dimanche 10 janvier 2010

Encontro às dez programa semanal


O tempo foi passando e, nessa rádio, vim a conhecer a Lena, o Mendes, e o Fernando Silva. O Fernando tinha uma belíssima voz para a antena mas parecia-me muito mais interessado na técnica do que no palrear. Lena e Mendes eram-me muito simpáticos, mas o Fernando, não sei por que razão, inspirou-me uma afeição muito fraternal. Ele era um bom técnico e senti-me muito honrado quando ele concordou ser o meu técnico num programa semanal que comecei a fazer todas as segundas-feiras das dez à meia-noite, com a antena aberta. Quando inventamos, estruturamos um programa, temos de lhe dar um nome, como se dum filho nosso se tratasse! E a verdade é que, uma emissão por nós imaginada, é como um filho muito nosso! Vem-nos das entranhas ! Como começava às dez da noite e gostava muito duma cantiga do Francisco José intitulada "Encontro às Dez", foi como essa minha emissão foi perfilhada! Nessa emissão procurava transmitir aos ouvintes o pouco que eu sabia. Pretendia ensiná-los a gostarem doutras músicas além do Fado e do Folclore. Assim como que a vida era muito mais do que apenas saltar à fogueira!

Foi nesse programa, com a cumplicidade e destreza técnica do Fernando, que comecei a receber chamadas telefónicas daqueles que estavam à escuta e gostavam de passar à antena. Nesses tempos o preço dessas chamadas era o duma chamada local, não como agora que, para se fazerem pequenas escandalosas fortunas, essas chamadas custam o que passa pela cabeça daqueles que maquiavelicamente inventam essas pérfidas astúcias!

Foi nessa emissão que, pelo telefone, comecei também a aprender que que os portugueses não tinham vindo para França apenas para fugirem a certas misérias portuguesas, mas também, tal modestos Vascos de Gama, em busca duma vida melhor e, sobretudo, aprenderem a serem felizes nesta vida ! Foi com algumas delas que, depois de algumas longas conversas ao telefone nasceram algumas grandes amizades entre nós! Foi igualmente, depois dessas conversas, que comecei a aprender a fazer entrevistas. Como aquela inesquecível entrevista com a Linda de Sousa. Com ela comecei a aprender a entrevistar e talvez ela a ser entrevistada, quanto mais não fosse por portugueses, pois que a Rádio Clube Português foi uma das primeiras tentativas dum português de abrir uma rádio portuguesa em Paris. Ele chamava-se Carlos Duarte!

A Primeira Vez do Outro Lado



Os meus primeiros contactos com a Maria Raquel foram quando, uma noite, ela me convidou para uma entrevista para me conhecer melhor e lermos cada qual alguns dos meus poemas. A sensação nessa noite foi muito estranha. Era a primeira vez que eu passava para além da vidraça que dividia a cabine de som do estúdio do outro lado, onde havia uma mesa redonda, algumas cadeiras, e alguns microfones. Era a primeira vez que eu era entrevistado e podia falar abertamente da minha infância, dos meus medos e angústias, e dos meus primeiros poemas nascidos duma inesperada inspiração. Falou-se da influência que eu tinha recebido da Florbela Espanca, e tantas coisas mais. Foi ela que, sem querer, me fez finalmente sentir-me "alguém"! Ouvir alguns dos meus poemas interpretados por ela foi uma grande descoberta e honra de ter a meu lado uma senhora formada em Letras Modernas recitando alguns dos meus poemas.

Nessa noite ela tentou descobrir-me e mostrar-me um pouco mais por dentro. Nada a ver com as chalaças do "Despertar Musical"! Nessa noite ela fez-me compreender que eu, apenas com poucos estudos, era um poeta inato, seguindo sem querer os passos do meu pai, um grande poeta nunca publicado! Como uma vez ela tinha utilizado um dos meus poemas para ilustrar a vida de Camilo Castelo Branco, nessa noite ela definiu-me com um soneto que eu escrevera quando ainda adolescente, com medo da vida, do futuro, e da morte:

AGONIA

Quero libertar-me desta agonia
Toda feita de desespero e ansiedade
Para sorver da vida toda a sinfonia
E pairar para além na imensidade!

