jeudi 24 décembre 2009

A Odisseia dos Renegados






O problema foi que esse grande génio do cinema francês tinha-me telefonado na quinta-feira, e eu só tinha até domingo para me organizar. A primeira coisa que fiz foi telefonar às duas madames que eu “servia” todas as segundas-feiras, a prevenir que eu nesse dia não poderia cumprir o nosso contrato. Elas ficaram fulas e eu tive de me precaver e não as mandar ao raio que as partam! Eu queria que elas um dia fossem ao cinema com as amigas e quando eu aparecesse no ecrã elas saltarem na cadeira e dizerem umas às outras: Olha quem é! Nunca esperei! Era o meu “homem-a-dias”!

Na sexta-feira esse grande realizador voltou a telefonar-me. Pensei que ele me queria dar algumas instruções, mas não! Ele queria apenas fazer uma simples pergunta: Você é Judeu? Tomando em conta o problema do anti-semitismo em França, disse que não era! No dia seguinte – Shabbat - ele volta a telefonar-me a dizer-me que, afinal de contas, não havia nenhum papel para mim no seu filme e, sem qualquer desculpa ou explicação, desliga-me na cara! Fiquei absolutamente arrasado! Não compreendia porque razão ele tinha, dum dia para o outro, mudado de opiniões acerca dos planos que ele tivera de fazer de mim uma vedeta, para o qual ele me tinha arrancado ao meu querido Hilton! O mais doloroso de tudo, foi ainda, eu ter compreendido sem grandes dificuldades, que eu estava condenado a ser “homem-a-dias” para o resto dos meus dias! Ou até que certos absurdos fanatismos fossem finalmente destronados!

Lá continuei a viver o meu reles dia-a-dia sem nada poder fazer para sair do meu beco sem saída. Eu poderia ter voltado para o Hilton! A Glória, quando duma curta visita a Tel Aviv, tinha-me aconselhado a voltar, que no Hilton haveria sempre trabalho para mim! Mas o Pat não estava muito pelos ajustes e, sobretudo, eu tinha decidido provar a mim mesmo e a todos os demais, que eu podia realmente vir a ser uma grande vedeta do cinema francês! Como essa idéia de fazer cinema se tinha enraízado em mim duma forma quase doentia, decidi tentar a sorte com outros realizadores. Eu queria provar a essa porcaria de criatura que me arrancara ao país e ao emprego que eu tanto amava, que mesmo sem ele eu viria a ser um dia uma grande vedeta!

Comecei por me inscrever em várias Agências Artísticas. Preenchi os meus contratos como sendo Rogério do Carmo, dando a morada e todos os outros pedidos formulados. Continuei a fazer limpeza aguardando ser eventualmente convocado para prestar provas. O telefone não tocava e o carteiro não me batia à porta. Apenas uma vez fui convocado para prestar provas no Museu do Louvre. Pensei que talvez desta vez tudo se passasse bem, pois que em Portugal, com o Nuno Fradique, na televisão, tudo se passara sempre pelo melhor. Depois fizera aquele pequeno papel no filme “Encontro com a Vida”, do arthur Duarte, com o Rogério Paulo, e a revista Plateia dera-me aquela boa crítica dizendo que as Portas do Cinema se tinham aberto para mim! Que o papel tinha sido pequeno, mas que António Vilar e Virgílio Teixeira tinham começado assim!

Ao chegar ao Louvre pergunto onde encontrar a pessoa encarregada dessas provas e fui encaminhado para uma pequena sala onde já haviam vários outros jovens sentados à espera dum milagre. Dirigi-me à secretária onde estava um cavalheiro sentado e apresentei-me com a minha convocação. Ele olhou-me, como sempre, de alto a baixo, e estendeu-me uma folha para eu preencher. Sentei-me a um canto e preenchi essa folha. Pus o meu nome e morada e respondi a todas, muitas e várias perguntas. Quando me pediram qual a minha religião eu escrevi “nenhuma”! Esse cavalheiro depois de ter verificado se a minha folha estava convenientemente preenchida, olha-me por cima dos óculos e perguntou-me se eu era Judeu. Uma vez mais, pelas mesmíssimas razões, disse que não era Judeu! Ele pôs a minha folha de parte e disse-me que eu seria contactado mais tarde, pelo correio. Ao abandonar a sala perguntei a mim mesmo qual a razão eu não prestava as minhas provas nesse mesmo dia, para o qual, tal como todos os outros, tinha sido convocado!

