dimanche 6 septembre 2009

Poluição sobre esta terra
















A PAPOILA

A papoila a rebentar de côr
A rasgar a greta na nesga de cimento
É como um grito um uivo um clamor
Ou discreto lúgubre lamento
Que o sol ainda procura reviver
A despeito da imunda poluição
Na montureira de um mundo em declínio
Onde tudo é fibra plástica alumínio
Arquitectadas armaduras de betão.

Que é feito dos espaços verdes do abeto
Das vilórias com seu largo seu coreto
Do céu azul do mar limpo que se espraia
Da fita de veludo nos cabelos da catraia
Do ar puro das montanhas aos céus erguidas
Do unguento que sarava as nossas feridas
Dos caminhos sinuosos florindo no alvorar
Das ovelhas que passavam e paravam a pastar?

Que é feito do canto dos pássaros ao anoitecer
Das crisálidas que ganhavam asas antes de morrer?

Que é feito do fugaz vôo a pique dos cartaxos
Da água limpida regorgitante dos riachos
Onde minha mãe ia manhã cedo se lavar?
Que é feito de tudo o que já não nos é dado ter?

Junto ao cilindro silencioso inanimado
O pequeno e frágil malmequer delicado
Despontando à beira da estrada
Implorando chão fértil bem lavrado
É a Terra toda inteira assassinada
Teimosamente tentando renascer
Estoicamente procurando ressuscitar!


Rogério do Carmo
Paris, 15/3/1990

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Era nesse pequeno quarto com janela para o telhado, em casa da Palmira, que eu adormecia vendo - mesmo com os olhos fechados - as cores luminosas dos "neon" da Rua da Prata, multiplicadamente se fundindo uns nos outros. Foi neste quarto, obsecado por essa pequena janeja sobre o telhado, que dei à luz um poema ao qual dei o título de


TINTAS

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Verdes azuis encarnados
a palpitar no noite
A manter uma claridade!
Meu coração
Anúncio sem reposta
A palpitar na noite
Dos sonhos ultrapassados!

O caixote de lixo entornado
É verde! Azul! Encarnado!
O cadáver hirto de um afogado
É verde! Azul! Encarnado!
O sangue no chão derramado
É verde! Azul! Encarnado!
O peso de um corpo cansado
É verde! Azul! Encarnado!
A prostituta abstracta
À espera no quarto abafado
Apenas espera
Verde! Azul! Encarnado!
Um corpo nu sobre outro corpo nu
-belo ou deforamado-
Apenas consegue
Verde! Azul! Encarnado!
Um sexo e outro sexo
Num movimento sincopado
Apenas realizam
Verde! Azul! Encarnado!
O amor sobre um morto chorado
É verde! Azul! Encarnado!
Um pálido pulso dilacerado
É verde! Azul! Encarnado!
A necessidade de recordar o passado
É verde! Azul! Encarnado!
O desejar um amor censurado
É verde! Azul! Encarnado!

E eu
Que não admitia a verdade das cores
Subi à colina e gritei
Enraivecido e apaixonado:
Branco! Preto! Doirado!
Mas
A verdadeira côr de todas as coisas
Desabou sobre a minha branca pureza
A minha negra tristeza
O meu ideal doirado!

Para não endoidecer
Pus-me tambem a fazer
Verde! Azul! Encarnado!
Verde! Azul! Encarnado!

Agora
Vida fora
Qpenas vou pedir
Verde! Azul! Encarnado!
Verde! Azul! Encarnado!
Verde! Azul! Encarnado!

Um grito num círculo fechado
É um grito escusado
Não vale a pena gritar!

E meus olhos vão ardendo
Como dois círios num altar!



Rogério do Carmo
Lisboa, 1959

A Pensão da Palmira
















Depois dos mal entendidos entre a Palmira e a Dona Amália, e os boatos entre mim e o Silva, o ambiente começou a ficar realmente muito tenço entre todos nós. Um dia a Palmira combinou com todos os rapazes irmos tomar um copo ao Café Gelo, que tinha um plano que que ela gostaria de realizar, mas que precisava do nosso apoio! O plano era que ela queria agarrar uma casa que estava para alugar na Rua da Prata, para nos arrancar às garras da Dona Amália. Que ela nos faria um preço mais razoável, que a comida seria a mesma pois que era ela quem cozinhava. Como a Palmira era uma mulher muito maternal e carinhosa, prometemos todos de mudarmo-nos para casa dela quando ela estivesse organizada. Ela prometeu despachar-se, que estava farta da Dona Amália e dos seus pretenciosismos, que queria a sua independência!

Um certo domingo à tarde a Palmira leva-nos a visitar a casa para ver se estávamos de acordo para nos mudármos para lá. A casa era num sexto-andar, em cima do telhado, do – penso - 242 da Rua da Prata. Os quartos eram pequenos, com um teto inclinado, cada qual com uma pequena janela para o telhado. O único problema era que na Dona Amália era apenas um segundo-andar, e na Palmira era um sexto-andar sem elevador. Mas como éramos todos jovens isso não nos preocupou particularmente. Sobretudo porque com a Palmira pagaríamos apenas 150 escudos por semana. A casa tinha apenas uma grande casa de jantar e uma pequena cozinha que davam para a rua, e dois quartos para as traseiras. Um desses quartos, o maior, seria o quarto da Palmira, o mais pequeno seria para mim e o Nunes. Contente da vida! Finalmente iria poder dormir mais perto do Nunes! Os outros rapazes viriam apenas almoçar, como com a Dona Amália. Pusémo-nos todos de acordo e descemos para irmos celebrar com uma ginginha, ali ao pé do Arco Bandeira, aquela pitoresca tasca: “A Ginginha”!

