lundi 16 novembre 2009

Livros, leitura e coisas mais...










E a vida lá continuava sem grandes incidentes no nosso pacato ninho de amor! O Pat gostava muito de ler e eu procurava fazê-lo ler livros que o instruíssem, não apenas entreter. Para não gastar dinheiro com a compra de livros nas caras livrarias lá do sítio, comecei a ir regularmente à Biblioteca local - a dois passos - procurar livros para trazer para casa, para ambos lermos. Uma tarde, estava eu muito ocupado a passar os dedos pelas lombadas dos livros enfileirados nas estantes, em busca dum título ou dum autor que me inspirasse quando, repentinamente, senti uma estranha sensação na minha nuca. Era um misto de carícia e facada. Virei-me bruscamente e dei com um belo par de olhos muito negros que me despiam descaradamente. Olhei-o com uma certa firmeza e pensei: se queres cama aproxima-te! Eu também ando com ganas de cama fresca! Pareceu-me que ele era receptivo à telepatia, pois que imediatamente se aproximou e perguntou-me se eu gostava de Pitigrilli, apontando-me um dos livros desse autor italiano. Recomendei-lhe o livro que ele apertava entre ambas as suas longas brancas mãos, dizendo-lhe que já tinha lido e que era um bom livro e um bom autor! Ele era um belo exemplar do homem alto, moreno, e simpático. Ele, sempre devorando-me com os olhos, sussurrou-me que morava ali mesmo em frente, se eu queria subir com ele para uma bebida. Como já andava com saudades de pecar, aceitei o convite. Atravessámos a rua. Ele abre a porta da sua escada e mal entrámos e a porta se se fechou sobre as nossas costas ele salta-me em cima ali mesmo no patamar e come-me a boca. Subimos ao primeiro andar onde ele morava e, mal a porta foi trancada, pegou-me ao colo, como se tivéssemos acabado de nos casar, e docemente me depos sobre a sua larga cama que parecia ter-se aberto para nos receber sem perda de tempo. Despimos as nossas armaduras, pegámos nas nossas armas, e guerreámos a tarde toda. Quando cheguei a casa o Pat fez-me apenas uma pergunta:

- The book you bring me, did you write it yourself? It took you a long time!

Nessa noite não havia jantar porque não tinha tido tempo de fazer as minhas compras. Assim, como assiduamente fazíamos, fomos à Regents Park Road, entrámos na loja do “fish and chips”, comprámos duas doses embrulhadas em jornais, e fomos sentarmo-nos num banco do Primrose Hill Park, naquele ali logo à entrada, e regalámo-nos, como habitualmente, com os nossos sempre deliciosos “fish and chips”!

As minhas visitas a esse meu novo vizinho e amante, que era sul-africano, começaram a ser obrigatórias cada vez que eu ia devolver ou buscar novos livros à Biblioteca. Uma dessas vezes ele não estava só. Estava com ele amigo dele francês que tinha vindo de Paris passar uns dias com ele. Nessa tarde a guerra foi renhida! A cama parecia demasiado pequena para tanta labuta! Insinuaram-me, fizeram-me compreender, que estavam ambos interessados numa dupla penetração, sendo eu o condenado. Respondi que não, nem com anestesia local! Quem acabou por ceder foi o lúbrico francês. Gostei da experiência. Era algo de novo que nunca tinha tentado!

O Pat começou a desconfiar das minhas longas ausências e eu, como sempre, muito assumido, sugeri que, se ele quisesse, poderíamos um dia fazer umas viagens de ida e volta a quatro. Ele não pareceu opor-se e, assim, uma tarde, convidei-os ambos a tomar um chá e eles aceitaram. Chegaram com uns bolinhos e depois do chá fomos todos para a cama. Despimo-nos todos e galagámos em cima da nossa cama, que parecia pequena demais para tanto trânsito. Era evidente que o francês, a sua especialidade era a dupla penetração e quando vi que o programa deles era utilizar o Pat como bode espiatório, agarrei nas roupas deles, abri a porta da escada e atirei com tudo para o patamar da escada e expulsei-os ambos todos nus!

