mardi 4 août 2009

Rua dos Bombeiros Voluntários de Mafra


No rés de chão havia apenas uma janela e uma porta. Essa janela que era a do quarto do Alberto, janela através da qual ele apenas conseguia ver um muro opaco, silencioso, indiferente!
Na janela por cima, no piso superior, era a sua outra janela, aquela que o deixaria mergulhar os seus belos olhos azuis no vasto Horizonte que se lhe oferecia enfim perante os seus olhos ávidos de viver, de sair daquela cama, daquele quarto, ir ao encontro daquele horizonte que o aguardava...
Horizonte esse que um dia se fecharia para todo o sempre àqueles belos olhos azuis que um traiçoeiro destino castigaram sem dó nem piedade!

O Alberto
















A minha vida não era só trabalho. Também conseguia, com um pouco de imaginação, inventar coisas novas para enfeitar os meus dias.

O Café Estrela era o meu ganha-pão mas, ao mesmo tempo, procurava tirar das minhas actividades profissionais algum alento, algo que me fizesse acreditar que eu era feliz.
Depois das obrigações diárias, um passeio até ao Jardim do Cerco, da parte da tarde, para algumas inesperadas aventuras na selva, na parte do jardim não tratada pelo senhor Marques, o jardineiro da parte real desse indescritível jardim em cujas matas quase virgens muita gente perdeu a sua virgindade.

No Piquenique frequentemente fazia de Tarzan, a saltar de árvore em árvore, em busca duma Jane ou duma Chita. Frequentemente eram cadetes ou cabo-milicianos que eu tinha de salvar de certas agonias.
Muito por acaso, algumas vezes encontrava a Zinha no nosso banco preferido ali ao pé do pequeno lago habitado por bonitos peixes de todas as cores, limitados a nadar à volta do mesmo lago dia e noite, como eu fazia à volta da vida, em busca duma saída airosa.
Os peixes nem sequer se apercebiam, que eu amava uma mulher e o meu corpo apenas me pedia machos.

Nos dias mais bonitos ia até à Ericeira molhar os pés e outras coisas. Gostava de ir para a Foz do Lizandro para o meu pequeno paraíso sobre a terra, a minha gruta do abre-te sésamo, tomar banhos de sol todo nu. Amiudadamente haviam outros vindouros que se juntavam a mim. Uns para gozar o sol, outros para gozarem a minha nudez.

O melhor de tudo era, enquanto aguardava a camioneta do Gaspar para voltar a Mafra, meter-me no Café Morais a tomar uma cerveja e ver gente a passar. Era essa gente a passar que me fascinava. Em cada um eu via um destino, uma solidão, tédios e alegrias, tudo só muito deles. Cada qual à sua maneira acartava a sua sorte e a sua morte. Eu, na minha dolorosa adolescência, carregava com os meus medos do futuro, medo das más línguas, medo de não ter nascido para nada de especial.

Era sempre a mesma pergunta:

Que vim eu cá fazer a este mundo?

Por outro lado, quando não fazia estas fugas, gostava de ir até casa dos meus pais, ali na Rua Bombeiros Voluntários de Mafra, número 2, ver como iam as coisas com o Alberto que continuava sempre acamado, cada vez com mais hemoptises e cada vez mais debilitado. Nessa altura morávamos no rés-de-chão e em frente da nossa porta e da única janela que tínhamos, havia um alto muro que tapava a vista que se poderia ter tido sobre o Poço do Rei. O Alberto detestava esse muro. Que era como se estivesse numa prisão! Da sua cama, além da sua querida telefonia, apenas aquela janela para deitar os olhos e tentar adivinhar quem eram os passantes.

