mardi 5 janvier 2010

A Intrusa










O único grande problema que se viria a passar nessa casa, foi a chegada da Anais! Ele tinha-nos telefonado do México, onde ela vivia com os seus pais - o meu Melo e a minha Rita - onde, parecia, ela tinha-se tornado numa grande vedeta do cinema mexicano. Ela perguntou-nos se ela poderia alojar-se na nossa casa durante três noites, quando da sua escala México-Lisboa, onde iria visitar os seus avós paternos. Claro que sim, que podia! Pediu-nos então que a fôssemos esperar ao aeroporto no dia tal às tantas horas. Lá chegados, aparece-nos uma Anais com quatro malas enormes!

Ela instalou-se no meu “refúgio” e as malas invadiram-nos o hall de entrada. Mas como era só por três noites, não era grave! O problema foi que ela tinha vindo para se instalar em Paris e procurar trabalho no cinema francês, pois que no México ela não tivera qualquer sucesso! Se ela se tivesse alojado na nossa casa enquanto não encontrava um estúdio onde morar, não teria sido problema algum. O pior é que ela começou a passar as noites na galderice e os dias na cama. Chegava-nos a casa por volta das cinco da manhã e metia-se na sala a ouvir discos aos altos berros, e nós não podíamos dormir. Depois, quando nós nos levantávamos às oito para irmos trabalhar, não podíamos sequer arredar uma cadeira senão ela saltava da cama e vinha aos berros para o meio da casa a perguntar que casa era aquela onde nem sequer se podia dormir! As nossas vidas começaram a ser um verdadeiro inferno! Ela drogava-se, embriagava-se, e as poucas garrafas que tínhamos no nosso pequeno Bar começaram a aparecer vazias e com as rolhas aos pés!

Comprei uns auscultadores para ela ouvir os discos à noite sem nos molestar, mas ela punha os ditos sobre as orelhas e cantava aos gritos as cantigas que estava a escutar! A sua rotina nunca se alterou! Por muito que eu lhe pedisse que ela respeitasse o facto de não estar na sua casa mas na nossa, nunca valeu de nada! Como eu tivera dito à Rita quando da educação que ela estava a receber, que ela um dia, quando fosse adulta, não teria quem a aturasse, veio a realizar-se!

Mas nem eu nem o Pat estávamos dispostos a sofrer os seus abusos de hospitalidade e, um dia, três meses depois da sua chegada, pedi-lhe que agarrasse nas suas malas e nos deixasse em paz. Ela fez-me um manguito e disse-me que só se mudaria quando muito bem lhe apetecesse. Que eu também tinha estado em casa dos seus pais em Jerusalém! Dei-lhe três dias para procurar quarto em Paris. Esses três dias passaram e nada de novo! Ameacei-a de chamar a polícia se ela não deixasse a nossa casa! Mesmo assim ela não se deu ao cuidado de respeitar as minhas ameaças! Uma noite ela volta às cinco da manhã e encontrou as suas malas no patamar e a porta trancada! Ela fez um escândalo tremendo. Acordou a vizinhança toda, e eu tive que chamar a polícia! A polícia - depois de os ter informado do que se passara - agarram nas malas e nela e, penso, levaram-na para a esquadra!

Três dias depois, a Suzy, a mulher do Moshé da Swan, telefonou-me a perguntar-me se eu não tinha vergonha de ter posto na rua a filha do meu melhor amigo! Que era uma vergonha! Expliquei-lhe as razões mas ela desligou-me na cara! Duas semanas mais tarde Suzy volta a telefonar-me para me pedir desculpa, que eu tivera muita razão, que ela perdera as suas chaves e que quando quis entrar em sua casa às cinco da manhã que quase lhe arrombara a porta, e que também tinha chamado a polícia!

Algumas semanas depois deste lamentável incidente, o telefone volta a tocar. Desta vez era uma chamada de Lisboa, da sua avó Zuzu, a pedir-me que falasse coma a Anais, que ela não a podia aturar. Que lhe falasse e a fizesse compreender que os seus avós já tinham uma certa idade e que precisavam de sossego!

Claro que nunca falei com ela nem sei exactamente o que realmente se passou. Sei apenas que ela depois enviou-me uma carta do México a insultar-me e a dizer que tinha contado tudo aos seus pais! Foi a minha vez de lhe fazer um manguito, não respondendo a essa carta! Anos mais tarde ela volta a contactar-me por telefone, novamente a pedir-me ajuda !