Continuei a fazer as minhas “limpezas” mas, um dia, ao ver ali tão perto da Porte de Saint-Cloud, aquele altíssimo Hotel Sofitel ali no periférico, dei lá um salto para tentar a minha sorte. Quando cheguei à recepção para pedir para falar com o Chefe do Pessoal, uma vez mais, tal como no passado, em Ramat Aviv, o recepcionista era um dos meus ex-condiscípulos do Tadamor Hote Training School! Ele ficou espantado de me ver ali na sua frente, e quando lhe expus o meu problema ele telefonou ao dito responsável, dizendo que eu era um amigo dele dos tempos da sua escola de hotelaria em Israel, que eu tinha sido o mais louvado de todos quando dos exames. Depois, desejando-me boa sorte, pediu a um bellboy que me acompanhasse ao escritório desse senhor. Lá chegado, depara-se-me um cavalheiro muito distinto que, muito profissionalmente, me convida a sentar-me na sua frente. Ele olhou-me penetrantemente nos olhos e perguntou-me se eu tinha o meu diploma do Tadmor. Claro que tinha! Estendi-lhe o diploma e todas as cartas de referências dos hotéis onde tinha trabalhado em Israel. Ele perscrutou longamente toda aquela papelada e logo me propôs um lugar na recepção. Seguidamente pediu-me igualmente a minha Carte de Séjour. Quando lhe disse que a minha carta de Séjour já não era válida, ele respondeu-me que não era problema, que ele trataria do assunto! Pediu-me para eu lhe confiar a minha carta e assinar um contrato, e disse-me que logo que ele recebece a minha nova Carte de Séjour me contactaria.

Ao sair do hotel fui a correr para a avenida de Versalhes fazer a minha limpeza da tarde. Cheguei atrasado mas expliquei à senhora o que se tinha realmente passado. Ela desejou-me boa sorte, dizendo-me que eu era uma pena andar a fazer limpezas, que merecia melhor sorte! Pela minha cabeça passou-me mais uma vez aquela história de eu merecer mais estar sobre um palco, do que a limpar os bastidores!

A minha penitência de nunca saberei que pecado, arrastou-se pelo tempo fora na expectativa de ser convocado de novo ao Louvre para prestar provas, e de ser contactado pelo Sofitel informando-me dos resultados dos seus eforços de revalidar a minha Carte de Séjour para que eu pudesse começar a trabalhar na minha profissão. As limpezas continuavam a ser aquela pequena cunha que eu utilizava para não resvalar ainda mais baixo na minha situação. O Pat estava sempre lá para me amparar, mas eu queria ser dono do meu destino.

Uma noite, depois de jantar, fomos ver um pouco de televisão. Caímos em cima duma longa entrevista a um daqueles muitos, demasiados pseudo-actores que por aí andam - hoje, amanhã e sempre - a fazer cinema, teatro, discos com cantigas de merda, “one’man show”, televisões umas atrás das outras, publicarem as suas memórias escritas por uma indústria de aldrabices, sem talento seja para o que for, apenas por serem filhos, primos, cunhados, de alguma outra vedeta decadente! Nessa noite, nessa entrevista, depois de um chorrilho de baboseiras, afirmou, alto e tolamente, que para se fazer cinema é preciso ser-se Judeu! Nessa noite comecei a compreender o que se estava realmente a passar comigo e indiferença dessas pessoas todas que tinha contactado para dar o meu primeiro passo na Arte de representar!

