samedi 19 décembre 2009

A Mudança Para Shlomo Hamelech







No meu Mil e Uma Noites as minhas noites eram um afago. A Frishman Street era um sossego e, a partir da meia-noite, nem um carro passava. Apenas, raramente, uma pequena mota que ao passar derrubava a amena calmaria nocturna. Porém, descendentes desse progresso tecnológico, inventaram pequenos carros descapotáveis para os jovens, para enriquecer os seus próprios inventores. A promoção foi de tal modo intensa que, rapidamente as ruas começaram a ser infestadas por esses besouros que nos põem a cabeça em estilhaços. Todas as noites, capota aberta e o rádio altíssimo, aguardavam ali na esquina que dava para a Yarkon Street, que os semáforos voltassem ao verde. Com toda essa barulhada e algazarra, eu não conseguia conciliar o sono! Ainda por cima, na cave do prédio, abriram um “Night Club”. A música era tocada tão alta que ressoava por todo o edifício até às cinco da manhã! Todos os inquilinos se queixaram ao Dan, o senhorio, mas ele não se comoveu com qualquer dessas queixas, pois que esse Clube era igualmente um dos seus negócios, e esse negócio dava-lhe muito mais lucros do que todos os estudios espalhados por esses seus quatro andares!

Fui falar com o Dan. Ele, para resolver o meu problema, transferiu-me para um outro apartamento num outro prédio que eles tinham mais acima, na Shlomo Hamelech, onde ele próprio habitava. Esse apartamento era ocupado por uma velha senhora e seu filho. O meu quarto tinha uma larga janela que dava para as traseiras. Fiz a mudança sozinho, rua abaixo rua acima, com as minhas malas e os meus haveres, a pouco e pouco, e o meu gato foi o último a ser transportado dentro duma fronha de almofada. Claro que deixei as minhas Mil e Uma Noites pintado com as cores de Eilat e, sobretudo, a minha bela cozinha lá naquele precioso cantinho, assim como a minha varanda que dava para o mar! Da Frishman Street até à Shlomo Hamelech Street eram apenas alguns quarteirões, um dos quais a Dizengoff!

Nesse edifício da Shlomo Hamelech, havia, mesmo por baixo do meu quarto, um pequeno comércio pertencendo a um casal de certa idade, muito pituresco, onde eu fazia todas as minhas compras de comestíveis. Mesmo ao lado, na esquina com a Frishman Street, havia igualmente uma belíssima esplanada onde eu frequentemente ia tomar o meu pequeno almoço e alguns bons Espressos durante o dia. Era um prazer enorme sentar-me ali nessa esplanada a saborear a minha fresca cervejinha e a ver passar pessoas apressadas de chegarem, sabia Deus aonde! Era muito perto do Kikar Ha’Mediná onde, anos mais tarde, Itzchak Rabin seria assassinado. Nesse largo haviam muitos comércios e Cafés, e era sempre um grande prazer deambular por lá! Foi lá, num desses pequenos quiosques que viria a conhecer o Omar, que viria a ser o pneu suplementar da minha carripana carregada de efémeros amores. Nunca o partilhei com o Augusto, pois que o Omar, casado e pai de dois filhos, era duma beleza tal que receei perder ambos. Que eles engraçassem um com o outro e me pusessem de parte. Assim eu ficava com dois pneus suplementares em vez de apenas um volante e dois pedais!