A minha resposta foi: O teu pai? Amei-o! A tua mãe? Adorei-a! Tu? Não existem entre nós quaisquer laços que nos unam! Boa sorte!

Amar Mata - Mata Amar!
















Quanto à minha vida amorosa, tinha as visitas matinais do Hanz, os pequenos almoços com o Remy e as nossas competições de Rummy, mas algo de novo o meu corpo me implorava.

Uma manhã, no grande Superlmercado onde fazia sempre as minhas compras, esbarrei com um jovem lindíssimo, cujos olhos derramavam uma enorme tristeza e uma imensa súplica de amor! Convidei-o a subir para tomar uma bebida e mal ele entrou e eu fechei a porta ele, em lágrimas, caiu-me nos braços. Dos meus braços à minha cama eram só duas passadas. Empurrei-o de mansinho, despi-o devagarinho, acomodei-o sobre a minha cama ainda aberta e enlacei-o ternemente. Ele apertou-me fortemente contra si e, em pranto, disse-me que me amava! Que há tempos me tinha descoberto no Supermecado, que eu emanava algo que ele tanta necessitava: Amor! Sem querer, os meus olhos também se encheram de lágrimas, e decidi dar-lhe o que ele tão pungentemente mendigava.

Nessa manhã, nos braços um do outro, amámamo-nos! Mas algo de misterioso nos envolveu. Não percebia o que se passava. Quando ele pressentiu que eu queria entrar dentro do seu belo corpo, ele perguntou se eu tinha preservativos. Disse-lhe que não, que queria que ele me tivesse todo nu dentro dele! Ele acedeu e, voltando-se mansamente suplicou-me docemente:

- Aime-moi! Possède-moi! Habite-moi! Tu es peut-être le dernier qui m’aura !

O mais inquietante nessa inabitual manhã foi quando ele se deitou de costas para se ajudar a obter um orgasmo, pedir-me uma toalhinha. Achei isso muito bizarro, mas fui buscar-lhe uma pequena toalha, daquelas para essas especiais funções. Depois de ter sido bafejado por esse divino curto prazer, limpou-se com essa toalhinha de mesa de cabeceira, levantou-se, meteu-se na casa de banho e lavou-se. Quando regressou, foi a minha vez de ir à casa de banho limpar os estragos. A primeira coisa que me chamou a tenção foi perceber que ele tinha também lavado a toalhinha, que estava estendida a secar no varão do chuveiro. Ao voltar ao quarto galhofei com ele dizendo-lhe que ele era o homem que gostaria de ter lá em casa, para me lavar todas as toalhas da semana. Muito seriamente pediu-me encarecidamente que não utilisasse aquela toalha antes de a ter metido na máquina de lavar a roupa. Que era importante! Depois comemos uma bucha na cozinha e então ele apresentou-se: Era argentino, chamava-se Gabriel, e vivia ainda com os seus pais, ali perto!

Tempos depois ele voltou a bater-me à porta. Desta vez ele trazia preservetivos. Quando fomos para a cama ele queria que eu pusesse um deles antes de o penetrar. Disse-lhe que não, que queria sem capota, que não havia perigo de o engravidar! Novamente ele se voltou sem acrescenter qualquer outra palavara. Quando saí de dentro dele, depois dum violento orgasmo, ele, em vez de me pedir uma toalhinha enfiou um preservativo e docemente me virou para o tradicional dar e receber. Enquanto me possuia murmurou-me doçuras em Espanhol, por mim nunca até então escutadas. Ele não sabia que eu era português e que compreendia a sua língua. O que ele me disse foi uma grande pedrada na minha fé:

- Dios! Ten piedad de mí! No quiero morir! Curarme de mi enfermedad! Quiero vivir! Soy demasiado joven para morir! Me encanta vivir! Me gusta la vida! No quiero morir ahora!

Quando, em Espanhol, lhe perguntei o que se passava com ele, ele, apavorado, informou-me que tinha uma doença muito grave. E quando pronunciou o nome dessa doença foi a primeira vez que eu ouvi essa terrível palavra: Sida!

Depois deste incidente, nunca mais vi o meu querido Gabriel! Não sei o que se passou com ele. Teria morrido? Teria mudado de residência?

