vendredi 8 janvier 2010

O destino chamava-se VilleJUIF !!!




À noite, depois do jantar, falei dessa possibilidade ao Pat, de procurar apartamento em Villejuif! Pat concordou e sugeriu comprarmos um apartamento e sermos nós os proprietários !

Aproveitámos o fim de semana para tratar do assunto. Sábado de manhã pegámos no carro e partimos à aventura. Em Villejuif entrámos numa Agência Imobiliária, ali mesmo ao pé do Metro Louis Aragon . Eles tinham um belo apartamento à venda mesmo em frente desse Metro. Fomos dar uma vista de olhos e o apartamento agradou-nos plenamente ! Era ali no 5, Rue du Dr.Paul Laurens, no primeiro andar, com duas janelas para a rua e duas para as traseiras, assim como uma pequena varanda donde desfrutávamos um um belo panorama sobre os campos. Tínhamos uma boa casa de banho e retrete separadas. Igualmente um hall de entrada com dois grandes guarda-roupas inseridos. Fomos ao Notário e assinámos o contrato de compra. Custou-nos 400.000 Francos! O Pat estava lívido quando assinou o cheque. Era a primeira vez na vida que ele corria tão grande risco!

Só depois do cheque ter sido aceite pelo Banco do ex-proprietário desse apartamento é que pudemos ir a essa Agência buscar as chaves! Imediatamente entrámos na "nossa" casa e começámos (comecei) a fazer projectos de decoração e expanção de espaço. Contratámos dois profissionais e pedimos para ligar a retrete à casa de banho e abrir uma passagem na parede da sala para acesso directo à cozinha. Como a casa era toda alcatifada e detesto alcatifas, mandámos ladrilhar a casa toda. Arrancaram o papel de todas as paredes e pintaram-nas das cores por mim sugeridas. Como tínhamos dois quartos, dum fizemos o nosso quarto de dormidas e, do outro, um pequeno escritório com um divã para as visitas. Comprámos um bonito bar que foi instalado no canto da casa de jantar, onde havia uma arcada que dava passagem para a sala. Mandámos por cortinas, instalar telefone, e pronto ! A casa ficou linda e acolhedora! Vivemos lá 15 inesquecíveis anos do nosso longo concubinato! Agora éramos proprietários e não tínhamos que nos preocupar com pagamentos de renda de casa ! Foi nesse apartamento que pela primra vez nos sentimos verdadeiramente « chez-nous » !

R.C.P. - A Rádio de Todos Nós



De volta a Paris, com a raiva a roer-me as entranhas, decidi pegar nas rédeas do meu destino e abrir caminho, fosse lá onde fosse que ele me conduzisse! Compreendi que eu não podia mudar a mediocridade de certas mentalidades que ainda não tinham percebido que somos todos iguais. Que as etiquetas foram inventadas por degenerados para dividir a Humanidade em troços que se não devem entrelaçar! Ninguém é pior ou melhor do que aquele que se atravessa no nosso caminho! Os caminhos foram feitos para caminharmos lado a lado, mão na mão, sem absurdas segregações! Todos nascemos dum parto e ao fim desse caminho, seja para quem for, apenas o mesmo destino: Paraíso!

Espero que no paraíso - sendo todos os mortos de uma única origem - não hajam por lá guetos! Os bons para um lado, os maus para outro! Pois que depois de mortos somos todos pura e simplesmente algo que a Natureza deitou fora, para o mesmo caixote de lixo, sem sermos - seja quem for - reciclados! Fomos apenas inventados para garantir a continuação duma espécie!

Nunca percebi porquê eu tinha sido recusado no Hotel Alfa de Lisboa! Vivi em Israel, amei Israel, aprendi as tradições judaicas, integrei-me nelas, tive e tenho amigos Judeus, mas se Israel tivera estado nessa altura nas mãos doutros povos, eu teria amado Israel, teria amado esses povos, fossem quais eles fossem, aprendido com eles, adoptado as suas tradições e, sobretudo, amado Israel! Pura e simplesmente porque foi nessa nesga do planeta que eu vivi a minha maravilhosa juventude! Mas como foram Judeus que povoavam esse pequeno país quando por lá passei, amo Israel, amo os Judeus e suas tradições! Amo a língua que eles falam como amo todas as outras línguas que outros povos falariam! Amo todas as línguas! Amo o amor! Só há uma coisa que eu odeio: O ódio! O ódio e suas nefastas consequências!

