samedi 6 février 2010

As Mil e Uma Clínicas Oportunistas



Foi neste apartamento que começaram para mim grandes problemas de saúde! A hemorragia tinha parado, mas continuava a ter que urinar quase todos os quartos de hora! Fui ver o meu médico - que por acaso era mesmo em frente da minha casa - e ele enviou-me com uma carta sua a uma clínica em Clamar, a dois passos de minha casa. Nessa clínica fui imediatamente internado e logo na manhã seguinte, depois de uma anestesia geral, fizeram-me o que eles chamaram, uma raspagem da bexiga! Depois da intervenção o cirurgião veio ao meu quarto pôr-me ao corrente do que se tinha passado. Que tinha feito não sei o quê, e que eu teria de ficar cinco dias com aquele tubo enfiado na uretra. Passados esses cinco dias voltei para casa, mas a necessidade de constantemente urinar, mantinha-se!

O tempo foi passando, e o problema continuava. Novamente o meu médico me enviou a outra clínica, desta vez em Paris. Fui ver o cirurgião no seu consultório privado, pagando 150€, que, depois de muitas perguntas me disse que a única solução era ser operado, mas que para isso teria de lhe pagar 400€ de "dépassement d'honoraires"! Na data combinada fui novamente internado nessa clínica parisiense. Uma vez mais cinco dias com um tubo pela uretra adentro e acima, mais cincos dias da hemorragia pós-operatória, e novamente, em casa, a necessidade de urinar persistia! Voltei a ver o meu médico e ele já não sabia nem o que dizer nem o que fazer!

Dias depois, no pequeno Café-Tabac onde eu ia todos os dias tomar um café e comprar tabaco, uma senhora veio sentar-se à minha mesa. Como era muito natural, começámos a conversar. Falou-se de tudo e mais alguma coisa e, às tantas, falei do meu problema de bexiga. Essa senhora perguntou o nome do meu médico. Quando lho disse ela eu um salto e disse-me que ele tinha sido o seu médico durante algum tempo mas, como ele não lhe parecia muito competente, tinha mudado de médico, e que este era muito competente! Deu-me a sua morada e imediatamente marquei consulta com ele!

Carregando comigo todos os "dossiers" possíveis e imaginários, lá foi à única consulta que tive com o médico dessa senhora. Não fui lá muitas vezes porque era mais longe e sou um grande preguiçoso para me deslocar a pé. Depois de uma meia hora na sala de espera, saiu uma senhora e quase logo a seguir ele veio convidar-me a entrar no seu gabinete. A sua sala de espera e o seu gabinete desiludiram-me um pouco. Havia teias de aranha perto do teto e um óbvio desleixo. Sentado na sua frente, aguardei uma longa meia hora que o doutor percorresse cuidadosamente todos os meus dossiers. De vez em quando fazia-me uma pergunta relacionada com algumas das suas dúvidas e, finalmente, depois de ter reposto todos esses calhamaços perto da minha cadeira, ele tirou os óculos e fez-me uma pequena carta para um professor qualquer num grande hospital de Paris. Antes de sair e depois de lhe ter pago a consulta, a mesma soma que pagava ao meu médico, ele acompanhou-me até à saída pedindo-me que o mantivesse informado acerca da continuação dos meus problemas.

De regresso a casa, a pé, fui raciocinando: Então como é que se faz que o meu médico recebe os seus pacientes sem consulta marcada e, depois, uns atrás dos outros, os seus pacientes entravam no seu gabinete, e quinze minutos mais tarde davam lugar ao próximo. Ao passo que com o outro médico, com consulta marcada, ele reteve-me quase uma hora e levou-me o mesmo preço? Foi alguns dias mais tarde que, nesse pequeno Café, voltei a encontrar essa senhora que me tinha dado a morada do seu médico. Discutimos o assunto e o que ela me contou até me arrepiou! O que ela apresentou como explicação foi realmente de fazer perder a fé na medicina e seus praticantes! Ela, olhando-me fixamente, preveniu-me: Evite os médicos que recebem os seus pacientes sem consulta marcada. Eles enchem a sala de espera com ingénuos que ainda não compreenderam as manobras, e eles despacham-se com cada qual para apenas lhes apanhar o preço da consulta. Que se estão marimbando para a nossa saúde, estão ali para apenas em quinze minutos ganharem 22€!