Só tempos mais tarde, pela primeira vez, ouvi na televisão, falarem dessa terrível ofença à humanidade: Sida!

lundi 4 janvier 2010

Rádio - O Velho Sonho de Sempre


Foi aí nesse apartamento que descobri a existência duma rádio portuguesa em Villejuif. Comecei logo a participar num dos seus programas de poesia, telefonicamente recitando alguns dos meus poemas. Os meus poemas começaram a serem apreciados e, um dia, entro numa loja ali no Boulevard Jean-Jaurés, e comprei um gravador e um microfone que instalei sobre uma longa mesa na sala, entre dois gira-discos, e comecei a gravar poemas meus com música de fundo, e a enviá-los pelo correio a essa rádio, a Rádio-Clube-Português. Os meus poemas começaram a serem passados à antena e a serem solicitados no programa de discos-pedidos.

Um dia recebi uma carta do fundador dessa rádio, o Carlos Duarte, a conviadar-me para uma entrevista. Aceitei e ele propos-me trabalhar benevolamente. A despeito de continuar a fazer limpeza para ganhar a minha vida, aceitei. A Uma bonita mulher que tinha lá um programa, convidou-me a participar na sua emissão, mas como Villejuif era bastante longe de Boulogne, foi ela que começou a vir a minha casa para gravar o programa, pois que ela tinha carro. Na nossa sala, com o meu material, criámos um programa a que démos o título de “Variante”. Foi assim que a droga de fazer rádio ressuscitou dentro de mim! Ela vinha uma vez por semana e, uma vez por semana, gravávamos esses programas. Ao ouvir-me, pouco a pouco, desengavetando os conhecimentos que tinha adquirido com a Berta de Bivar, em Campo de Ourique, comecei a colocar a voz na garganta, a articular as palavras, e a a pôr alma nas ditas. O problema foi que Marilu começou a fazer-me um pequeno jogo de sedução e eu tive de por as cartas sobre a mesa, Tudo em Partos Limpos! Daí nasceu uma grande amizade!

Os Bombeiros Incendiários



Durante esses tempos nesse apartamento, como tinha essa grande varanda, gostava de tomar banhos de sol todo nu. Ora uma dessas manhãs, comecei a ouvir um estranho burburinho de janela a janela. Espreitei por entre as grades e vi, na janela mesmo em frente, um homem que, da sua janela no seu sexto-andar, ameaçava saltar. Vesti um calção e, como todos os outros vizinhos nas suas janelas, comecei também a pedir ao suicida para não saltar, que a vida, a despeito de tudo, era bela e merecia ser vivida! Que a Morte viria sozinha procurá-lo, que não valia a pena ir ao seu encontro. Ele continuava ali especado, de pé sobre o seu parapeito, olhando para baixo. Entretanto alguém tinha chamado os bombeiros e eles não sabiam o que fazer para o dissuadir do seu gesto. Eu, revoltado com a minha incompetência para o fazer mudar de idéias, experimentei o contrário - talvez o mais persuasivo - gritei-lhe:

- É pá! Salta, porra! Tenho mais que fazer! Acaba lá com essa fita! Tenho de ir trabalhar!

Foi remédio santo! Ele recuou, saltou para dentro e fechou a janela. Um dos bombeiros olhou na minha direcção e perguntou-me se eu queria ser bombeiro. Que era de gajos como eu que eles precisavam! Se queria ingressar na sua caserna? Claro que ingressaria de muito boa vontade, mas não para salvar vidas, mas muito mais para apagar esse maldito fogo que constantemente me queimava o corpo todo!

A Bela e Florida Place Corneille




O apartamento nessa bela Praça de Boulogne-Billancourt agradou-nos plenamente! Só havia um quarto de dormidas, mas havia, antes de mais nada, uma larga e longa varanda como prolongamento da casa toda. Tínhamos uma grande casa de banho, um grand hall de entrada com dois pequenos anexos onde pendurar os fatos e arrumar todas as outras roupas. Fizémos desses anexos um para o Pat e outro para mim. Do meu fiz também um pequeno quarto com um estreito divã e uma mesa de cabaceira que fizera dum caixote de sabão que encontrara na rua. Ao fundo tinha o meu guarda-roupa. Desse minúsculo cubículo fiz o meu refúgio, a minha toca. Quando tínhamos visitas era lá que eles se acomodavam. Quando não haviam, era lá que eu me escondia do mundo!

A sala era enorme e tinha uma larga janela de parede a parede, e o canto casa-de-jantar com um belo aparador. Tínhamos um grande sofá, o qual não se podia abrir como cama. Daí a utilidade do meu esconderijo para as visitas. Embora que esse canapé fosse longo e largo que chegasse para dormir umas noites. Mas sem a privacidade que o meu anexo oferecia.

