A Lica e eu engraçámos um com o outro e assim começámos a fazer escapadas só nós dois. Costumávamos ir às matinés do São Jorge e do Cinema Império. Quase sempre nos sentávamos num pequeno Café ali na Praça do Chile a namoriscar e a fazer planos de futuro. Assim, pouco a pouco começámos a conhecer-nos todos os dias um pouco melhor. Devagar nos apercebemos que eu andava apaixonado pelo patrão e ela pela sua médica. Isso ainda nos uniu muitíssimo mais. Um dos nossos projectos feitos nesse pequeno Cafezinho ali na Praça do Chile, foi de, para nos proteger da Sociedade - como fizeram e ainda fazem muitos portugueses - casarmo-nos para que a burguesa sociedade portuguesa nos deixasse em paz. Essa sociedade que ainda não compreendeu que as nossas tendências sexuais não foram escolhidas por nós próprios, mas sim pela natureza! Como me viria a explicar mais tarde o Dr. Tom, em Londres, que eram as nossas hormonas que o decidiam. Que temos hormonas masculinas e femininas que nos percorrem o corpo todo mas, como tudo o que vive e mexe, elas se comem umas às outras e que, no meu caso, eram as hormonas femininas que eram as mais glutonas e, assim, eram elas quem comandavam os meus desejos. Que ele próprio era bissexual e respeitava ambas as ordens dadas. Que assim, quando eram as hormonas masculinas mais comilonas ele desejava o sexo oposto, mas quando as hormonas femininas eram mais desembaraçadas, nesses dias ele preferia o mesmo sexo.

Maliciosamente olha-me nos olhos e declara:

- Look! Right now I feel very much like making love with you... would you like me to?

A minha resposta foi deixá-lo despir-me e foi ali sobre a sua marquesa que tudo se passou! Isto depois dele correr as cortinas da sua janela que dava directamente sobre o Primrose Hill Park, ali em Chalk Farm.
Depois, sempre que me apetecia repetir o evento, bastava-me telefonar-lhe dentro das suas horas de actividade profissional e perguntar-lhe quem tinham sido as hormonas mais gulosas nesse mesmo dia. Ele invariavelmente respondia:

- Do not worry! Just come along and find out!

Moralidade da história, umas vezes era ele a fêmea, e outras o macho. Mas, como ele um dia me disse:

You too you are bisexual! You like giving and taking!

***
Quando comecei a organizar a minha viagem até Israel Clementina prometeu ir ter comigo a esse país, afim de vivermos juntos essa grande aventura. Porém isso não aconteceu. Ela deixou-se subjugar por uma das manas e nunca arredou pé! Hoje ela encontra-se acamada com Alzheimer, ali naquele pequeno apartamento em frente do Instituto Português de Oncologia, onde ela trabalhou toda a sua vida até à reforma. Tão injusto! Uma mulher que dedicou toda a sua vida a tratar dos outros, agora é ela, ali acamada, à espera dalgum toque de clarim, que precisa que tratem dela! Nunca perdoarei ao que quer que seja que rege os nossos destinos, essa infame injustiça! A última vez que a vi, já lá vão uns tempos, ela ainda me reconheceu e ainda conseguiu balbuciar:

-Rogério...não mudaste! Ainda estás a 100%!

Quanto à dona Maximina, a quem tinha confiado à sua guarda dezenas de retratos que eu tinha desenhado em papel Cavalinho de artistas de cinema, escritores portugueses, e tantas coisas mais, que eu não podia acartar comigo para Israel, um dia ela, pensando que eu nunca mais regressaria a Portugal, deitou tudo fora!
Hoje considero esse gesto a maior perda e toda a minha vida onde tanto ganhei e tanto perdi!

jeudi 13 août 2009

O Tique-Taque


A minha grande aventura em Lisboa acabara de começar !
Voltei para o Cacém no próximo combóio e fui a correr falar com o Mestre Zé! Ele mostrou-se entusiasta! Que seguisse o meu destino em Lisboa. Que lá, certamente, conseguiria realizar-me artisticamente, que nas malhas nunca sairia da cepa torta.