Residence du Parque



Antes de voltarmos para casa passámos novamente pela "Résidence du Parque", indagámos onde se encontraria a"concierge" e esbarrámos com um tipo simpatiquíssimo que foi buscar uma chave para nos mostrar o único apartamento que tinham disponível. Era realmente um apartamento espaçosíssimo! Como a casa não albergava qualquer peça de mobiliário, a sala era a vastidão dum chão assoalhado com uma grande janela da largura da superfície daquela vasta dependência, a qual dava sobre um vasto terraço que se debruçava sobre o grande jardim central. O hall de entrada também era espaçoso, assim como a cozinha, que também tinha uma grande janela que dava para esse mesmo terraço. Tinha três quartos gigantescos com janelas para as traseiras, das quais se avistava Paris lá ao longe. Boa casa de banho e novamente essas duas pequenas dependências como guarda-roupas. Ideal para ambos, pois que assim cada qual podia ter a sua independência! Imediatamente descemos até ao escritório do "concierge", assinámos um contrato, e pagámos três meses adiantados. A renda era apenas 900€, "tout compris"! Ficámos encantados e mentalmente uma vez mais enviei a prévia proprietária ao diabo, pois que tínhamos acabado de fazer um bom negócio!

A mudança foi rapidamente feita! Primeiro trouxemos o Caramelo, que fechámos num dos quartos, para o não assustar muito com toda aquela balbúrdia. Rapidamente arrumámos os móveis, mandámos fazer cortinas, decorámos a casa toda, e ficámos ali com reis, muito bem instalados, e com muito espaço para ambos. O primeiro problema foi que, para ir às compras, eu tinha de subir uma muito íngreme ladeira até à via principal onde se encontrava o supermercado. O esforço era realmente bastante violento. Um dia, de regresso a casa, fui à casa de banho urinar e, horror, urinei sangue! Agarrei nas pernas e fui a correr a uma farmácia pedir a morada dum médico. A senhora deu-me uma morada mesmo por cima do seu estabelecimento! Subi e aguardei a minha vez. A sala de espera estava a rebentar de pessoas a tossir, pois que foi durante uma grande epidemia de gripe !

Chegada a minha vez, entro no consultório, e a primeira coisa que o médico me pede sãos as minhas coordenadas. Dei-lhe o meu nome e morada e, ao escrever a minha morada, por cima dos óculos, ele disse-me que me mudasse imediatamente, que a Residência do Parque era uma "fábrica de bronquites crónicas", pelo facto do aquecimento central ser por baixo do soalho, e que isso mantinha a poeira suspensa no ar, e que isso era terrível para os brônquios, pulmões, e sinusites. Ora eu tinha deixado a Alfa por causa da poeirada e de novo ali estava eu prisioneiro desse mesmo inconveniente. Ele deu-me um tratamento para parar a hemorragia mas, mesmo assim, andei quase uma semana a urinar sangue.

Imediatamente começámos a procurar outro apartamento ali próximo, pois que Meudon era realmente um lugar muito aprazível. Durante seis meses procurámos mas eram sempre apartamentos mobilados. Cada vez que passava ao pé do apartamento na Rue des Pierres, a tabuleta anunciando "a alugar", estava lá sempre patente! Era evidente que ninguém queria aquele apartamento no deplorável estado em que o tinha visto. Finalmente, desesperados até aos colarinhos, voltámos a contactar aquela divina senhora que queria que fossemos nós a fazer as obras ao nosso gosto, mas cores clarinhas! Acabámos por alugar esse apartamento a 1.600€ e, ao pegar nas chaves, disse a essa senhora que só pensava nas entradas de dinheiro e não nas saídas, que ela tinha perdido muito mais dinheiro não tendo alugado esse apartamento durante seis meses, do que lhe teriam custado as obras! Moralidade da história, estou agora aqui a escrever as minhas memórias nesse mesmo apartamento, e já lá vão nove anos que aqui moramos!

lundi 1 février 2010

Rue des Pierres - Casa Aluga-se


Depois fomos visitar a vila, tendo como guias os nossos amigos de poucas horas. Esse passeio foi outra deslumbrante descoberta. Meudon era realmente um tesouro escondido entre as frondosas árvores! O parque, lá em cima era uma extensa arrelvada superfície com uma grande álea de arvores e um miradouro donde se avistava toda a cidade e, mais além, a Cidade Luz com a sua Torre Eiffel e Montmartre com o seu espectacular Sacré Coeur. Claro, também o impressionante Observatório de Meudon todo ao longo do outro lado do parque!