A minha dependência preferida era a belíssima cozinha com uma abertura na parede como acesso à pequena casa de jantar que dava para a varanda. Como tinha comprado um grande livro de receitas intitulado “Especialidades Internacionais” atirei-me de cabeça e comecei a confessionar pratos deliciosos que viriam a surpreender o Pat e algumas das nossas visitas. Foi nessa cozinha que eu também confessionaria um bolo de chocolate que não ia ao forno, que se consolidava no frigorífico. Que o Pat adorava! Mas tive de deixar de o fazer, pois que levava uma dúzia de ovos, e havia o Colesterol a ser tomado em consideração. O Colesterol até batia palmas quando ele lá chegava, mas o nosso vizinho, o belo e doirado Dr. Shweitz, recomendou não abusar de tais orgias!

Desse regresso a Boulgne, o que mais me agradou foi o retorno ao meu belo grande Supermercado onde esbarrara com um dos meus muito gostosos amantes: o Hanz, o tal alemão que morava mesmo ao lado. Dei lá um salto para lhe dizer que eu estava de volta. Bati-lhe à porta! Acordei-o! Ainda estava na cama! Ele, depois de fachar a porta voltou cambaleando de sono para o seu nicho. Não tive outra alternativa senão aconchegar-me nos seus braços e matar saudades das nossas belíssimas viagens de ida e volta do passado. Ai estava garantida a matança da minha insaciável fome de sexo! Como depois o convidei a mostrar-lhe onde então eu morava, ali mesmo por detrás, a dois passos, foi ele depois que começou a acordar-me quase todas as manhãs, para um duche a dois. Como o meu sabonete tinha aquela peculiar mania de andar sempre a escorregar-nos das mãos, um de nós tinha de o recuperar!

Foi também nesse apartamento que viria a conhecer o vizinho de baixo, o Remy! Não recordo como tudo começou! Lembro-me que ele subia frequentemente para jogarmos ao Rummy. Começou a provar os meus petiscos e começou a gostar dos meus cozinhados e a vir amiudadamente tomar o pequeno almoço comigo na minha pequena casa de jantar com janela para a varanda. Depois começou ambém a vir passar a noite no meu anexo, naquela pequena cama para os hóspedes. Depois do Pat ter saído para o trabalho, ele vinha - todo nu - com a sua matinal afrodisíaca erecção, enfiar-se na minha cama. Nunca saberei exactamente o que se passava na sua cabeça, no seu corpo, que indomáveis forças o empurravam para dentro da minha cama logo ao acordar! Mas a verdade era que eu desejáva desesperadamente aquele seu belo e jovem corpo todo branco a transbordar de seiva e talvez também de oportunos intuitos. Mas nunca ousei tentar descobrir o que esse branco corpo que se me oferecia a medo, porque receava perder um bom vizinho que gostava de jogar às cartas e dos meus pequenos-almoços. Se nos tivéssmos entregado um ao outro isso seria por apenas umas tantas efémeras e passageiras aventuras! Eu preferi não demolir a nossa mutua amizade.

Muitos anos depois, ao encontrar por acaso o seu número de telefone na pesada lista, telefonei-lhe para ver se esse Remy era o mesmo que eu tanto desejara. E era! Só que, entretanto, ele tinha mudado de casa, tinha-se casado, tinha descendência, e preferiu recordar-me como então eu era. Ou talvez, quem sabe, esconder-me todos esses anos que lhe tinham passado por cima. Ou, pior ainda, medo de voltar a desejar novamente o meu corpo então já certamente muito menos desejável!

Alguns Muitos Anos Mais Tarde





Quando pela primeira vez eu apertei a Vává contra o meu peito, tinha ela então nove meses. Quando a deixei tinha ela seis anos e meio. Passaram-se uma dúzia de anos que nunca mais a vi nem dela ouvi falar. Até que um dia, para minha grande surpresa - uma maravilhosa surpresa - Daniele telefonou-me para um jantar em casa dela, para celebrar os dezoito anos da Vanessa! Entretanto a Daniele tinha deixado o marido e tinha mudado de casa para La Défense.

Foi uma noite maravilhosa para mim! Rever a minha Vává, agora já uma senhora que se chamava Vanessa, e o meu Nico, já também um homenzinho que se chamava de novo Nicolas. Dessa noite ficou-me uma das minhas mais gratas recordações!