Em casa da Dona Amália as coisas continuavam bastante turvas. Ela parecia fechar-se em copas com todos os demais. Mesmo com o Silva ela parecia bastante afastada. Comigo então nem se fala! Estou certo que ou o Silva tinha batido com a língua nos dentes - o que muito duvido - ou que ela, da janela do seu quarto, que dava para a Praça da Figueira, me tinha talvez visto entrar na sua escada. Até o Silva parecia não querer trocar olhares comigo, como dantes o fazia. Comecei fortemente a desejar que a Palmira se mudasse. Entre a Palmira e a Amália era como entre o cão e o gato. Haviam arranhões e mordidelas de parte a parte. Comecei a pensar que, para mim, o melhor seria talvez voltar para o Gavião, se a minha cama ainda estivesse livre. Mas havia o Nunes, o tão apetitoso, a reter-me...
Um dia fui visitar a Dona Alice. Não lhe toquei no assunto, mas, mesmo assim, perguntei-lhe se ela tinha entretanto encontrado outros rapazes. Ela disse-me que não, que tinha posto alguns anúncios nos jornais, mas que ninguém respondera! Que agora toda a gente queria era alugar estúdios, uma nova moda que tinha subitamente aparecido em Lisboa. Prédios modernos com uma pequena dependência, casa de banho e “kitchinette”, com pequenas varandas para a rua, ali na Praça dos Estados Unidos da América. Que o Zé Barbeiro tinha um amigo que estava para vir para casa dela mas que, no fim, preferiu alugar um pequeno estúdio ali na João XXI! Continuei bastante indeciso. Faltava-me agora ver se a Palmira alugava a tal casa e nos pudéssemos mudar para outro ambiente menos conflituoso.

No Lumiar continuavam as propostas para curtas metragens estilo Aldeia da Roupa Branca. Nada de um pouco mais ambicioso. Haviam, claro, todas as quartas-feiras, esse dia quase todo passado com o Nuno no Lumiar para os seus programas de variedades em directo. Isso era sempre muito agradável. Começavam a aprecerem novas vedetas da canção, como a Julia Barroso e Fátima Bravo, e outras, cujos nomes me passaram da cabeça. O que havia muito mais eram novos fadistas e grandes guitarristas. De vez em quando lá apareciam também artistas espanhois e italianos. Também alguns franceses. Na Amaro & Mota era sempre a rotina do costume. Manhãs passadas nas pistas, almoços na casa de pasto, pois que a Dona Amália porque, entretanto a Palmira tinha-se despedido, não chegava para tudo. Assim eu pagava pensão completa na Amália e depois tinha ainda de pagar a refeição na casa de pasto. Nessa casa de pasto comia-se bem e barato, mas não era justo eu pagar dois almoços por dia!

Quando a Palmira um dia me esperou à porta lá em baixo, quando eu ia apanhar o autocarro da manhã para ir para o aeroporto, ela pediu-me que dissesse à malta toda que a viessem ver no domingo à tarde no 242 Rua da Prata, que ela tinha alugado a casa e que andava a gora a mobilá-la, que tudo estaria pronto dentro de dias. Que passasse a mensagem aos outros. Eu transmiti as novas ao resto da malta, e nesse domingo à tarde lá estávamos todos reunidos na grande casa de jantar da Palmira, com uma grande mesa e seis cadeiras à volta. A Palmira fez-nos café e serviu-nos filhoses que ela tinha feito para a ocasião. Ficou combinado que todos diríamos à Dona Amália que só ficávamos até ao fim da semana. No dia previsto, eu e o Nunes mudámo-nos para a casa da Palmira. O Cabrita e o João viriam apenas almoçar. Claro que o Silva não apareceu. Nunca mais soube nada da Dona Amália nem do Silva. Começámos uma nova vida em casa da Palmira. A comida era excelente e o ambiente bastante descontraído. Ao almoço começaram a aparecer novas caras para almoçarem connnsco. Tudo corria às mil maravilhas, excepto a casa de banho que não tinha banheira nem chuveiro. Havia apenas o lavatório, um bidé, e uma tina de zinco pendurada na parede, como nos velhos tempos da minha meninice.

Gozámos uma grande harmonia até ao dia que um amigo da Palmira, que vinha de vez em quado dormir com ela, que trabalhava na Marinha Mercante, e que andava sempre em viagem. Ele vinha regularmente aliviar os testículos, mas inesperadamente começou a tomar atitudes de chulo, a comer e a beber à custa da Palmira, a fornicar quando lhe dava na gana e, sobretudo, a sacar todas as economias que a Palmira punha de parte para as despesas da casa. A Palmira viu-se obrigada a abrir uma conta num Banco para se proteger do chulo, mas se ela recusasse um cheque que ele lhe exigia, ele dava-lhe porrada até lhe partir os ossos. Ela começou a andar de olhos negros e a chorar pelos cantos. Felizmente o chulo só vinha de vez em quando, pois que andava sempre no alto mar no seu trabalho de embarcadiço.