Na manhã seguinte faltei a uma das minhas limpezas e voltei a todas essas agências artísticas por onde tinha passado, e voltei a preencher essas tais folhas com as nossas referências e onde tinha de escrever o meu nome pus Ruben Carmowsky e, mais abaixo, onde devia pôr qual o meu pseudónimo, pus Rogério do Carmo! Dias depois começaram a chover as propostas para fazer figurações em filmes em rodagem nessa altura. Demiti-me da Agência de Limpezas e comecei a andar de seca e meca a “botar figura” perante essas miraculosas câmeras que divulgam as nossas fuças! Pouco a pouco comecei a ser notado. Pouco a pouco comecei a acreditar que poderia dar uma grande chapada naquele realizador que destruíra o meu futuro!

Pelo facto de eu falar Hebraico, comecei a ter ainda mais propostas. Como também falava Inglês fui contratado para um filme inglês como tradutor. Era eu que traduzia as ordens do realizador inglês aos milhares de figurantes! As filmagens duraram três semanas e andámos de terra em terra a acabámos numa grande batalha no Chateau de Vincènes!

Depois foram altos e baixos e como não podia ficar inactivo demasiado tempo, aceitei uma proposta duma colega do Pat que tinha um bébé de nove meses e procurava alguém que tomasse conta da sua casa e do seu bébé. Aí começou uma das mais belas histórias de amor da minha vida! Foi a “minha” Vává!

Quanto ao aprendiz de fazedor de vedetas, muitos anos mais tarde, foi por mim entrevistado numa rádio! Quando ele entrou no estúdio e viu quem era o entrevistador, olha para mim muito surpreendido e clamou:

- Eu bem lhe tinha dito, Roger! Em Paris você seria uma grande vedeta!

A minha resposta foi:

- Grande vedeta, o caraças! Para estar agora aqui na sua frente e ter de jantar esta noite, tive de andar a fuçar a manhã toda, a limpar a merda dos outros!

mercredi 23 décembre 2009

Para Ti Querido Hilton!
















Outra grande recordação dos tempos da Edouard-Vaillant, foi uma certa carta que, inesperadamente, me foi enviada pelo Hilton de Tel Aviv! Ao ver essa carta passou-me pela cabeça que eles me queriam de volta! Mas era apenas uma carta do Professor Lazar, que me tinha operado ao olho direito, que tinha gostado muito do desenho que eu tinha feito, inspirado nessa minha primeira passagem sob a anestesia geral. Ele tinha-me pedido esse desenho como recordação desse evento, mas eu recusára-lho, pois que esse desenho eu queria-o só para mim!

Tempos mais tarde, pensando que eu ainda trabalhava no Hilton, enviou-me essa carta pedindo-me, ao menos, uma cópia desse meu desenho de que ele tanto tinha gostado. Do Hilton fizeram-me essa grande honra de me remeter essa carta, juntamente com um bilhetinho dizendo que eles, Hilton, também queriam uma cópia para eles, a lembrar a minha brilhante passagem pelos seus serviços. Enviei uma cópia ao Professor Lazar e jurei-me levar a outra ao Hilton, pessoalmente. Agora, ao escrever este apontamento, recordo que até à data ainda não cumpri essa minha promessa! Tenho que me despachar! Antes que seja completamente esquecido pelos poucos ex-colegas que ainda lá trabalham. Como o Avi...

Natal 1977 com o Fanana

















Esse Natal 1977, depois de três anos em Israel - sem Natal, essa tão cristã celebração - foram algumas passadas atrás que eu e o meu irmão Fernando - que então trabalhava no Claridge, afastado da sua mulher e dois filhos - démos! Nesse dia, ele e o Pat, foram a minha única família, com a qual eu podia festejar esse meu primeiro Natal, depois de tantos anos. Fizémos duas fotos para enviar à sua família em Paio Mendes.

