samedi 17 octobre 2009

Milano - Sol de Pouca Dura!














A viagem para Milão também foi calma. Depois dessas duas semanas de abstinência em Torino, o meu corpo começava a pedir-me farra! A minha cabine estava cheia de senhores reformados a lerem jornais. Chegado a Milão, como não tinha lá nenhum correspondente, claro que ficaria só uma noite. Um dia chegar-me-ia para ver o issencial dessa grande cidade. Além de "La Scala de Milano", e aquela famosa catedral cuja porta penso pertencer ao Património Mundial! Aquele fabuloso baixo-relevo que milhões de turistas fotografaram e tocaram com as polpas dos dedos, depois de neles terem depositado um breve beijo.

Dormi uma noite numa pequena pensão e no dia seguinte segui viagem para Verona onde tinha, pelo menos, um correspondente. De Milão telefonei-lhe dizendo-lhe que chegava no dia seguinte. Ele pediu desculpa de não me poder oferecer a sua casa, que vivia com a mamma, que era viúva, e que não era pessoa de gostar de receber pessoas em sua casa que não conheci de parte alguma! Mas que ia reservar um quarto para mim num pequeno pequeno hotel perto de sua casa. Deu-me o nome e morada do hotel e que quando chegasse me instalasse, que depois lhe telefonasse para o emprego. E deu-me o número!

Torino - Io no ti vedrò mai più!








Decidira passar apenas uma noite em Torino para fazer render as minhas finanças. Porém, no outro dia de manhã, ao ir a esse mesmo Café tomar uma espécie de pequeno almoço, novamente deixei os meus olhos passearem sobre aquelas apetitosas saladas. Apontei uma delas, a mais viçosa, e devorei-a em dois minutos. A senhora que me serviu - a patroa - perguntou-me o que queria eu beber e eu disse que nada, muito obrigado! Ela, sem dizer uma palavra, retirou o meu prato já vazio de cima do balcão, e pôs-me um outro bem atulhado, e encheu-me um copo de “vino rosso”. Fiquei espantado com a atitude da senhora, mas resignei-me e enguli essa segunda tão apetecida dose. Depois pedi um “capuccino”. Quando lhe perguntei quanto lhe devia, ela respondeu-me que não lhe devia nada! Que se eu estava “nella merda”, que lhe dissesse! Que ela preciva de alguém para a ajudar aos almoços e aos jantares, para lavar pratos! Pensei logo que pratos, só limpos! Como o meu Italiano tinha feito grandes progressos, aceitei. Ela propôs-me pagar-me o quarto lá em cima, três refeições por dia, e uma pequena maquia por dia para os meus alfinetes.

Comecei logo no dia seguinte. Tinha de lá estar para os pequenos almoços, almoços, e jantares. O meu trabalho não me agradava, mas também não me degradava! O pessoal na cozinha eram todos muito “carinos”, e como eu andava sempre a dizer palavrões na língua deles, acabaram por me adoptar em poucos dias, e começaram a chamar-me “cazzino”! Assim tinha todos os dias a minha comida, o quarto pago, umas “liras” para comprar cigarros e algumas mais coisas e, sobretudo, andava a aprender Italiano de borla! Durante o dia tinha duas horas para ir dar uma volta entre as refeições principais. Aproveitei esse tempo para visitar Torino, museus, e algumas catedrais. Ia todos os dias àquela igrejinha onde tinha entrado no primeiro dia a pedir amparo, e agradecia a Deus o facto de eu ter nascido!

Trabalhei nesse Café umas duas semanas e economizei umas liras. Não abri conta no Banco! O meu banco continuava a ser as minhas peúgas! A minha roupa suja era, presumo, lavada juntamente com os guardanapos, toalhas, e panos da cozinha, mas uma coisa era certa: de vez em quando, ao subir ao meu quarto, encontrava a minha roupa muito bem engomadinha em cima da minha cama, à minha espera! Adorei essas duas semanas pois que sempre me interessou aprender línguas! Ao princípio só sabia dizer “cazzo”, mas muito rapidamente me apropriei da língua e já começava a poder conversar quase fluentemente com todos. Conversas corriqueiras, nada de filosofias!