Eu e o Nunes, agora compartilhando o mesmo quarto, vivíamos momentos bastante desconfortáveis. Não estávamos à vontade. Nem um nem outro. Eu porque me apetecia ir-lhe para cima, ele, talvez, com receio de não poder resistir a ter os mesmos desejos. Talvez aceitasse mal esse fantasma que dentro dele dormitava desde o dia em que, pela primeira vez, descobrira que tinha algo entre as pernas, com o qual não sabia verdadeiramente o que fazer com essa dádiva do Criador. Ele não tinha namorada, nem amigos amaricados. Talvez se contentasse com apenas as frequentes masturabações antes adormecer, ali a um metro de mim, eu que lhe podia mostrar e ensinar os sinuosos caminhos do gozo genital. Mas ele fechava-se de tal modo que eu não ousava atacar, passar esse pequeno fosso que nos separava, derrubar as altas muralhas atrás das quais ele se refugiava, se protegia das minhas setas atiradas ao acaso pelo ar, sem ter realmente um alvo certo onde as apontar. Que noites de tormento para certamente ambos!

Uma noite o chulo chega a casa com um colega para almoçar e disse à Palmira que ele ficaria uma noite lá em casa e que ambos partiriam na manhã seguinte por duas semanas. Aqui foi mais outro problema de abuso de poder do seu chulo, pois que ela só tinha a sua cama de casal que compartilhava com ele quando das suas aparições, e o outro quarto com as duas pequenas camas, que era o quarto que eu e o Nunes compartilhávamos. A Palmira viu-se obrigada a fazer a minha cama de lavado para o inesperado visitante, e eu teria de dormir - só aquela noite -com o Nunes. Que interminável e dolorosa essa noite foi! Antes de mais nada o visitante ressonava que nem um labrego, depois a cama do Nunes era tão estreita que só a cavalo um do outro a coisa seria possível. O Nunes virou-se para a parede, voltando-me as costas. As nádegas do Nunes ali mesmo em frente do meu bem apontado arpão. Eu todo colado ao seu belo e desejado jovem corpo, ele entalado entre a parede e o meu desejo incontrolável. Nem um nem outro dormiu nessa noite. Ambos engolimos em seco a noite toda, ao som dos roncos do indesejado visitante. Nem um nem outro ousou levar a cabo um desejo que, tão evidente, era mútuo! Estou certo que nem eu nem ele esqueceu essa tormentosa noite de desejos insatisfeitos. Cheguei a pensar e a desejar que depois dessa noite, quando as nossas vidas voltassem à normal rotina, que ambos sós, no mesmo quarto, à porta fechada, um de nós faria o primeiro gesto para abrir o dique, deixar a água jorrar livremente, a inundar os nossos camuflados desejos. Um autêntico suplício de Tántalo! Suplício esse que, tantos anos passados, ainda me frustra!

Durante uns tempos a minha vida corria-me menos mal. No Aeroporto eu era feliz com o meu trabalho, com os meus colegas e dirigentes. O Engenheiro Taínha estava lá sempre presente quando eu prescisava de apoio. Ele gostava de me ver ocasionalmente naquelas pequenas aparições na televisão e aconselhava-me a ir para a frente, que um dia eu seria um grande actor. No Lumiar também tudo me corria bem. O Nuno Fradique sempre aberto às minhas sugestões de encenação, o Pedro Pinheiro sempre presente com a sua amizade e partilhas de sonhos dourados de sucesso! Apenas, sexualmente, não querendo voltar ao Cais do Sodré nem Parque Eduardo VII, andava faminto! Apercebi-me então da presença dum novato que acabava de chegar como figurante. Ele era um belo jovem de boas famílias que vivia com os seus pais numa grande vila ali perto de Oeiras. Ele utilizava a garagem dos seus pais par organizar pequenas festas entre amigos. A primeira festa a que fui convidado fiquei surpreendido pelo facto que todos os convidados eram rapazes novos muito bem arreados, com toquezinhos abertamente efeminados. Haviam “drinks” à farta e montes de “tapas”, e um gira-discos que rodava sem parar. Os rapazes dançavam entre eles. Alguns deles me vieram buscar para dançar, mas sempre recusei. Algo de “muito português” me impedia de entrar na roda. O único convite que aceitei foi o dum belo janota que se chamava Sebastião, que me propôs acompnhar-me a casa no seu descapotável.

Chegados ao 242 da Rua da Prata, ele encosta o seu carro e pergunta-me se podia subir para tomra um “drink”. Expliquei-lhe as condições do meu alojamento, que não podia receber visitas a umas horas daquelas. Que vivia num sexto-andar sem elevador... aí ele pergunta-me se podíamos ao menos subir ao segundo-andar e trocar uns beijos gulosos. Com uma mão abri-lhe a porta, com a outra apontei-lhe o caminho! Nessa noite ele fez-me sentir como uma ave de rapina com as garras todas de fora prontas a aprisionar a primeira presa que se me deparasse. Ele pede-me um instante, que ia buscar algo ao carro. Voltou muito saltitante e galgou até ao segundo-andar como uma doninha. Lá chegados, contra uma parede, depois de umas dezenas de beijos de fogo, as suas calças, como por milagre, desceram até aos joelhos, e na sua mão estendida, aquilo que ele tinha ido buscar ao carro: um tubo de vaselina. Eram duas da manhã e nesse segundo andar não morava ninguém! Eram apenas escritórios abertos das nove da manhã até às sete da tarde. Muito conveniente para uma bastante ruidosa investida! Durou pouco, mas ficou para sempre na minha memória. Nessa noite fomos ambos à guerra e ambos saímos vencedores. Mais uma bela conquista que nunca figurará na História de Portugal, pois que não tinha nada a ver com o Dom Afonso Henriques, mas muito mais a ver com El-Rey Dom Sebastião que, ao despedir-se, antes de remontar no seu alazão, prometeu voltar “um destes dias”, mas que, até à data, ainda não me não reapareceu em nenhuma das muitas densas manhãs de nevoeiro que por mim passaram!