Não sei o que realmente se passou depois, mas presumo que eles se vestiram e regressaram a casa deles. O Pat e eu fizemos como se nada se tivesse realmente passado e a vida continuou. Nunca mais vi o meu delicioso sul-africano, com o qual, certamente, poderie ter aprendido mais algumas laboriosas técnicas do Kama Sutra!

Mrs. Murray enchapelada
















Realmente foi uma prenda do céu aquele emprego no Foyles! O P.B.X. já sabia como o utilizar e, ainda por cima, tinha, sentada a meu lado, uma bonita assistente dinamarquesa que era um prazer tê-la ali meu lado mostrando os seus belos joelhos! Ela era uma rapariga bastante culta e imediatamente simpatizámos um como outro. Nós falávamos o Inglês e assim começámos a nos descobrir por dentro. Como os fins de semana eram feitos por dois outros telefonistas nós tínhamos os fins de semana e frequentemente ela os vinha passar connosco a Chalk Farm para se sentir menos só. Levámo-la uma manhã ao Zoo, o que ela apreciou. O que ela mais aprciava, além da nossa copanhia, eram os meus cozinhados, acepipes para ela uma grande novidade, pois que nunca visitara Portugal nem nunca tinha ido a um restaurante português. Tornámo-nos grandes amigos e no dia em que deixei a Foyles ela verteu uma pequena lágrima!

O nosso pequeno apartamente começou também a ser visitado pelos nossos vizinhos. Nós estávamos no primeiro-andar e Mrs. Palozzi vivia no rés-do-chão e amiudadamente me pedia para eu lhe ensinar a preparar pratos portugueses. Ela tinha um enorme cão já muito velho e quando esse cão morreu ela chorou o dia todo lá em baixo, e eu cá em cima! No segundo andar morava a Mrs. Murray e seu marido. Eles eram ambos reformados e muitas vezes nos convidavam para jantar com eles. Nunca esquecerei aquela noite quando subimos para jantar e todos os quatro nos sentámos à volta da mesa da cozinha onde haviam talheres para quatro pares de maxilares. Para nossa surpresa, ela começou a trazer-nos os pratos já bem atulhados que punha sob os nossos queixos. Nós pegámos nos garfos e nas facas e atacámos. Só Mr. Murray não tinha sido servido. Quando ele perguntou onde estava o seu prato, Mrs. Murray respondeu-lhe que o prato dele estava ao pé dos seus dentes! Mrs. Murray queria que ele tivesse a sua dentadura permanentemente na boca e ele só a usava para comer. Ela queria que, ao menos, ele a pusesse quando tinham visitas. Ela estava furiosa! Ele insistiu, que queria o seu prato mas o seu prato estava ao pé dos seus dentes que aparentemente passavam os dias e as noites num copo de água na casa de banho. Subi à casa de banho e o seu prato lá estava perto do copo no qual os seus dentes me sorriam! Nessa noite quem serviu o jantar ao Mr. Murray fui eu, divertidíssimo com a birra da Mrs. Murray!

Mrs. Murray era uma mulher cheia de vida e gostava de sair à noite. Ir ao cinema, ir dançar. Ela gostava muito de dançar, mas como não frequentava clubes limitava-se a ir às festas da igreja ali perto onde ela ia à missa todos os domingos de manhã. Sempre que havia um baile lá na igreja, ela, como não gostava de sair sozinha, vinha-nos convidar para um pé de dança. Pat adorava e aceitava sempre. Eu aceitei apenas algumas vezes. Mas agora recordo com muita saudade essas idas ao baile com a nossa querida Mrs.Murray! Mr. Murray nunca ia connosco. Preferia ficar perto dos seus dentes!

Recordo o dia quando deixei Chalk Farm, ela lá estava à sua janela, no seu segundo andar, para me acenar boa viagem. Depois disso ainda a vimos algumas vezes em casa do seu filho, para onde se tinha mudado quando Mr. Murray deixou para sempre os seus dentes num copo, numa casa de banho em Chal Farm.