Escrevi uma carta ao senhor Luís Ferreira dizendo que estava à sua disposição e dando-lhe o número de telefone da fábrica das malhas.
Três dias depois ele telefona-me para me dizer que viesse logo que pudesse. Disse-lhe que o meu primeiro problema em Lisboa seria encontrar quarto onde me acomodar. Ele assegura-me imediatamente que isso não era problema, que havia ali mesmo em frente uma pensão e ele reservaria um quarto para mim. Disse-lhe que teria de esperar pelo fim do mês para poder deixar o meu posto na fábrica e ele disse-me que estava bem, que reservaria o meu quarto a partir do dia um do próximo mês.

Assim ficou combinado!

Depois de ter terminado o meu mês e ter recebido o meu último ordenado do Mestre Zé, agarro mais uma vez na minha já tão viajada maleta e ponho os pés a caminho da minha grande odisseia de conquistar Lisboa e o Teatro e o Cinema!.
Chegado ao Rossio, como tinha uma mala um tanto pesada, apanhei um táxi até à Silva Carvalho. Vou falar com o senhor Luís e ele chega comigo à porta da Tentadora e aponta-me logo ali na Rua Domingos Sequeira, a terceira porta à esquerda, a tal Pensão no terceiro andar. Peguei na minha mala e subi a esse terceiro andar. Um pequeno problema me aguardava. Eles não tinha nenhum quarto disponível e puseram-me num divã na marquise.

Comecei o meu trabalho ao balcão da Tentadora a vender bolos e a servir às poucas mesas a um canto, e mais duas ou três em cima do passeio. Foi o responsável da Tentadora, o senhor Jaime, um homem simpatiquíssimo, que me encaminhou nos meus primeiros passos na Tentadora. Falei-lhe do meu problema de quarto e ele garante-me que isso não era problema, pois que dentro de dias eu seria transferido para o Tique-Taque, na avenida de Roma, que fosse logo que pudesse ver uma certa pensão duma amiga dele, ali no Areeiro, que era muito perto do Tique-Taque. Que essa pensão se encontrava no quinto andar dum prédio cor-de-rosa, muito moderno, com uma grande torre. Foi o que fiz. Como o meu dia de folga era às segundas-feiras, nesse meu primeiro dia de folga apanho um eléctrico para o Rossio e na Praça da Figueira apanhei outro eléctrico para o Areeiro.

No Areeiro não me foi nada difícil encontrar a morada. Subi ao quinto andar mas a senhora proprietária não tinha quartos vagos. Que experimentasse no prédio ao lado, também no quinto andar, esquerdo, que talvez a senhora tivesse um quarto disponível. Dei lá um salto e a senhora não tinha nenhum quarto, mas que eu deixasse um telefone onde eu pudesse ser contactado, que ela me telefonaria logo que tivesse uma vaga. Foi o que aconteceu uns dias depois. Ao fim da tarde dei lá um salto e paguei-lhe um mês adiantado pelo meu quarto. Mudei-me logo no dia seguinte. Estava farto dormir com os pés de fora daquele divã naquela gélida marquise. Expliquei as coisas ao senhor Luís e ele resolve enviar-me imediatamente para o Tique-Taque, onde o seu filho, o Tété, já por lá andava a fazer os preparativos para a abertura do Snack-Bar. Fiquei logo ansioso de lá chegar e rever o meu Tété que tanto me tinha ficado incrustado no meu pensamento.

Esse maravilhoso dia chegou. Dormi na minha boa cama naquele meu quase luxuoso quarto da Pensão Areeiro. Nessa manhã, depois de ter tomado o meu pequeno-almoço na sala de jantar dos hóspedes, segui a pé até ao Tique-Taque. Eram quase nove horas quando cheguei ao meu posto. Fiquei deslumbrado com o modernismo e o luxo do Tique-Taque. A porta estava entreaberta e verifiquei que andavam lá muitos operários a trabalhar na decoração e mobiliário. Entrei e pedi para falar com o patrão. Não ousei dizer ao Tété! Um senhor engenheiro qualquer, que parecia ser o responsável daquelas obras todas, disse-me que o senhor Melo estava lá em cima no primeiro andar mas, mesmo antes de terminar a sua frase, oiço uma voz muito musical que me vinha lá de cima. Não do céu, mas do primeiro andar. Olhei para cima. Havia lá uma balaustrada na qual se debruçava aquela criatura fora de série a que chamavam Tété.

Ele grita lá de cima:

- Olha quem aqui está! Já estava à sua espera! O meu pai telefonou-me a anunciar-me a sua vinda! Suba!