De novo, com os meus pincéis e algumas tintas, novamente procurei fazer daquele quarto o meu refúgio. Fiz mais alguns pequenos móveis e pus alguns cartazes na parede e, de novo, eu tinha um lar, reduzido a um pequeno quarto, ali na tranquilidade daquela rua. O único drama que se passou nesse quarto foi - como em Eilat e a Pusky - o meu gato, aquele bébézinho que encontrara vasculhando os caixotes de lixo da Yarkon, que o trouxe para casa e fiz dele um muito amimado gatinho todo branco com manchas amarelas. Ele, nas primeiras noites, como se sentiu fora do seu território, como a minha cama estava colada à parede onde havia a larga janela sempre aberta para deixar entrar a brisa, ele utilizava a minha cama como trampolim para saltar par o parapeito da janela, talvez com ganas de voltar para a rua, porque não eram ali os seus aposentos das Mil e Uma Noites. Tantas vezes me acordou que, exasperado, o empurrei da janela abaixo. Como era apenas um primeiro andar, pensei que ele teria sobrevivido. Desci ao páteo em baixo à sua procura, mas nenhuns vestígios dele! No outro dia de manhã pus a sua tijela de água e o pratinho da sua comida lá em baixo no patamar do rés-de-chão, na esperança que ele voltasse e reconhecesse a sua casa de jantar. Um tremendo remorso se instalou na minha alma torturada. Imaginava-o morto de fome por essas ruas de Tel Aviv em busca de mim! Pedi a uma vizinha da frente que ficasse atenta à minha porta de escada onde tinha instalado a casa de jantar do meu gato mas ela, um dia, veio contar-me que o meu gato tinha sido atropelado e que alguém o tinha deitado ao lixo! Ainda hoje, como se pode ver, o não esqueci, e o meu remorso sempre crescendo, como uma planta maligna a envenenar-me a vida!

O meu trabalho no Hilton era a minha grande compensação de tantos dissabores. Outra grande conpensação era visitar a velhinha que morava no outro quarto frente ao meu. Ela tinha um filho que trabalhava e só à noitinha o via. Ela adorava a minha companhia quando dava um salto ao seu quarto e me sentava a escutar as suas histórias da Shoa e esse indigno sofrimento. Ela tinha escapado ao forno graças à liberação desses horríveis campos de morte! Eu acarinhava-a, fazia-lhe algumas compras e, sobretudo, fazia-lhe companhia. Só que eu também trabalhava e tinha muitas inopinadas visitas do Augusto e do Omar. O seu filho que, era óbvio, era homosexual, não dispensava as devidas atenções à sua mãe, ali isolada, apenas acompanhada pelas suas tristes recordações do seu dramático passado, preferia escutar à minha porta quando eu estava ocupado a por as contas em dia com o Augusto ou o Omar. Um dia perguntou-me como era que eu fazia para ter tais bonitos amigos que vinham para a cama comigo todas as noites, e ele não! Respondi-lhe que era tudo uma questão de rotina, para não lhe dizer muito simplesmente que ele era demasiado feio para conquistar criaturas tão belas como o Augusto e o Omar!

A Bela Rua do Professor Neuman



Pouco a pouco tudo me pareceu de novo aceitável para que eu continuasse vivo e de algum modo orgulhoso da minha pessoa. Eu continuava a divertir os colegas e os hóspedes e, sobretudo, a apalpar os traseiros e os seios da malta toda! O meu Ego tinha emagrecido um pouco, mas procurei dar-lhe boas razões para que ele engordasse um pouco, evitando a obesidade. Pensava no meu irmão Alberto e na dívida que tinha de pagar: Ser feliz por ele e por mim próprio! Eu tinha de continuar feliz de ser quem era, fosse como fosse, fosse quem fosse!

Um dia começou a grande moda de todos os meus colegas fazerem operações plásticas ao nariz. Eles e elas ausentavam-se durante uns tempos e ao voltarem pareciam outras pessoas, muito mais orgulhosos de si mesmos. Passou-me pela cabeça que o meu nariz também precisava dum retoque. Fui falar com o Professor Lazar e ele disse-me abertamente que não havia qualquer risco ocular em fazer essa correcção, se isso me fosse realmente importante. Dias depois, como uma das minhas colegas tinham feito essa correcção em Jerusalem, com o Professor Neuman, telefonei para a sua clínica e pedi uma data para apresentar o meu caso. A data foi-me fornecida de seguida. Tinha porém de esperar uns meses, pois que ele era um grande nome da chirurgia pltástica, e as esperas eram longas.

Essa data chegada, apanhei um autocarro até Jerusalem e daí um táxi, pois que ele vivia numa parte da velha Jerusalem que eu mal conhecia. O táxi rompeu aquelas velhas ruelas até chegar à morada da famosa Clínica do Professor Neuman. Entrei e mostraram-me a porta da sala de espera. Dois ou três quartos de hora mais tarde, depois de ter folheado todas as revistas adormecidas sobra aquela pequena mesa redonda, vieram-me chamar. Entretanto, mais dois futuro pacientes tinham chegado e acomodado-se silenciosamente na minha frente. Eles pareciam tão embaraçados quanto eu próprio estava.