O tempo foi passando, e no dia em que eu já tinha umas economias, disse à La Mamma que tinha de seguir viagem, que tinha de estar em Londres, onde já tinha emprego. Ela ficou “soddifastta” e disse-me que tinha a sua casa sempre às ordens! Assim, uma manhã, depois de ter tomado o meu último pequeno almoço nesse Café, despedi-me de todos e apanhei o meu combóio para Milão. Ao afastar-me olhei para trás já com alguma saudade desses dias. Dentro de mim, uma voz me dizia que eu nunca mais voltaria a Torino!

Mensagem Vinda do Omnipotente!











Nessa noite deitei-me só! Cedo, e triste! Procurava compreender quais as manipulações e razões da Natureza de me trazerem a este mundo! Certamente que não viémos apenas para continuar a nossa própria espécie! Deviam haver outras razões que eu procurava discernir. Eu não vim a este mundo apenas para um dia o deixar! Certamente que vim para viver um Destino! O meu Destino! Tinha já compreendido que o gozo sexual era puro manejo da Natureza para garantir a continuação de todas as espécies! Salvo os homensexuais, que nem para isso servem! A não ser que a homosexualidade tenha sido outra astúcia dessa dita Natureza para evitar excessos de população! Mas, para isso, se eu tivera sido a Natureza, teria encontrado uma solução mais simples, mais humana! Que todos aqueles que procuram o sexo oposto, em vez de - como os meus pais - terem oito filhos, tenham apenas dois ou três! Teria sido mais justo do que inventar o desejo sexual entre dois membros do mesmo sexo, com todas as vantagens e desvantagens que isso comporta! Quando virem dois membros do mesmo sexo que passam na rua, enamorados un do outro, não os apontem como se fossem um insulto à Natureza, uns depravados! A Natureza é que, muito frequentemente me parece depravada! Como obrigar os animais a comerem-se uns aos outros para sobreviverem! Dois homens ou duas mulheres que se amam, merecem o nosso, o vosso respeito! Não foram eles que escolheram as suas inclinações sexuais! Foi a Natureza! Já se nasce homosexual ou heterosexual! Não somos nós que decidimos! Uma grande percentagem da humanidade troça dessas quase víctimas dessa imensa injustiça, pois que a maternidade e a paternidae (Ordens de Deus? Da Natureza?) é tão importante para uns como para outros! Dois homens ou duas mulheres que viveram e se amaram durante decénios, eles, tanto como os casais procriadores, carregam com eles essa mesma necessidade de terem esse pequeno alguém nos seus braços que lhes chamem “Mãe”! “Pai”! Essas pequenas criaturas a quem nós ajudaríamos a crescer, e que, mais tarde, seriam eles que nos ajudariam a minguar! Nisso nunca ninguém pensa! Homensexuais muito frequentemente se sentem punidos por um crime que nunca cometeram! Não vejo porque razão um heterosexual se sinta tão orgulhoso das suas conquistas, e que um homensexual se veja condenado a ocultar o seu castigo! Não somos nós que escolhemos as nossas sortes ou infortúnios! Elas nascem connosco! Foram ambos gerados nos ventres das nossas mães! Não foram as nossas mães que o decidiram! Foi Deus? A Natureza? O Destino? Eu nunca o saberei mas, chegado a velho, sei que devo tentar fazer compreender àqueles que me desprezam, que a culpa não é minha! Por essa razão agora exibo galhardamente a minha inteligência sem preconceitos!