Chegado ao sexto-andar abro a porta muito cuidadosamente para não acordar ninguém. Ao entrar no quarto não acendi a luz para não acordar o Nunes. O Nunes, semi-nu sobre a sua desfeita cama, banhado por um luar cortado pelos rápidos flashes dos “neons” multicores da rua, langorosamente se volta, pondo a nu as suas níveas nádegas, gemendo:

- Rogério... por onde é que andaste... já é tão tarde...

Desejei cair-lhe em cima mas estava tão estafado e sexualmente tão satisfeito, que repliquei:

- Tu é que chegas tarde! Devias ter-me feito essa pergunta ontem à noite quando fomos para a cama por volta das dez, quando eu estava com uma fome que nem via!

Mais uma e última vez eu perdia o combóio com o Nunes...

No outro dia de manhão, ao pequeno almoço, o Nunes acusa-me de eu ser um grande vadio, de andar sempre na borga, e a Palmira anuncia-nos com lágrimas nos olhos que tínhamos de procurar outra pensão pois que ela ia mudar de casa para bem longe de Lisboa para que o chulo nunca mais soubesse do seu paradeiro para a roubar e espancar, que já nem sequer se punha nela!

O Nunes nunca cheguei a saber para onde seguiu, nunca mais o vi nem ouvi falar dele! Os outros rapazes que vinha só para almoçar parece que voltaram para a Dona Amália. A Palmira esfumou-se para nunca mais dar sinais de vida. Passou-me pela cabeça voltar para o Gavião Branco. A Dona Alice censurava-me de andar sempre a mudar de emprego, agora, estava quase certo que ela me acusaria de andar sempre a mudar de Pensão!

A única foto que tenho com o Pedro, muitos anos depois...

O Pedro Pinheiro
















No Lumiar, na RTP, as coisas começaramm a andar de vento em popa ! O Nuno Fradique continuava muito ocupado com o seu programa de variedades todas as quartas-feiras das dez à meia-noite, mas tínhamos que lá estar a tarde toda para os ensaios. Um actor português que começou a sua carreira comigo, como figurante, nesses programas do Nuno, foi o Pedro Pinheiro. Todos as noites, depois dos ensaios da tarde, íamos jantar à cantina dos Estúdios. Foi aí nessa cantina que conheci grandes actores portugueses tais como Virgílio Teixeira, que muitos anos mais tarde viria a entrevistar no Funchal para a Rádio Alfa de Paris. Nessas duas semanas passadas na Madeira entrevistei algumas altas personalidades dessa bonita ilha que uma vez visitada se nos aloja na memória para todo o sempre. Em Maxico, onde me instalara num hotel à beira-mar, entrevistei o Presidente da Câmara, que me concedeu as chaves da cidade. Outros grandes actores que vi de fugida, foram o António Vilar, que estava em Lisboa com a Brigite Bardot para um filme que estavam a fazer juntos nesta cidade. Achei o António Vilar, alem dum bom actor, em belo homem, porém a Brigite Bardot achei-a demasiado magrizela, mesmo até um pouco escanzelada. A que se tornou bastante minha amiga foi a Helga Liné que andava sempre a queixar-se de falta de propostas e por essa razão um dia partiria para Espanha e mais tarde para a Itália. Artur Semedo também o via frequentemente na cantina. Esse entrevistei-o de Paris, da Rádio Alfa, telefonicamente. Certamente que com quem mais convivi, e muito bons amigos nos tornámos, foi o Pedro Pinheiro. Ele vivia em Alcântara e várias vezes fui jantar a casa dele, assim como outra vez, fui passar um fin de semana com ele na casa de campo que ele tinha na Abrigada, onde, penso, ele tinha nascido. O Pedro foi longe na sua carreira artística em Portugal, eu fui ainda muito mais longe na minha carreira geográfica. A Helga Liné nunca mais a vi, mas o Pedro sempre que ia a Portugal dava um salto a sua casa para tomar um copo e dois dedos de conversa. Um dia ele fez um programa não sei para que rádio de Lisboa, acerca da minha pessoa, das minhas viagens, e dos meus poemas, programa esse que gravou sobre fita magnética e que depois me enviou pelo correio para Israel, o que me deu muita alegria. Essa fita ainda a tenho e de vez em quando ainda a escuto. Perdi um pouco o contacto com o Pedro a partir do dia em que o vi na RTPI entrevistando a Amália, censurado-o pela ousadia que ela tivera de cantar Camões. Fiquei ferido, pois que sempre pensei que a Amália podia e devia cantar todos os poetas de que ela gostasse. Assim como quase todos, senão todos, os poetas desejariam que ela os cantasse. Penso mesmo que Camões escreveu adivinhando que ela um dia o cantaria.
Amália escolheu dois poemas meus para a gravação do seu último trabalho para Valentim de Carvalho que, não sei por que razão, nunca editou essas sua últimas gravações. Um dia, na Alfa, falei como Jorge Fernando, que fez as músicas para esses poemas que a Amália esclhera para o seu canto do cisne. Perguntei-lhe se ela tinha gravado os meus dois poemas “O Inverno da vida”, que eu tinha escrito exclusivamente para ela, e “O Aprendiz", que ela tinha escolhido do meu livro Sombras, que lhe oferecera em 1991. Livro esse que em 1992 foi galardoado com o segundo lugar do “Prémo iInternacional de Poesia Florbela Espanca”! Prémio esse que foi atribuído a quatro poetas, tendo o primeiro lugar sido concedido a José Jorge Letria, na Casa de Portugal, na Cidade Universitária de Paris, em 1992. Prémio que fora instaurado pela pintora portuguesa Maria Eduarda Gonçalves que já nos deixou. Quanto às gravações dos meus dois poemas gravados pela Amália, Jorge Fernando pareceu-me certo que “O Aprendiz” tinha sido gravado. Quando lhe disse que ela, depois de ter lido “O Aprendiz”, me dissera que gostaria de cantar este meu poema, insinuei que talvez Amália dissesse isso a todos os poetas que lhe ofereciam poemas.

