vendredi 4 septembre 2009

O Laboratório

















Por detrás de mim, braços erguidos, o Mário, um compincha que jamais esquecerei!

O nosso jipe e um colega adorável

Eu nas pistas fazendo o meu trabalho de todos os dias

O Aeroporto da Portela 1960








O Aeroporto da Portela, tal como era nesses tempos. Era um aeroporto ainda humanizado, não como agora, um Supermercado de viagens ao desbarato!

mercredi 2 septembre 2009

O AMARO & MOTA







Depois dessas duas penosas e degradantes semanas a calcurrear as ruas e os vãos de escada de Lisboa, de embuscada em embuscada, graças a Carmen Dolores e seu consorte, consegui um emprego estável no Aeroporto da Portela! Foi nesse Amaro & Mota, rodeado de gente boa, que consegui finalmente recuperar a minha dignidade e viver uma vida mais ou menos normal, sem as afrontas de propostas a 20 paus e tantas coisas mais, como o frio e a fome, e o ser olhado de esguelha como se eu fora um Marciano!

Olhai gente, toda a gente, olhai! Não me fixem de soslaio, discretamente!

Este meu emprego - que seria o último a ter em Portugal - foi realmente a redenção da minha alma em pedaços. Enfim eu podia olhar-me num espelho e ver-me tal como eu era! Um sonhador que um dia alguém trataria de poeta, um poeta que queria ser mais forte do que as ciladas da vida! Um talvez poeta que queria mostrar ao mundo a sua inventiva criatividade! Que a minha boca podia também beijar, dizer poesia, cantar, assobiar, sorrir! Que as minhas mãos podiam também amar, desenhar, pintar, esculpir, acariciar, dar e receber! Que os meus olhos podiam ainda ver alvoradas e moribundos poentes sobre as montanhas adormecidas! Dar o meu corpo a todos aqueles que o desejassem, em troca de paixão, não de moedas! Que eu, apesar de todas as vicissitudes, continuava puro como dantes, a despeito das máculas duma vida cheia de emboscadas!

Na Amaro & Mota a vida raiou novamente, a, pouco a pouco, apagar da minha memória esse calvário que acabava de atravessar! Tive realmente muita sorte. Recomecei a lidar com pessoas, não com depravados que atravessaram o meu caminho, não de perdição mas unicamenete de perdido! O posto que me deram foi o de assistente do responsável dos operários. Ele chamava-se Guilherme e era para mim como um amigo, alguém que certamente se apercebeu das provações que eu vinha de atravessar. Nos seus olhos havia uma luz que me enchia a alma de ternura. No escritório onde me instalaram havia também a secretária do engenheiro Amaro, um belo homem cheio de bondade e deferências. Ele era irmão do grande patrão, o Sr. Amaro, que era um homem um tanto inacessível, mas respeitoso e respeitado. O Sr. Mota era, por outro lado, um homem afável que se respeitava com prazer e amor. Um outro personagem que nunca esquecerei, instalado no escritório mesmo ao lado, era o engenheiro Taínha, um homem que soube descobrir em mim grandes qualidades de trabalho e quase de admiração pela minha pessoa. Ele sentiu que eu era um homem sensível e cheio de talentos, cujos deviam ser aproveitados. Não fiquei muito tempo como assistente do Guilherme, esse discreto homem a quem, num curto espaço de tempo, tanto me afeiçoara. O engenheiro Taínha ajudou-me a sair da lama! Quando lhe falei do meu problema finaceiro, que estava nas lonas e que precisaria de dinheiro para poder procurar alojamento, ele imediatamente se dirigiu ao escritório do senhor Mota e, minutos depois, reaparaece, agitando um cheque com a metade do meu salário - que era de 1.500 escudos - como avanço, dizendo-me:

- Por hoje está dispensado! Vá ao Banco depositar o seu cheque e procurar uma pensão onde possa viver dignamente!

Mais tarde, quando lhe falei do meu problema de, se possível, ter as quartas-feiras livres para estar com o Nuno Fradique na RTP, ele, com uma grande palmada nas costas, com os olhos a transbordarem de afecto, diz:

- Rogério, a partir dagora, você tem todas as quartas feiras livres para ir para a RTP! Você é um artista e merece que o ajudem a vencer! Com o Nuno Fradique você está em boas mãos!