Como alguém me disse um dia, num comum E-Mail caído dos céus aos trambolhões:

“Para um panasca, você tem um par de colhões maiores, mais sólidos, mais duros, do que certos parvalhões que andam por aí a apregoar aos sete ventos as gajas que já “comeram”! Agora a sua vez de gritar ao mundo inteiro os gajos que você já “comeu”, os homens que você amou e desejou, por vontade divina! Siga para a frente! Não pare! Sacuda o mundo de todas essas convenções de que ele é escravo! Viva a sua vida! Tenha sempre orgulho naquilo que é: Um Homem! Um verdadeiro Homem com um par de colhões e a coragem de mostar aos outros quem é! É essa a sua grande superioridade em relação a essa repugnante hipocrisia mundial! Você mostra os seus colhões porque os tem, os outros escondem-nos, porque os não têm! Ultrapasse todas as dificuldades e faça das suas desditas um mérito!”

Quando Acreditar Ajuda
















Sentado no meu duro banco nessa cabine, com os meus trapos a meus pés, deixei o combóio avançar, sem saber exactamente onde ele me levaria. O bilhete dizia Torino! Os meus dólares continuavam a esgueirarem-se assustadoramente da minha peúga, e receava não ter fundos que me chegassem até eu chegar a Lisboa. Ao sair da estação ferroviária de Torino, desembarco numa praceta muito movimentada. A minha primeira preocupação foi encontar um quiosque onde pudesse comer umas sandes. Mesmo em frente, muito modesto, um pequeno Café-Restaurante. Entro e, encostado àquela vitrina que fazia de balcão, estavam esxpostas pequenas travessas estilo prato de entrada. Eram umas saladas muito colorias e apetitosas. Como o preço era razoável, apontei um desses pratos, que foi imediatamente servido com um “panino”. Perguntaram-me “cosa vuoi da bere”, Pedi também um copo de vinho para acompanhar. Depois tomei um “capuccino” e fumei o meu último cigarro. Amachuquei o maço e atirei-o ao chão, num quase movimento de revolta. O meu dinheiro começava a escacear e as despesas continuavam a ser as mesmas. Perguntei também à simpática senhora se ela poderia indicar-me uma pensão barata, que estava com pouco dinheiro. Ela recomenda-me uma pequena pensão mesmo por cima desse Café. Que eram pessoas muito limpas e muito sérias, ali no segundo andar. Subi a esse segundo andar e esbarro com outra “mamma” adorável. Os preços eram verdadeiramente módicos, e o quarto que me proposeram era apenas uma cama e uma mesa de cabeceira junto duma pequena janela. Disse-me que me tinha dado um quarto para as traseiras porque era mais barato e mais tranquilo. Paguei adiantado, peguei na chave, e fui dar uma volta para ver o centro da cidade.

Era quase noite. Torino era uma cidade bastante cosmopolita. Ouviam-se vários sotaques do país, assim como muitos americanos que, como muitos mais, falavam muito alto e não diziam nada! Já era tarde para visitar fosse o que fosse, a não ser clubes nocturnos. Havia muita rapaziada nova muito alegremente gozando a vida. Raparigas nenhumas! Pensei que em Itália, como então em Portugal, as raparigas só saíam de dia para irem às compras ou trabalhar na costura. Penso que nessa altura da Eternidade, os rapazes teriam de brincar uns com os outros, pois que, raparigas, primeiro era preciso desposá-las! Era evidente que os italianos, nessa época, tal como alguns países retrógadas e muito religiosos, os rapazes tinham de se desenrascar sozinhos uns com os outros o com as pratas da casa! Fui notado por um pequeno grupo mas fechei-me em copas. O cansaço e o desânimo eram realmente enormes! Passei por uma igreja que estava iluminada e entrei. Sentei-me num banco e pedi a Deus que me amparasse, que me ajudasse a chegar a Lisboa são e salvo!