Jorge Fernando disse-me então algo que me pos em paz acerca das minhas dúvidas:

- Quando a Amália dizia que gostava de cantar um certo poema, ela sempre o fazia!

Agora aguardo que o Valentim de Carvalho se digne editar esses trabalhos da Amália. A não ser que ele tencione comercializar esses três CD que a Amália nos deixou como um último adeus, para celebrar o centenário da sua morte! Se é esse o caso, gostaria que se apercebessem que, nessa saudosa data, já, tanto eu como os actuais responsáveis dessa firma, também nós já não estaremos neste mundo, e cagando para celebrações de abomináveis “marketings”! Certament que poderiam ainda fazer fortunas com as vendas desses CD enquanto por cá andamos! A Amália encontra-se agora na penumbra dum Panteão, quando ela devia estar numa capelinha, num cemitério de Lisboa, ao sol e à chuva, onde nós poderímos, todos aqueles que muito a admiraram, ir por uma flor, acender uma vela, segredar-lhe uma prece!

Quanto ao Pedro Pinheiro, também já entrou no esqeucimento dum talvez qualquer cemitério de Lisboa. Quando eu for a Lisboa, ou lá onde quer que seja que ele entrou na sua eternidade, lhe irei por uma flor e segredar-lhe uma prece! Falar-lhe desses bons tempos que passámos juntos no Lumiar, onde fizémos tantas curtas metragens juntos. Agora resta-nos saber se ainda nos encontraremos um dia nesse duvidoso prometido outro mundo que, se for o caso, seja um nadinha melhor do que este, mesmo que não tão belo!
Se antes de termos nascido não éramos nada nem ninguém, depois de mortos seremos apenas vultos que pela Terra passaram, e que a terra engoliu, digeriu, e cagou ! Paz à sua alma e, já agora, também à minha, enquanto que por cá me arrasto! Só que, se a minha última vontade for respeitada, subirei aos céus em grossos rolos de fumo que a brisa dissipará!

Talvez o Pedro ainda se lembr daquela tarde, nos ensaios, dum programa que o Nuno Fradique, em Fevreiro de 1959, tinha imaginado e encenado, para celebrar esse meu último Carnaval em Lisboa. Nós tínhamos ensaiado a tarde toda, depois fomos jantar à cantina, e comemos e bebemos tão entusiasticamente, que chegámos aos estúdios para passarmos ao vivo, ambos com uma carraspana tal, que foi um fiasco! Eu tinha de fazer um escravo semi-nu, e ele tinha de se mascarar de leão, e esse leão tinha que devorar o indefeso escravo, mas todos esses ensaios tinham ido por água abaixo, e a coisa acabou por ser eu, o escravo, que tentava papar o leão! O Nuno até achou graça, pois que nós tínhamos improvisado uma sátira muito mais divertida do que a cena que ele tinha imaginado e ensaiado.

Lembro-me do Nuno, apreciativamente, nos dizer:

- Isto foram certamente idéias do Rogério!

Ao qual eu respondi:

- Não, Nuno! Foram coisas do Tinto!

- Lembras-te, Pedro?

Um dia voltaremos a recordar juntos outras passagens da minha tão curta carreira como actor, a teu lado! Como aquelas filmagens nos arredores de Lisboa onde eu tinha que puxar um burro e o raio do burro, como muitos “outros” burros, quanto mais tentamos puxá-los, mais eles recuam!

Agora, quem quiser que compreenda a metáfora!

- Até breve, Pedro!

samedi 5 septembre 2009

A Pensão da Rua da Prata











Chegado à pensão com as minhas duas malas, a Dona Amália abriu-me a porta e desejou-me as boas-vindas! Apontou-me a porta do meu quarto e disse-me para me pôr à vontade, que fizesse da sua casa a minha casa! Comecei a desemalar as minhas coisas e a organizar a minha cómoda e guarda-roupa quando, discretamente, alguém bata à minha porta. Abri. Era a Dona Amália a trazer-me as duas chaves, uma da porta da escada lá em baixo, a outra do agora o nosso lar. Explicou que eu só pagaria ao fim da semana, mas que as chaves só as entregava aos seus hóspedes depois de eles terem trazido as suas malas. Que era a única garantia que ela exigia! Antes de se afastar para a cozinha, ali mesmo em frente do meu quarto, disse-me que o jantar era das sete às nove da noite, que me pusesse à vontade, e que a casa de banho estava ali às minhas ordens para um duche sempre que eu quisesse.

A Dona Amália causou-me muito boa impressão!