No seu consultório, Professor Neuman, um homem já duma certa idade, duma presença altamente apaziguadora, pedeiu-me para me sentar e mostrou-se curioso das razões que me haviam trazido. Depois instalou-me numa marquesa e, com a ajuda do seu belo assistente, fizeram as devidas pesquisas acerca do meu nariz. Professor Neuman garantiu-me que eu tinha um belo nariz e que não encontrava fosse o que fosse que necessitasse de ser corrigido. Insisti, que o meu pai, com a idade, o seu nariz tinha-se feito enorme, e que eu já tocava com a língua na ponta do meu nariz e que gostaria de o fazer um nadinha mais curto. Ele fez fotos do meu perfil, que ia estudar a possibilidade de me fazer o gosto ao nariz, que depois me enviaria uma carta a sugerir datas para a minha intervenção.

Semanas mais tarde recebo essa carta. Telefono-lhe e marcámos uma das datas. Essa data chegada, agarrei nuns trapos e aí fui a caminho do meu grande desejo de compensar os estragos feitos pelo o meu olho. Deram-me um belo quarto com janela para aquela rua aonde ainda haviam vestígios da passagem dos romanos, Na manhã seguinte vieram-me acordar cedo para ser levado ao pequeno bloco operatório. Vestindo apenas a minha bata branca como a neve, recostei-me na marquesa e, aterrado, aguardei o andamento das coisas. O primeiro passo foi, antes de mais nada, a dolorosa injecção de anestesia local. Pensara que seria anestesia geral, mas era tarde demais para tais exigências! Durante uma meia hora, com a ajuda do seu assistente, trabucaram no meu nariz e, com um escopo, um martelo, e uma serrinha muito afiada, cortaram-me o osso básico do perfil, assim como algumas cartilagens. Depois recoseram, puseram um grande penso, e levaram-me de novo para o meu quarto, dizendo-me que dentro de momentos me seria servida uma peqauena refeição. Que mastigasse lentamente para não rebentar os pontos.

Passei três dias nessa clínica. Na manhã desse terceiro dia levaram-me novamente ao bloco operatório, e verificaram os resultados. O seu assistente disse-lhe que ele tinha feito um bom trabalho, que eu tinha ficado com um nariz muito masculino. Nem pequeno nem grande, apenas perfeito. Gostei de ouvir esses comentários. Depois aplicaram outro penso e lá voltei ao meu quarto para me vestir e apanhar um táxi de regresso a Tel Aviv. Entretanto entram no meu quarto o próximo paciente que aguardava o meu quarto, uma lbansesa que se fazia acompanhar do seu simpático irmão. Eles queriam saber tudo, como se tinham passado as coisas comigo. Disse-lhes que era um tanto doloroso e, quanto aos resultados finais, teria de esperar duas semanas até que o inchaço e as nódoas negras desaparecessem. Antes partir, Professor Neuman explicou-me que tinha de o vir consultar de dois em dois dias durante a primeira semana.

Claro que não trabalhei durante esse longo período. Passei os dias em casa a esconder-me das furtivas miradas dos passantes. Dois dias depois, com combinado, às dez da manhã, Professor Neuman arrancou-me o penso, inspecionou o seu trabalho, e confessou-me que ele não estava muito satisfeito com os resultados, e que, logo que voltasse dos Estados Unidos - onde ia lecionar a sua arte - que quando voltasse, dentro dum ano, que eu lhe telefonasse para combinarmos uma data para corrigir a cartilagem central e reduzir o tamanho das narinas. Ao despedir-se disse-me que já não precisava de mais pensos, que deixasse o nariz ao ar, mas qu evitasse o sol directo sobre a minha arroxeada penca.

Voltei ao meu trabalho no Hilton e fui aplaudido pela malta, perguntando-me, no gozo, se eu tinha levado com alguma porta na tromba. Durante alguns dias houveram mais alguns sarcásticos comentários. Depois o nariz começou a ter cara de gente, e nunca mais se falou do assunto. O Augusto achou que eu estava muito mais bonito com o meu novo nariz, e que o meu olho estava a ficar na ponta da unha! Claro que, durante as nossas próximas avenças na cama, todos os cuidados foram poucos para não agredir o meu combalido nariz de grego. Durante algum tempo, fui eu que me vi grego para me barbear sem poder soerguer um pouco a ponta do nariz para rapar o bigode. Sempre que me barbeava olhava-me no espelho longamente, de face e de perfil, indagando se eu tinha tomado uma boa decisão em ter corrigido o nariz. Achava-o mais bonito mas, realmente, quanto à cartilagem central e as aberturas das narinas, estava de acordo com o Professor Neuman.