Entretanto outros anos passaram e nunca mais soube dela. Talvez que, entretanto, se tenha casado e tenha tido um bébé que agora também precisa dos meus serviços?

dimanche 3 janvier 2010

O Gégé e a Vává







Como esquecer aquela tarde em que, durante esses seis anos que morámos na Rue du Dragon, fui pela primeira vez à Rue Magdabourg, subir àquele vasto e luxuoso quarto andar para conhecer a Daniele, a tal colega do Pat que precisava dos meus serviços uma ou duas vezes por semana. Curiosamente, ao subir aquela curta rampa, descendo em sentido contrário, sobre o mesmo passeio, um homem muito belo dando a mão a um miúdo dos seus dois anos, vinha vagarosamente ao meu encontro. Ao passar por ele reconheci aquela bonita cara. Ele sorriu-me ao passar e eu disse-lhe excitadamente:

- Bonjour ! Quel plaisir de vous voir !

- C’est réciproque !

Respondeu-me ele com aquela belíssima voz que era a sua ! Era o Joe Dassin ! Nunca saberei ao certo se ele habitava naquela rua ou se passava realmente por acaso !

Continuei o meu caminho e ao chegar à morada que me tinha sido indicada apanhei o elevador para chegar a esse quarto andar onde morava essa Daniele. O elevador, para meu espanto, quando abri a porta, entrava-se directamente no apartamento. Achei isso bastante invulgar. Daniele lá estava à minha espera. Como era evidente e de esperar, a sua primeira preocupação foi mostrar-me a casa toda. Que era enorme! Na sala estava um berço com um lindo bébé. Inclinei-me um pouco para o saudar, ao mesmo tempo que perguntava à orgulhosa mamã qual era o nome dessa encantadora pequena criatura que ansiosamente me estendia os braços a pedir-me que lhe pegasse. Daniele disse-me que o seu nome era Vanessa, mas que lhe chamavam Vává! Não resisti à tentação, peguei nela e aconcheguei-a ao meu peito. Ela, ternamente enlaçou o meu pescoço com aqueles seus tão bonitos bracinhos. Uma grande história de amor acabava de acontecer! Não era o Romeu e a Julieta ou o Paulo e a Virgínia. Era o Gégé e a Vává!

Daniele ao aperceber-se que um grande amor despontara ante os seus olhos - agradavelmente surpreendida - afoitou propor-me se eu gostaria de, em vez de vir duas vezes por semana, vir todos os dias. Que assim eu podia garantir-lhe uma casa bem arrumada quando voltasse do emprego e, ao mesmo tempo, eu tomar conta do seu bébé. Claro que aceitei! Com o coração já a transbordar de amor por aquela coisa pequenina que quase me enforcara dentro daqueles deliciosos bracinhos cor de rosa! Por outro lado, para mim seria muito menos penoso do que ter todos os dias uma ou duas “madamas” rabugentas que nunca me lançaram os braços ao pescoço! Depois de certos acordos, de me mostrar como se mudava uma fralda e dar um banho a um bébé, tomou-se um café ao mesmo tempo que Daniele me tateava por dentro para ver se eu seria realmente competente para preencher esse lugar que ela me propunha. Ao sair ela disse-me que me ia confiar a sua casa e o seu bébé, um mês à experiência.

Esse mês muito rapidamente passou! Eu já sabia como mudar fraldas a um bébé e o resto veio-me do coração! Era evidente que um grande amor em muito pouco tempo se nstalou entre mim e essa adorável Vává. Todas as manhãs lhe dava banho e mudava-lhe de fralda sempre que necessário. Da parte da tarde, depois duma hora de soneca, a seguir ao seu biberon, punha-a no seu carrinho e íamos dar uma volta pelo Trocadero. Por vezes sentava-me numa daquelas esplanadas desse largo, tomava um café e via as marés altas de gente que ondulava incessantemente diante da mesa onde me sentara. Uma vez - nunca o esquecerei - numa mesa ao lado estavam quatro jovens a tomar cerveja e a cuspir as cascas dos tremoços pelo chão quando, finalmente, uma dessas caras que me não era completamente estranha, revelou-se ser a dum grande artista francês que eu muito apreciva: o Thiery Le Luron. Ele olhava-me de vez em quando como que dalgum modo obsecado pela minha presença. Quando ele se despediu dos seus amigos, passou pela minha mesa e parou uns segundos para ostensivamente me dizer:

- Vous faites de très beaux enfants, vous savez ?

Essa foi talvez a primeira vez que a Vává recebia esse grande cumprimento que as mulheres tanto apreciam ! Muitos mais viriam ! Ela era realmente um bébé de fazer parar o transito e, pelos vistos, até as marés de gente apressada !