Aqui vão elas, Fernando! Agora para ti que, em Paio Mendes, repousas sob essa terra que nunca te soube amar! Nessa tua campa rasa - onde um dia fui depor uma pedrinha para que te sentisses menos só! Repousa em Paz! Até qualquer dia! Esse dia quando me juntarei a todos aqueles que tanto amei e que me deixaram pelo caminho!

mardi 22 décembre 2009

Edouard-Vaillant - Marcel Sembat



Edouard-Vaillant era uma rua bastante movimentada. Tráfego e transeuntes. O nosso muito bem mobilado pequeno apartamento era no quarto andar, a dar para as traseiras. O que o tornava um sítio calmo onde se viver. Tínhamos apenas uma pequena sala muito bem mobilada com varanda para os telhados dos vizinhos. Nessa sala, realmente muito bem mobilada pela senhoria, havia um sofá/cama que abríamos sempre que tínhamos visitas. Haviam também dois canapés, uma mesa baixa, um recanto com o televisor, uma mesa redonda de casa de jantar, com quatro cadeiras à volta, e um grande aparador cheio de bonitas louças. Havia o hall de entrada e a cozinha muito bem apetrechada, assim como um belo quarto com cama de casal, um grande guarda-roupa, uma cómoda, casa de banho privativa, e uma larga janela para as traseiras. Em baixo tínhamos todos os comércios, incluindo um supermercado e alguns bonitos Cafés onde, na esplanada ou por detrás duma vitrina, eu muito gostava de passar uns bons momentos a saborear um bom café, ler um jornal e, sobretudo, apreciar as belezas que constantemente passavam.

Instalarmo-nos nesse novo lar foi fácil. Não tínhamos móveis a transferir. Apenas as nossas malas de roupa e alguns bens pessoais. Mal abrimos as malas e arrumámos as nossas coisas, tínhamos ali logo à nossa espera uma fofa cama que nos abria os seus lençóis num largo sorriso. A readapatção foi rápida. A despeito de ser um apartamento mobilado ao gosto dos outros, surpreendeu-me ter-me sentido completamente “chez-moi”!

Depois de tudo arrumado procurei organizar a minha vida profissionalmente. Peguei nos meus documentos e fui ao Hilton de Paris ver como paravam as coisas. Fui muito bem recebido. Falei com o chefe do pessoal que, depois de ter visto as referências que tinha trazido do Hilton de Tel Aviv, imediatamente me propôs um lugar como “night-auditor” no Hilton do Aeroporto de Orly. Porém nesse hotel recusaram-me porque a minha “Carte de Séjour” já estava fora de validade. Enviaram-me ao Ministério do Interior renová-la, mas como nessa altura – muito antes das fantasias da Europa-Unida a tentarem obter o mesmo poder sobre o mundo, que os Estados-Unidos da América – esse Ministério tinha fechado todas as portas à imigração, fossem eles de que nacionalidade fossem, fiquei com a corda ao pescoço! Como em Israel, deram-me apenas uma licença de estadia de três meses! Era evidente que não me valeria a pena procurar emprego noutra qualquer profissão. Tinha três meses e acabou! Depois desses três meses, tal como em Israel, teria as Autoridades no meu encalço! A única saída e solução seria contactar aquele célebre realizador de filmes e ver se assim eu obteria, eventualmente, trabalho e legalização dos meus documentos. Telefonei-lhe e ele marcou encontro comigo num famoso restaurante dos Campos-Elísios, muito perto dos seus escritórios. Almoçámos juntos e ele falou-me dum filme que ele andava então a preparar. Ficou radiante de me ter de volta a Paris para fazer de mim uma vedeta! Depois do almoço ele pediu-me o número do meu telefone e que, logo que as filmagens fossem iniciadas, me convocaria para falarmos do papel que me teria sido atribuído no seu “casting”! Não lhe falei da minha situação irregular no país, pois que pensei que, com a sua influência, ele me obteria os meus outros papéis. Esses de cidadão francês! Voltei a casa mais animado e profundamente convencido que o meu trabalho nesse filme me abriria muitas outras portas!