vendredi 16 octobre 2009

Por Caminhos e Atalhos








Jantámos silenciosamente, saboreando as nossas deliciosas “lasagnas” e embalados por aquela música de fundo que parecia vir-nos do céu. Durante a refeição, o pouco que se falou, foi uma espécie de obsessão mutua de chegar à sobremesa e irmos algures libertarmo-nos daquele agonizante suspense. Despejaram-se duas garrafas de “vino rosso” e, depois do café e dum cigarro, Tino abre-se em confissões: que tinha tirado três dias afim fazer um longo fim de semana comigo, que tinha bebido demasiado, que estava um tanto embriagado, que receava conduzir na noite que se fechara, que o melhor seria passarmos a noite em Portofino e, depois, de manhã, mais frescos, voltaríamos a Génova sem pressas. Caminhámos até onde ele tinha deixado o seu carro e subimos para, como ele explicou, irmos dormir num hotel não longe dali, que era apenas cinco minutos, e que cinco minutos ele poderia fazer sem qualquer problema. A viagem foi realmente curta. Subimos uns dois quilómetros estrada acima, direcção Génova, e fomos desembocar num átrio frente a um belo hotel muito bem iluminado. Ele deixou o seu carro em frente da porta e entrámos.

Novamente:

- Buonasera, signore ingegnere!

Pelos vistos também nesse hotel ele era habitual. Sem quaisquer burocracias, o recepcionista põe-lhe uma chave na mão e deseja-lhe “una serata molto piacevole”! Subimos a pé. Era no primeiro andar. Entrámos! Tino fechou a porta a sete chaves e, o que depois se passou, prefiro não contar, senão cairia na mais chocante de todas as pornografias. Mesmo as mais ousadas! Nessa noite descobri o que o sexo podia ser qualquer coisa de sensacional quando nas mãos dum perito na matéria! Basta apenas dizer que essa foi talvez a noite mais divinamente sexual que eu viria a viver!

Dormimos até ao meio-dia e, em vez de paqueno almoço, fomos directamente almoçar na princepesca sala de jantar do hotel. Depois desse lauto almoço, como não tínhamos qualquer bagagem, ele pagou a sua conta e metemo-nos no carro. Tino informou-me que íamos a Génova pagar o meu hotel na Piazza Cristoforo Colombo, recuperar os meus haveres e que, depois, ele iria buscar alguma roupa a sua casa, que esperasse por ele ali no hotel, que ele viria buscar-me para, então, mostrar-me toda a beleza histórica e natural, daquela área que circundava Génova!

Uma vez mais, se eu descrevesse completamente o que foram esses três dias, este livro acabaria na página quinhentos! Basta apenas mencionar que visitámos dezenas de aldeias onde a gricultura era o pão nosso dos dias de muitos italiano lá residentes. A terra ainda era trabalhada com bois puxando a sua canga, onde ainda cheirava a terra lavrada e a flores campestres. Visitámos alguns museus e vários velhos castelos em ruinas e, sobretudo, que parávamos em todos os atalho para fazermos amor no meio das searas e todos os pinhais que atravessámos. Pernoitámos duas noites em dois pequenos hoteis à beira estrada, tentando não acordar os visinhos com o gingar da cama. O mais curioso era que Tino sempre pedia uma cama de casal, e uma cama de casal recebemos sem qualquer dificuldade! Uma cama de casal para dois homens, num paí tão católico como a Itália?

Tino fez muitas fotos, as quais nunca me passaram por baixo dos olhos. Esses três dias passados, ele depôs-me frente à Estação de Camminhos de Ferro de Génova, frente ao Cristóvão Colombo, com a minha pouca bagagem, dizendo-me friamente:

- Ciao! Vi vedrò quelche tempo! O amato molto di averti incontrato! Io vi scriverò qualche volta!

Nunca mais tive notías do Tino! Nem uma carta, nem uma foto!

“Io non era stato di più poi qualcuno che a scopato un centinaio di volte, come tanti altri”!

A não ser que ele me tenha escrito para o Hod Hotel, no qual eu nunca mais poria os pés! A minha única airosa saída consistia em agarrar nos meus trapos e a panhar um combóio para Turino e seguir viagem!

Portofino: La Notte Più Bella Mai!