Subi. Estendi-lhe a mão porque não ousei estender-lhe os braços. Os seus olhos muito pretos lançavam-me faíscas de um presumível pessoal contentamento. As suas mãos muito brancas e longas eram como eu imaginava as mãos dum anjo, mas o seu sorriso não tinha nada de angélico. Havia uma mistura de malícia e convite a pôr-me à vontade, como se estivesse interessado mais na minha pessoa do que da minha servidão.
O primeiro andar já estava completamente mobilado. Ele sentou-se numa cadeira e convida-me a seguir o seu exemplo. Sento-me na sua frente e encaro aqueles tenebrosos olhos corajosamente. Apesar de tudo eu agora receava-o um pouco. Primeiro porque ele agora era meu patrão, segundo porque teria de enfrentar essa dolorosa luta de não poder desvendar-lhe os meus sentimentos. Eu sentia um grande amor a despontar em mim...

Ele quebra o silêncio como uma simples pergunta:

- Como é que você se chama?

- Rogério, senhor Melo!

- Não me chame senhor Melo. O meu nome é José mas pode chamar-me Zé. É o que toda a gente me chama, além do Tété lá em casa!

Eu passaria a chamar-lhe senhor Melo mas por detrás do meu inviolável segredo ele era e sempre seria o “meu” Tété!

Tété começou a falar do que seria o meu trabalho. O meu trabalho seria ali no bar memo a nosso lado para servir clientes e atender as encomendas dos criados de mesa. Explicou-me que no segundo andar era o restaurante, e que a cozinha se encontrava nos rés de chão. Havia aquele ascensor ali no bar que ia do bar até à cozinha. Os criados viriam ao bar com as suas encomendas de pratos escritas sobre um cupão em duplicado, e que eu tinha de guardar o duplicado e enviar o original pelo ascensor para a cozinha e depois aguardar que os pratos me fossem enviados pelo mesmo ascensor e entregá-los aos respectivos criados. Igualmente que, como no bar haviam lugares sentados, teria também de servir os clientes que viessem ocupar esses lugares.

Depois levantou-se e ofereceu-se para me mostrar o resto das instalações. Subimos ao segundo piso, apenas cinco degraus, e aí era uma longa faixa de alcatifado, uma espécie de longo e largo corredor onde as mesas eram todas encostadas às janelas que davam para a rua. O primeiro piso era apenas o Bar e aquelas algumas mesas com cadeiras à volta. Depois mostrou-me o rés de chão onde havia um longo balcão com grandes vitrinas onde seria exposta toda a pastelaria fabricada na Tentadora. Três degraus mais abaixo havia outro balcão para as carnes frias e uma grande cozinha onde os chefes iriam trabalhar das nove da manhã até às duas da noite. Perguntei-lhe quando era que eu começaria, e ele diz-me que dentro de dois três dias, mas que, entretanto, eu podia dar uma mãozinha aos decoradores.

E assim foi! Três dias depois o Tique-Taque abriu as suas portas à sua futura muito vasta clientela. No dia da inauguração veio a imprensa, muitos convidados, tudo gente muito importante, e um reboliço danado. Eu não estava sozinho no Bar, tinha a ajuda dum outro rapaz que me seria apresentado como o chefe do Bar. Ele chamava-se Joaquim e era um tanto arrogante, talvez temendo a responsabilidade do seu posto. Eu senti-me como se já tivesse ali trabalhado muitos anos! Sentia-me perfeitamente à vontade, como se estivesse na minha própria casa! Tudo me entrou na cabeça como se eu tivesse nascido para trabalhar naquele Bar da Avenida de Roma.
A festa arrastou-se até altas horas! Nessa noite, depois da porta fechada, fui a pé até ao Areeiro para me meter na minha boa cama que me aguardava, mas fui quase de rastos. Nunca me tinha sentido tão cansado na vida. Foi um longo e duro dia de trabalho, mas que bom era eu sentir que tinha um bom emprego em Lisboa e que logo que a minha rotina se tivesse estabelecido, eu poderia pensar em talvez frequentar uma escola de teatro! Eu iria trabalhar todos os dias das cinco da tarde até às duas da manhã. Assim teria quase o dia todo para descobrir Lisboa e todas as oportunidades que essa cidade me poderia talvez oferecer.
A primeira teria de ser o Teatro e o Cinema!