Anos passaram e, um dia, recebemos uma carta do seu filho com apenas uma uma curta frase: “Mother joined father”!

dimanche 15 novembre 2009

Foyles Book-Shop









Tudo voltou ao normal quando um dia fui à Foyles Book-Shop tentar encontrar discos da Amália. Ao empurrar a porta de entrada li um pequeno cartaz pedindo “telefonista mutilingue”! Esqueci os discos da Amália e indaguei com quem falar acerca desse posto. Enviaram-me ao quarto andar e pedir para falar com Mr. Rush. Mr. Rush não se encontrava e dirigiram-me até ao escritório do patrão. Mr. Foyle, um jovem extraordinariamente belo, pediu-me para me sentar e pediu-me para prestar provas linguísticas. Ele precisava de bom Inglês – sendo eu um estrangeiro – bom Francês e, se possível, um pouco de Espanhol. Quando ele ouviu o meu Inglês ficou encantado! O meu Espanhol, depois de o ter aprendido com a Anita, em Beit Hashitá, foi também logo aprovado. Depois, pediu-me, no seu pobre Francês, para eu dizer umas frases nessa língua. Logo a seguir à minha tentativa num Francês muito improvisado, anuiu com a cabeça, dizendo, com um sotaque fortemente britânico: “merrci bian”! O que mais o surpreendeu foi quando lhe disse que eu também falava Português e Hebraico. Assim como um pouco de Italiano e Alemão. Aí, abriu a sua gaveta, sacou uma folha de papel e redigiu um curto contrato que me fez assinar. Antes de assinar li o contrato. Constava de horários das 9 às 13 e das 14 às 18 horas. De segunda a sexta-feira. Óptimo! Assim eu podia guardar as limpezas em Holborno, assim como Mr Marx! Depois, quando vi o ordenado, pensei comigo mesmo: Que se lixe Holborn e Mr. Marx! E assinei!

Então Chistopher Foyle diz-me que teria primeiro de aprender a trabalhar com o “switchboard” (P.B.X.)! Quando lhe disse que eu tinha trabalhado no Hod Hotel em Israel como telfonista ele ficou pasmado! Informou-me que o seu chefe do “Foreign-Department”, onde vendiam livros em todas as línguas, também era israelita, e que ficaria muito contente de ter alguém com quem falar Hebraico!

Desci e fui à procura do Pat que tinha lá ficado em baixo à procura dos discos da Amália. Quando ele me estendeu dois discos dela, dizendo-me:

- How lucky! I found two records of Amália that we did not have yet!
(Que sorte! Encontrei dois discos da Amália que nós ainda não tínhamos!)

A minha resposta, dando-lhe um abraço muito apertado, procurando não quebrar esses dois preciosos discos, foi:

- How lucky we are! I found a job paid as well as your own!
(Que sorte tivémos! Encontrei um trabalho tão bem pago como o teu!)

Deixei a agência de limpezas, o Mr. Marx, assim como Holborn! A vida recomeçava a sorrir-nos de novo! Desde esse dia e até que deixasse a Inglaterra para seguir o meu destino de Judeu Errante, vivemos como reizinhos sem trono, sem ceptro, mas com muitas coroas!

Limpar casas de porta em porta








Durante semanas andei à procura de trabalho mas esbarrava sempre com portas fechadas. Finalmente, pensando que talvez fosse por causa dos meus cabelos até aos ombros, decidi ir a um cabeleireiro e pedi um corte tradicional. Mas, aparentemente, não eram os meus cabelos longos que me impediam de encontrar emprego, era, presumo agora, uma talvez passageira crise de desemprego nessa indústria. Como o meu diploma era para hotelaria e não tinham quaisquer outras qualificações e o ordenado do Pat não chegava para pagar todas as despesas da casa, uma noite, quando a Berta veio, como era habitual, deixar o Papuzinho em nossa casa quando eles saíam à noite, eu queixei-me e ela informou-me que a empresa onde ela trabalhava, a tal em Holborn, procuravam alguém para todos os dias, depois das seis da tarde, quando os escritórios fechavam, para fazer a limpeza de todos os escritórios espalhados pelos três andares do edifício. Aceitei essa proposta e o Pat costumava, quando deixava a B.B.C. a essa mesma hora, vinha até Holborn dar-me uma ajuda. O trabalho consistia em despejar os cestos dos papéis, limpar o pó e passar o aspirador do terceiro andar até chegarmos ao rés-de-chão. Depois apanhávamos o Tube e regressávamos a casa, onde eu tinha que improvisar um pequeno jantar fossem lá quais fossem os restos da véspera.