Já não procuro mais na fantasia
O que nunca encontrarei na realidade
Porque eu só cansaço dor nostalgia
Ando morto morto de saudade!

Eu triste fugitivo da loucura
Ansioso peregrino da ternura
Escrevo sem saber o que escrevi!

Eu que ando na vida sem saber
Que amo a morte e quero viver viver
Procuro sem saber o que perdi!



Rogério do Carmo
Mafra, 8/9/1953

samedi 9 janvier 2010

O Grande Camilo Castelo Branco



Com os meus novos compromissos de estar todas as manhãs na R.C.P. para o meu "Despertar Musical, a minha rotina sofreu grandes modificações. Depois de duas horas de palhaçadas frente ao microfone, passava pelo grande Supermercado para fazer as minhas compras. Em casa organizava o jantar e, logo a seguir, preparava o meu programa para a manhã seguinte. Depois ia até à avenida de Versalhes limpar a casa da minha freguesa do dia. Após essas quatro horas de duro labor, a freguesa, discretamente, introduzia-me na mão uma nota de vinte euros para ajuda das minhas despesas diárias. Mal punha o pé direito sobre o passeio lá em baixo, imediatamente o meu pé esquerdo me levava a atravessar a rua e dar um salto "Aux Trois Obus" para uma boa Bica.

Chegado a casa, transpirando por todos os poros, a primeira coisa que fazia era um bom e longo banho. Depois limpava a minha casa enquanto que, ao mesmo tempo, ia cozinhando o nosso jantar. Depois lia um pouco ou via uns minutos de televisão. Quando o Pat voltava, depois de mais outro árduo dia de trabalho, encontrava uma casa arrumada, o jantar pronto, e um aperitivo já servido. E eu lá estava à sua espera com a Cookie, a nossa gata já bastante avançada na idade, ao colo. Ela viveu até aos vinte anos mas, chegada a hora, tivemos de a levar ao veterinário para que ele lhe fechasse aqueles seus belos olhos verdes que já tinham visto tudo o que tinham a ver. Eu não tive coragem de ir. Foi o Pat, com a sua imensa coragem, que a levou. Depois, ambos chorámos essa grande perda e jurámos: Basta de gatos! Não queremos mais! Ela para nós fora como uma filha que vimos saltar, correr, crescer, envelhecer, sempre tão necessitada do nosso amor! Doeu-nos tanto que decidimos não mais sofrer esse esmagador golpe!

Uma tarde, estando eu à escuta da R.C.P., ouvindo a Maria Raquel a fazer o seu programa "Porta Aberta", nessa tarde ela, durante uma hora, falou-nos da vida dum grande escritor português do qual eu conhecia toda a sua obra. Livros que me foram postos nas minhas mãos pelo senhor Assunção quando, em Mafra, eu ia dizer olá ao meu D. João V.! Para minha grande surpresa, depois de nos ter falado da vida e morte desse grande escritor, fechou esse seu programa com um poema meu que eu tinha escrito quando, no Café Estrela, em Mafra, eu lera esse grande património deixado por Camilo Castelo Branco. Ela disse que esse meu poema, em poucas linhas, falava do que tinha sido a vida desse grande escritor português:

DERROTA

Ninguém nota
Nos meus lábios magoados
A sede de beijar!

Ninguém nota
Nos meus dedos enclavinhados
O desejo de reter!

Ninguém nota
Nos meus passos apressados
A ânsia de chegar!

Ninguém nota
Nos meus olhos apagados
O susto de viver!

Ninguém nota
Nos vincos do meu rosto descorado
O cansaço de lutar
Num campo de batalha descampado
Sem tréguas nem troféus a conquistar!


Rogério do Carmo
Mafra, 1954

Nesse dia, graças à Maria Raquel, descobri que, afinal, eu não era apenas um gajo que escrevia versos, mas sim, quem sabe, talvez um verdadeiro poeta !

O Primeiro Programa na R.C.P.






