jeudi 16 juillet 2009

Na Mata











Em vez de atravessarmos a ponte, Profírio teve uma brilhante ideia e fomos até à floresta ali mesmo em frente e demos um grande passeio pelo matagal.
Passámos horas e horas a deambular naquela bonita manhã de Outono. Nessa mata, nessa bonita manhã soalheira, teria sido a ocasião, o dia, o sítio ideal para um pequeno intercâmbio dos nossos mais íntimos desejos, mas a única coisa de que vagamente se falou foi dum desafio de futebol entre o Benfica e o Sporting, que tínhamos escutado na rádio no passado domingo à tarde. Ele era adepto do Sporting e só falou do Peyroteu e eu era um Benfiquista ferrenho e só falei do Rogério. Uma pequena disputa ligeiramente nos assolou. Eu gostava muito do Rogério porque ele tinha o meu nome, porque era muito bonito e, sobretudo, um grande avançado-centro. Não tinha nada contra o Peyroteu, que também era um apreciável bonito latagão!

Foi nessa verdejante floresta que ele me fez duas fotografias que depois me enviaria pelo correio. São as duas únicas lembranças sólidas desses dias passados na Figueira e na Gala com o Profírio.

O pequeno almoço











De manhã fui acordado pelo Profírio que me veio trazer o pequeno-almoço numa bandeja. Era um púcaro de café preto e pão saloio com doce de tomate caseiro. Ele vestia apenas uma camisola interior e umas cuecas de chita bege com quadradinhos azuis e amarelos, que lhe tinha feito a sua mãe. Solto, dentro desses banais calções, algo de suspenso, de oscilante, que atraia a minha atenção como um íman desmesurado. Mistérios que eu tanto queria desvendar!

Ele sentou-se a meu lado e amparou-me a bandeja enquanto eu me regalava com o meu pequeno-almoço na cama, a primeira vez que tal coisa me acontecia na vida. Poucas palavras foram trocadas, mas uma vaga sensação de profundo desconforto pairava no ar. Penso que ambos estávamos mortos por cair nos braços um do outro mas nenhum de nós ousou dar o primeiro passo.

Depois ele saiu do quarto com o tabuleiro e, voltando-se ligeiramente para trás, disse-me que a casa de banho era lá em baixo no primeiro andar, que me arranjasse, que iríamos dar uma volta.

Preguiçosamente empurrei a roupa da cama. Com um bocejo assentei os pés nus sobre o pequeno tapete feito de tirinhas de pano, que decorava lindamente aquele soalho que, de joelhos, fora certamente copiosamente esfregado com sabão amarelo comprado na mercearia em frente.
Ergui-me, espreguicei-me sensualmente, abri a janela de par em par para arejar um pouco o quarto. Dei uma curta vista de olhos sobre Gala, que me pareceu não sei se ainda adormecida, se já morta. Nem uma viva alma! Mesmo a mercearia em frente ainda estava fechada!

Despachei-me, fiz a cama, arrumei as minhas coisas no pequeno armário ao pé da janela, vesti-me e desci para ir lavar a cara e os dentes, embora que na minha mansarda houvesse um lavatório com um sabonete, duas toalhas, um jarro com água e um pequeno espelho oval.
Ao chegar ao rés-do-chão, Profírio tinha-se já barbeado e penteado os seus loiros caracóis. Pacientemente aguardava-me sentado no degrau da escancarada porta de entrada que dava para o jardim. Quando me viu, levantou-se e disse-me que eu estava muito bem aperaltado. Ele também não tinha que se lamentar. Estava muito capitoso nas suas calças de ganga bastante justas, a evidenciarem as suas belas coxas e um generoso conteúdo perto da braguilha, que me davam mais vontade de o levar para a cama do que ir dar uma volta. Profírio pegou nas chaves e fomos pela porta fora à procura de um pouco mais da Figueira.

Praia da Claridade











Depois fomos até à praia com a sua famosa Torre do Relógio.
Fazia frio - era Outubro - não se avistava um único banhista. Apenas um escanzelado rafeiro vadiava triste e só, em busca de sabe Deus de quê!