Depois saca da sua carteira uma nota de 50 escudos e, pondo-a no meu bolso, disse-me ternamente:

-Aqui tem para as passagens e os seus cigarros. Paga-me quando puder!

Dias mais tarde, antes da minha primeira quarta-feira, o engenheiro Taínha transferiu-me para o laboratório, apercebendo-se que eu tinha qualidades e ambição de aprender e avançar. Que eu tinha mais futuro e mais facilmente poderia ser dispensado às quartas-feiras, para eu estar livre para os meus primeiros passos na arte para a qual eu pensava ter nascido: O Teatro!


Amaro & Mota era um empresa contratada pelos dirigentes do Aeroporto, para alargarem as pistas para o último grito da tecnologia aeronáutica desses tempos: os aviões a jacto! O meu trabalho era, com uma pequena equipa, irmos de jipe até às pistas em contrução, coleccionar amostras dos terrenos a serem utilizados, transportado-os para o laboratório da empresa, e analisar o solo. Verificar a humidade e a consistência para a vialibilidade do projecto de abrir pistas para os jactos, que teriam uma aterragem e descolagem muito mais violentas do que os aviões antecedentes. O trabalho fascinava-me! Primeiro, a colheita de amostras de terreno era para mim quase uma aventura. Ir de jipe com outros bons colegas era quase como fazer um excursão. Era uma grande camaradagem e alegria! Só faltava a melancia e o acordeão! Depois da colheita das amostras, voltávamos ao laboratório para fazermos as análises. As análises eram feitas duma maneira científica que muito apreciei aprender. Sempre gostei de aprender! Aprender, para mim, é, sempre foi e sempre será, o mais glorioso verbo da língua de Camões! Sempre detestei marcar passo. A minha ambição era avançar, aprender novas coisas, descobrir, criar, provar a mim mesmo e aos outros que viemos a esta terra por razões precisas, não apenas para crescer, fazer a tropa, casar, procriar! Havia algo mais: Viver!

Ao sair da Amaro & Mota, nesse primeiro dia de contacto com aqueles para quem e com quem iria trabalhar, fui apanhar o autocarro ali mesmo em frente da porta das traseiras. Apanhei o primeiro que passou para uma curta viagem até à Praça da Figueira. Ao descer do autocarro comprei o Diário de Notícias a um vendedor ambulante e fui-me sentar no Café Gelo, ali perto das cabines telefónicas, no caso de precisar de fazer chamadas. Tomei a minha velha bica enquanto percorria a coluna de anúcios “Quartos Alugam-se”. Um dos primeiros anúcios oferecia quarto e pensão completa, ali na Rua da Prata. Nem foi preciso telefonar, foi só ir a pé até à morada indicada, subir ao segundodo andar e pedir para falar com a Dona Amália. Foi ela que me abriu a porta e me pede para entrar e me mostrar o quarto que tinha disponível. Era um pequeno quarto com uma fresta para as traseiras. A mobília reduzia-se a uma pequena cómoda e um pequeno guarda-roupa, mas havia algo de muito ítimo e pacato que muito me agradou. Assim como a Dona Amália com o seu vasto e generoso sorriso. Depois mostrou-me a casa de banho com chuveiro, água quente e fria nas duas torneiras. A casa de jantar, com janela para a Rua da Prata, e a outra para a Praça da Figueira, era vasta. Havia uma longa mesa ao meio com cadeiras à volta, que podia acomodar uma dezena de pessoas. Disse-me que quartos só tinha três, mas que tinha mais alguns hóspedes que vinham apenas almoçar. Como ela disse, rapaziada que trabalhava ali na Baixa e que viviam fora de Lisboa. Perguntei quanto me custaria pensão completa por mês. Ela responde-me que ela não fazia ao mês, fazia à semana, que uma semana, cama, mesa, e roupa lavada, me custaria 200 escudos, que era um pouco caro por causa da renda da casa ali na Baixa! Digo-lhe que tinha de ir ao Banco levantar dinheiro, que voltava já para lhe pagar a primeira semana. Ela retem-me, que lá em casa não se pagava adiantado, que se pagava ao fim de cada semana. Saí dizendo-lhe que ia buscar as minhas malas, que voltaria dentro de algumas horas. Ela pede-me para estar de volta o mais tardar antes da meia-noite! Desci a correr para chegar ao Banco antes que ele fechasse. Depositei o meu cheque e apanhei o eléctrico até ao Campo Pequeno para ir ao Gavião Branco buscar as minhas malas.