Uma doce rotina se instalou entre nós ! Ela tornara-se naquilo que eu tanto desejava: o meu bébé ! O que eu sonhara ter era um filho, mas uma filha como a Vává era mais do que bem-vinda ! Eram todos os dias esse ritual no qual eu mergulhava, agradecendo a Deus essa maravilhosa inesperada prenda caída dos céus aos trambolhões ! Primeiro foram as mudas de fraldas, depois os vestidinhos de folhos, e depois dos biberons vieram as papinhas, as primeiras palavras, os primeiros passos ! Quando ela se apercebeu que o meu nome era Rogério começou a chamar-me Gégé ! Eu era o seu Gégé, ela a minha Vává ! Claro que, falando de rotina, os nossos dias eram sempre muito iguais, com a diferença que ela todos os dias aprendia algo de novo, e eu também ! Quanto mais os dias passavam mais nós gostávamos um do outro ! O que ela mais apreciava eram os passeios que começámos a dar pelos jardins do Trocadero, para ela aprender essa maravilhosa coisa que é andar ! Correr ! Saltar ! Cair ! Levantar-se ! Rir ! Chorar ! Amar e ser amada !

O meu primeiro trabalho de manhã era tratar dela, depois arrumar a casa, e depois da sesta o nosso quotidiano passeio pelos jardins ! Foi aí que ela começou a aperceber-se que havia sol, vento, chuva, e outras crianças como ela que não tinham um Gégé mas que corriam e saltavam como ela ! Quando ela começou a falar descobri que certas frases em Francês, na sua boca, soavam como portuguesas que não tinham nada a ver com a conversa . Uma delas era quando ela dizia « c’est beau la », que em Português era « cebola ». E a outra era quando ela dizia « c’est beau ça », que em Português queria dizer cebosa ! Cada avez que ela me dizia este tipo de aparte eu tinha que rir !

Os anos foram passando e um dia comecei a levá-la a uma espécie de « jardin de infância », onde ela começou a aprender a ler e fazer contas de somar. Era só da parte da tarde. Com uma imensa tristeza comecei a aperceber-me que sobre toda essa grande felicidade um dia os taipais seriam descidos. Por obra e graça da Daniel e do seu marido, a Daniele ficou novamente grávida. Quase sem dar pelo tempo que passava nas asas do vento, a Daniele deu à luz um outro bébé. Desta vez um menino a quem viriam a chamar Nicolas e ao qual eu chamaria apenas Nico. Eu, a Vává, e o Nico, muito rapidamente nos tornámos nos « três da vida airada » ! Novamente recomeçaram as mudas das fraldas, preparar os biberons, depois as papinhas, os banhos, e os passeios pelo jardim. Desta vez o Nico no carrinho da Vává e ela a empurrá-lo ! Nesses luminosos dias nós devíamos certamenteee ser os mais felizes de todos os mortais !

Uma vez fui passar duas semanas de férias Portugal. Ou seria Israel ? Ao voltar a Vává caiu-me os braços em lágrimas, agarrada ao meu pescoço, a soluçar « ai o meu Gégé, ai o meu Gégé » ! Daniele ficou fula ! Deu-lhe uma sapatada e disse-lhe :

- O teu Gégé, o teu Gégé ! E eu ? eu ! Quando me ausento por uns dias, quando volto, nunca me dizes « ai a minha mamã » !

Tive de explicar à Daniele que isso era natural. Que era eu que a vestia e calçava, a alimentava, que a levava a passeios, e isto todos os dias das oito da manhã até às seis da tarde ! E que quando ela voltava do seu emprego ela dava-lhe jantar e punha-a na cama. Que ela não estava com ela todos os dias mais do que duas horas, e que eu eu era de manhã à noite ! Daí nasceu um pequeno pouco à vontade entre mim e Daniele. Deixei a minha Vává e o meu Nico nas mãos sabe Deus de quem e segui a minha vida !

Uma amiga da Daniele que também tinha dois miúdos - um rapar e uma rapariga - solicitou os meus serviços. Tentei, mas esses miúdos eram duas crianças diabólicas. Nada a ver com a minha Vává e o meu Nico ! Mandei-os todos para o diabo e voltei às minhas tarefas na Place Corneille, para onde, entretanto, nos tínhamos mudado. E a minha luta pela obtenção da minha « Carte de Séjour » recomeçou. Além de algumas muitas figurações em filmes franceses que começaram a chover apartir do dia em que comecei a chamar-me Carmowsky!