vendredi 4 décembre 2009

A calma rotina no Standard


Liam e os Outros


Certamente, uma das grandes amizades que fiz, depois de ter renunciado ao seu belo corpo e insinuante sorriso, foi o Liam! Com ele foi a descoberta de que a amizade consegue ser ainda mais importante do que o sexo. Para o sexo tinha os outros que me vinham bater à porta do meu quarto ali mesmo em frente do ascençor. Quando eu batia à porta do Liam, mesmo em frente, era para descobrir o que talvez pudesse haver para além do horizonte! Sentimentos raros! Para mim ele era como um irmão que por vezes me fazia sentir bastante incestuoso, mas tinha de esconder o meu pecado! O seu corpo e a sua voz continuavam, entrando pela escada de serviço, a bater-me à porta das traseiras, a invadir-me o corpo todo! Por vezes, para evitar essa luta feroz entre o meu corpo e a minha mente, ia bater à porta do David, ali a dois passos! David também era, além de irlandês, um belo bicho. Tinha um corpo esguio e bem modelado, uma bonita cara, uma cabeleira luxuriante e, sobretudo, as virilhas muito bem guarnecidas. Além disso era daqueles tanto do meu agrado. Era dos ir, vir, e voltar! Gostava de homens, de mulheres, de tudo o que mexesse! Ele também, à sua maneira, me era muito importante! Tudo começou uma noite no Standard quando eu fazia as noites, até ao dia em que deixei o hotel em busca de outras paisagens! Patrique tinha-se mudado para a René Basin e contentava-se em fazer amor comigo pelo telefone. Isso, pareceu-me satisfazê-lo, mas não a mim! Eu precisava dum corpo sólido e não orgasmos telefónicos! Daí, com o David, era uma vez no meu quarto quando ele me batia à porta, outra vez quando eu batia à porta dele. No entanto Pat continuava na minha mente. Eu queria que ele fosse o homem da minha vida. A única maneira de estar com ele era telefonicamente, mas sem orgasmos de qualquer espécie! Eu continuava a propor-lhe deixar a B.B.C. e vir tentar a sua sorte em Paris, mas haviam sempre os mesmos subterfúgios, os mesmos receios de perder uma boa posição por um imaginável emprego em Paris. Dentro de mim uma angustiante dúvida se instalou! Talvez ele preferisse continuar em Londres por causa do Peter. Quem sabe se o Peter não se tinha já mudado para Chalk Farm e tomado o meu lugar? Dúvidas que permaneciam, sabendo que ambos eram puramente passivos. Um dia cheguei mesmo a fazer uma promessa: se o Pat viesse viver comigo em Paris, eu deixaria crescer a barba!

jeudi 3 décembre 2009

Lá em Cima Tão Perto do Céu


Foi lá em cima, por detrás daquelas janelas do último andar que davam para a Rue Ponthieu, nas traseiras do hotel, que tantas coisas boas e más se passariam. Foi por detrás dessas janelas que amei e fui amado, que fui amado e detestado! Foi lá nesse quinto andar onde me iria aperceber do que certas pessoas são capazes quando vexadas pelas apreciações concedidas a uns e não dispensadas a outros.