Depois de ter arrumado as minhas gavetas deitei-me sobre a minha cama para descansar um pouco. Que prazer celestial deitar-me de costas sobre uma cama fofa e limpa que parecia ter estado ali à minha espera desde que as camas tinham sido inventadas! Que prazer ter sobrevivido aquele calvário de duas semanas a arrastar as minhas desditas pelas ruas de Lisboa! Como era bom ter uma mesa cabeceira com um candeeirinho eléctrico com um botão à espera do meu indicador! Como era bom ter deixado para trás as minhas degradantes enregeladas noites pelo Cais do Sodré! Como era bom ainda estar vivo, ter a vida quase toda à minha frente! Que bom, talvez, um dia, ser um grande actor! Senão, ao menos vir a ser alguém! Alguém que um dia viesse a dizer ao mundo inteiro que tinha valido a pena ter nascido! Poder um dia vir cantar esse fado: “Valeu a pena ter sofrido o que sofri, ter amado quem amei, ter beijado quem beijei, ter vivido o que vivi!”! Agora, depois de tantos fados que por esse mundo cantei, “cantarei até que a voz me doa”!

Depois dum longo duche sob aquela água quente à minha disposição, depois de duas dolorosas semanas de vagabundagem pelo putedo do Cais do Sodré, após duas semanas de apenas ter lavado a cara naqueles repuxos públicos da cidade, para os transeuntes matarem a sede, que bom estar d’olhos fechados sob aquele chuveiro generosamente aberto sobre a minha cabeça de quase suicida! Que bom estar vivo e acreditar que a vida ainda me ofereceria muito boas razões para um dia dizer que valeu a pena ter nascido! Eu, que sempre me perguntei: que diabo vim eu cá fazer a este mundo! Quem decidiu tal absurdo? Para quê nascer se todos um dia teremos de morrer? Quem, ou o quê, teria inventado esse mais absurdo de todos os absurdos? Como me disse um dia a minha mãe: “quem tem unhas é que toca guitarra”! Eu tinha as unhas! Agora era preciso encontrar já, urgentemente, uma guitarra que eu pudesse dedilhar, provar ao mundo que eu era bom para qualquer coisa, quanto mais não fosse para dedilhar o meu fado, o meu destino, a minha sorte, dedilhar a minha vida!

Enquanto aguardava as horas do jantar, olhei em derredor e comecei logo a, imaginariamente, decorar o quarto todo. As primeiras coisas que teria de comprar, logo que pudesse, era um despertador para por em cima da mesa de cabeceira, ao pé do candeeirinho, uma jarrinha para eu pôr em cima da cómoda com algumas flores. Talvez também, sobre uma das paredes, um quadro, um cartaz qualquer que viesse acrescentar àquela calmaria um pouco de cor, de calor! Talvez um desenho que eu eventualmente fizesse a lápis de cor? Talvez uma foto do Tété em cima da minha mesa de cabeceira? Um pequeno transístor para ouvir os discos “pedidos”? Algo que me lembrasse que eu ainda existia e que tinha direito à vida? Sim! Algo que me dissesse em surdina que eu tinha direito a viver o meu futuro, fosse o que ele viesse a ser! Para quê viver? Só para provar a mim e aos outros que me valeu a pena ter nascido!

Por volta das sete a Dona Amália bate docemente à minha porta para me anunciar que o jantar estava pronto. Agradeci, levantei-me para ir jantar. Deitei uma olhadela aos meus restos mortais no espelho do guarda-roupa, para ver se eu estava decente para ser apresentado aos outros hóspedes, todos eles perfeitos desconhecidos. Entretanto começara a ouvir passos e vozes no corredor. Pensei que eram os tais outros hóspedes que começavam a chegar. Abri uma greta da porta do meu quarto para ver sem ser visto, mas através dessa greta só conseguia abranger a escancarada porta da cozinha da Dona Amália. Havia um grande reboliço nessa cozinha com alguns tachos e panelas a fumegarem em cima dum grande fogão numa enorme chaminé. Enchi-me de coragem e avancei até à casa de jantar donde já me vinham algumas vozes e risotas. Entre portas, disse “boa-noite”. As vozes calaram-se todas e alguns olhos me fitaram em silencio! A Dona Amália apareceu com uma grande terrina de sopa e uma concha nas mãos e indica-me onde eu me iria sentar.O que passaria a ser o meu lugar à volta daquela longa mesa que mais tarde, ao vê-la de longe, com todos à sua volta, lembrou-me aquela famosa tela de Leonardo da Vinci: A última Ceia! Eu passaria a ser um dos apóstolos? Judas não queria ser! Nem o Nazareno! Queria ser eu na minha integridade, na minha autenticidade!

Ao pousar a terrina em cima da mesa muito bem adornada, Dona Amália apresenta-me aos outros seus três hóspedes como sendo o... que coisa - admite ela alegremente - nem sequer sei o seu nome! Apresentei-me como sendo o Rogério. Os outros três rapazes, soerguendo um nadinha as nádegas da cadeira, apresentam-se, um de cada vez: um era o João, um moçambicano que tinha vindo para Lisboa para tentar a sorte, um outro era o Cabrita que - parece-me - andava a estudar jornalismo. O terceiro, santo Deus, era certamente o princípio duma outra pequena paixoneta. Ele era o Nunes, um rapaz encantador, com uma voz acariciante e uns olhos azuis que me trespassavam como setas. Durante o jantar cada qual contou a sua história. Eu não contei a minha porque era para maiores de cem anos! Disse apenas - para botar figura - que trabalhava no Aeroporto da Portela.