Chegados lá abaixo arrumou o carro num carreiro e, daí, a pé, fomos desvendar todos aqueles recantos dum raquintado pitoresco à beira daquela anilada enseada onde se balançavam pequenas barcas que lembravam gaivotas pousadas nas cristas daquela mansa ondulação do fim de outro dia mais! Percorremos todas aquelas ruelas por detrás daquela longa fila de Esplanadas e Restaurantes, que me lembravam a rua do Marco, em Roma. Muita roupa estendida à janela, com mulhres debruçadas ao pararapeito, conversando, de janela a janela, com a vizinha do lado e a da frente, numa conversa muito delas que elas espalhavam pela rua toda. Depois dessa longa passeata, depois de uma muito variada troca de impressões, Tino revela-me todos os segredos da sua correspondência, graças à revista “Hermes”, com outros homens espalhados pelo globo, que o tinham vindo visitar a Génova. Que tamém tinha visitado alguns paises estrangeiros graças a essas correspondências.

Entretanto o sol começou a descer e as cores de Portofino a modificarem-se. Eram vermelhos arroxeados diluindo-se em amarelos alaranjados, numa evolução constante. Sentámo-nos numa esplanada para tomar um café e deleitarmo-nos com aquele grandioso espectáculo! Tino levantou-se para ir comprar um maço de tabaco Marlboro, que tinha gostado dos meus, que eram muito mais suaves e agradáveis. Quando o sol despareceu para dar lugar à escuridade e aos candeeiros das ruas que começaram a iluminarem-se como irrequietos pirilampos, entrámos num pequeno bar para tomarmos um aperitivo, um delicioso vermute que estava então muito na moda. De pé, encostados ao balcão, Tino começou o seu trabalho de sedução: que me tinha escrito porque tinha gostado muito da minha fotografia no “Hermes”! Que tinha gostado muito dos meus olhos penetrantes, e da minha boca pedindo beijos! Com a mão esquerda segurava o seu copo e o seu cigarro, com a mão direita metida no bolso dos seus “jeans”, amassava o seu “cazzo”, que já adivinhava curto e grosso como os cigarros que ele dantes fumava. Os seus enormes olhos muito pretos e pestanudos começaram a serem invadidos por muitas estrelas cadentes, enquanto entre as suas pernas uma outra estrela generosamente imergia. Ele saboreava o seu vermute em pequenas goladas, usando constante mente a sua rubra língua como guardanapo. Como outras partes do seu corpo, a sua boca parecia entumecer-se a olhos vistos! Chegou-se um pouco mais a mim e cochichou-me ao ouvido:

- Sono anxiuos di andare a letto con te!

Não ousei responder-lhe que “anche a me con te”! Haviam outros clientes encostados ao balcão, sorvendo as suas bebidas e tagarelando. Receei que ouvissem as nossas apaixonadas palavras em surdina. Havia uma música de fundo muito suave, e os últimos raios dum sol moribundo espelhando-se nas garrafas enfileiradas sobre uma longa prateleira na nossa frente. O Barman parecia observar-nos discretamente, como que prevendo o que se iria passar entre mim e o Tino nessa mesma noite. Talvez mesmo com vontade de compartilhar connosco aqueles mesmos segredos de bocas que calavam o que os olhos gritavam! Depois de ter asmagado mais uma beata no cinzeiro, Tino sugeriu que era melhor irmos jantar, que eram horas, que iríamos jantar num restaurante muito pacato ali nas ruelas traseiras, onde se comia muito bem à luz da vela. Que nas esplanadas, rente à enseada, havia muita gente e muita algazarra.

Esse restaurante era quase apenas um pequeno buraco com meia dúzia de mesas. Tino foi saudado muito jubilosamente. Era evidente que ele era ali muito conhecido e apreciado. O criado que nos veio receber e oferecer a única mesa vaga, fazendo-lhe uma grande vénia, cumprimenta-o:

- Buonasera, signore ingegnere!