A Dona Alice recebeu-me bem. Ficou radiante quando lhe disse que tinha arranjado emprego no Aeroporto, a ganhar 1.500 escudos por mês, que agora se tinham acabado os saltos dum cinema para o outro! Agora que eu ganhava bem a vida, em vez de Sr. Rogério, ela quase que me tratou por Vossa Excelência, que as minhas malas estavam no meu quarto, ao pé da minha cama, e que a minha cama estava lá à minha espera! Ficou pesarosa quando lhe disse que já tinha alugado um quarto na Rua da Prata. Tomámos um café juntos, conversámos imenso. Ela contou-me que o Camaradinha estava quase na reforma, que a Menina Luisa tinha voltado para o marido, que o Guilherme se ia casar, e que o Zé Barbeiro tinha-se deixado de touradas depois duma grande cornada que apanhara, e que o Antánio continuava sozinho no seu quarto desde que eu e o meu irmão Fernando tínhamos partido. Que o António andava sempre a perguntar quando era que eu voltava, que eu era um gajo porreiro, que era uma pena eu andar por aí perdido por essa Lisboa, que voltasse para casa! Sorri a todo aquele carinho que tanto me faltou durante essas duas semanas que andei à tona pelo Cais do Sodré, mas que agora me tinha compremetido com a senhora da Rua da Prata, que voltaria se por acaso essa pensão me não agradasse. Quando manifestei desejo de pegar nas minhas malas, ela telefona para os táxis para encomendar um que me viesse buscar lá em baixo à porta. Se eu precisava de dinheiro, se tinha dinheiro para o táxi?

Quando o táxi apitou, ela desceu comigo para me ajudar com as malas, e ao despedir-se de mim disse-me que eu era sempre bem-vindo, se um dia quisesse voltar. Disse-lhe que sim, com muto gosto, se a ocasião se proporcionasse, que tinha saudades do Zé Barbeiro e do Camaradinha.

E realmente tinha!

O Café Chave d'Ouro
















Durante esse tão duro período da minha vida, em possessão de alguns patacos, dei-me ao luxo de ir ao Café Chave d’Ouro, ali no Rossio, tomar um galão e uma sandes e abrigar-me do frio.

Estava muito bem sentado a uma mesa, fumando talvez o último cigarro do dia, quando subitamente passam pela minha mesa dois jovens, muito bem arreados, muito felizes da vida, a falarem das “vicissitudes da vida”!

Eles seguiam alegremente de regresso a casa para uma certamente boa jantarada com os seus, e eu acabava de ter passado o Natal num vão de escada a sós com os meus medos, isto depois do Guarda Nocturno ter regressado à sua vida!

Uma indomável raiva subiu por mim acima!

Afastei os pratos que estavam sobre a toalha de papel que cobria a minha mesa e, com uma caneta que o criado me emprestara, escrevi este poema duma só assentada!

CONVERSA AMENA

Pobre menino rico que passas bonito todo risonho enfatuado
Dentro do teu fato novo flutuante e garrido como um balão
E que levas na testa um curso completo e as chaves do carro mostradas
na mão!
Teus lábios rosados cultos saciados sem nenhuma vibração
Atiram pesporrentos: As vicissitudes da vida… Numa larga exibição!

Tu que emergiste de um ventre sem fome e sem gritos lauto e repousado
Que tombaste num berço amplo e macio ridiculamente engalanado
E que a vida te surgiu através de uma lente diáfana e colorida
Diz-me: Que sabes tu da vida? Sim! Que sabes tu da vida?

Essa miséria chocante que num insulto apregoas alto e tolamente
Com esse teu falso e intolerável ar pretenciosamente adulto
Foste colhê-la em livros que nem sequer acabaste de ler enfastiado!

Sabes que não há nada pior - Não! Não há nada pior!
Do que nos entregarmos ao que não pertencemos nem nunca pertenceremos?
Que não há nada pior do que recusarmos e negarmos categoricamente
A secreta verdade que dentro de nós dia a dia vamos acalentando?