Além do quarto do Alberto, mal se passava a porta de entrada, havia a casa de fora, com uma mesa e quatro cadeiras, um aparador e uma cómoda. Nas traseiras havia a obscura cozinha e uma arrecadação da qual os meus pais fizeram o quarto das suas inquietas noites, muitas delas em branco, por causa da tosse do Alberto que muito mais o atacava durante a noite.
O quarto do Alberto era realmente uma permanente cadeia que o cortava do resto do mundo. Eu tinha muita pena dele e ia lá vê-lo sempre que podia e trazia-lhe jornais para ele ler, e “Damas de Chá”, que eu sabia ele muito apreciar. Ele, sempre que me via entrar, os seus olhos iluminavam-se de uma passageira alegria. Sempre me perguntava como se passavam as coisas lá fora, onde estava este ou aquele dos seus muitos amigos que nunca se deram ao trabalho de o visitar e trazer-lhe um pouco do ar lá de fora e, sobretudo, alguma amizade! Era sobretudo de amizade e companhia que ele andava sempre faminto! Perguntava-me porque não vinham eles visitá-lo? Nunca ousei dizer-lhe que eles não vinham visitá-lo porque tinham medo do contágio. Inventava uma série de piedosas mentiras para tentar não tornar ainda maior o seu isolamento. Às vezes abria a sua janela para fumarmos um cigarro. O Dr. Passos tinha-o proibido de fumar, mas ele dizia, e com muita razão, que era um prisioneiro daquele quarto, um escravo da sua doença e dos seus remédios, que o deixassem, ao menos, fumar como dantes. Aqui, esta pequena frase “como dantes”, empurrava-me silenciosamente até à retrete, a ocultar dos seus olhos as minhas irreprimíveis lágrimas. Afinal de contas, era eu quem lhe trazia os cigarros. Ele fumava Português Suave e eu também. Bem no fundo de mim mesmo eu sabia que ele não ia durar muito tempo e, dentro de mim, secretamente, eu pensava naquele rifão da minha mãe:

“Morra marta, morra farta”!

Sempre que me despedia dele dava-lhe um beijo na face e perguntava-lhe o que era que ele queria que eu lhe trouxesse no dia seguinte. Ao sair do seu quarto olhava para trás para ver aquele belo pálido rosto, aquelas belas translúcidas mãos, aqueles dedos tão longos que pareciam querer tocar o infinito, aqueles lindos e transparente olhos da cor dum glorioso céu de Primavera que o Inverno brutalmente ameaçava.

Eu adorava o meu irmão Alberto! Ele era duma beleza divina naquela sua palidez de morte. Eu olhava-o, cada vez que o deixava, como se fosse a última vez que o veria ainda vivo. Por vezes receava perguntar-lhe o que ele queria que eu lhe trouxesse amanhã, pois que para mim, para ele cada dia que passasse, talvez não houvesse um outro amanhã.

Despedia-me da minha mãe, ali escondida na sua arrecadação, a calar a sua imensa dor. Ela era a nossa Mãe Coragem, à qual muitas vezes lha faltava a dita para ter a dita! Depois eu voltava à minha vida, às minhas ocupações no Estrela, aos meus desenhos, aos meus sonetos, ao meu medo do futuro, à minha gana de ir para a cama fosse com quem fosse, para tentar esquecer o meu medo de o perder, pois que era evidente que a vida aos poucos lhe fugia.

Outros dias vieram a consentir o definhamento do meu tão querido irmão Alberto. A única coisa que eu podia fazer por ele era vir vê-lo e mentirosamente sorrir-lhe como se ele tivesse a sua vida à sua frente. Eu era um grande actor! Fingindo ser o mais feliz dos mortais, abria a sua janela, acendia-lhe um cigarro, e contava-lhe as últimas anedotas que tinha ouvido essa mesma manhã no Estrela. O som das nossas gargalhadas abafavam os soluços da Mãe Coragem, escondida nas trevas da sua lúgubre arrecadação, onde nem sequer uma fresta se abria à luz do dia ou às noites de luar.

Ele lamentou-se um dia que detestava aquele muro que o impedia de ver um pouco mais além, mais um bocadinho de Mafra. Nesse dia prometi-lhe que ou deitaria esse muro abaixo com os meus próprios punhos ou arranjaria maneira de mudar de casa, para um sítio onde se pudesse ver o Horizonte! Ao sair do seu quarto disse-lhe, com uma imensa falsa convicção:

- Alberto! Vou fazer tudo o que puder para te tirar deste buraco! Vamos procurar uma casa onde a janela do teu quarto dê para o mar ou para a montanha!

Saí sem me me despedir da minha mãe. Passei à frente do seu silêncio, tentando ignorar aquela auréola por detrás da sua cabeça, como se ela tivesse deixado de ser Mãe Coragem para apenas ser Nossa Senhora das Dores! Da rua dos Bombeiros Voluntários até ao Estrela, através das minhas lágrimas, mal distinguia quem por mim passava. Até o Convento me pareceu do tamanho dum brinquedo!