Logo que me mudei para o meu quarto no hotel, ali a dois passos do Standard, fui promovido a assistente da Pierrette, enquanto outras mulheres que já lá trabalhavam há anos e a única promoção que tinham tido ao longo dos anos, foram alguns aumentos de ordenado, segundo a inflação, e nada mais! O meu trabalho foi tão apreciado pelos patrões, colegas, e hóspedes, pelo facto de eu ser muito eficaz e, sobretudo, por falar sete línguas, enquanto elas falavam apenas a sua língua materna. Invejas e ciúmes começaram a jorrar. Sobretudo quando envelopes com gordas gorjetas começaram a chegar ao Standard em meu nome! Até flores um dia me foram enviadas, enquanto que as senhoras apenas recebiam convites para jantares! A partir dessa data em que deixei de fazer as noites e comecei a fazer os turnos diurnos, alternando com a Pierrette, certas colegas – não todas – ignoravam-me, e sempre que eu deixava uma ordem por escrito em Francês, com alguns erros ortigráficos, essas ordens voltavam ao meu lugar no P.B.X. com os erros sublinhados a encarnado. Isso não foi foi grande problema para mim. Como sei encontrar grandes soluções a pequenas mesquenhices, comecei a, cada vez que escrevia uma ordem, quando não tinha a certeza se a palavra se escrevia com um ou dois “tês”, escrevia com três “tês”! Foi remédio santo! Tiveram que inventar outras maneiras de me humilharem! Como se aperceberam das minhas preferências sexuais não tardaram as piadas indirectas. As minhas reacções foram também sempre muito directas. Que cada qual levava onde lhe apetecia, mas que algumas delas também lhes apetecia mas não tinham quem lhes desse a remessa! O que me valeu foi que eram apenas duas dessas frustradas que me pregavam partidas e pequenos adocicados insultos. Estavam ofendidíssimas com a minha promoção, tendo chegado ao Standard apenas alguns meses atrás, e elas, depois de tantos anos de serviço, continuavam a marcar passo!

Entre as mais jovens tínhamos algumas que, antes pelo contrário, me admiravam pelo meu trabalho, as minhas sete línguas, e a apreciação dos hóspedes. Alguns desses hóspedes chegaram a subir ao Standard para me conhecerem pessoalmente e porem-me discretamente um envelope na mão. Mas essas gratificações iam sempre directamente para dentro duma caixa, cuja era aberta pela Pierrette ao fimde cada mês, e essas somas eram distribuidas igualmente por todos. Elas apreciavam o facto de terem melhores somas do que no passado, mas fulas por ter sido graças a mim que isso tinha acontecido! Felizmente, aquelas jovens que estavam a trabalhar lá há pouco tempo, admiravam-me pela minha coragem de fazer face a tantas invejas, sempre com um sorriso e a resposta certa na ponta da língua! Com algumas delas fiz grandes amizades!

De Vento em Popa!











Depois do grande fracasso da perda daquele belíssimo apartamento, sentindo-me em casa no meu Standard, contagiado pela Rita e os seus permanentes projectos, deitei as mãos à massa e comecei a tentar tirar dela algumas especiarias que me ajudassem a ir para a frente. A minha única preocupação nesses dias era organizar a minha vida, o meu futuro, e procurar angariar um lugar sólido sobre esta terra de tantos gostos e desgostos! Era preciso fazer vir o Pat de Londres. Como ele tinha ficado com o Pater, receei que eles se amanhassem e pusessem um ponto final nas nossas relações. Como trabalhava à noite e tinha ali ao meu dispor meios de telefonar para Londres sem pagar um cêntimo, quase todas as noites lhe telefonava. Queria saber como iam as coisas pelo seu lado. Sempre que lhe falava da sua vinda para Paris ele resguardava-se por detrás do facto de que gostava muito do seu trabalho na B.B.C., que era um emprego de futuro, e que em Paris ele iria esbarrar com problemas como, por exemplo, ter de aprender o Francês! Porém algo me sussurrava que ele se defendia muito bem sem mim e que talvez ele se estivesse a organizar para viver com o Peter. Uma coisa era certa. Eu habituara-me à presença de Pat na minha vida e não queria perdê-lo. Para contrabalançar os meus receios, vivia o melhor que podia o meu dia a dia. E o meu dia a dia era trabalhar das onze da noite até às sete da manhã, incluindo as fugazes fugas de certos bellboys que subiam até ao Standard para me dizerem olá, mas o que eles certamente procuravam era descobrir o que seriam umas pequenas experiências comigo no meu divã. Alguns passaram por lá e sempre voltavam na noite seguinte para, talvez, tirarem certas dúvidas que eventualmente os tivessem assaltado. Cheguei mesmo a ter dois curiosos por noite. Para o meu ego e para a minha insaciável sede de sexo, isso chegava até mim como uma dádiva do céu. Esse céu estrelado logo ali por detrás da janela junta à qual o meu divã aguardava sempre novas aventuras, novas descobertas, novas inesperadas revelações!