Chegado a casa, ali nos cocurutos daquele edifício da Place Corneille, abri todas as janelas que davam para o grande terraço, e debrucei-me para embebedar os olhos com toda aquela verdura, flores, árvores, e aquele bonito lago onde nadavam peixes de todas cores, a esconderem-se sob as translúcidas pétalas de nenúfares. Tinha de tentar esquecer a podridão dos anti-semitismos e anti-seja-o-que-for! Depois voltei à minha franco-portuguesa rotina de sempre. Abri a mala, pus a roupa toda para lavar, devolvi a mala ao armário que a resguardava, e reentrei nos meus afazeres habituais.

Desci para fazer as compras para poder preparar um repasto decente ao Pat que trabalhava de manhã à noite; tomar um Espesso no Café da esquina; preparar o jantar e, mais do que tudo, fechar os olhos e encontrar uma nova destinação ao meu destino! Liguei o rádio e logo ouvi a voz do Carlos Duarte e a música portuguesa que me falava da minha infância e, "bingo"! O meu destino estava traçado! Rádio! Estar em frente dum microfone e entrar em casa dos portugueses e dizer-lhes que eu existia, que estava de volta para lhes fazer companhia!

Telefonei ao Carlos a informá-lo do meu regresso. Por sorte ou por coincidência, ele propôs-me ensinar-me a técnica, como fazer funcionar todos aqueles botõezinhos para que a rádio fosse para o ar. Aceitei! Logo que pudesse o faria! Como Villejuif era bastante longe de Boulogne, imediatamente o destino me enviou uma subtil e muito discreta mensagem: E se mudássemos de casa? Se fôssemos viver para Villejuif? Se recomeçássemos uma nova aventura? Uma nova vida? Um outro dia-a-dia?

jeudi 7 janvier 2010

O Inacessível Hotel Alfa em Lisboa



Todas as manhãs eu vasculhava os jornais em busca de trabalho, como o fizeram os pioneiros na América, escavando a terra toda em seu redor em busca de uma mina de ouro! Uma manhã encontrei um anúncio que me pareceu ser a minha mina de ouro para, enfim, assentar arraiais em Lisboa. Tratava-se de um pedido de pessoal hoteleiro para um hotel ainda não inaugurado, ali para os lados da Praça de Espanha. Era o Hotel Alfa, ainda em fins de construção. Para mim isso seria o ideal. Certamente um hotel muito moderno onde eu poderia por em prática todos os meus conhecimentos adquiridos nos Hiltons onde trabalhara. Em Tel Aviv e em Londres.

Nessa mesma manhã fui a correr para casa com o jornal enrolado sob o braço, para me barbear, tomar um banho, e vestir o meu único fato decente que tinha trazido na minha mala. Depois pus os pés a caminho uma vez mais em busca dessa mina de ouro que tinha descoberto nesse jornal, que me chocalhara o corpo todo! Apanhei um comboio até Lisboa e aí apanhei um táxi para a morada indicada no jornal. Lá chegado sou encaminhado ao escritório do Chefe do Pessoal, que me recebeu de braços abertos. Ao ver o meu diploma e as minhas referências ele esfregou as mãos e imediatamente me estendeu um contrato para eu preencher e assinar. Ele, ao ler a minha morada no Cacém, ofereceu-se para me dar acomodação no hotel até eu encontrar um alojamento em Lisboa. Era evidente que eu representava para ele uma boa aquisição! Ao despedir-me ele disse-me que podia começar dentro de alguns dias para começar a organizar a recepção. Que depois de obter a autorização do Director Geral, me telefonaria para que eu começasse o meu trabalho.