Alguma vez reparaste naquela prostituta tão idêntica a tantas outras
A passear à noite o olhar ansioso pelas ruas numa constante interrogação?
Reparaste nos seus lábios rodela informe de um vermelho barato
Num sorriso apertado intencional em triste e permanente leilão?
Alguma vez te ocorreu que esses lábios debochados e sem recato
De que lúbrico te utilizas tão vilmente num erotismo desvairado
Outrora foram puros e sedentos palpitantes palpitantes e de ninguém!
E que um dia esboçaram o seu primeiro sorriso deslumbrado
Como a tua como a minha como a mãe de toda a gente?

Reparaste nos homens que não vão asquerosos num rictus chocarreiro
Que passam e que se viram a fazer chocalhar a porcaria do dinheiro
No fundo sujo dos bolsos numa insinuação sórdida boçal e repelente?
E que até o vento da noite parece chincalhar nos seus cabelos crespos?

Alguma vez andaste descalço por não teres sapatos nem chinelos de trança
Por sobre um asfalto cortante de frio como vidros quebrados no inverno
E a arder implacavelmente pelos tórridos Agostos de um verão sem esperança?
Alguma vez caminhaste na sombra cosido às paredes quase rastejando
A dissimular dos teus parentes a humilhação de um fato já decrépito?

Alguma vez -tão criança!- foste disfarçado e receoso àquele quartel
Em busca dos restos do rancho e do casqueiro dispersos pelas mesas desoladas
Aquelas mesas longas muito longas de pedra raiada fria e degradante
Para onde eu esticava vorazmente estas mesmas mãos famintas e vexadas?
Depois quando a casa tornavas com os bolsos repletos de duras côdeas
Amargamente irada e deprimida a tua mãe não te dizia:

-Não quero! Não quero que voltes mais! Nunca mais! Não quero!

E não haviam lágrimas nas côdeas que em migas ela de seguida te fazia?
Sabes o que é ouvir a minha mãe soluçando toda a noite sufocadamente?
Sabes o que é querermos acima de tudo e de todos nesta maldição de vida
A essa criatura admirável terna e corajosa que me sorri compungida
A única coisa de realmente bom que Deus ainda me não açambarcou
E cá de longe aquela saudade imensa de onde venho e para onde vou
A alastrar em nós como chama crepitante como chaga redentora
Que nos alimenta e ao mesmo tempo nos cansa nos aniquila e nos devora?

Alguma vez te dobraste discretamente na rua como um vulgaríssimo ladrão
A colher na borda conspurcada de um passeio uma ponta de cigarro pelo chão
Para enganar aquela estranha sensação de vácuo na tua boca sequiosa e renitente
A quem tu em vez de cigarros brancos longos e roliços davas pontas requeimadas?

E mais! Alguma vez amaste louca e verdadeiramente uma mulher entristecida?
Alguma vez sentiste húmidos os teus olhos baços e enxutos húmidos de felicidade!
Por a sentires pequena e toda entregue na mísera escassez dos teus braços?
E nota bem! Alguma vez morrendo aos poucos renunciaste ao amor dessa mulher
Pura e simplesmente porque os outros abusivamente assim o decidiram?

Alguma vez palmilhaste meia cidade em busca de um emprego que tarda em vir
Um emprego quantas vezes deplorável asfixiante mas que nos permite subsistir?

Alguma vez passaste uma noite em claro imensa que parecia não ter fim
Num quarto de dormidas económicas pestilento em promiscuas e fétidas exalações
Onde todos dormiam à sua maneira menos tu em horríveis convulsões
Ou pernoitaste no patamar da escada de uma pensão num imundo e febril arrepio
Como um cão raivoso sem dono nem coleira sem tigela nem barraca num desvario?

Alguma vez mascaraste de humildade um ódio grandioso ao esmolar uma parca refeição?
Alguma vez para o bilhete do eléctrico te faltou um denegrido e ridículo tostão?
Alguma vez perverso e aviltado com um desprezo enorme pela humanidade inteira
Alugaste miseravelmente o sexo para pagar uma prestação e calar uma hospedeira?
Alguma vez te masturbaste para conseguir conciliar o sono e não endoidecer ainda?
Alguma vez sentiste nojo um nojo atroz irreparável e viscos de ti próprio?
Alguma vez amando profundamente a vida aquela outra vida que te não foi dado viver
Estiveste à beira de um precipício para te despenhar e não te despenhaste?
Alguma vez choraste de raiva por te saberes impotente para valer a um desgraçado?
Alguma vez soluçaste sobre o cadáver já hirto de um gato todo branco ensanguentado
Que parecia encerrar em seus olhos estranhos e longínquos dum esfíngico mistério
Toda a indiferença e insensibilidade que eu de alto a baixo gostaria de sentir
Por toda essa humanidade com um pouco desse teu ar de estúpida superioridade?
Alguma vez sentiste respeito pelos que num declive gradualmente vão descendo
Porque não têm mais forças nem apoio para resistirem com brio e orgulho combatendo
Para lutarem contra aquela força indecifrável que fatalmente os arrasta e os impele?