Ao descermos, apanhámos a Rue des Pierres para visitar o centro da cidade. Ao fim dessa rua, à direita, a fazer esquina com a Rue Republique - a via principal - um simpático edifício onde, no terceiro andar, numa das varandas, uma tableta que dizia: "Aluga-se", por cima dum gordo número de telefone. Como era o fim-de-semana, decidimos tomar nota desse número e telefonarmos no dia seguinte!

No dia seguinte telefonámos e foi-nos dada uma data para visitar. Chegada essa data, a essa hora marcada, a proprietária aguardava-nos à entrada para subirmos a esse terceiro andar e apreciar esse espaço que estaria disponível a partir do fim desse mês. A porta foi-nos aberta pelos então actuais inquilinos, que muito simpaticamente nos mostraram a casa toda. O apartamento era realmente muito acolhedor. Tinha três quartos, um longo corredor com casa de banho e toilette, uma grande sala com uma longa varanda que dava para as traseiras, sobre o arvoredo, uma cozinha com uma grande janela, e um hall de entrada bastante espaçoso. Tinha, sobretudo, no corredor, duas pequenas dependências sem janelas, que eram enormes espaços com varões cheios de cabides para pendurar as roupas. Gostámos do apartamento, mas como a alcatifa estava num miserável estado, assim como a pintura das janelas e paredes, perguntámos à senhora quanto tempo lhe levaria para restaurar o apartamento antes do ocuparmos. Ela respondeu, enfaticamente, que não era ela que faria as obras, que seríamos nós, ao nosso gosto. "Mas, por favor, cores muito clarinhas!" Ora ela pedia-nos 1.600€ "tout compris"! Mandei a senhora à fava desejando-lhe boa sorte com os seus próximos inquilinos, que não seríamos nós!
Depois fomos visitar a vila, tendo como guias os nossos amigos de poucas horas. Esse passeio foi outra deslumbrante descoberta. Meudon era realmente um tesouro escondido entre as frondosas árvores! O parque, lá em cima era uma extensa arrelvada superfície com uma grande álea de arvores e um miradouro donde se avistava toda a cidade e, mais além, a Cidade Luz com a sua Torre Eiffel e Montmartre e o seu milagroso Sacré Coeur. Claro, o impressionante Observatório de Meudon todo ao longo do outro lado do parque!

Ao descermos, apanhámos a Rue des Pierres para visitar o centro da cidade. Ao fim dessa rua, à direita, a fazer esquina com a Rue Republique, a via principal, um simpático edifício onde, no terceiro andar, numa das varandas, uma tableta que dizia: "Aluga-se", por cima dum gordo número de telefone. Como era o fim-de-semana, decidimos tomar nota desse número e telefonar no dia seguinte!

No dia seguinte telefonámos e foi-nos dada uma data para visitar. Chegada essa data, a essa hora marcada, a proprietária aguardava-nos à entrada para subirmos a esse terceiro andar e apreciar esse espaço que estaria disponível a partir do fim desse mês. A porta foi-nos aberta pelos então actuais inquilinos, que muito simpaticamente nos mostraram a casa toda. O apartamento era realmente muito acolhedor. Tinha três quartos, um longo corredor com casa de banho e toilette, uma grande sala que dava para as traseiras, sobre o arvoredo, uma cozinha com uma grande janela, e um hall de entrada bastante espaçoso. Tinha, sobretudo, no corredor, duas pequenas dependências sem janelas, que eram enormes espaços com varões cheios de cabides para pendurar as roupas. Gostámos do apartamento, as como a alcatifa estava num miserável estado, assim como a pintura das janelas e paredes, perguntámos à senhora quanto tempo lhe levaria para restaurar o apartamento antes do ocuparmos. Ela respondeu, enfaticamente, que não era ela que faria as obras, que seríamos nós, ao nosso gosto. Mas, por favor, cores muito clarinhas! Ora ela pedia-nos 1.600€ "tout compris"! Mandei a senhora à fava desejando-lhe boa sorte com os seus próximos inquilinos, que não seríamos nós!