Com o meu Despertar Musical a minha vida começou a ser muito menos deprimente! Era uma alegria eu próprio despertar tão cedo e saber que tinha algo a fazer de importante, para o qual o ser ou não ser quem eu era, fosse de qualquer importância! Simplesmente eu acordava vivo e feliz de o fazer! Punha os pés no chão e ia a correr por a cafeteira eléctrica a funcionar para o meu primeiro e não último café do dia!

Depois de despejar a bexiga, fazia a barba, um pouco de "aftershave", vestia-me o mais tonicamente possível, e ia a correr para a cozinha para o meu frugal pequeno-almoço, a grande tigelada de café bem quente, e o meu primeiro cigarro do dia. Depois agarrava no meu saco cheio de discos e historietas que tinha inventado e escrito para o programa, pregava um beijo no dorminhoco do comparsa, e lá ia a correr para o R.C.P. para lá estar a tempo e horas de ir para o ar, segundo o horário previsto!

Uma das histórias engraçadas que me aconteceram nesses tempos foi: Como eu ia a pé para a rádio e passava ali pelas obras - pois que andavam a construir um bloco de apartamentos mesmo em frente desse grande Centro Comercial onde a rádio se encontrava - os pedreiros eram todos português e, ao passar, um desses pedreiros - já com a mão na massa - estava a escutar o seu transístor em altos berros, com uma pequena faixa gravada que o Carlos Duarte deixava a noite toda no ar, para que não lhe açambarcassem o seu espaço de antena. Esse repetitivo "spot" de 20 segundos passava constantemente, o tempo todo, dizendo:

- Rádio Clube Português está no ar todos os dias das 7 da manhã até à meia-noite!

Achei graça ao facto de eles estarem a ouvir já tão cedo a "rádio de todos nós", mas como aquilo era tão cansativamente repetitivo, um dos outros marçanos gritou ao dono do transístor:

- É pá! Pára lá essa merda de transístor dum carago! Já chateia! Sempre a mesma conversa!

O outro, numa voz muito risonha, respondeu-lhe:

Deixa lá! O destravado do Rogério tá a chegar e depois a música é outra!

Foi talvez um dos melhores cumprimentos que recebi na vida! Ao menos o meu trabalho agradava! Quanto mais não fosse, àqueles que levantavam cedo o rabinho da cama para irem foçar para os outros!

Nessa manhã, além do habitual desvario, enviei um grande abraço a todos aqueles que se levantam cedo para irem trabalhar! Como aqueles compinchas que andam agora a a trabalhar na construção do bloco de apartamentos mesmo em frente Centro Comercial de Villejuif! Estou certo que eles me ouviram, pois que na manhã seguinte eles estavam na paródia uns com os outros acerca do que eu tinha dito!

Eu e a Aquela Santa na Varanda

Os Motivos Decorativos







vendredi 8 janvier 2010

Rue Dr. Paul Laurens, 5 - 2°- Esq.







O apartamento transformou-se num belo ninho de amor, tranquilidade, e flores. Mas o facto da cidade se chamar Villejuif (Jewish Town) preocupou-me desmesuradamente. Eu que andava perseguido pelo meu ser ou não ser Judeu, dúvida essa que já me tinha transtornado a vida duma maneira atroz e singular, receei a continuação dessa maldição! Parecia-me que eu não conseguia fugir a essa terrível praga! Mesmo assim continuava a fazer projectos de futuro e tentar esquecer essa abominável injustiça humana. Deixei de tentar compreender as razões pelas quais as pessoas se diferenciavam uma das outras. Saber-me ser feito de carne e osso como todos os demais me bastou para saber que um dia deixaríamos este mundo e que esse sacramental absurdo enfim deixaria de me tolher os passos. Pela simples razão que seria a justiça divina que o faria por nós todos, fosse qual fosse a lavagem ao cérebro que os nossos pais nos tivessem impingido! A educação que recebera de minha mãe continuaria a ser sempre a minha religião: Respeitar e ajudar os nossos vizinhos! Penso que existe apenas um só Deus, o Deus de toda a gente, seja lá ela a língua com a qual lhe falamos, pois que Deus é poliglota! Segundo a Bíblia, foi ele quem tudo Criou! Nós somos todos irmãos! Dêmo-nos as mão e vivamos todos juntos em Paz! Abaixo as guerras que enriquecem os fabricantes, e vendedores dessas desprezíveis armas e munições inventadas para tudo destruir, arrasar, ficando apenas de pé essas escandalosas fortunas que se escondem por todos esses paraísos fiscais espalhados pelo mundo!