O Pat continuava na O.E.C.D. e ganhava bem a sua vida, mas como sou, fui, e sempre serei, muito independente, para não ficar totalmente dependente do ordenado do Pat, pus os pés a caminho e, como tantos outros pobres diabos aos cavacos, como eu, agarrei na única possiblidade de continuar neste país, ao “negro”, procurei trabalho numa Agência de Limpezas, ali mesmo ao pé da porta. Nessa agência, como muito bem contava, não me exigiram documentos. Assim, graças a eles, comecei a ser enviado aqui e ali para limpar as casas daqueles que, legalizados, podiam dar-se ao luxo de ter um limpa-merdas quase de borla. Mesmo assim ganhava o suficiente para limpar a minha dignidade de não depender dos outros inteiramento. Um do meus primeiros trabalhos foi ali em casa dum embaixador qualquer, na avenida de Versalhes, cuja esposa tanto gostou do meu trabalho (como sempre, seja o que que for que eu faça, sou sempre o melhor) recomendou-me à “concierge” e a todas as suas vizinhas e amigas. Comecei a fazer quatro horas de manhã em casa duma e, na parte da tarde, depois de uma sandes e uma meia de leite, mais quatro horas em casa doutra patroa. Ganhava cinco francos por hora, o que me dava quarenta francos por dia. O que já não era mesmo nada mau nesses tempos, mas esses francos que me entravam no meu porta-moedas saíam-me directamente dos poros do meu rosto e do meu corpo que fazia tudo o que eu lhe ordenava. Mas, como me tinha dito esse grande realizador de cinema, eu deveria estar sobre um palco, não a limpar o lixo dos outros!

E assim se foram passando os dias. Da Edourd-Vaillant à avenida de Versalhes era tão perto que eu ia a pé e atravessava sempre a rotunda Porte de Saint-Cloud, onde havia um grande Café, o “Les Trois Obus”, onde eu sempre parava para a minha primeira bica do dia e onde, mais tarde, voltaria para a minha sandes e meia de leite, antes de agarrar nos utensíios da outra senhora à qual eu limparia o seu esterco! A vida era dura, mas aguardava impaciente de ser chamado às fileiras para iniciar a minha carreira de grande actor que sempre quis ter sido!

Depois da minha segunda tarefa de cada dia, voltava a casa e, pelo caminho, fazia as minhas compras para poder apresentar um jantar decente ao homem que me pagava a renda da casa. Era uma rotina degradante pois que em casa das minhas frequesas tinha de assear a sua trampa e, o pior de tudo, coisa que detesto, passar a ferro. Por vezes também fazer-lhes as compras e algumas vezes mesmo cozinhar as suas refeições para elas armazenarem nos seus congeladores. Porém, ao fim dessa grande estopada, iria ter o Tapete Vermelho em Canes à minha espera. Eu estava certo de que, com a ajuda desse grande realizador de filmes, eu iria ser um grande, grande actor, como sempre sonhara ser desde pequenino! E eu não estava enganado!

Um dia, estava eu a preparar o meu jantar em casa quando subitamente o telefone tocou! Corri pressuroso! Talvez fosse o Pat a dizer-me que chegaria tarde, o que muitas vezes acontecia, pois que ele estava a cargo dum trabalho muito importante nessa Oraganização. Porém, nessa tarde, não era o Pat, era o meu Messias, esse grande realizador de cinema que me “descobrira” em Tel Aviv, ali por detrás do balcão da recepção do Hilton, e que iria fazer de mim uma grande vedeta! Ele pediu-me para estar - sem falta - às oito da manhã, na próxima segunda-feira, às oito em ponta, no Café “Les Trois Obus”, na Porte de Saint-Cloud, que partiríamos daí, com toda a sua equipa, para filmagens de exterior, nos arredores de Paris!

Ao repor o telefone sobre a sua base, ergui os olhos aos céues e agradeci a Deus essa grande benção. Eu já estava farto de andar a fazer de “mulher a dias” a todo o bicho-careta, e ia enfim ser um grande actor! Por essa razão eu tinha deixado o país que amava, um emprego onde eu tinha um grande futuro à minha espera, colegas que adorava! E essa Tel Aviv onde eu era tão feliz, que aguardava a vinda do Pat para trabalhar no British Council e estarmos de novo juntos, naquele novo pequeno lar lá no alto, sobre aquele telhado com um grande terraço todo acimentado que nos aguardava para nos agasalhar. E o mar ali mesmo à nossa frente, com as suas altas vagas à nossa espera para nos galgar em cima!

dimanche 20 décembre 2009

Saint-Cloud - Rue de la Tourelle




A viagem de regresso passou-se como quase sempre, nessas alturas. Dormitando e ser acordado para uma pequena refeição. Nesses áureos tempos ainda não tinham sido inventados os actuais miseráveis “cachorros” que não mordem nem são mordidos.