Para angariar mais umas patacas para aguentar a situação mais ou menos de pé, um dia, vendo um anúcio no jornal pedindo “cleaners” para uma agência de limpezas em Hampstead, dei lá um salto e fui logo contratado. O meu primeiro trabalho foi em Golders Green em casa duma família judaica que tanto gostou do meu trabalho que me recomendaram a todos os seus amigos e vizinhos e, assim, graças ao meu amor a Israel, fui adoptado por todos e até comecei a ensinar Hebraico um dos filhos duma dessas famílias. O miúdo tinha aí uns seis anos e aprendia com uma facilidade surpreendente! Porém, como não eram eles que me pagavam, tinha de ir à agência receber o meu ordenado todos os sábados de manhã, pois que eu era pago semanalmente pela agência. Uma dessas vezes o proprietário, olhando-me fixamente nos olhos, disse-me que era um desperdício eu, com as minhas capacidades, andar a fazer limpeza em casa de quem calhava, e propos-me eu tomar conta da agência, pois que ele ia abrir uma outra e que não podia estar em ambas ao memo tempo. Assim eu deitei fora os meus baldes e esfregões e, sentado por detrás daquela grande secretária, um telefone, fichas, um livro de apontamentos, uma lista telefónica dos clientes, e uma pesada caneta, organizei o trabalho todo nessa agência, respondendo ao telefone daqueles que procuravam uma mulher a dias, assim como contratar novas empregadas para fazerem esse trabalho e, assim, eu satisfazia as necessidades do patrão, dos clientes, e dos trabalhadores.

Ao lado dessa agência havia uma outra. O seu proprietário procurou roubar-me ao seu concorrente e vizinho, mas eu recusei. Mas como ele era um bonitão e me fazia olhinhos, prestei-lhe outro tipo de serviços que ele parecia muito apreciar, pois que todos dias fechávamos entre o meio-dia e as duas da tarde, o que aproveitávamos para uma “limpeza geral” no seu quartinho da retaguarda e depois íamos almoçar a um pequeno restaurante ali na mesma rua. A nossa situação financeira melhorou um pouco mas, mesmo assim, precisávamos de mais uns “English-Pounds” para as nossas farras comprar de vez em quando roupa nova, aceiteitámos a proposta de um dos nossos clientes em Hampstead que queria alguém que fizesse uma limpza geral no seu vasto apartamento aos domingos, pois que durante a semana eles não estavam em casa, pois que ele e sua esposa ambos trabalhavam numa pequena empresa que eles dirigiam. Quando lhe apareço lá em casa pela primeira vez com o Pat - dois pelo preço de um - ele ficou contentíssimo com o bom negócia que tinha feito! Ele, o Mr. Marx, e sua esposa eram encantadores. Todos os domingos começávamos às nove da manhã e enquanto nós trabalhávamos a Mrs. Marx – uma doçura de pessoa – fazia o almoço e ao meio-dia sentávamo-nos os quatro à volta da mesa da cozinha e deliciavamo-nos todos com os saborosos petiscos de Mrs. Marx. Foram uns tempos duros mas simpáticos, que a despeito de tudo, nos deixaram saudades!

O Edward Hotel - Uma solução?