Como era de prever, tive de voltar aos meus velhos clientes da avenida de Versalhes todas as manhãs para fazer umas patacas para fazer avançar o barco nas suas turvas águas de renegado pelos outros. A minha única alternativa para tentar sair dessas águas antes que me afogasse, foi agarrar-me ao R.C.P. como tábua de salvação. Uma tarde, antes de fazer as minhas compras nesse grande Centro Comercial onde essa rádio estava modestamente instalada, fui dizer olá ao Carlos Duarte para ver se haviam algumas possibilidades de eu começar a fazer o que mais gostaria de fazer na vida: Rádio!

Carlos Duarte propôs-me - antes de mais nada - aprender a fazer a técnica. Aconselhou-me a estar lá todas as tardes para ele me ensinar como fazer funcionar todos aqueles botõezinhos com os quais a rádio vai para o ar. Comecei logo na tarde seguinte. Toda a aparelhagem em serviço era bastante elementar. Levou-me apenas umas duas horas a saber como manipular todos aqueles elementos, para que a R.C.P. entrasse pela casa adentro de todos os portugueses que conseguiam captar essa estação. Eram apenas os dois gira-discos, um microfone, todos aqueles botões, e os discos empinados naquelas rústicas prateleiras por detrás de nós, para fazer rádio. O resto seria tudo a criatividade das pessoas que se sentariam naquela alta cadeira frente ao microfone. Havia também o telefone, mas isso interessava-me menos. Eu queria entrar em casa dos outros, mas que as casas dos outros entrassem na antena, era-me muito menos aprazível.

Como já muito bem esperava, haviam lá elementos a que se chama muito vulgarmente "animadores", que o seu intuito não era fazer rádio, era que a rádio os "fizesse"! O que não era exactamente o meu caso. Eu estava demasiado desfeito para que uma rádio me refizesse! O que eu realmente queria era fazer companhia aos ouvintes com as pequenas histórias que eu lhes contava, e fazê-los escutar boa música portuguesa e iniciá-los noutras músicas que nos vinham de todos os cantos do mundo. A nossa discoteca era bastante pobre, e eu comecei a trazer de casa alguns discos meus para compartilhar com todos aqueles que estariam à nossa escuta!

Muito rapidamente Carlos Duarte me propôs fazer as duas horas do programa da manhã que ele preenchia. Penso que para ficar mais um pouco na cama todas as manhãs. Foi o meu primeiro trabalho como animador que me foi cofiado. Tive de começar a fazer a minha limpeza ao domicílio na parte da tarde. Em outras palavras, tive de mudar de "freguesa" ! Mas foi um gozo monumental levantar-me todos os dias às seis da manhã para estar a postos perante o meu microfone às sete da manhã em ponto!

A primeiríssima vez que me vi sozinho sem a ajuda de ninguém frente a todos aqueles botões, a manipular dois discos e encontrar a faixa que queria enviar, foi um tormento. Os meus dedos pareciam tão amedrontados como o estava eu ! Vi-me reflectido na vidraça que separava a cabine do estúdio em frente e disse a mim mesmo: Querias fazer rádio? Avança! Abre o micro e diz bom dia aos ouvintes e lança uma das faixas dum dos dois discos! Abri o micro e disse: "Bom dia a todos! Estão à escuta da Rádio Clube Português! São sete e cinco da manhã! Levantem-se! São horas de começar ou continuar o vosso dia"! E lancei uma faixa dum dos discos! A mais alegre!

Enquanto a primeira faixa girava, preparei a outra faixa do outro disco. Como tinha ouvido dizer que eu só era bom para dizer poesia, decidi mostrar a outra face da minha personalidade: Completamente desvairado! Continuei a passar música alegre e a motivar os ouvintes a começarem o seu dia de boa disposição. Carlos Duarte chegou uns dez minutos antes das nove para pegar na antena. Disse-me bom dia e - olhos postos no chão - que eu me tinha desenrascado muito bem.