Finalmente, por portas e travessas, vim a saber quais os estudos e ocupação do Tino. Sentámo-nos. O “cameriere” acendeu-nos a vela e foi buscar a ementa. Tino percorreu muito rapidamente o menu e, levantando os olhos da ementa, pergunta-me se eu gostava de “lasagna”? Respondi que adorava, e ele encomendou duas doses. Enquanto na cozinha, por detrás do balcão, nos preparavam o nosso jantar, o “cameriere” trouxe-nos mais outro vermute e uns aperitivos muito variados numa pequena travessa. Tino ostensivamente tira dois cigarros do seu maço, entalá-os entre aqueles seus rubros lábios em fogo, aproxima-os da chama da vela, e sorve-os sofregamente, até obter o azulado fumo que se escapava da sua boca, entala um deles entre os meus lábios, chupa o seu sensualmente, e expele uma leve baforada daquele tépido e transparente fumo na minha cara, explicando-me que, em Itália, quando alguém assim o fazia, era uma mensagem em código, insinuando: “voglio scopare”! Quando lhe disse que em Portugal também se usava essa astúcia, ele, apertando os meus joelhos entre os seus, sussurra-me languidamente:

- Che cosa stiamo aspettando”?

Em Inglês respondi-lhe que estávamos à espera da nossa “lasagna”! Ele sorriu matreiramente e segreda voluptuosamente:

- Possiamo aspettare, abbiamo tutta la notte avanti!

Concordei com a sua “affermazione”, mas desejei que o tempo passasse depressa! Eu queria-o nas minhas garras, nos meus braços, nas minhas pernas. Eu queria-o todo dentro de mim! Nessa noite apercebi-me de qua a vida é extremamnet curta! Que cada minuto contava! Esses minutos correndo uns atrás dos outros, tinham de ser bem especulados! Pedi a Deus que essa noite nunca mais acabasse! Quem sabia se eu voltaria a Portofino, a estar ali em frente dum homem que era um prodígio de sedução, um homem que eu desperadamente desejava nas minhas entranhas!

Portofino! Amor à Primeira Vista!









Chegados lá abaixo arrumou o carro num carreiro e, daí, a pé, fomos desvendar todos aqueles recantos dum raquintado pitoresco à beira daquela anilada enseada onde se balançavam pequenas barcas que lembravam gaivotas pousadas na crista daquela mansa ondulação do fim de mais um dia. Percorremos todas aquelas ruelas por detrás daquela longa fila de Esplanadas e Restaurantes, que me lembravam a rua do Marco, em Roma. Muita roupa estendida à janela, com mulhres debruçadas ao pararapeito, conversando, de janela a janela, com a vizinha do lado e a da frente, numa conversa muito delas que elas espalhavam pela rua toda. Depois dessa longa passeata, depois de uma muito variada troca de impressões, Tino revela-me todos os segredos da sua correspondência, graças à revista “Hermes”, com outros homens espalhados pelo globo, que o tinham vindo visitar a Génova. Que tamém tinha visitado alguns paises estrangeiros graças a essas correspondências.

Entretanto o sol começou a descer e as cores de Portofino a modificarem-se. Iam do vermelho ao roxo, passando pelo amarelo e alaranjado. Sentámo-nos numa esplanada para tomar um café e deleitarmo-nos com aquele grandioso espectáculo! Tino levantou-se para ir comprar um maço de tabaco Marlboro, que tinha gostado dos meus, que eram muito mais suaves e agradáveis. Quando o sol despareceu para dar lugar à escuridade e aos candeeiros das ruas que começavam a iluminarem-se como irrequietos pirilampos, entrámos num pequeno bar para tomarmos um aperitivo, um delicioso vermute que estava então muito na moda. De pé, encostados ao balcão, Tino começou o seu trabalho de sedução: que me tinha escrito porque tinha gostado muito da minha fotografia no “Hermes”, que tinha gostado muito dos meus olhos penetrantes, e da minha boca a pedindo beijos. Com a mão esquerda segurava o seu copo e o seu cigarro, com a mão direita metida no bolso dos seus “jeans”, amassava o seu “cazzo” que já adivinhava curto e grosso como os cigarros que ele dantes fumava. Os seus enormes olhos muito pretos e pestanudos começaram a serem inundados por muitas estrelas cadentes. Entre as suas pernas anunciava-se uma estrela emergente. Ele saboreava o seu vermute em pequenas goladas, usando constante mente a sua rubra língua como guardanapo. Como outras partes do seu corpo, a sua boca parecia engordar a olhos vistos! Chegou-se um pouco mais a mim e cochichou-me ao ouvido:

- Sono anxiuos di andare a letto con te!