Mas depois uma lâmpada acesa por detrás dos foscos vidros de uma janela
Não exercia sobre ti o místico fascínio do brilho cintilante duma intangível estrela?

Alguma vez contrariaste uma tendência ou debelaste um vício menino vicioso?
Alguma vez escreveste um poema mesmo porco lamentável menino intelectual?
Ao menos alguma vez leste um poema até ao fim bom ou mau mas sempre mensageiro?
Alguma vez estiveste desprotegidamente horas e horas sob uma chuva torrencial
Por ser na rua o único processo de escutares aquela música sortílega e necessária
Para te ergueres das trevas obsecadas e medonhas de uma loucura quase magistral!

Depois de tudo isto te ter acontecido a rasgar impiedosamente uma efémera juventude
Aqueles breves anos que deveriam ser belos leves e felizes para toda a gente
Quando tu fortemente aprisionada na garra furiosa de uma verdadeira vicissitude
Cheio de um remorso alucinado no rasto do desespero aniquilado e ausente
Esmagado pelo cansaço sem ânimo sequer para esboçar um movimento de revolta
Então acerca-te de mim e fala-me longamente de tua angústia do teu medo torturado
Podes mostrar-te confiadamente e gritar e chorar até sobre o meu ombro já tranquilo
E podes apertar a minha mão como se ela fosse o último apoio consistente que te resta
Porque eu saberei escutar-te até ao fim num balsâmico silêncio afagador.

Depois então dar-te-ei essa mesma mão esquálida no fundo bem erma e bem vazia
Chamar-te-ei homem amigo poeta irmão com amizade com ternura e gratidão.
Contar-te-ei uma longa história autêntica bruta descoberta sem nenhuma simetria
E levarte-ei vida fora já liberto a mostrar-te as ruas tal como elas são!