Alguns dias depois, ao regressar a casa depois dum café no Café ali à esquina, meu irmão contou-me que me tinham telefonado do Hotel Alfa em Lisboa, dizendo que a minha candidatura não tinha sido aceite. Caíram-me as tais coisas aos pés! Como poderia isso ser se o Chefe do Pessoal se tinha mostrado tão interessado na minha pessoa e minhas competências? Peguei num comboio e fui falar pessoalmente com o tal Chefe do Pessoal desse hotel para lhe perguntar por que razão eu tinha sido recusado, sabendo eu que ele se tinha entusiasticamente interessado no meu trabalho e competências. Ele baixou os olhos e desculpou-se do acontecido, mas o problema foi que o Director Geral era libanês e que ao verificar que o meu curso tinha sido tirado em Israel, assim como todas as referências provinham de hotéis israelitas, ele tinha recusado a minha admissão! Uma vez mais, preso por ter cão, preso por não ter cão! Em Israel não me podia instalar por não ser Judeu, em Lisboa, no meu país, era posto de parte por ser Judeu! Arre gaita! Basta! Peguei nos meus trapos e regressei imediatamente ao Pat, à Place Corneille

A única entrada e saída de Socorro


Além do meu problema de busca de emprego para me radicar definitivamente em Lisboa e depois fazer vir o Pat e continuarmos a nossa vida de casal, era encontrar com quem eu pudesse despejar os testículos. Era evidente que muitos daqueles jovens malandrecos que no Café se vinham ostensivamente gabarem-se de que tinham "comido" aquela gaja, muitos deles também bem gostariam de ser comidos mas, a despeito do 25 de Abril, continuavam a mascarar a verdade com permanentes e posporrentos esguichos de pouco galantes garanhões!

A única solução a esse meu tão grave problema era ir até à Estação Ferroviária e estar ali alguns momentos de pé frente ao mictório, braguilha aberta e, meio escondido, o meu dragão vomitando chamas, para atrair alguns cavalheiros muito bem-postos, pastinha sob o braço e aliança no anelar da mão esquerda, para que me fizessem ou eu lhes fizesse uma boa "mamada"! Algumas vezes fui convidado a um pequeno sítio "lá em cima" para ir mais longe do que apenas esse belo prato de entrada. Claro que os não podia convidar a virem a minha casa pela simples razão de eu a não tinha, e a casa deles também não podia porque eram casados e tinham filhos. Frequentemente desejei que me aparecesse um solteirinho, mas esses estavam todos no Café a apregoarem quantas tinham dado a noite passada!

Cacém - Agualva à Minha Espera


Nessa manhã, muito cedo, o Pat conduziu-me ao Aeroporto de Orly, onde um avião como tantos outros indiferentemente me aguardava! A viagem foi curta cabeceando de sono. Nem essas lautas refeições que então nos eram servidas me impediram de dormitar todo o voo !

Chegado ao Aeroporto da Portela - onde no passado eu tinha laborado - apanhei um táxi para a Estação do Rossio, ali nos Restauradores. Apanhei o meu velho comboio para o Cacém, parando em todas aquelas estações que, no passado, tantas vezes apararam os meus sapatos. Ao passar pela Cruz Quebrada, Queluz, e Amadora, antigas doces recordações me assaltaram !

Chegado ao Cacém peguei na minha mala e pus os pés a caminho. Caminho esse que os meus pés ainda sabiam de cor! Chegado ao Palacete do meu irmão Zé, a porta, uma vez mais, me foi aberta pela minha tão querida Maria dos Carmos! Ela subiu comigo ao primeiro andar para por à minha disposição o pequeno divã da casa de jantar onde tantas vezes eu brincara com a Lurdinhas. A minha mala foi posta no pequeno quarto das traseiras, onde minha mãe dormia sempre que ela lá vinha passar os seus três meses de estadia em casa do Zé. Minha mãe estava sentada na cozinha a fazer o seu habitual croché. Ao ver-me ela deu um grande salto de contentamento, e o seu croché caiu-lhe aos pés. Foi uma grande alegria para todos!

Depois desci par visitar a fábrica e matar saudades do Zé e dos tempos em que eu partira tantas agulhas naquelas maquinas todas. Zé ficou feliz de me rever, esperando que desta vez eu estivesse de volta para sempre, dando-me alguns bons augúrios para o meu futuro no nosso país. Que chagava de andar por aí às cambalhotas por esse mundo fora!

As recordações mais vivas que me ficaram desses três meses que lá passei em busca de emprego em Lisboa, foram aquelas jantaradas que a Maria dos Carmos preparava na cozinha e que servia na casa de jantar - então também o meu quarto - porque era apenas nessa dependência que havia um televisor. Ela não podia, de modo algum, perder as suas Telenovelas brasileiras que eu tanto detestava!