No entanto, parece que Deus ouviu as minhas preces, pois que, dias depois, minha mãe me disse que os vizinhos de cima iam mudar-se para uma casa maior e que nós nos mudaríamos para o andar superior. Para mim isso foi um verdadeiro milagre! Não sei se Deus escutou as minhas orações ou aquelas da Nossa Mãe Nossa Senhora das Dores, se as de ambos!
Mesmo descrente como eu era, antes de regressar ao Estrela, entrei nessa bela marmórea Catedral que é a Basílica do Convento. Ajoelhei aos pés não sei de quem a agradecer-lhe com as minhas lágrimas esse grande milagre. Para mim, poder dar ao Alberto um quarto com uma janela com Horizonte era o mais esplendoroso de todos os milagres que podiam acontecer! Aproveitei para pedir a Santa Rita, a Santa do Impossível, que curasse o meu querido irmão. Ajoelhei, acendi-lhe uma velinha, rezei, implorei ajuda, mas a Santa Rita, no seu nicho de pedra fria, naquele seu ar ausente, nem sequer baixou seus olhos sobre mim!

Era sempre uma tristeza ir a casa ver o meu irmão mas, ao menos, ele agora tinha estrelas que cintilavam nos seus olhos ao olhar lá ao longe o seu tão desejado Horizonte através da sua janela aberta de par em par! Sentado na borda da sua cama, agarrei a sua mão, e olhei esse mesmo Horizonte que se reflectia naqueles olhos dum azul deslumbrante e deslumbrado. De repente ele aperta a minha mão, olha-me intensamente nos meus olhos prestes a transbordar, e perguntou-me:

- Rogério! O que é o Horizonte? O que é o Infinito? O que há para além dessa linha onde a terra toca o céu? O que há para além do Infinito?

INFINITO

(Ao meu falecido irmão Alberto)


O que era o infinito tinhas-me perguntado
O infinito sou eu tenho-o nos braços
Rasgá-lo de meio a meio disseste angustiado
Mas como se está feito em mil pedaços?

O infinito com teus olhos tentavas abranger
E eu infinito maior me sentia - sem fim!
Mas o infinito nunca o poderás compreender
Pois se nem eu me compreendo a mim!

Pudesse eu reduzir-me e teus olhos saciar
Pudesse eu desprender-me e em tuas mãos poisar
Nessas mãos tísicas que beijo a toda a hora.

Mas eu - pobre infinito pelos escombros-
Perdido e só em busca dos teus ombros!

Escuta! Não ouves? O infinito chora!



Rogério do Carmo
Mafra, 19/9/1953


No dia em que, a pé, da Rua dos Bombeiros Voluntários, acompanhei o meu tão querido irmão Alberto até ao Cemitério da Vila Velha, quando pousaram o seu modesto caixão perto daquela campa rasa que o meu outro tão querido irmão Elmiro tinha comprado para o nosso querido Alberto, quando abriraram o caixão e levantaram o lençol para o cobrirem de cal, eu olhei aquela tão lívida e serena face, olhei-o bem dentro do seu olhar fechado, e jurei-lhe:

“Alberto! Vai em Paz! Eu prometo-te viver por ti todos esses anos que tão infamemente te foram roubados! Vou viver o mais que possa, ser feliz o mais que possa, viajar o mais que possa, rasgar esse inacessível Infinito que a ti te foi tão injustamente negado. Por ti o farei!”


dimanche 2 août 2009

A fotografia na revista "Hermes"
















Foi esta foto, que tinha sido tirada em Tel Aviv, que tinha estado meses exposta na montra do fotógrafo, ali no Kikar Alenbi, que enviei a ilustrar esse meu anúncio a pedir "pen pals"na Europa.
A tal que o Mr. Kimche disse que eu era muito mais bonito do que o Hod Hotel...
Foi igualmente com esta fotografia no "HERMES" que encontrei alguém com quem compartilho a minha vida há já 43 anos...

A Sarah Bernhardt
















Dias mais tarde passei pelo Monte Carlo para lhe dar um abraço e aproveitei para lhe recitar os outros dois poemas que ele me tinha pedido. Ele gostou desses poemas e da maneira como eu os tinha dito. Ficou pois combinado que eu estaria no Monumental nesse domingo às duas da tarde, pois que o recital começava às três, que eram vários poetas, e que eles tinham que organizar tudo, pois que o espectáculo era apresentado por ele. Senti-me tão feliz de, finalmente, subir a um palco de Lisboa, e realizar talvez um dos muitos grandes sonhos do passado:

Estar sobre um palco em Lisboa, ao lado de Rogério Paulo!

Chegada essa tão desejada data, desse tão importante Domingo, quando eu ia estrear-me num Teatro de Lisboa, subir a um palco, ao lado de Rogério Paulo, os nervos enclavinharam-se-me de tal forma que fui apanhado por um pavor tal, que comecei a tremer dos pés à cabeça. A Dona Alice, a patroa do Gavião Branco, procurou acalmar-me, dizendo que tudo se iria passar pelo melhor. Estendeu-me uma bonita camisa e um par de calças para eu vestir, dizendo-me que depois dum bom banho me sentiria como novo.