Rogério do Carmo
Lisboa, 29/12/1959
Café Chave d’Ouro

mardi 1 septembre 2009

O Calvário
















Depois de ter terminado o meu contracto com o Olympia, minha vida tornou-se num verdadeiro calvário! Senti-me como acartando a minha cruz sem saber aonde a levar, onde a depor! Sem os meus 800 escudos mensais do Olympia, 600 dos quais entraram no mealheiro da Dona Alice e, apenas com 100 escudos de vez em quando da RTP, minha vida tornou-se um degredo infernal! Corri seca e Meca por toda a Lisboa em busca dum novo ganha-pão, mas o Desemprego era o tópico do dia a dia dos noticiários nas rádios e nos jornais. Procurar um emprego através dos anúncios de jornais era como procurar uma agulha num palheiro. Fiz Lisboa a pé do Campo grande à Praça do Comércio batendo a cada porta que se me deparasse, mas todos me enxotavam como se eu fosse uma importuna mosca varejeira! Passei pela loja do Rui para talvez voltar às Pipocas, mas a loja tinha fechado. Pensei em dar um salto a casa dele, mas a imagem dum pecador arrependido batendo à porta de alguém que eu tinha abandonado, deitado fora, repugnou-me! Num arremesso de excessiva dignidade, pus essa possibilidade totalmente de parte. Bati de novo à porta do Schmulevich, na Visconde Valmor, mas ele não precisava dos meus serviços, não teve sequer tempo de levantar os olhos das suas contas-correntes! Pensei em voltar para o Cacém, para a fábrica de malhas do meu irmão, mas isso seria recuar na minha odisseia da conquista dum palco! Gastei os meus derradeiros tostões pondo um anúncio no Diário de Notícias oferecendo os meus serviços como criado de mesa - resposta ao Gavião - mas nunca obtive qualquer resposta. Pensei em ir bater à porta daquele senhor jornalista, na Avenida da Liberdade, que me tinha proposto adoptar-me, mas a idéia de vir a ser um bibelot nas mãos dum senhor sem família nem descendência, teria sido a renúncia à minha liberdade! A Dona Alice começava a entrar em pânico, sabendo-me sem meios para pagar-lhe todos os meses a minha mesada. Um dia, devendo-lhe já mês e meio de pensão, volto a casa depois de ter despendido o meu dia à procura de trabalho, e quando chego à porta do Gavião, naquele segundo andar, direito, encontrei as minhas duas malas à minha espera no patamar. Quando abri a porta e entrei, a Dona Alice friamente arranca-me as chaves da mão, e pede-me para ir morrer longe! Pedi-lhe, quase de jelhos que, ao menos, me guardasse as minhas malas por uns dias! Ela agarrou nas malas, pô-las a um canto do corredor, e prega-me com a porta na cara! Desci e, quase de rastos, fui pela Sacadura Cabral abaixo, até ao Campo Pequeno. Na minha mais cruel humilhação, subo ao segundo andar do Tótó, aquele seu pequeno quarto com porta para a escada, a pedir-lhe asilo. Tótó entreabre a sua porta e pergunta-me o que queria eu? Por cima do seu ombro, vislumbrei um belo jovem recostado na sua cama. Falo-lhe da minha precária situação, mas ele responde-me que vivia agora com um companheiro e, como eu sabia, não havia lugar para três no seu quarto nem no seu coração. Pôs cinco escudos na minha mão e sugeriu que eu fosse passar a noite naquela pensão económica, ali mesmo ao lado. Atirei-lhe com a moeda à cara e desci aos trambolhões pela escada abaixo e fui divagar pela Avenida de Roma em busca dum milagre. O meu tio Artur vivia ali mesmo no Arco do Cego, mas não me rebaixei a ir pedir-lhe esmola, ele que me considerava a vergonha da família! Aí começou a minha penosa escalada ao Monte das Oliveiras, sem nenhuma Maria Magdalena que me viesse enxugar o rosto!

Fui arrastar a minha cruz pela Avenida de Roma, de cima abaixo, sem saber o que fazer da minha vida. Repentinamente começo a ser seguido por um carro que avançava muito lentamente piscando-me com os faróis. Olho para dentro do carro, pensando que era alguém que eu conhecia, e deparo com um senhor de certa idade que, piscando-me o olho, me fazia sinais para eu subir. Com vergonha de mim mesmo, pensando que ele me poderia propor um quarto, uma cama, subi. Porém esse senhor não tinha palavras. Parecia ser mudo. Arrancou com o carro na direcção do Aeroporto da Portela, procurou um recanto tranquilo, arrumou o carro, abriu-me a braguilha, abocanhou o meu sexo, e não o largou enquanto eu não ejaculei. Depois acompanha-me de novo até ao sítio onde ele me tinha pescado, põe-me 100 escudos na mão, e pergunta-me se era ali naquela esquina da Sacadura Cabral que era o meu “sítio”. Aceitei aquela bela nota de Banco, metia-a no bolso, disse obrigado, e que o meu sítio era sobre um palco. Ele arrancou, certamente ofendido, e seguiu, penso, para sua casa, talvez também ali mesmo na Avenida. Esfaimado, enregelado - era quase Natal – meti-me no “Bowling” e comi um combinado, tomei um copo e um café mas, nervos, revolta, vergonha de mim mesmo, vomitei a minha pequena ceia ali mesmo em cima do balcão. Pedi desculpa, tomei uma água das Pedras, e pus-me a caminho da tal pensão económica no Campo Pequeno. Eu precisava de um quarto onde me abrigar do frio, derramar as minhas lágrimas, adormecer e, com a maior das fortunas, nunca mais acordar!