As primeiras visitas eram sempre o Liam, o Klaus, o Pepe, e o Jim, que vinham passar uns momentos comigo e planearmos para a manhã seguinte, algumas voltinhas no carro do Klaus, por Paris e arredores. Eu andava incendiado pelo Liam, mas o Pepe poderia muito bem ter sido o bombeiro mais indicado para apagar esse diabólico fogo. Ele era italiano, casado, dois filhos, e um charme de por a cabeça à roda de quem gostasse de amantes latinos. Além do charme, tinha uma boca que era um autêntico vulcão sempre em erupção! Ele parecia-me inacessível e era precisamente isso que me empurrava a tentar provar a ele a mim mesmo que um homem casado não era de modo algum um alvo inatingível! Quanto a mim, tudo dependeria das minhas capacidades de sedução, e ele parecia-me ser uma presa a não negligenciar. Havia igualmente o Nique, que andava metido com a Jacky, mas que me enviava constantemente requerimentos muito explícitos de audaciosas fugas.

Entretanto, como me puseram ao meu dispor um quarto no hotel, ali a dois passos do Standard, aceitei com muito gosto, pois que isso era o ideal para mim para evitar despesas de transportes, perdas de tempo e, sobretudo, economizar 250 francos por mês para a renda de casa. Quando Nique e Jacky souberam disso e andavam à procura dum cantinho só deles, pediram-me para vir ver o quarto. Uma tarde eles vieram visitar-me e tanto gostaram do quarto que foram imediatamente ver a proprietária, que habitava no rés-do-chão. Ela cedeu-lhes o meu quarto mas, para meu grande espanto, ela exigiu 500 francos por mês pelo facto dos melhoramentos que eu tinha feito naquele pequeno espaço. Eles aceitaram e logo para lá se mudaram! Jacky confessou-me recear que eu me mudasse para o hotel, mesmo ao lado do quarto do Nique, e que eu o corrompesse. Como ela me disse uma vez, antes da mudança:

- I see and know that you are fucking every one around in the hotel, but Nique, please! Do not touch him!

O que ela não sabia era que o seu Nique já me tinha passado por baixo umas tantas vezes, quando das suas frquentes visitas ao Standard, altas horas da noite!

mardi 1 décembre 2009

O Apartamento da Rue Erlanger



Na minha água furtada, sem o Heinz e o desejo de ir ao bosque, comecei a frequentar a casa do Melo e da Rita mais assiduamente. Para mim era sempre um grande prazer estar com o Melo, escutar a sua voz e o seu riso, sentir a sua fofa mão passando pela minha face, como se fossem beijos. A Rita sempre presente e cheia de projectos, continuava a trabalhar para o Patino, o tal magnate mexicano, ali à La Mouette, e a comprar discos do Mike Brant, por o achar um homem divinamente belo e possuidor duma voz que era capaz de acordar todos os clitoris e muitas vergas. À noite, depois do jantar, lavámos a loiça e depois púnhamos o novo disco do Mike Brant a rodar. Normalmente depois do jantar sentávamo-nos na sala a ver televisão, mas o Mike mudou os nossos hábitos. A Anaiss, que começava a descobrir a sua menstruação, era louca desvairada! O Melo, o dono da casa, o patrão, o amante de mulheres, fechava os olhos para o escutar, sussurrando: Que voz tão sensual!