A minha rotina começou a ser a leitura dos jornais e os contactos a fazer com os hotéis que pediam pessoal. Eram poucos e não todos os dias! A maioria das minhas chamadas telefónicas chegavam quase sempre atrasadas. O posto já tinha sido tomado por outra pessoa mais matinal do que eu.

As tardes eram passadas no Cacém a bisbilhotar o que se passava nessa imperceptível cagadela de mosca no mapa de Portugal. Era fatal! Eu tinha que me sentar uns momentos na Pastelaria Primorosa para um café e um bom pastel de nata, para matar saudades da minha já tão longínqua infância!

Mais tarde descobri a existência dum outro Café muito mais perto da fábrica. Foi nesse Café que comecei a passar as tardes a ler os jornais e a rever todos os anúncios. Essa matinal tarefa terminada, através dos grossos vidros da montra, via as belezas locais passarem, chocalhando as suas nádegas, coisa que já há muitos dias me não tinha passado por baixo! Era sobretudo aquele tão caracteristicamente português hábito de meter a mão no bolso esquerdo das calças, a amassar o pão nosso de cada dia, que mais me excitava! Olhava os outros clientes do Café e ouvia as larachas que eles trocavam entre eles. Verificava com um certo desapontamento, que as mentalidades dos jovens em Portugal não tinham realmente evoluído! Nem ao menos um pouco! As conversas eram todas à volta de futebol, politica, e "gajas" que tinham "comido" na véspera!

A Grande Vedeta Que Teria Sido


Porém, antes de fechar as malas, como tinha regressado a Paris para ser uma grande vedeta, decidi dar um salto aos Estúdios de Boulogne, ali ao virar da esquina, para tentar ainda uma vez mais a minha sorte. Fui recebido por uma senhora que, a sua primeira pergunta foi : quais as minhas origens ? Respondi-lhe que as minhas origens tinham sido dum parto como todos os demais ! A minha resposta arrumou o assunto! Não havia trabalho para "insolentes"! Fechei a minha mala na cara dessa senhora lá em cima no seu pedestal, e apanhei o próximo avião para Lisboa!

mercredi 6 janvier 2010

Ser ou Não Ser-A Questão




Finalmente, uma bela manhã, recebi uma convocação para ir retirar a minha tão ansiosamente aguardada Carte de Séjour! Agora sim! Agora eu já poderia ir à procura de trabalho que honrasse a minha profissão! Os primeiros passos foram poucos. Com a minha cartinha na mão lá fui, ali mesmo ao virar da esquina, aos escritórios dessa agência de empregos : a ANPE ! Depois de ter estado ali especado na bicha mais duma hora, depois de ter visto um atlético jovem ter recusado uma proposta para lavar carros ali naquela garagem mesmo ao lado, finalmente foi a minha vez de enfiar a cabeça no «guichet» daquela simpática senhora ali à minha disposição para me encaminhar na direcção do meu novo patrão, algures em Paris! A senhora, como sempre, olhou-me da testa ao pescoço enquanto pegava no meu famigerado documento. Depois de ter procurado os meus vestígios no seu computador, secamente me informa que não tinha qualquer oferta a fazer-me! Sugeri que, entretanto, eu podia ir para a tal garagem lavar carros! Ela recusou, que eu tinha demasiadas credencias para me pôr a lavar carros numa garagem! Perguntei-lhe que iria eu então fazer para o jantar nessa noite, e ela respondeu-me secamente que restaurantes não faltavam!

Desesperado, comecei novamente a ler todas as manhãs todos os anúncios de todos os jornais! Encontrei um pedido de recepcionista para um hotel não muito longe. Apresentei-me e, depois de ter mostrado as minhas referências ao chefe do pessoal, fui logo contratado! Comecei logo na manhã seguinte! Claro que tive de aprender como se trabalhava nesse hotel. Tive de aprender sozinho. Todos aqueles que me circundavam, por uma razão ou por outra, pareciam ignorar a minha presença. Cada vez que eu fazia uma pergunta indagando fosse o que fosse, eles estavam sempre demasiado ocupados para me responder! Como se eu não existisse!