Sabia que o Pat tinha deixado a Jules Ferry por se ter sentido demasiado só sem a minha presença. Tinha alugado um pequeno estúdio na Rue de la Tourelle - mesmo em frente do Estádio "Parque des Princes" - e que tinha trazido com ele apenas as suas roupas e alguns cacos. Tendo deixado para trás todos os móveis que eu tinha confecionado. Incluindo aquela maravilhosa cama de casal que eu tinha fabricado com as pranchas que dividiam a sala. O pior de tudo, tal como os desenhos que eu deixara entregue aos cuidados da Dona Maximina, em Lisboa, em 1960, as minhas pinturas eróticas que tinha pintado sobre madeira, tinha-as perdido a jamais!

O seu estúdio era relativamente pequeno. A sala tinha duas janelas que davam para a rua, com o estádio ali mesmo em frente, a alguns metros de distância. Era o único panorama a ser avistado dessas janelas. Haviam dois divãs, um guarda-roupa, uma mesa de casa de janta com quatro cadeiras, uma estante, e uma mesa baixa com um televisor a cavalo. Haviam igualmente uma pequena cozinha, casa de banho, e um pequeno corredor. Ele tinha trazido consigo a Cookie, a nossa gata que tinha sido encontrada - ainda bébé - na piscina do Claridge Hotel, onde eu tinha trabalhado no passado!

Não ficámos lá muito tempo, porque era realmente demasiado pequeno para duas pessoas. Decidimos procurar um apartamento com mais espaço. Encontrámo-lo ali perto, na Avenue Edouard-Vaiilant, mesmo em frente da boca do Metro "Marcel Sembat". Procurámos ainda ver se o nosso belo apartamento na Jules Ferry estava desocupado, mas outra famíllia o tinha tomado. Talvez agora dormindo sobre a minha rica cama de casal, excitando-se com as minhas pinturas eróticas!

A única coisa que recordo claramente desse curto período que vivemos na Rue de la Tourelle foi, quando haviam grandes desafios de futebol. Para não ouvirmos a monotonia dos relatos, tirávamos o som ao televisor e ouvíamos apenas os urros e aplausos dos torcedores das duas equipas em campo, quando marcavam algum golo. Assim como, quando fomos ao estádio ver pessoalmente um encontro entre duas equipas de Rugby – Escócia-França. Quando subi aquela escadaria que me conduzia à bancada onde me iria sentar, ao pôr o pé sobre a plataforma acimentada, marcaram um golo e o estádio veio abaixo com uma clamorosa aclamação. Durante alguns segundos pensei que tinha sido causada pela minha súbita aparição! Ou talvez, quem sabe, do meu regresso a Paris! Sem esquecer, observar o Pat a tricotar um bonito pulôver todo branco para mim, que iria durar muitos anos. Eu e o malvado do pulôver que me chagava até aos joelhos!

A Grande Festa de Despedida







As últimas recordações desses belos tempos no Hilton foi aquela festa de despedida e a vinda do Pat até Tel Aviv para me ajudar a acartar as minhas malas de regresso a Paris. Foi uma grande alegria tê-lo visto entrar pela porta dentro e vir ter comigo à recepção com o seu belo tímido sorriso. Fui levá-lo a casa na Shlomo Hamelech para ele descansar um pouco, até que eu acabasse o meu turno às 15 horas. Eu trabalhei até ao último minuto no Hilton, como se me separar desse hotel e de todos aqueles colegas que tanto amei fosse uma das mais penosas separações da minha vida!