A partir dessa ignóbil noite, os meus dias foram um degradante martírio! Todas as manhãs comprava o meu jornal à cata de anúncios, de um milagre benfazejo que me arrebatasse à minha ignomínia! Porém o mundo, as pessoas, passavam a meu lado sem sequer repararem em mim. Eu era apenas outro transeunte qualquer, sem eira nem beira. Acartava o meu infame destino como quem carrega toda a vergonha do mundo! O meu lugar era sobre um palco, mostrando-me abertamente a um vasto público, não às escondidas pelas brumas do Aeroporto da Portela a prostituir-me! Mas eu não era um prostituto, era a Vida, essa grandessíssima puta, que fez de mim um farrapo, um pobre diabo que não sabia o que fazer de si mesmo! Como ainda viria a acontecer tantas vezes, nesse malfadado futuro que me acenava lá ao longe. Mas eu queria mostrar ao Futuro, à Vida, que quem mandava era eu! Mas o Futuro, a Vida, fizeram-me um manguito e ainda me levaram mais baixo, mais sujo, do que o que as levadas nas sarjetas!

Na Noite de Natal, para me sentir menos só, abandonado, desprezado, fui-me encostar à porta da escada do Gavião. Dali eu avistava todas aquelas lampadazinhas de todas as cores a apagar e a acender, como se fossem pirilampos. Era noite de festa, noite da família, mas fazia um frio de rachar, e eu nem sequer tinha a chave daquela porta de escada. Senti-me tão desgraçado que encostei um braço ao umbral dessa porta, encostei a esse braço a minha cabeça devastada e chorei as lágrimas mais salgadas da minha vida. Fui acostado pelo guarda nocturno, que já me conhecia de vista, que veio, muito inquieto, perguntar-me porque chorava. Solucei-lhe que não tinha a chave para abrir a porta da escada. Ele disse-me que não era preciso chorar, que ele me abria a porta. Ele abriu-a e eu entrei mas, certamente que ele pressentira algo de anormal e, uns minutos mais tarde, volta a reabrir a porta e encontrou-me sentado num degrau, chorando como uma criança abandonada por todos. Ele senta-se a meu lado, envolve-me nos seus braços, e pede-me para não chorar, que tudo se arranjaria. Ele cerra-me muito forte nos seus braços, beija-me a cara, os cabelos, a boca! Nessa noite, enquanto tantos estavam muito animadamente a celebrar a Missa do Galo, eu estava a ser, simplesmente, galado num vão de escada, por um guarda nocturno!

Da Avenida de Roma ao Cais do Sodré são apenas uns passos de uma miséria igual a todas as misérias que nos espreitam por toda a parte! Morto de frio e de fome, fui refugiar-me na Gare do Cais do Sodré onde tinha, quanto mais não fosse, um pouco mais de calor, calor humano, aquele calor que as pessoas emanam dos sovacos, do seu hálito, do seu chulé, da sua indiferença! Nessa Gare, encostado a um poste para não cair de nojo por tudo e por todos, sou abordado por um marujo que, muito gingão, me pergunta quanto lhe custaria um broche, que me daria 20 paus por um broche feito numa escada ali perto. Nessa noite, indignado, recusei, mas nos dias que seguiram, para matar a fome e alugar um quarto para dormir agasalhado, não tive outra alternativa. Eu tinha descido, chegado, aos broches a 20 paus para sobreviver, mas eu sentia, eu sabia, que a vida ainda m'as iria pagar! E a vida, num futuro muito próximo, me iria compensar de todas essas afrontas! Afrontas como naquela noite em que eu, sentado naqueles bancos de pedra à beira Tejo, na Praça do Comércio, com vontade de me deitar ao rio, chorava a minha desdita, fui acostado por um vagabundo, podre de bêbedo, que quando lhe disse que não tinha onde ir dormir, me arrastou até uma espécie de caserna com muitos colchões no chão, onde dormiam, ressonavam, vomitavam,praguejavam, escarravam, dezenas doutros vagabundos sem terem onde caírem mortos. Encostei-me a um canto para ao menos me resguardar desse frio atroz, mas o mau cheiro era tão penetrante e o ar tão irrespirável, que saí para a rua e procurei um vão de escada só meu, que encontraria na Rua da Prata, no 242, que um dia viria a ser a minha escada, quando para lá me mudei para a pensão da Palmira, se bem me recordo. Eu queria esquecer a Berta de Bivar e aquele palco onde eu subiria um dia e gritaria:

-Eu existo! Estou aqui! Não peço compaixão! Peço aplausos!

Nesse momento pensei na Carmen Dolores. Ela já me tinha ajudado uma vez na minha vida, talvez me pudesse ajudar uma vez mais? Ajudar-me a encontrar um trabalho, um emprego, recuperar a minha dignidade, deixar a rua!