Como morava ali na Sacadura Cabral, decidi descer a pé a avenida da República até ao Saldanha, esperando que o passeio me descontraísse. Não foi o caso! Tal como a Sarah Bernhardt, pelo caminho, fui vítima duma embaraçosa e inesperada diarreia! Voltei a correr de volta a casa para mudar de roupa, mas a Dona Alice já tinha posto em sabão as calças que eu tinha tirado essa manhã. Como eu tinha pouca roupa, a Dona Alice disse-me para eu ter juízo, que me deixasse de fantasias, e não me meter em cavalarias altas!
Assim fiquei o resto da tarde em casa, metido na cama, em lágrimas, enquanto a Dona Alice lavava a roupa toda da semana, ali na marquise, no seu tanque de cimento, cantarolando a sua indiferença.

Depois nunca mais vi o Rogério Paulo. Tive vergonha de lhe aparecer pela frente a explicar-lhe as razões pelas quais eu tinha faltado a esse para mim tão importante recital.

No dia 2 de Outubro de 1960 às cinco e meia da manhã, eu apanhava um comboio em Santa Apolónia, a caminho de Israel. Assim terminou a minha talvez grande carreira como actor em Portugal! Não obstante, algumas outras grandes carreiras me aguardavam além-mar...

***
Vivi seis anos em Israel. Vivi um ano num Kibbutz. Aprendi o Hebraico e algumas outras línguas. Fiz um curso de hotelaria em Herzelia e trabalhei em muitos hoteis do norte ao sul do país. Recebi prémios do melhor recepcionista do ano em quase todos os hoteis por onde passei, e cada vez que eu apresentava a minha demissão imploravam-me para eu não deixar o hotel.
Em 1965 receberia o Prémio de Mr. Mar, o mais bonito corpo do ano da Praia Frishman, em Tel Aviv.

Em 1966 tive dois julgamentos por estar ilegal, por não ser Judeu, e expulso do país!

Forçado a deixar Israel, esse país que tanto amo, durante três meses divaguei por essa Europa num permanente deboche, um autêntico regabofe! Era uma espécie de vingança acerca dessa tão injusta decisão de ter sido deitado fora pelo país que venero! Tinha posto um anúcio numa revista alemã chamada "Hermes", com a minha fotografia, pedindo jovens radicados em Itália, França, e Suiça, pedindo "pen pals" que me pudessem albergar e mostrarem-me a cidade onde residiam. Foi um sucesso! Recebi centenas de cartas do mundo inteiro! O director do hotel onde então trabalhava, o Hod, disse-me um dia que eu recebia mais cartas do que ele para reservas de quartos! Quando lhe mostrei o meu anúncio ele replicou:
-Normal! Com a foto que enviaste!... És certamente muito mais bonito do que o Hod!
Depois desses triunfais três meses pela Europa fui passar umas semanas em Portugal, para saudar minha mãe e o resto da família.
Claro que também fui ver o Rogério Paulo que, nessa altura, já estava a trabalhar no Dona Maria II. O Rogério ficou encantado de me rever e estive longamente com ele no seu escritório, cada qual contando as suas vidas durante esses seis anos que nada soubemos um do outro.
Foi nessa tarde que eu lhe pedi desculpa de ter faltado à matinée de poesia desse quase esquecido Domingo, e de não ter dado explicação alguma. Ele riu-se e falou também nesse similar problema da Sarah Bernhardt nessa Bela-Época em Paris. Que o medo do palco fazia das suas.

- Que pena, Rogério, teres deixado Portugal! Hoje podias talvez ser um grande actor no nosso país!

Respondi-lhe que talvez isso tivesse sido possível mas que, por outro lado, não teria vivido esses maravilhosos seis anos em Israel, nesse país onde tinha plantado uma árvore em Jerusalem na Floresta da Shoa, escrito um livro no Kibbutz, e feito um filho !!!
***
Depois segui para Londres, onde um emprego e muitas outras mais aventuras me aguardavam.
Ainda nos vimos algumas vezes mais no Dona Maria II, quando eu vinha a Lisboa. Aparecia sepre de surpresa. Ele ficava sempre contente de me ver e convidava-me para uns momentos no seu escritório para um café e dois dedos de conversa. Quase sempre ele falava de ter sido uma pena eu ter deixado Portugal, que hoje podia ser um grande actor português...