Esses nossos serões na Rue Erlanger eram realmente muito agradáveis. Por vezes também víamos as notícias na televisão e, depois, um filme. Mas havia também tempo para conversarmos, recordar os tempos do Tique-Taque, de Jerusalem e, sobretudo, fazermos muitos projectos! Outras vezes íamos ao cinema ali perto do Metro Jasmin - a boca de Metro mais próxima da minha água furtada - para vermos um bom filme. Foi nesse cinema que um dia ri tanto com um filme britânico intitulada “A Vida Privada de Sherlock Holmes”, que os outros especatadores, muito menos sensíveis do que eu ao humor britânico, me mandavam constantemente calar! Rita, nessa noite, jurou-me nunca mais ir ao cinema comigo!

Nessa bela noite, depois do cinema, fomos a pé até à Rue Erlanger e, como muito frequentemente, Rita falava dos seus projectos. Como eu tinha perdido Heinz - o meu belo ariano amante - tinha deixado de frequentar o bosque, e no Claridge a minha colheita se limitava ao meu jantar servido no divã do Standard, pelo belo responsável do serviço de quartos - que sofria de insónias - falei com ela acerca da possível vinda do Pat para Paris e lhe encontrarmos um trabalho, fosse onde fosse, Rita apontou-me uma grande varanda num prédio ali mesmo em frente onde ela vivia, que exibia um grande cartaz que dizia “Para Alugar”, e comentou que antes de mais nada teríamos de pensar no seu alojamento. Que na René Basin havia pouco espaço para dois, que a cama era muito estreita, e que em casa dela nem pensar! Andavam todos a cavalo uns nos outros! Que emprego sempre se arranjaria alguma coisa. Que ali mesmo ao pé onde ela trabalhava havia a O.E.C.D., uma organização internacional onde todos falavam o Inglês, que ele poderia eventualmente arranjar trabalho nesse Organização, que era ali mesmo a dois passos da René Basin e da Rue Erlanger. Que àmanhã ela telefonaria a essa agência, para irmos visitar esse apartamento!

No dia seguinte, como eu pegava no meu trabalho às onze da noite e tinha os dias todos livres, e como era sábado e ela também tinha os seus fins de semana para se repousar, combinámos tratar do assunto de visitar esse grande apartamento. Telefonámos à Agência. Uma voz feminina nos pediu para estarmos lá em baixo, ao pé da porta da escada, que ela estaria lá dentro de dez minutos. Pusémos os nossos carapuços e fomo-nos plantar ao pé dessa porta mesmo em frente. Olhámos para cima, para aquela grande varanda ali no quinto andar desse prédio muito moderno e fizémos muitos projectos. Quando a senhora chegou para nos mostrar a casa apanhámos o elevador até a esse quinto andar e ficámos logo agradavelmente surpreendidos com o esplendor da porta de entrada. Entrámos e, Santo Deus!, o apartamento era imenso! Tinha três quartos enormes, uma vasta sala, uma boa casa de banho, retrete separadamente, uma muito bem apetrechada cozinha, um longo corredor e, sobretudo, aquela espaçosa varanda donde se avistava o bairro todo! Mesmo em frente da senhora, em Hebraico, discutimos a situação. Que a casa era óptima! Tínhamos um quarto para eles, outro para a Anaiss, e outro para mim e o Pat. Perfeito! O problema foi quando perguntámos qual a renda? A resposta dessa senhora, muito intrigada com o nosso Hebraico, atirou-nos com o prédio abaixo! O prédio e todos os nossos projectos! Era um balúrdio! Seria preciso ser-se milionário para nos darmos ao luxo de sonhar alto!

Passados alguns dias a Rita telefona-me para me dizer que, afinal, se o Pat viesse e arranjasse emprego no O.E.C.D. ele teria um bom ordenado e que, assim, já poderíamos alugar aquele magnífico apartamento! No sábado seguinte voltámos a telefonar à Agência, pedindo um encontro para assinarmos o contrato, mas esse palácio das Mil e Uma Noites já tinha sido cedido a uma grande vedeta internacional! Ficámos logo muito ansiosos de saber quem seria essa vedeta que nos tinha abafado o nosso “Abre-te Sésamo”! Que não éramos Aladino e Sherezade! Que os nossos projectos tinham ido todos por água abaixo! Que só uma lamparina mágica nos poderia acudir, e fazer dos nossos sonhos uma tão ansiada realidade!