Passeámos ao longo do mar e tirámos os sapatos para chapinharmos nas ondas que vinham mansamente morrer a nossos pés. Profírio voltara de novo a perder a voz e da sua boca não saía um único som. Só, raramente, um profundo suspiro. Delicadamente agarrei-lhe na mão e pedi-lhe que se abrisse comigo, que eu era um amigo, não um vizinho. Ele olhou-me intensamente mas a sua boca continuou hermeticamente calafetada!

Depois voltámos ao labirinto das estreitas ruas da Figueira. Parámos para ver algumas vitrinas. Falou-me então do seu gosto pelas camisas e gravatas e roupas garridas, que em Coimbra andava quase sempre de capa e batina, que gostaria de viver em Lisboa, que na Figueira não havia nenhuma vida nocturna, que estava farto da Figueira, que só no verão havia alguma animação!

Decidimos regressar a casa, onde o jantar já estava pronto e a mesa já posta. Comemos na casa de jantar com a mãe, que provou ser uma boa cozinheira, pois que a sua dobrada estava óptima! Profírio disse não gostar de tripas, que eram os intestinos do gado e que o gado estaria melhor a pastar lá fora nos prados que no seu prato! Aí as nossas almas fundiram-se uma na outra, fulminadas por essa lógica filosofia. Aquelas palavras eram o eco do que eu estava justamente pensando nesse mesmo momento. O meu grande amor pelos bichos, por tudo o que se move e luta pela sobrevivência. Um grande mal que eu acartava desde esses traumatizantes tempos do Sobreiro, quando da matança do porco do Pedro da Relva.

Fomos para a cama cedo, tomando em conta que eu tinha feito uma longa viagem e que me tinha levantado ao alvor do dia. Nessa noite dormi que nem uma pedra sobre aquele barulhento colchão de carapelas da água furtada. Da rua não vinha um único ruído. Era só a casa dele e a mercearia em frente e umas casotas de madeira onde, penso, vivia gente. Aquilo nem era uma rua, era como um pequeno largo onde se esqueceram de construir algumas casas à volta. Havia, do outro lado da estrada que continuava a ponte, algum casario, uma escola primária e uma minúscula Câmara Municipal, ao lado de um Centro da Cruz Vermelha. Nada de grandes tráfegos, nem um gato-pingado na rua!

A Passeata














Saímos do Café e fomos dar uma grande volta pelo centro da Figueira. Calcorreámos as pacatas ruas da cidade, que pareciam desnudas de transeuntes, apenas de vez em quando uma alma penada apressadamente nos cruzava. Parámos aqui e ali para ver montras, os cartazes do cinema, e uma grande praça com muitas lojas, restaurantes e Cafés à volta, cujo nome se esvaiu da minha pobre memória.

O Café da montra














Depois do lanche fomos dar uma volta para eu conhecer Gala. Apresentou-me ao seu vizinho merceeiro, dizendo que eu era um amigo dele dos seus tempos da tropa em Mafra. O merceeiro, muito surpreendido, afavelmente pergunta: “Ah! Você é o tal senhor que me telefonou há dias? Atão como foi essa viagem? Tá a gostar de Gala? Gala não é nada de especial mas é bom viver aqui!