Depois do jantar fomos todos tomar uma bica ao Café Gelo. A Dona Amália, café, só de manhã para o pequeno almoço. Cada qual falou dos seus projectos, de estudos, de ocupações que gostariam de ter num futuro muito próximo. O Nunes já estava arrumado, trabalhava como guarda-livros numa grande firma na Rua Augusta. Depois desse longo café cada qual foi à sua vida. Eu e o Nunes voltámos para casa. O Nunes deu-me um doce “até amanhã” e deixou-se engolir pelas treavas do seu quarto, fechando a sua porta muito mansamente. O seu quarto era mesmo ao lado do meu. Eu despi-me e acomodei-me naquela bela caminha feita de lavado com lençóis muito brancos que cheiravam a alfazema. Apaguei a luz, fechei os olhos para, enfim, dormir como um ser humano, pois que no dia seguinte teria de estar às nove horas da manhã no Aeroporto! Mas não conseguia conciliara o sono! Eu tinha vontade de me ir meter na cama com o Nunes e dar-me todo, entregar-me todo naquele intenso desejo do seu corpo. Dele receber milhares dos seus gemidos de gozo, não uma maquia! O que eu mais queria era mergulhar a minha boca na sua, sentir o seu corpo vibrar sob o meu, penetrá-lo impiedosamente até ao último estertor do meu corpo tão sedento doutro corpo que se me desse inteiramente, um corpo onde eu pudesse desaguar em tumultuosas cheias, não para apenas obter vinte paus para matar a fome e o frio. Por fim acabei como muitas vezes na vida, solitariamente, guardando só para mim essa diabólica explosão dum satânico orgasmo. Depois dormi que nem um anjo depois de ter retirado as suas asas. Coisa que eu já não tinha feito há muito! Então, mesmo sem asas, eu podia voar, sobrevoar essa Lisboa então já toda iluminada e um tanto adormecida. Nessa noite eu não dormi só, dormi com alguém que muito amava. Uma mulher que me fez sofrer, mas que nessa noite me abriu os seus braços para que eu adormecesse tranquilamente no seu regaço: Lisboa!

Na manhã seguinte, a Dona Amália acorda-me para o pequeno almoço que, como ela me tinha dito, seria servido entre as sete e as nove da manhã. A esse pequeno almoço éramos apenas eu e o Nunes e a Dona Amália. Durante a refeição pergunto ao Nunes se havia um autocarro directo da Baixa até ao aeroporto. Ele disse que sim, que haviam dois, que os apanhasse ali naquela paragem em frente da Pastelaria Suíça. Deu-me os números desses autocarros, que agora não recordo! Que haviam muitos de manhã, por serem as horas de ponta! Apanhei o primeiro que chegou e ao pedir o bilhete ao condutor, disse-lhe que queria até à porta das traseiras do Aeroporto. Ele estendeu-me um bilhete, cobrou o preço, sem dizer uma palavra. Deduzi que tinha apanhado o autocarro que me levaria ao meu destino. Lá chegado, atravesso aquele pequeno portão, frente ao qual se encontrava o laboratório. Os meus colegas já tinham chegado. Depois das matinais saudações organizámo-nos todos para a minha primeira expedição até às pistas, para a recolha de amostras de terra. A viagem foi curta e divertida. Lá chegados descemos todos e o chefe (esqueceu-me o seu nome) com o Mário e mais o chofer. Descemos e todos começamos a laborar. O meu chefe chama-me de parte e explica-me como obter as tais amostras, fazendo com um pequeno tubo um buraco no solo, extrair o tubo, e o conteúdo desse tubo seria uma das amostras. Tive de repetir essa mesma operação umas tantas vezes, em alguns tantos outros sítios diferentes. Tinha de ser, entre cada buraco, uns vinte metros de distância. Haviam outras operações a executar, mas para mim, nessa manhã, tudo ficou por ali. Depois de termos comido umas sandes à laia de piquenique, bebido umas pingas que cada qual tinha trazido de suas casas numa pequena lancheira, deitámo-nos uns minutos de costas sobre a relva a fazer uma pequena sesta e a fumar uma cigarrada. Nessa manhã os meus colegas compartilharam comigo os conteúdos das suas lancheiras, e informaram-me que eu também tinha de trazer uma lancheira de casa ou ir almoçar àquela casa de pasto, ali mesmo à saída do portão, em frente da paragem dos autocarros. Mais um problema que eu teria de resolver, pedir à Dona Amália que me preparasse um lanchezinho para eu levar para o emprego. Problema esse que ela muito maternalmente resolveu. A comida não era problema, mas que não tinha lancheira, que fosse comprar uma ali à Rua dos Fanqueiros, o que fiz, ainda com parte dos 50 escudos do Taínha!

A tarde depois desse piquenique, foi passada no laboratório a aprender a fazer as análises. O Mário, um loirinho muito compincha, que já conhecia bem esse trabalho, ensinou-me tudo num instante. Para mim foi tudo uma grande descoberta que, depois, com o tempo, passaria a ser apenas uma monótona tarefa diária. Mas esse Mário foi, para mim, sobretudo, o que eu mais precisava: um amigo! Foi ele quem me amparou em todos os problemas iniciais dessa minha nova actividade! Ele era aquele a quem eu podia contar as minhas anedotas, assim como venturas e desventuras do meu dia a dia. Felizmente, para ambos, ele não me acordava o corpo sempre em busca de novas sensações. O único que me preocupou nesse sentido foi o Engenheiro Amaro, o irmão do grande patrão, pois que era um daqueles loirinhos que sempre tanto me abriram certos apetites. Assim como aqueles olhos dum azul muito transparente que me diziam: Não! Nem pensar nisso! E ele ficaria a ser a maçã que a Eva um dia mordeu. Com ele, a minha serpente não tinha funcionado. Assim ficámos ambos com os pés sobre a Terra! O Paraíso seria para talvez um dia...