Como eu tinha os dias livres e fazia as minhas compras no supermercado ali mesmo à saída da boca do Metro Michel-Ange Auteil, costumava igualmente ir tomar uma bica no Café-Tabac ali mesmo em frente. Uma manhã, como não tinha cigarros, antes de me sentar entrei na bicha para comprar os meus efémeros cigarros e, na minha frente, de costas, um jovem muito alto e garboso, com uma cabeleira até ao meio das costas. Curioso, tentando ver se a sua fachada correspondia àquelas belas retaguardas, desviei-me um bocadinho. O tipo que estava atrás de mim, pensando que eu decidira sair da bicha, procura obter o meu lugar. Com tal força que fui de encontro ao meu vizinho da frente. Ele voltou-se para trás, com um ar muito aborrecido e, quem era ele? Santo Deus! Cairam-me ambos aos pés!

Era o Mike Brant!

Desculpei-me em Hebraico e ele volta-se inteiramente para trás e, muito surpreendido, começa a fazer-me aquelas mesmas perguntas que sempre se faziam em Israel: Quem és, dode vens, para onde vais!? O grande prazer foi mútuo! Perguntei-lhe se ele morava ali nos arredores? Ele respondeu-me:

- Aqui! Na Rue Erlanger!

Logo que pude fui dar a grande novidade à Rita, ao Melo, e à Anaiss! Ficaram todos estupefactos! Imediatamente começámos a inquirir em que prédio seria que ele vivia? Rita, perspicaz como sempre fora, deduz que certamente ele era a grande vedeta que nos tinha apanhado o nosso querido apartamento para fazer o Pat vir juntar-se a nós. Com o decorrer do tempo, um dia olhámos lá para aquela grande varanda naquele quinto andar, e lá estava ele, debruçado sobre o corrimão dessa imensa varanda, a ver passar o trânsito!

Esse homem lindíssimo que, meses depois, dessa maldita varanda se lançaria!

Hotel Claridge - Champs-Élysées



O Claridge passaria a ser para mim como uma libertação do meu isolamento e o egoismo do Moshé. A primeira vez que pus os pés no Standard como membro do pessoal desse famoso hotel dos Campos Elísios, senti-me como que ressuscitando dum horrendo pesadelo. Enfim liberto da Swan e do "suine"! No Claridge tinha bonitas e atenciosas colegas e o standard ali estava à minha espera, como uma caixinha de Pandora atafulhada de agradáveis surpresas. Dádivas da vida que ali dormitavam há eternidades à minha espera! Oportunidades essas que agarrei com ambas as mãos, fazendo delas muitas das minhas mais belas recordações de todo o sempre!

Todas as minhas colegas eram raparigas encantadoras. Pierrette, a responsável, era duma personalidade rara. Quando fomos apresentados, algo faiscou entre nós! Depois de umas tardes a trabalhar para me integrar no ambiene e rotina das funções do Standard nas actividades diárias do hotel, peguei nas minhas armas e bagagens e tomei posse das minhas funções das onze da noite até às sete da manhã. Nas primeiras noites senti-me um pouco como um homem que não sabia nadar empurrado por cima da amurada mas, muito rapidamente, icei as velas a todo o pano e, tal Gil Eanes, parti à conquista do Cabo Bojador!