Passei o resto da tarde com o Pat a passear pela cidade. Depois do jantar fomos para casa e pedi ao Pat que me aguardasse, que eu ia despedir-me do Augusto que, entretanto, se tinha mudado para um quarto no Kikar Dizengoff, ali muito perto de minha casa. O problema foi que separar-me do Augusto significava uma noite inteira de intenso sexo, como só com ele seria possível! De manhã quando cheguei a casa encontrei Pat muito magoado e ofendido. Como ousara eu ter ido passar a noite com outro homem, quando ele tinha vindo expressamente para me ajudar com as malas? Nessa manhã ele jurou-me que se pudesse ter apanhado um avião antes do nosso, que o teria feito! Se tivesse sido o caso, teria sido o fim das nossas relações, que nunca mais me quereria ver pela frente! Felizmente, não foi o caso e nessa tarde apanhámos um táxi até ao Aeroporto com as minhas malas.

Foi com lágriams na alma que levantei voo desse país a que tanto quero, dessa Tel Aviv das minhas tantas aventuras, da minha juventude, desse Hilton que tinha sido uma das minhas mais ricas passagens pela minha profissão, e todos aqueles colegas que sabia que nunca mais veria na minha acidentada vida, mas que eu voava na direcção doutra grande aventura da minha vida: Paris e a minha ascenção como actor! Eu ia ser uma grande vedeta do cinema francês!

A Noite da Morte!



No Hilton, a minha vida era uma alegre cegada! Gostava tanto do meu trabalho, dos meus queridos colegas todos, gostava tanto de Tel Aviv e desse país em que essa cidade é raínha venturosa! Gostava tanto, tanto de viver! Gostava tanto de viver nesse meu país de adopção onde eu, estando a trabalhar no Hilton, autorizado a empregar quem muito bem lhes apetecia, me afastava da ameaça permanente de ser expelido desse país que tanto amo, apenas por não ser Judeu! Nunca ninguém é um milésimo maior ou mais pequeno do que o resto da humanidade! Hoje, se não fossem certos fanatismos podia estar lá agora a gozar a minha reforma nesse país que amo e perto de todos esses amigos que lá deixei, alguns dos quais ainda aguaradando o meu regresso!

Certa manhã, estando eu felicíssimo de estar por detrás daquele balcão, fazendo o trabalho de que tanto gostava, brincando com todos os hóspedes que vinham pôr ou buscar a chave do seu quarto, apalpando as nádegas e os seios dos meus tão queridos colegas, reparei que, em frente, sentado num sofá, um cavalheiro me observava insidiosamente. Não liguei! Não era a primeira vez que um hóspede sentado num daqueles sofás do Loby, me observava como se eu fosse uma marioneta agitada por certos invisíveis cordelinhos. Se ele me espiava, eu também o comecei a observá-lo. Subitamente ele ergueu-se da sua cadeira e veio até à recepção e perguntou-me muito delicadamente se eu era ou tinha sido comediante. Respondi-lhe que sim, que desde muito pequeno o meu maior sonho era ser actor. Que tinha trabalhado na televisão portuguesa e entrado num filme dum grande realizador português. Ele põe-me na mão o seu cartão de visita, dizendo-me que eu era um desperdício estar alí por detrás dum balcão, que eu devia estar sobre um palco! Que se eu jamais viesse a Paris, o contactasse, que ele faria de mim uma grande vedeta! Que estava a preparar um filme e que me daria um papel nesse seu trabalho se eu voltasse! Agradeci o cartão e continuei a minha vida. Ele regressou ao seu quarto e, desde aí, nunca mais o vi! Porém, a sua oferta tinha acertado no alvo como uma flecha em ouro! A partir desse mesmíssimo momento a minha mente começou a carborar no sentido de voltar para Paris e tentar a minha sorte como o actor que eu sempre tanto quisera ser!