Duma forma geral, os dias foram passando, e eu cada vez mais à vontade no Amaro & Mota. Sobretudo, dentro da minha pele. Para mim foi como uma ressurreição dessas malditas noites no Cais do Sodré. Foi como se me tivessem deitado ao lixo, e uma mão divina me tivesse recuperado, sacudido da porcaria, ter lavado, engomado, dobrado, e posto numa gaveta sob um raminho de alecrim. Mas eu não era para estar fechado dentro duma gaveta. Eu era para abrir as minhas asas e voar, voar! Ir, a cada voo, pousar nos sítios mais inverosímeis. Eu queria viver, viver! Sobretudo queria esquecer aquele meu ter andado de rastos pelo Cais do Sodré mendigando uma sopa quente, um colchão onde deitar a minha fadiga, um cobertor que me resguardasse daquele cortante e húmido frio dum então Natal já quase à porta. Esse Natal de 1959!

Em casa da Dona Amália também comecei a sentir-me “chez-moi”! A estar inteiramente à vontade com os outros rapazes da Dona Amália. Havia o Nunes, o meu vizinho, o tal que dormia ali tão perto e tão longe de mim, O João, a quem chamavam o “preto”, coisa que eu detestava. Um dia lembrei a todos que s brancos também não estavam muito orgulhosos da palidez da pele que lhes cobria o esqueleto! Que eles, todos os domingos iam passar o dia na Costa da Caparica ou na Praia do Meco, para se fazerem pretos! Para mim o João era um homem, preto por fora, mas níveo por dentro. Ao passo que alguns brancos que são brancos por fora e que por dentro são tão negros como uma noite sem lua, onde nem uma só estrela se atrevia a cintilar! A cor da nossa pele é um caso de pigmentação, não algo que se aprende numa Universidade! Gosto muito de por o preto no branco, mas também, para variar, questões que paridades, por também o branco no preto! O Bíblico dar e receber, o melhor que se pode e se deve fazer!

A luminosa atmosfera em casa da Dona Amália, começou, porém, um dia, a ser um tanto ensombrada pela presença dum novo hóspede, daqueles que vinham apenas almoçar: o Silva! O Silva era um daqueles homens que não eram do tipo de pessoa que todas as mulheres gostariam de ter como genro, mas sim como amante. Ele era realmente um homem com tudo no seu lugar. Era alto e moreno, uma barba de tom azulado a circundar aquela sua boca de pecado, aquelas bocas que ao olharmos para elas nos dá vontade, não de as beijar, mas sim de as devorar! O seus olhos eram pretos e cortantes como lâminas bem afiadas. Caminhava como um sultão em busca de odaliscas e andava constantemente – um hábito bem português – a ajustar o seu enchumaço ou a enfiar as mãos nos bolsos das calças, sempre a amassar o seu pão nosso de cada dia. Só tirava as mãos dos bolsos de vez em quando para exibir a sua pequena levedura. Discretamente, mas pondo bem em relevo algo que ele tinha entre as pernas do qual obviamente muito se orgulhava. Certamente uma morcela bem aviada! Quando sentado à mesa, abria dois botões da sua branca camisa, por baixo das suas sempre muito garridas gravatas, acariciando os bicos do peito e a deixar os cabelos que cobriam literalmente os seus peitorais, espreitarem um pouco à janela. Claro que isso me excitava, mas eu não era o único a ser vítima desses seus rituais de sedução. A Dona Amália começou a ficar louca de desejo, escrava, como quase todos nós, dessa manipulação da natureza para garantir a continuação de todas as espécies, nos empurram para dentro desse prazer sobrenatural que é essa cilada da natureza de dois sexos que se buscam, se encontram, e se esfrangalham!

Com o correr dos dias o Silva começou, antes de almoçar, ir tomar um pequeno aperitivo no quarto da Dona Amália. A Dona Amália, para poder ter mais tempo de estar no seu quarto com o Silva, contratou uma criada, uma mulher muito ampla e aberta, que nos rodeava com carinhos como se fôssemos todos seus filhos. Todos, não! Menos o Silva! O silva ela também o queria mas era para a cama! Ela chamava-se Palmira e andava fula com a Dona Amália sempre enfiada no quarto com o Silva, e ela a servir os almoços! O que ela certamente teria preferido seria inverter as tarefas: ela no quarto com o Silva e a Dona Amália a servir os almoços! Despeitada, a Palmira começou a fazer rodar um boato: que a Dona Amália era um canastrão, e que o Silva ia para a cama com ela para almoçar de borla! Porém, o que a Palmira nem sequer lhe passava pela cabeça, era que o Silva morava ali mesmo ao pé, na Praça da Figueira, numa grande água-furtada onde eu comecei também a ir papar as amoras das silveiras do Silva! O Silva era aquele tipo de moscardo que fecundava as suas fêmeas durante o voo. Dizia-se em Portugal que “depressa e bem não há quem”, mas o Silva era uma gloriosa excepção! Moralidade da historia: eu era então um homem feliz! Tinha o Amaro & Mota que era um emprego de que muito gostava, tinha a pensão da Dona Amália onde se comia muito bem, tinha colegas maravilhosos no trabalho e na pensão e, como bela cereja sobre o bolo, tinha um machão de primeira apanha, que também gostava de se render a outras evidências: quem vai à guerra dá e leva! Que mais poderia eu querer então? Talvez um dia escrever as minhas memórias?

A RTP para iniciar a minha carreira de actor, ali nas mãos do Nuno Fradique, que muito apreciava os meus talentos de figurante e de assistente de encenação, começaram também a prolificarem-se a grande velocidade!

Colegas do Amaro & Mota