O Edward Hotel era um relativamente pequeno hotel mas muito agradável e bem decorado. Era mais um hotel para turistas menos afortunados que não podiam pagar as altas tarifas dos Hiltons. Era um hotel muito familial e situado numa muito calma rua de Paddington. Porem não tive muito tempo de estar perto do Johnny! Como eu andava sempre a falar de Israel e dos belos tempos que lá vivera, dos amigos que lá deixara, foi o fim da macacada! Os proprietários do hotel eram anti-semitas ferrenhos e tomara-me por Judeu e fizeram-me a vida tão insuportável que eu um dia disse-lhes na cara o que eu pensava deles! Que eu não era Judeu, e que se o fosse estaria então a viver em Israel! Que tinha deixado Israel depois de dois julgamentos por estar ilegal por não ser Judeu! Informação que eles aproveitaram para me fazerem compreender as razões pelas quais eles detestavam os Judeus. Que eram uma raça espalhada pelo mundo inteiro, monopolizando todo o comércio, que era um povo habituado a viverem em guetos, que não se queriam misturar com outras religiões, que até, mesmo em paises que não eram os deles, exigiam cemitérios à parte para, mesmo mortos, não se misturarem com outras raças e culturas! Mas o mal estava feito! Eu tinha-lhes dito na cara o que eu pensava dos racismos, fossem lá eles quais fossem! Nem eu os infestei com as minhas idéias nem eles me infestaram com as suas. Parti sem um adeus! Foram uns dias de tortura para mim, que acabaram tristemente. Nem sequer fui pago por esses dias que lá trabalhei! Uma espécie de repugnância pela humanidade de mim se apoderou!

Continuo à procura duma saída! Em Israel não posso estabelecer-me por não ser Judeu, e noutros países não me dão trabalho por pensarem que eu o sou! Beco sem saída!? Não! Um dia, depois de mortos, vamos estar todos juntos! Espero não haverem no Paraiso segregações! Mortos, num caixão, somos todos iguais uns aos outrs! Temos todos os olhos fechados, as mãos enlaçadas sobre o peito e, sobretudo, totalmente indiferentes a todos esses absurdos fanatismos que infestam e sempre infestaram este mundo!

Hilton após Hilton
















Mrs. Sellar organizou um pequeno e muito discreto copo de despedida, entregando-me uma carta de boas referências do Mr. Wood, desejando-me muita sorte para o meu futuro profissional e sobretudo, uma frase que muito me tocou:

- I shall miss you!

Comecei as minhas noites no Hilton logo no dia seguinte. Pat teria preferido que eu continuasse a trabalhar de dia, pois que dormir sozinho e ao voltar da B.B.C., por volta das seis e meia, eu ainda estava a dormir e que, depois, a minha presença era apenas o jantar e quase logo a seguir sofrer as minhas malfadadas noites no Hilton.

Essas noites foram-me muito difíceis por muitas razões! Antes de mais nada, saber o Pat sozinho, sem mim para me sentar a seu lado para ver um filme na televisão, um salto ao Pub, e outros pequenos hábitos que tínhamos criado. Depois, o trabalho de “night-auditor” nunca me tinha agradado! Sempre me desagradaram essas funções de, sozinho nos bastidores duma recepção, sem ver ninguém, ter de fazer as contas diárias de centenas e centenas de hóspedos cujas caras nunca lhes tinha posto os olhos em cima! O grande prazer de trabalhar de dia numa recepção era ver gente, dispensar os meus serviços a pessoas que normalmente me apreciavam. Muitas vezes hóspedes que de regresso a suas casas por esse mundo fora me enviavam uma carta a agradecer as minhas atenções e a oferecerem-me as suas casas e préstimos! Como “night-auditor” eu sentia-me como se fosse apenas um fantasma com os pés agrilhoados, a cumprir um castigo!

Um dia voltei a falar com o chefe do pessoal e queixei-me das minhas agruras. Que me tinha “casado” recentemente e que precisava de continuar a garantir as minhas obrigações maritais. Esta minha preocupação pareceu tocar-lhe bem fundo do humanismo que dele se desprendia e logo me prometeu tentar resolver o meu problema. Dias depois ele convocou-me ao seu escritório e estendeu-me um outro contrato para eu assinar. Era para recepcionista de dia num outro Hilton. O Hilton em Lacaster Gate, ali a Paddington! Fiquei radiante! Não só poderia recomeçar a fazer uma vida normal com o Pat, como também ficava ali tão perto do Johnny. Quem sabe?