A maioria da clientela eram homens de negócios de passagem por Paris. Para minha grande e agradável surpresa, à noitinha, entrou-me pela porta dentro a tripulação da El-Al ! Fiquei radiante! Deparava-se-me uma belíssima ocasião de deitar cá para fora os meus conhecimentos de Hebraico. Imediatamente começaram a flutuar no ar, em surdina, pequenos vestígios de anti-semitismo. Três meses depois fui demitido, sem qualquer justificação! Cheguei à conclusão que não podia voltar para Israel por não ser Judeu e, agora, em França, não podia usufruir dos meus direitos a mim concedidos, em posse da minha nova Carte de Séjour que me autorizava a recuperar a minha profissão para a qual estudara ano e meio da minha vida, por ser tomado por um Judeu! Que descalabro!

Desesperado, peguei novamente nos meus jornais matinais em busca duma saída, uma solução ! Esbarrei com um anúncio de um grande hotel, um grande arranha-céus, ali para os lados de Porte Maillot, que procuravam um recepcionista que falasse línguas estrageiras. Peguei no meu Português, no meu Francês, no meu Inglês, no meu Hebraico, assim como nas minhas migalhinhas de Italiano, Espanhol, e Alemão, e fui bater à porta do Chefe do Pessoal desse grande hotel. Como sempre, depois de me ter examinado da cabeça aos pés, analisou todas as minhas cartas de referências e pediu-me para preencher um formulário de candidatura. Após a minha assinatura ele cumprimentou-me, dizendo-me que eu era precisamente o tipo de profissional que procuravam.

Depois levantou-se e pediu-me para o seguir. Que me ia apresentar ao Director da Recepção. Chegados àquela muito aparatosa bancada, o meu coração palpitou! Se eu era precisamente o tipo de recepcionista que eles procuravam, aquela recepção era precisamente o que eu também mais ansiava! Que boa maneira de matar saudades dos meus Hiltons! Que bom eu deixar de andar por aí por essa Paris fora, de casa em casa, a limpar a merda dos outros!

Entrámos no escritório do famoso Director pensando que ele iria ficar encantado com a minha aparição. Erro crasso ! Eu tinha então 42 anos e ele, um bonito jovem dos seus 25, certamente não gostaria de ter sob a sua alçada alguém com muito mais experiência profissional do que ele. Imediatamente percebi que tinha caído na boca do lobo! Ele, depois de me ter olhado desdenhosamente da cabeça aos pés, pediu-me para me sentar. O chefe do pessoal saiu dizendo a esse jovem chefe, que eu era quem ele precisava. Alguém com muita experiência e boas referências. O jovem chefe começou a fazer-me absurdas perguntas e eu a dar-lhe as respostas adquadas, pensando que isso o impressionaria mas, antes pelo contrário, ele pareceu-me vexado com os meus conhecimentos. Era evidente que eu sabia muito mais do que ele ! Enfastiado, perguntou-me

- Áu iz yórrr Inglich ?

Respondi-lhe enfaticamente :

- Mine is fine ! Thank you ! How about yours ?

Essa minha atitude certamente que o humilhou a tal ponto que ele ergueu-se da sua cadeira, dizendo-me que me participaria da sua decisão por correio. Quase que lhe disse que não valia a pena, que seria um desperdício de selos, pois que eu já tinha captado o que iria ser essa sua decisão! Que ele nunca ousaria dar ordens a alguém com muito mais experiência profissional do que ele! Três dias depois recebi uma carta do Chefe do Pessoal desse grande hotel parisiense, desculpando-se, que a minha candidatura não tinha sido retida!

Enraivecido, decidi dar uma grande volta à minha vida! Pareceu-me que em França nunca encontraria trabalho decente num hotel, pois que eu parecia acartar em mim algo que desagradava a toda a gente! Pensei tentar a sorte em Portugal. Talvez lá, como português que sou, algumas portas se me abrissem! Telefonei ao meu irmão Zé Manel a ver se ele me podia albergar em sua casa por algum tempo, até eu encontrar emprego. Ao obter uma resposta positiva, imediatamente tratei de fazer a mala para ir tentar a sorte algures onde eu não fosse escorraçado !