A semente lançada à terra do meu desejo mais profundo, começou a germinar e a ganhar raízes. Eu, que era tão feliz de viver no país que tanto amava, de trabalhar nesse Hilton que um grande futuro me oferecia, todos aqueles meus colegas que tanto carinho me dispensavam, a alegria de saltar no mar todos os dias ao sabor das ondas, o meu Augusto, o melhor amante que jamais tivera até então, o Omar que me vinha constantemente oferecr-me seu belo corpo de homem casado, o meu sonho de encontrar casa para quando o Pat viesse reunir-se a mim, pois que tinha encontrado trabalho no British Council, ali mesmo em frente do Hilton, e aquele pequeno apartamento que eu tinha visto sobre um telhado, frente ao mar, na Yarkon, a dois passos do Hilton e do British Council, eu ia renunciar a tudo isso contra uma proposta atirada ao ar nas asas dum branco cartão de visita escriturado num azul escuro muito forte? Foi precisamente o que aconteceu!

Quando apresentei a minha demissão ao Senhor Moshe Navon, o Chefe do Pessoal do hotel, ou melhor, a minha transferência para o Hilton de Paris, ele pediu-me por tudo que reconsiderasse, que o meu trabalho era muito pareciado e que o director tinha muitos planos futuros para mim. Na manhã seguinte fui chamado ao escritório do Director Geral, o Mr. Florijn. Acorri e ele pediu-me encarecidamente que não deixasse o Hilton, que o seu assistente iria ser transferido para Nova Yorque, e que ele gostaria que eu o substituísse, que eu tinha todas as qualidades requerida para esse posto. Senti-me muito lisonjeado, mas as luzes da ribalta que me acenavam de Paris eram mais fortes do que esse belo futuro que o Hilton de Tel Aviv me estendia!

Como eu tinha recusado a proposta do Director, Glória, a chefe do pessoal, tratou de organizar a minha transferêcia para o Hilton de Paris. Dei um salto ao Consulado de França, ali mesmo em frente da minha Praia Frishman, para ver se os meus papéis estavam em ordem para o meu regresso a França. Eles olharam para a minha Carte de Séjour e garantiram-me que sim, que eu tinha estado mais do que cinco anos nos país, que tinha todos os direitos. Imediatamente escrevi uma carta ao Pat e informei todos os meus colegas do meu retorno a Paris. Todos lamentaram a minha partida, mas que bem gostariam de estar na minha pele! Paris! Essa Cidade Luz que tanto os atraía!

Dei um salto a uma Agência de Viagens na Ben Yehuda e encomendei o meu bolhete de avião só ida. Telefonei ao Pat a informá-lo da data da minha partida do Aeroporto Ben Gurion e ele, para me fazer uma grande surpresa, reservou um voo de Paris, ida e volta, na mesma companhia, tendo lugar no mesmo avião que eu tomaria quando do meu regresso.

Fui despedir-me de alguns amigos e dei um salto a casa do Bob, aquele ricalhaço que tinha sido meu amante quando dos tempos da Pnimiá. Encontrei-o abatido e desmotivado da vida. Quando lhe disse que ia deixar Israel para tentar fazer uma carreira como actor em França, ele baixou os olhos e disse-me que eu lha faria muita falta. Que ele era um homem retirado da vida, farto da sua solidão, que a sua passagem sobre esta terra estava a chegar ao fim, que não tinha ninguém, nem mesmo descendentes a quem legar a sua fortuna. Que eu deixasse o Hilton e o Pat, que deixasse de andar a correr atrás de velhos sonhos de infância, que viesse viver com ele, que o acompanhasse até ao fim dos seus dias e que eu seria o único nome a figurar no seu testamento. Que eu podia depois ir viver para a sua casa em Capri, de que eu tanto gostara. Que tivesse pena dele! Agarrei-lhe na mão, fixei-o nos olhos e garanti-lhe que ele ainda iria viver muitos anos, que encontraria outro alguém que o acompanhasse no seu isolamento! Que eu tinha de cumprir o meu destino, voltar para Paris e ser um dia um grande actor! Que tinha muita pena de deixar o Hilton, mas que o Pat nunca o deixaria! Dei-lhe um beijo na face, disse-lhe até qualquer dia, e nunca mais voltei! Nunca saberei como tudo se passou depois!

Os meus colegas organizaram uma festa de despedida em casa dum deles que morava ali na Ben Yehuda, e foi uma festa de arromba! Eu estava triste de os deixar todos para trás, mas as luzes da ribalta fulguravam lá ao longe a chamarem por mim!