O trabalho no Lancaster Gate foi uma solução temporária, pois que quase imediatamente novamente recebi ordens de cortar o cabelo! Quanto a mim era um absurdo! Todos os homens andavam de cabelos pelos ombros, não percebia porque razão um recepcionista não teria direito de andar à moda! Não tive tempo de fazer amizades ou fabricar recordações. Como, ali não muito longe, havia um pequeno hotel com menos importância do que o Berners e os Hiltons, um dia entrei nesse hotel e pedi trabalho. Fui logo aceite! Perguntei se tinha de cortar o cabelo? A resposta foi imediata e salvadora:

- No problem at all!

Modas e suas consequências









O tempo foi passando. No Berners tudo se passava pelo melhor. Miss Pollack tinha finalmente aceite a presença dum homem na sua recepção. Isto até ao dia em que a moda dos homens deixarem crescer os cabelos até aos ombros me agarrou! Moda muito ambígua! Nas ruas de Londres já era difícil saber quem era quem! As mulheres começaram a usar “hipsters” e cabelos até ao meio das costas, e os homens idem! Quando caminhávamos num dos passeios da Oxford Street e na nossa frente se deparava um belo traseiro, nunca se sabia se essa dádiva divina pertencia a um homem ou a uma mulher! Mesmo assim, posso garantir que não foi nessa época em Londres que foi descoberta a bissexualidade. Isso já vinha dos tempos da Idade da Pedra! Uma coisa era certa! Ficava-me bem e todas as minhas colegas invejavam o meu penteado, mas Miss Pollack exigiu que eu cortasse o cabelo à homem, como ela se pronunciou! Recusei! Dias mais tarde fui chamado ao escritório do Mr. Wood, onde ele me aguardava na companhia de Mrs. Sellar. Ele também me deu ordem definitiva de cortar o cabelo. Mrs. Sellar foi a única que me defendeu, dizendo que era a moda e que me ficava muito bem, que não via nisso nenhum mal. Que não seria os meus longos cabelos que me impediriam de fazer o meu trabalho com a mesma eficácia e que até os hóspedes gabavam o meu visual. Eu, com o apoio de Mrs. Sellar, recusei e, dias mais tarde tinha uma carta do Mr. Wood dispensando os meus serviços! Essa carta arrasou-me! Eu gostava de trabalhar no Berners, dava-me bem com todos os meus colegas, e adorava as minhas refeições no restaurante dos hóspedes, na doce companhia da minha querida Hella! Hella aconselhou-me a cortar o cabelo para continuarmos juntos, que ser minha visinha não chegava, que queria continuar a ser minha colega! Respondi à Hella que quem mandava na minha vida e nos meus penteados era eu, mais ninguém! Assim, comecei a por os pés a caminho em busca de outro emprego. O primeiro hotel a cuja porta bati, foi o Hyde Park Hilton, ali a dois passos. Quando lá entrei e me dirigi à recepção a indagar como poderia eu falar com o chefe do pessoal, fiquei surpreendidíssimo! O recepcionista que encontrei por detrás do balcão foi um rapaz que tinha tirado o curso comigo no Tadmor Hotel em Herzelia. Ele apresentou-me o dito responsável que, depois de lhe ter mostrado o meu diploma, sem exitação, ofereceu-me trabalho como “night-auditor”! Esse trabalho não me aprazia porque detestava fazer as noites e o trabalho nele envolvido. Sobretudo evitava fazer as noites porque tinha muito poucos contactos com os hóspedos, o que, a meu ver, era uma das grands vantagens de trabalhar numa recpção: conhecer gente! E mais importanto ainda, queria dormir na minha cama com o homem que se tinha instalado na minha vida!