O Belo Parque e o Observatório





O almoço decorreu bem. Tiveram o cuidado de preparar um almoço com um toquezinho português. Eles eram um casal acabados de regressar da sua viagem de núpcias, e o apartamento era um penugento ninho com um pequeno terraço que dava para a rua e, lá ao longe, toda aquela extensa e verdejante floresta! Falou-se da venda do nosso apartamento em Villejuif e que tínhamos de alugar um outro apartamento algures. Eles apontaram-nos lá em baixo, mesmo em frente, um aglomerado de blocos onde havia um enorme cartaz que dizia: "Apartamentos-alugam-se"! Achámos graça à coincidência e resolvemos ir deitar uma vista de olhos, mas como era domingo, os responsáveis não se encontravam e decidimos tentar no dia seguinte, telefonando para aquele número afixado no cartaz.

A Mudança Para Meudon a Florida





Em casa, durante esses dois dias, tivemos boas novidades. O nosso apartamento tinha sido vendido e teríamos que o liberar o mais rapidamente possível. Como tínhamos tido um convite para almoçar em casa duma colega do Pat, em Meudon, aproveitámos a deixa. Apanhámos a automotora para lá chegar, pois que de carro não sabíamos o caminho. Partimos de manhã cedo para estar a horas decentes de também visitar a vila.

Lá chegados, foi uma divinal surpresa! Meudon era um sítio de sonho! Mal subimos a escada para sair da estação deparousse-nos um Café-Tabac com uma pequena esplanada coberta que imediatamente me inspirou uma ternura muito especial! Mal sabia eu então que esse Café iria ser o meu Café preferido! Subimos a ladeira para chegarmos ao centro da cidade, onde morava a dita colega do Pat.

Durante essa penosa subida começámos a descobrir uma vila fascinante englobada na famosa Floresta de Meudon. A arquitectura local era dum estilo que me lembrava a bela velha Inglaterra nos descamapados. Eram pavilhões antigos abraçados por verdejantes jardins apinhados de flores. As casas eram de tijolo com largas bancadas de madeira pinho. Um deslumbramento!

samedi 30 janvier 2010

Abusos de Poder, Igual a Martírios




Para voltar de novo aos meus velhos tormentos, apareceram-me os meus primeiros problemas de saúde. Sem saber por que razão, comecei a ter inopinadas urgências de urinar. Eram todos os quartos de hora! dia e noite! Fui ver o meu médico. Ele, com uma carta por si manuscrita, enviou-me a uma clínica em Thiais para fazer um exame do qual eu nunca tinha ouvido falar, a que eu viria a chamar "bitoscopia", pelo facto de se tratar duma sonda que me enfiavam uretra acima - isto sem qualquer anestesia local - para investigarem não sabia muito bem o quê! Esse exame era extremamente doloroso pelo facto de haver uma pequena câmara na ponta dessa sonda, para que o cirurgião analisasse certos órgãos internos ali para as paragens do meu corpo que até essa data só me tinham dado prazeres incalculáveis!

Esse primeiro sacrifício pagão foi nessa clínica em Thiais. Quando dois jovens assistentes com cara de enterro me vieram chamar à sala de espera, fiquei contentíssimo da vida, pensando que esse cirurgião iria resolver-me esse tão desagradável problema sem grandes afazeres. Porém, enquanto aguardávamos a chegada do cirurgião, esses dois perturbados e perturbantes jovens pediram-me para me despir da cintura para baixo e me estirar naquela marquesa. Até ali tudo muito bem. O cagaço assaltou-me quando eles, enquanto um esterilizava um estranho utensílio, o outro pegou no meu sexo e começou também, com uma seringa, a injectar algo de oleoso dentro da minha uretra. Depois do embaraço foi o terror que de mim se apoderou! Momentos depois entra o cirurgião. Disse-me boa tarde e explicou o que me ia fazer. Que ia dar uma vista de olhos à minha bexiga. Que magoaria um pouco mas que não tínhamos outra alternativa! Depois foi avançando e comentando a viagem da minúscula câmara dentro de mim, desbravando os meus órgãos internos, dizendo que estava tudo na ponta da unha e que não precisava de qualquer intervenção cirúrgica. Depois retirou a sonda, descalçou as luvas, e disse-me que fosse para casa e que esquecesse o assunto!