Claro que nenhuma outra correcção poderia ser feita antes de ter passado um ano. O Professor estava na América e eu em Tel Aviv, diariamente a espiar o seu trabalho. Decidi que, realmente, quando ele voltasse eu o procuraria para as tais correcções por ele sugeridas. O problema foi que, meses mais adiante, muito bem sentado numa esplanada da Avenida Ben-Yehuda, lendo meu jornal, descubro - como uma grande chapada na cara - que o Professor Neuman tinha falecido em Nova Yorque. Moralidade da história, o meu nariz ficaria tal como o Professor Neuman o deixara, isto até que eu fosse ter com ele onde, certamente, os narizes não são de qualquer importância à felicidade seja de quem for!

O Bobo da Corte
















De volta a casa, ali na Frishman, ao meu Mil e Uma Noites, foi uma alegria! Eu estava finalmete “chez-moi”! Outro grande prazer foi voltar às minhas actividades na recepção, trabalho que tanto amava! O probema foi, como me tinham desfigurado o olho direito e, duma forma geral, o rosto inteiro, frequentemente senti um grande desconforto. Eu, o Mr. Mar 1965, estava agora com cara de palhaço triste num Circo cheio de balões espalhafatosamente coloridos! Custou-me muito, e muito tempo me levou a aceitar-me com a minha nova feição que me parecia ser uma máscara a fazer de mim um assustador Drácula. Os colegas foram sempre discretos mas, mesmo assim, eu tinha espelhos por toda a parte no hotel, e eu não me reconhecia! Claro que com o tempo a vista melhorou, e o olho gradualmente se recompôs. Augusto foi quem mais me aparou, disendo-me repetidamente que tudo voltaria a ser como dantes. O trabalho na recepção com todos os meus queridos colegas é que, por vezes, me fazia esquecer a ofensa que tinha sido feita ao meu rosto! Uma coisa era certa e positiva: Eu tinha recuperado a minha vista e a minha rotina tinha-se de novo posto a caminho para dias melhores!

A Estadia no Hilton - by the Pool



Nesse meu primeiro dia na minha pequena cama, com um enorme penso higiénico sobre o olho, vi as caras dos meus outros dois companheiros de infortúnio acenando-me amicalmente, e as enfermeiras que vinham frequentemente mudar o meu penso e pôr algumas gotas no meu olho que mais parecia ter sido atropelado por um camião-frigorífico! O Professor Lazar também, nessa mesma tarde, veio deitar uma olhadela ao meu massacrado olho, e render-me um apanhado do que tinha sido essa tão longa e delicada operação. Que tinha levado oito horas, que era a primeira vez na história que ele tinha feito essa intervenção com laser, e que tudo tinha corrido pelo melhor! Que eu ficaria mais uma semana hospitalizado e que depois podia voltar para casa e vir ver a Dra. Haya, para controle, durante algum tempo. Que depois logo se via! Recordo o seu sorriso quando retorqui que “se depois logo se via" era óptimmo, pois que fora esse o intuito dessa complicada intervenção!

Essa tarde foi para mim uma demonstração permanente de humanidade e humanismo! Os meus dois companheiros de quarto constantemente me repetiam que estavam felicíssimos com os resultados das suas operações, que estavam a ver lindamente. Um pouco turvo, mas que isso passaria com o tempo! A minha enfermeira russa vinha-me buscar de vez em quando para me levar a uma sala ali mesmo ao lado, onde eu tinha que me sentar num pequeno banco rotativo e assentar o queixo numa minúscula plataforma para ela analisar o meu olho. Foi nesse dia que vim saber que ela se chamava Dra. Haya, e que era de origem russa! Ela emanava uma ternura tal que acabei por me apaixonar por ela. Quando um dia lho disse, ela explicou-me que isso era natural, que todos os pacientes se apaixonavam pelos seu médicos e enfermeiras! Que eu ainda me viria a apaixonar por outros médicos e enfermeiras, que era um fenómeno psicologicamente explicado! Recordo igualmente - sempre com um sorriso - uma outra médica que não era particularmente bonita, quando um dia lhe disse que ela era muito bela, ela respondeu-me, muito simplesmente, que nesse caso, eu teria de voltar ao bloco operatório, que os resultados visuais da minha operação não eram mesmo nada positivos, pois que eu andava a ter visões!