Por vezes sentia-me um tanto isolado mas logo que colegas subiam dos seus diversos postos até ao Standard para ver que cara tinha a minha voz, imediatamente me senti menos abandonado. Muitos deles me fizeram compreender que no Claridge, no andar onde eu estava instalado, todos os pequenos quartos que me circundavam eram os quartos do pessoal, e que em cada quarto havia uma caminha que bem gostaria de me abrir os seus lençóis! Isso só me fez sentir mais seguro de mim mesmo. Sempre temi ir para a cama com colegas, mas neste hotel os seus servidores eram demasiado capitosos e comestíveis para serem deitados fora! Um que mais me saltou aos olhos foi um jovem irlandês de Dublin que tinha uma cara cheia de malícia e um corpo insinuando proibidas promessas. Especialmente o seu tão redondinho e proeminente traseiro. Ele chamava-se Liam e era um sedutor de marca. Quando ele me apareceu lá no Standard para se apresentar e me conhecer pessoalmente, imediatamente desejei fechar a porta à chave e saltar-lhe em cima!

Outros recepcionistas subiram para me dizerem que eu, para um português, falava muito bem o Francês. Todos eles eram de diferentes paises e labutavam duramenete para aprender e falar a língua de Molière! Nesse andar moravam muitos membros do pessoal. Haviam irlandeses, escoceses, alemães, suissos, polacos, russos, e apenas um francês. Era o Patrick, que namorava a muito britânica Jacqueline, a qual muito admirava o meu Inglês, mas temia o meu poder de sedução. Outro grande vulto que se instalaria nos meus nichos era o jovem que faziam o “room-service” durante a noite. Como os clientes, para conseguirem o “room-service”, tinham de passar pelo Standard, ele instalava-se sobre o divã que havia ali ao pé da janela que dava para a Rue Ponthieu, sugestivamente abria as coxas e acariciava-se sensualmente. Como era ele que me trazia o meu jantar isso era um delicioso aperitivo para me abrir vários apetites habitando o meu corpo sempre a morrer de fome. Como eu, quando o trabalho abrandava, me metia na cama e a porta estava sempre aberta, ele pouco a pouco começou a servir-me certos digestivos tanto do meu agrado. Achava que não devia misturar-me com colegas mas ele era tão bem garnido e ali à minha disposição, que acabei por ceder!

Era por mim muito apreciado quando os recepcionistas, às onze hora acabavam o seu turno, subiam ao Standard para gozarem a minha companhia. Eram o Liam, o Jim, e o Klaus, que vinham mais frequentemente. Eles dum certo modo admiravam a minha coragem de assumir publicamente a minha sexualidade. Como Liam me diria muitos anos mais tarde, para ele, um irlandês, que esse tipo comportamente era absolutamente contra as muito fechadas mentalidades, dizendo-me que eu , pela minha coragem, iria ficar na história! Mas que História, que histórias?

Esses Famosos Vestidos Pretos


Depois destes meses todos em Paris, na minha medíocre rotina na butique Swan e nas mãos de alguém tão desprezível como o Moshé, decidi tomar as rédeas nas mão e tomar outros trilhos! Aquele anúncio do Hotel Claridge pareceu-me ser a direcção mais indicada a tomar. Como tinha de lá estar entre as dez e o meio-dia, pedi autorização ao Moshé para me ausentar essa manhã, para tratar dum assunto urgente e, depois de ter justificado a coisa como sendo algo relacionado com a minha “Carte de Séjour” a ser tratado no Ministério do Interior, lá fui à carga até ao Claridge. Fui a pé, nas calmas. Até Concorde foram uns minutos, e depois da Concorde até aos Chaps-Élysées não foi muito mais. Dirigi-me à recepção e pedi para falar com o Chefe do Pessoal. Entraram em conacto com ele via telefone e, depois, na companhia dumm bellboy, fui conduzido ao seu escritório. Ele foi-me apresentado como sendo o senhor Taieb, o qual me pediu para me acomodar na sua frente, e a entrevista foi bastante curta. Quando ele viu as minhas referências de Israel e Inglaterra, ele pareceu-me interessado na minha pessoa para preencher essa anunciada vaga. Ficou impressionado com as referências dos hoteis onde tinha trabalhado em Isreal, onde se provava que eu tinha trabalhado como telefonista nocturno no Hod, em Herzelia. As línguas mais importantes a saber eram o Francês, o Inglês, e o Espanhol. Como ele também falava, mas mal, essas línguas, ficou impressionado com a facilidade com que eu as falava. Levou-me à dependência do P.B.X. (o Standerd) e apresentou-me à senhora que chefiava esses serviços. Essa senhora pareceu ter engraçado comigo, pois que logo me aceitou depois de eu ter prestado provas de como trabalhar com o Standard, do meu à vontade, e da fluência com eu falava as requeridas línguas. Voltei a descer com o senhor Taieb até ao seu escritório, e aí ele fez-me assinar um contrato de um ano a ganhar 2.500 francos, sete noites por semana, folgas ao domingo. Dobrei a cópia do meu contrato e enfiei-o na algibeira interior do meu casaco.