Aliviado, depois dessa inesperada pavorosa experiência, regressei a casa e preparei-me uma vez mais para fazer face ao meu pobre futuro sem grandes expectativas! Uma outra rotina se instalou no meu dia-a-dia. Tudo poderia ter entrado nas normas se não fosse o problema das constantes corridas para a retrete para urinar. Voltei a visitar o meu médico, o qual se mostrou muito surpreendido, pois que tinha recebido uma carta de Thiais dizendo que estava tudo em regra com a minha bexiga. Depois de ter insistido que não era o caso, pois que o problema persistia, novamente ele me faz uma outra carta para outro urólogo numa outra clínica, para um duplo exame e um segundo diagnóstico.

Desta vez fui desaguar numa bela clínica em Ivry sur Seine, nas mãos dum cirurgião encantador que me propôs outra « bitoscopia » ! Depois de me ter queixado do horror que esse exame sem qualquer anestesia representava, ele prometeu-me fazer uma anestesia geral , mas que tinha de ser hospitalizado nessa clínica, para no caso de ele encontrar algo que fosse necessário rectificar, ele o pudesse fazer imediatamente!

Na data combinada, com o meu pequeno saco dos meus necessários haveres, lá me apresentei nessa clínica em Ivry. Claro que, muito bem recebido, acompanharam-me ao terceiro andar e apresentaram-me o meu confortável quarto com janela para a rua. Na manhã seguinte vieram-me buscar de padiola para me levarem para o bloco operatório. Na antecâmara deram-me uma injecção e imediatamente tombei na minha coma artificial Nem cheguei a ver o cirurgião que me iria operar. Horas mais tarde acordei no quarto de reanimação. Um enfermeiro veio buscar-me para me transportar até ao meu bonito quarto. Pelo caminho apercebi-me que eu tinha um tubo que me saía pela uretra, que aterrava num grande bocal de vidro. Fiquei aterrado. O bocal estava cheio de sangue. O enfermeiro ajudou-me a transferir-me para a minha cama, substituiu o ensanguentado bocal por um outro bocal mais apresentável e, afastando-se, disse-me que dentro de alguns momentos me seria servida uma refeição ligeira. Depois dessa refeição a enfermeira inspeccionou a minha sonda e, antes de sair, sugeriu-me que eu devia agora descansar um pouco.

Cinco dias estive nessa cama com uma muito regular mudança de bocais, refeições ligeiras, tomadas de temperatura, e um doce sorriso antes de sair, pedindo-me que tentasse dormir. As dores na uretra e aquela intrusão da sonda dentro daquilo de eu tanto me orgulhava, que me prestara grandes serviços no passado, mas que, desde que a Sida fez a sua aparição, apenas me servia para urinar e ocasionais sessões de desenrasca-te! A minha imensa frustração era perceber que aquela coisa que me tinha sido conferida para urinar e procriar, estava agora limitada a apenas quase um pequeno estorvo. Isso desmoralizava-me ao extremo das das minhas capacidades de agressões externas!

Ao fim desses cinco dias, uma manhã, um enfermeiro veio extrair a sonda da minha uretra e, pela primeira vez na vida, um muito atraente jovem se ocupava da minha intimidade, sem que ela, como no passado, engordasse com apenas um sorriso acompanhado duma piscadela de olho! Depois aconselhou-me um duche, e que me preparasse para regressar a casa e voltar dentro de dois dias para a necessária inspecção pós operatória. O cirurgião? Nem vistas! Devia já estar a jantar com a família e amigos, nalgum daqueles restaurantes muito chiques dos Campos Elísios!