Nesse mesmo dia o Miki veio visitar-me e, ao sair, perguntou-me o que era que eu queria que ele me touxesse no dia seguinte. Disse-lhe que um bolo de chocolate me bastaria. No outro dia ele chaga-me lá com um bolo de chocolate do tamanho dum pneu! Perguntei-lhe se ele estava bem da cabeça? Que eu seria incapaz de consomir um bolo daquele tamanho antes de ele ficar bolorento. Ele - quase num berro - disse-me de o compartilhar com os meus colegas de quarto, com as enfermeiras, com os médicos, com as mulheres da limpeza! E foi o que se veio a passar! Um enfermeiro, pelo qual eu andava loucamente apaixonado, organizou-se e, no quarto onde eles se repousavam de vez em quando, pôs uma grande mesa com pratos e garfinhos, um grande balão de café, o grande bolo ao meio, e convidou todos os outros pacientes do Serviço de Oftalmologia. Foi uma festa! Nunca tinha visto tanta gente ao mesmo tempo com um penso no olho, em toda a minha vida! Até o Pofessor Lazar lá estava! Nessa ocasião ele aproveitou para me dizer que tudo tinha corrido muito bem, que eu deixaria o hospital dentro duma semana, que ia ver tudo turvo e as imagens multiplicadas por três, mas que isso passaria dentro de alguns meses.

Todos os dias Miki vinha com alguma coisa para mim, tendo a primeira coisa sido uma escova de dentes e um tubo de pasta dentífrica! Cada vez que ele vinha nunca vinha só! Trazia sempre com ele um qualquer outro dos meus colegas! Nunca me senti tão amado e amparado na puta da vida! Por essa e muitas outras razões, lhe escrevi, anos mais tarde - depois da sua injusta e precoce morte - um poema, o único poema que escrevi em Hebraico, confessando-lhe quanto eu o amava e amava esse luminoso país onde vivi a minha maravilhosa juventude, cercado de amigos sinceros!

Passados esses dias todos - depois de tantas idas ao quarto ao lado fazer os exames com a minha Dra. Haya - finalmente me disseram que eu deixaria o hospital dentro de dois dias. Foi o Miki que me veio buscar no seu carro. Quando dexei esse hospital tive de esconder uma lágrima. Eu tinha passado os dias mais saudosos de toda a minha vida. Esses dias quando eu amava todos aqueles que me cercavam, assim como, de volta, era por eles todos igualmente amado!

Primeiro o Miki levou-me a minha casa para eu pegar em alguma roupa, e depois levou-me para sua casa em Herzelia para eu convalescer em família, não sozinho no meu buraco na Frishman Street! Ao chegar a sua casa fiquei comovido com a recepção. Adela, a sua esposa, lá estava à nossa espera com uma mesa posta cheia de coisas boas para comer. Ele tinha tirado um dos seus filhos da sua cama, pondo-o a dormir no canapé da sala, para me poder oferecer um quarto onde - como ele disse - pudesse fechar a porta e sentir-me em minha casa. Durante alguns dias foi ele quem me transportou ao hospital para os primeiros exames. Foi ele, o meu querido Miki, quem me amparou, mostrando-me cuidadosamente o caminho, para ver onde eu punha os pés.

Uma tarde, ao regressar do seu trabalho - estava eu numa profunda modorra - ouvindo os seus três filhos no salão a brincarem às escondidas, Miki berrou-lhes que não fizessem barulho, que deixassem o Carmo descansar! Porém foi ele que, com esses mesmos berros, me acordara! Sempre que penso no Miki, digo-lhe, em pensamento: Miki! I love you!As I have never loved anybody!