Não ousei responder-lhe que “anche a me con te”! Haviam outros clientes encostados ao balcão, sorvendo as suas bebidas e tagarelando, receei que ouvissem as nossas apaixonadas palavras em surdina. Havia uma música de fundo muito suave, e os últimos raios dum sol moribundo espelhando-se nas garrafas enfileiradas sobre uma longa prateleira na nossa frente. O Barman parecia observar-nos discretamente, como prevendo o que se iria passar entre mim e o Tino. Talvez mesmo com vontade de compartilhar connosco aqueles mesmos segredos de bocas que calavam o que os olhos gritavam! Depois de ter asmagado mais uma beata no cinzeiro, Tino sugeriu que era melhor irmos jantar, que eram horas, que iríamos jantar num restaurante muito pacato ali nas ruelas traseiras, onde se comia muito bem à luz da vela. Que nas esplanadas rente à enseada havia muita gente e muita algazarra.

Esse restaurante era quase apenas um pequeno buraco com meia dúzia de mesas. Tino foi saudado muito jubilosamente. Era evidente que ele era ali muito conhecido e apreciado. O criado que nos veio receber e oferecer a única mesa vaga, fazendo-lhe uma grande vénia, cumprimenta-o:

- Buonasera, signore ingegnere!

Finalmente, por portas e travessas, vim a saber quais os estudos e ocupação do Tino. Sentámo-nos. O “cameriere” acendeu-nos a vela e foi buscar a ementa. Tino percorreu muito rapidamente o menu e, levantando os olhos da ementa, pergunta-me se eu gostava de “lasagna”? Respondi que adorava, e ele encomendou duas doses. Enquanto na cozinha por detrás do balcão nos preparavam o nosso jantar, o “cameriere” trouxe-nos mais outro vermute e uns aperitivos muito variados numa pequena travessa. Tino ostensivamente tira dois cigarros do seu maço, entalá-os entre aqueles seus rubros, entumecidos lábios em fogo, aproxima-os da chama da vela, e sorve-os sofregamente, até obter o azulado fumo que se escapava da sua boca - aquela boca que eu tanto queria desfraudar - entala um deles entre os meus lábios, chupa o seu sensualmente, e expele uma leve baforada daquele tépido e transparente fumo na minha cara, explicando-me que, em Itália, quando alguém assim o fazia, era uma mensagem em código, insinuando: “voglio scopare”! Quando lhe disse que em Portugal também se usava essa astúcia, ele, apertando os meus joelhos entre os seus, sussurra-me languidamente:

- Che cosa stiamo aspettando”?

Em Inglês respondi-lhe que estávamos à espera da nossa “lasagna”! Ele sorriu matreiramente e segreda voluptuosamente:

- Possiamo aspettare, abbiamo tutta la notte avanti!

Concordei com a sua “affermazione”, mas desejei que o tempo passasse depressa! Eu queria-o nas minhas garras, nos meus braços, nas minhas pernas. Eu queria-o todo dentro de mim! Nessa noite apercebi-me de qua a vida é extremamnet curta! Que cada minuto contava! Esses minutos correndo uns atrás dos outros, tinham de ser bem especulados! Pedi a Deus que essa noite nunca mais acabasse! Quem sabia se eu voltaria a Portofino, a estar ali em frente dum homem que era um prodígio de sedução, um homem que eu desperadamente desejava nas minhas entranhas!