Voltei a pé até à Swan. Pelo caminho - como se eu tivesse realmente metido uma lança em África - ia pensando com os meus botões, que o Moshé m’as ia todas pagar e que outro galo cantaria! Chegado lá o Moshé perguntou-me como se tinham passado as coisas e eu respondi-lhe que se tinham passado muito bem, que fora apenas assinar um documento. Ele preparou-se para ir almoçar mas, antes que ele saísse, eu exigi que ele me pagasse os meus 1.200 francos. Ele aconcelhou-me a esquecer esse assunto, que eu é que lhe devia muita coisa! Eu jurei a mim mesmo que ele m’as pagaria todas! Por sorte, nessa tarde, uma americana a rebentar de Dóllars parou em frente da vitrina a olhar insistentemente para aqules famosos vestidos pretos até aos pés, bordados a ouro. Abri a porta e dirigi-me a essa senhora e sugeri que ela podia entrar e provar um desses vestidos. Ela saltou de contentamento e entrou logo. Perguntei-lhe quais as suas medidas e depois mostrei-lhe o guarda vestidos onde havia uma dúzia deles pendurados nos seus cabides. Ela apalpou o tecido, gostou, viu as etiquetas, pegou num e meteu-se na cabine para o ensaiar. Momentos depois ela sai e, mirando-se no alto espelho ali mesmo na sua frente, perguntou-me como é que eu achava? Se lhe ficava bem? Disse-lhe que lhe ficava lindamente, que ela parecia uma raínha! Ela ficou deleitada com a minha apreciação e pediu-me dois deles para ela levar com ela para os Estados Unidos. Meti-lhe esses dois vestidos num saco e cobrei-lhe dois vestidos a 800 francos... 1.600 francos! Ela pagou-me “cash”! Só que essa soma em vez de entrar na caixa do Moshé entrou no meu bolso!

Quando o Moshé regressou, a espevitar os dentes, vendo a senhora com um dos seus sacos na mão, sorriu-se todo por dentro, pois que tinha deduzido que tinhamos feito negócio. A senhora, entretanto, interessou-se por um determinado anel prateado com algumas pequenas pedras, uma de cada cor, e prguntou-me o preço. Disse-lhe que custava apenas 10 francos. Ela ficou encantada, enfiou o anel no seu dedo, esticou o braço para ver como lhe ficava, e perguntou-me:

-Do you think it will get rusty?

Respondi-lhe:

- No, madam! It will not last that long! Besides, the stones will fall out in a couple of days!

A senhora retirou o pechisbeque do dedo, repô-lo na vitrina, e saiu sem dizer uma palavra! Eu virei-me para o Moshé e informei-o que ia almoçar! Ele, fulo, vociferou-me que eu podia ir almoçar e que lhe fizesse o grande favor de nunca mais por os pés na sua loja! Respondi-lhe que o faria com muito gosto! Que o prazer seria todo meu!

E o Moshé nunca mais me pôs os olhos em em cima!