Dias mais tarde, como ele tinha de me levar ao hospital para os habituais exames - para lhe facilitar a vida - pediu licença ao diretor do Hilton - Mr. Florijn - de pôr à minha disposição, um daqueles pequenos quartos à volta da piscina. Foi nesse quarto, ao som de pessoas felizes a mergulharem na dita, que fui tão feliz! Tinha lá todos os dias os meus colegas que davam lá um salto para estarem um pouco comigo e ver se eu preciava de alguma coisa. Mas a única que eu pecisava era o seu amor. E esse, eu tinha-o!

A maior de todas as surpresa foi, quando eu estava a descansar em cima da cama e alguém docemente me bateu à pora. Achei estranho, pois que a minha porta estava sempre destrancada e todos entravam e saíam como suave brisa ou rabanadas de vento! Levantei-me, entreabri a porta, e quem estava ali na minha frente? O Pat! O Pat com a sua pequena mala de mão! O Miki tinha-lhe escrito a dar-lhe as minhas notícias. Que grande alegria! Foi nessa altura que me tiraram o penso e comecei então a ver muito fosco e as imagens multiplicadas por sete. Foi com o Pat, depois de liberto do meu penso, que comecei a deambular pelo loby do hotel. Havia, no grande salão uma grande televisão onde, certo dia, eles anunciaram mostrar pela primeira vez como se passavam as coisas durante essa intervenção ocular à base de laser. O Pat quis ver esse certamente horror, mas eu voltei para o meu quarto e ver as belezas à volta da piscina. Foi nesse dia que vi pela primeira vez o salva-vidas da piscina, um belo rapagão, multiplicado por sete. Ao vê-lo, disse com os meus botões: Porra! Um deles já me chegava para umas boas braçadas!

jeudi 17 décembre 2009

Hospital Ichilov Tel Aviv


Uma manhã, no Hilton, estava eu muito ocupado a receber um grupo de quarenta pessoas quando, subitamente, comecei a aperceber-me de que uma espessa cortina muito negra lentamente se baixava sobre o meu olho direito. Intrigado, pensei que era algo de passageiro e continuei o meu trabalho. Porém essa impiedosa cortina descia implacavelmente! Alarmado, cheguei-me ao Miki - o meu querido Miki - que estava ali mesmo a meu lado, e pu-lo ao corrente dos meus temores. Ele olhou-me mudamente por alguns instantes, pousou os seus papéis sobre a sua secretária, meteu-me no seu carro e levou-me às Urgências do Hospital Ichilov, ali a dois passos. Lá chegados fui imediatemente levado de padiola até aos Serviços de Oftalmologia. Nesses serviços fui muito rapidamente posto sobre uma marquesa, rodeado por um grupo de oftalmologista que, depois de cada um ter deitado uma vista de olhos, um deles disse aos outros que seria necessário recorrer aos conhecimentos do Professor Lazar. Que fossem à procura dele e que ele viesse às Urgências, que era um caso muito sério! Entrei logo em pânico mas quedei-me ali alongado, nas mãos daqueles médicos todos, sem qualquer outra alternativa, pois se eu estava com medo deles, estava ainda muito mais apavorado perante a ameaça de ficar cego!

Passados alugns momentos, entra nessa peça um homem alto, forte, cabelos muito grisalhos, senhor duma grande serenidade. Ele pega na sua lupa, espreita o meu olho durante uns segundos e, logo a seguir, voltando-se para um dos seus assistentes, comentou:

- Trata-se dum descolamento de retina. Vai ser necessário operar este senhor o mais rapidamente possível! Encontrem-lhe uma cama! É um caso muito urgente! Ele será o meu primeiro paciente àmanhã de manhã. Que o bloco das intervenções ao “laser” esteja completamente preparado para, por volta das oito, submeter este paciente a uma longa intervenção de emissão de radiação estimulada.