Após termo-nos despedido do merceeiro voltámos a atravessar a mesma ponte e fomos até ao centro da Figueira e entrámos num Café para tomar uma cerveja e petiscar uns tremoços.
Todo esse tempo sentados à mesa perto da montra desse Café, Profírio falou-me de Gala, onde tinha nascido e crescido, onde o pai tinha perecido num acidente de trabalho - que a mãe tinha decidido fazer luto carregado até um dia se juntar a ele na mesma campa - que tinha feito todos os seus estudos na Figueira e que, estes findos, tinha seguido para Coimbra, para cursar advocacia.
Pedi-lhe que me falasse de Coimbra. Coimbra era uma cidade que me fascinava! A sua Universidade, o Choupal, o Penedo da Saudade, o Mondego, as serenatas dos estudantes, coisas de que os cadetes em Mafra tanto me tinham falado. Após ter visto o filme Capas Negras, ainda mais me apaixonei por essa pitoresca cidade. Falei-lhe também das Repúblicas dos estudantes, da Queima das Fitas, das tricanas... Aproveitei a deixa para lhe perguntar se ele tinha namorada na Figueira ou em Coimbra. A lacónica resposta foi:
“nem em Coimbra nem na Figueira, que era ainda muito novo para pensar em casamento”!
Insisti dizendo-lhe que eu não estava a falar de casamento, que estava a falar de namoradas, miúdas com quem sair, dançar, fazer amor. Profírio baixou seus lindos olhos cor de mel e refugiou-se instantaneamente na sua habitual inacessibilidade.

A casa dos pais










Caminhámos até à ponte, uma ponte não muito longa mas muito ventosa. Chegados ao fim da ponte, Gala estava ali mesmo à nossa espera. Foram aí uns vinte minutos de percurso. As minhas primeiras impressões foram que Gala era realmente apenas meia dúzia de casas desamparadas, adormecidas ali à beira da foz do Mondego.
A casa da mãe dele era ali mesmo à esquina, à entrada de Gala. Era uma pequena casa com um jardinzinho à frente e uma estreita porta com dois degraus e uma janelinha.
Entrámos! Profírio apresentou-me à sua mãe. Ela pareceu-me igualmente muito excitada com a minha vinda. Abriu-me os braços e um vasto sorriso rasgou-lhe a face. Pede-me para entrar, pôr-me à vontade, e mostrou-me a casa toda.
Em baixo tinham apenas a cozinha, a casa de jantar, uma pequena casa de fora e uma retrete. No primeiro andar haviam dois quartos, o quarto dela e o quarto do Profírio. O meu quarto era na pequena água furtada, apenas meia dúzia de degraus mais acima. Profírio subiu comigo e após me ter mostrado a minha minúscula mansarda com uma pequena cama perto da janela que dava para o jardim, tira-me a maleta da mão, pousa-a em cima da cama, e descemos para um pequeno lanche na cozinha, que a mãe nos tinha preparado. A mãe era muito mais extrovertida e expandiu-se fazendo-me dezenas de perguntas. Quando ela abria a boca aquilo era uma autêntica algazarra pela casa toda!

A Ponte dos Arcos











Eu não ia muito carregado, apenas uma lancheira com dois pares de peúgas, umas cuecas, uma toalha, alguns lenços e um pijama.

Ao descer do comboio, Profírio recebeu-me de braços abertos e quase um beijo. Era evidente que ele estava radiante de me rever e de ter realizado um dos seus insólitos sonhos dos seus tempos de tropa em Mafra.
Como habitualmente, muito reservado, mas a doçura do seu olhar e seu acanhado sorriso de contentamento transmitiram-me muito mais afecto do que eu esperava nas minhas receosas expectativas!

Muito cavalheiresco, pegou na minha pequena maleta e desculpou-se de não haverem camionetas da estação até Gala, que tínhamos de ir a pé! Isso não me inquietou particularmente, pois que tinha passado horas a fio sentado ao pé da minha janela, monotonamente vendo Portugal sucedendo-se ante os meus olhos, então ainda muito pouco viajados. Uma pequena caminhada só faria bem às minhas pernas um tanto entorpecidas pela inactividade de todo esse tempo à janela dum comboio, sem ninguém com quem conversar, falar da minha grande aventura, a minha primeira grande viagem de comboio.

À saída da porta da estação havia um velho calhambeque que aparentemente era o táxi lá do sítio. Ele perguntou-me se preferiria apanhar o táxi, mas que a caminhada era apenas atravessar a ponte! Preferi seguir a pé e descobrir aquele novo advento que se me deparava! Já não era só como ir do Café Estrela até aos Correios.

Pelo caminho ele pareceu-me um pouco mais palrador, menos introvertido, e não dissimulava o grande prazer que a minha presença lhe trazia!