O Doce Caramelo da Minha Alma






Pouco conformado com a minha sorte, lá ia reagindo o melhor que podia para não me deitar pela janela abaixo. O suicídio tornara-se-me numa intransigente obsessão! Saía bastante para fugir a tentações e fingir que ainda vivia. Ia ao Café ver gente, fazer as minhas compras, organizar o jantar, mas sentia-me sempre assustadoramente só desde o dia em que a Cookie fora abatida. Trabalho já nem me dava ao trabalho de procurar. Na minha idade já todas as portas se tinham fechado para mim! Restava-me o ficar em casa distraindo-me com o nosso pequeno computador. Escrever, para mim era uma frágil bóia onde me agarrava para ainda não soçobrar! O que me valia era que éramos frequentemente convidados a jantar em casa de colegas do Pat. Nesses dias não tinha que me preocupar com cozinhados e ainda por cima saía de casa, passar umas horas noutros ambientes menos tensos do que o meu caseiro dia a dia!

Um desses convites chegou-nos um dia de Boulogne, duma amiga do Pat que vivia só e tinha muitos gatos. Ela morava no último andar dum edifício que fazia esquina com a Rotunda Marcel Sembat. Normalmente íamos a um restaurante italiano ali muito perto, mas nessa noite ela decidiu preparar-nos uns bons petiscos em sua casa. Ela tinha aí uns quatro gatos, mas nessa noite encontrei um novo lindo focinho. Era um gato que ela encontrara perdido na rua e que o tinha trazido para casa a pensar em nós, que tínhamos perdido a Cookie. Claro que recusei! Eu não queria mais gatos na minha vida! Porém a páginas tantas esse belo gato amarelo e branco subiu para o meu colo, enroscou-se, começou a ronronar, e depois adormeceu. Ela virou-se para mim e atirou abruptamente:

- OK! Tu não o queres mas ele já te adoptou!

Moralidade da história: Depois dessa grande jantarada onde tínhamos chegado dois, regressou a Villjuif uma pequena família de três cabeças e três rabos. No carro ele continuou ao meu colo e mal chegámos a casa pu-lo no chão. Ele visitou a casa toda, fez dela o seu novo território, e nessa noite noite já dormiu connosco na nossa cama. Como ele era muito amarelo dêmos-lhe o nome de Caramelo!

A presença do Caramelo na nossa casa e nas nossas vidas, trouxe-nos uma certa alegria de viver que tínhamos perdido quando o Pat levara a nossa querida Cookie ao matadouro. Mas o Caramelo não vinha tomar o lugar da Cookie, ele vinha simplesmente ser o mestre do seu território, não o da Cookie. Para nós Cokie estava no céu à nossa espera e enquanto esperávamos, o Caramelo para nos ajudar a esquecer a sua ausência. Muito rapidamente ele começou a ser o dono da casa e nós os seus serviçais amigos. Tive muitos gatos na minha vida, mas este, nunca saberei por que razão, amei-o como nunca amara todos os outros que tinham velozmente atravessado a minha estrada, mas que nunca foram realmente esquecidos ! A minha vida continuou sem eles, mas eles continuaram na minha vida! Desde o Farrusco, no Cartaxo, o primeiro gato da minha vida, e todos os outros que vieram depois, foram como elos duma corrente que me aprisionaria para todos o sempre. Ele já não era nenhum bebé, mas quando o levámos ao veterinário para o declarar e obter os documentos necessários das usas vacinas, ele disse-nos que ele devia ter aí os seus quatro anos!

Comprámos uma casinha para ele, assim como a sua nova casa de banho, brinquedos, pratos para lhe servir as suas refeições e, claro, carradas de doses individuais de paparoca para o nosso novo bebé! Uma coisa era certa, uma determinada obsessão de acabar os meus dias foi de férias por alguns tempos. Ele gostava muito do meu colo e eu muito da sua doçura. Ele tornou-se num grande companheiro de ditas e desditas! Para onde eu ia ele seguia-me! Pior do que um cachorro! Os gatos são normalmente muito independentes, mas o Caramelo era como uma parte de mim mesmo da qual nunca mais me separaria. A sua presença ajudava-me a de tempos a tempos esquecer o meu outro bebé que me era também tão caro e insubstituível: a Alfa!