Enquanto me transportavam sobre a minha padiola em busca duma cama vaga nos Serviços do Professor Lazar, um indomável terror se apoderou de todo o meu ser. Era a primeira vez que eu dava entrada num hospital para uma operação. Pelos vistos grave e urgente! Indefeso, deitado naquele desconfortável tabuleiro, eu tremia como varas duma cor imprecisa. Chegado a esse quarto onde haviam três camas, uma delas ali num obscuro recanto, estava livre. Os dois jovens enfermeiros despiram-me e enfiaram-me uma bata branca atada por detrás das costas. Foi a primeira vez que um homem me despia e eu não tive quaisquer ameaças de ficar embaraçado com um das minhas então muito prontas e indesejadas erecções. Acomodaram-me nessa cama e, antes de partirem, um deles me informou que dentro de momentos uma enfermeira me viria dar uma injecção. Ela não tardou! Ela era uma bonita russa, muito loira, com um sorriso angelical que me pediu para me voltar, como já tantos outros na minha vida mo tinham feito também, mas para outro tipo de seringas! Docemente senti uma picada na minha nádega esquerda e, momentos depois, senti-me como pairando nas núvens...

Horas mais tarde, depois duma refeição muito ligeira que me tinha sido trazida numa outra padiola, depois dessa frugal refeição fui mais uma vez levado a chocalhar sobre essa rectangular prancha com quatro pernas e quatro rodinhas, até a um obscuro cubículo que me pareceu ser uma arrecadação onde se arrumavam tralhas já sem qualquer utilidade. Da padiola fui transferido para uma pequena marquesa, sob um luz muito intensa, e o Professor Lazar novamente, com grandes lupas, se inclinou sobre mim. Ele discutia o fenómeno com alguns dos seus colegas, dizendo-lhes que era um sério descolamento de retina, assinalando as lesões por: Uma às três e meia, outra às quatro e um quarto,e algumas outras horas mais. Fiquei surpreendido com aquela linguagem técnica! Depois, muito mais assustadoramente, que tinha de ser imediatamente atendido, que iam experimentar o laser, esperando que o laser fosse capaz de recolar a retina e resolver o assunto. Que o caso era muito sério, que seria operado na manhã seguinte. Nessa noite dormi como um anjo pois que continuava a flutuar entre as núvens e as estrelas. Por vezes, por entre anjos muito loiros, todos de negro vestidos. Aí percebi o poder das drogas! Disseram-me depois, que me tinham injectado morfina!

No outro dia de manhã, às sete horas, vieram-me buscar, uma vez mais de charola. Ao subir para aquela coisa com quatro pernas e quatro rodinhas, entreguei a alma ao Criador! Lá em baixo, no bloco de operações, enquanto preparavam a anestesia geral, a minha primeira anestesia para a minha primeiríssima operação, perante o medo de nunca mais acordar, toda a minha vida me passou pela mente, como numa derradeira despedida da vida que era ainda tão curta. Desde a minha nascença à minha morte, todas as recoradções de todos os meus amores se desenharam ante os meus olhos. Não sei se num adeus se num até breve! Nunca esquecerei esse momento da minha vida em que, sem quase dar por isso, mergulhei numa inconsciência total, como se tivesse rendido a alma ao Senhor, como se a Morte muito cinicamente me tivesse vindo arrancar aos braços da sua pior inimiga: A Vida!

Quando voltei a mim, naquela pequena cama daquele sombrio canto daquele meu primeiro quarto de hospital, quando abri os olhos foi para ver, como se de miragem se tratasse, o doce rosto da minha querida Hella que tinha vindo de Haifa para estar a meu lado. Quando ergui o meu braço para lhe acariciar aquele tão bem-vindo rosto, os outros dois doentes, entalados nas suas camas, aplaudiram o meu regresso à Vida! Hella inclinou-se para depor um beijo sobre a minha face, ao mesmo tempo que me dizia baixinho: You look bautiful! Momentos mais tarde ela me confessaria que quando ela entrou nesse quarto, eu jazia completamente nu sobre aquele muito branco lençol. Que eu tinha um lindo corpo, e que só então percebera a razão pela qual eu tinha sido um dia eleito Mr. Mar! Que o meu corpo muito bronzeado sobre aquele lençol tão branco, era uma visão divina. Que a enfermeira que me tinha vindo tomar o pulso, me tinha coberto com outro lençol branco, mas que essa imagem ficaria para sempre gravada na sua memória!

O Café da Esquina Ali na Yarkon


Era neste simpático Café-Restaurante, perto da minha casa, ali mesmo em frente do mar, que frequentemente íamos jantar ou almoçar. Um encanto de de lugar e de recordações! Lá sentado, vendo a gente passar na rua, era melhor do que ir ao cinema! Passei lá momentos tão felizes!