***
No dia 26 de Fevereiro de 1993, tinha eu então 58 anos, estava em casa a ouvir a Rádio Alfa quando, no noticiário das três da tarde, anunciaram a morte do meu querido Rogério Paulo!

Portugal acabava de perder um grande actor, e eu um grande amigo!

Desliguei o rádio e continuei por essa vida fora, sempre em busca de mim próprio, indagando que diabo tinha eu cá vindo fazer a este mundo onde tudo era tão absurdamente efémero!

O Monumental

Passaram-se umas semanas e um dia telefono. Rogério diz-me que ele almoçava todos os dias no Café Monte Carlo, por baixo do Monumental, que estava lá sempre entre a uma e duas da tarde. Que não era preciso marcar encontro. Que viesse quando pudesse e me apetecesse.

Um dia dei lá um salto e encontro-o almoçando na companhia de Paulo Renato. Ele apresentou-me ao Paulo como sendo um amigo dos tempos da sua tropa em Mafra, e agora um futuro colega como actor. Disse também que eu era um grande poeta e pediu-me para eu recitar um dos meus poemas para o Paulo. Eu recitei-lhes o único poema que sabia de cor, o “Cais do Sodré”, um poema que eu tinha escrito recentemente, durante uma dura fase da minha existência quando, desempregado, a minha última Noite de Natal tinha sido vivida, sobrevivida, no vão duma escada da Sacadura Cabral, faminto e enregelado, chorando as mais amargas lágrimas do meu corpo e que, para não morrer de fome, algumas vezes vagamente me tinha prostituído no Cais do Sodré. Foi a Carmen Dolores que me arranjou trabalho no Aeroporto da Portela, e seria ela também, que muitos, muitos anos mais tarde, quando do lançamento do meu livro de poemas “Vagas”, em Mafra, telefonicamente, num programa da Rádio de Mafra, recitou esse mesmíssimo poema. Por coincidência ou por instinto feminino, ela escolhera o poema que eu mais gostaria de ter escutado na sua voz de grande declamadora nacional, que me fez verter mais algumas discretas lágrimas, por ter tido a grande honra de ter aquele meu muito especial poema recitado por essa mulher pela qual eu me tinha apaixonado quando, muito puto, a vira no ecrã do Cinema de Mafra, no “Amor de Perdição”, onde ela, linda e talentosa, me faria descobrir a idolatria.

O Paulo ficou muito surpreendido com o meu talento como declamador e propôs ao Rogério ele convidar-me para uma matinée de poesia que iam fazer no Monumental dentro de duas semanas. O Rogério concordou plenamente e pediu-me que eu decorasse três poemas meus para essa tarde. Que tinha finalmente criado o meu estilo pessoal, que desta vez o meu poema só parecia influenciado pelo que a vida me tinha ensinado!

”Cais do Sodré”
Olhai gente toda a gente olhai!
Não me fixem do soslaio discretamente…
Olhai-me bem nos olhos frente a frente
Para além de todas as regras e convenções
E digam-me se acharam qualquer resposta
Às vossas dúvidas às vossas suposições!
Não!
Os meus olhos vão fechados e vão desfeitos
E não há moiros na minha costa
Nem portas secretas nem dissimulados alçapões!
Procurai ler a minha história
No livro aberto da noite
Onde as letras sejam estrelas!
Tentai juntá-las e procurar compreendê-las!

Um dia
Pensei escrever a minha história
Com o fumo enrolado e negro dum vapor
Na linha do horizonte sobre o mar
Mas ao iniciar a história verifiquei
Que além d’amor amor muito amor
Eu nada mais tinha para contar.
Por isso nada contei!

Assim deixei o fumo subir
Deixei o barco seguir
E ao mundo as costas virei!

Encontro com a VIda



Os anos foram passando e eu sem nenhumas notícias do Rogério Paulo. Apenas o fui ver ao Cine-Teatro de Mafra no filme “A Garça e a Serpente”, com ele e a minha querida Carmen Dolores, que estava cada vez mais formosa.
Como o Rogério me tinha aconselhado de ir para Lisboa e tentar a minha sorte, uns anos depois fui para a Capital, trabalhar na Tentadora, ali a Campo de Ourique. Mais tarde para o Tique-Taque, aquele famoso Snack-Bar dos artistas, na avenida de Roma. Iam lá muitos artistas, mas nem sombras do Rogério Paulo.
Depois comecei a trabalhar na acabada de ser inaugurada RTP, para ver se conseguia ser actor, como o Rogério. Trabalhei com o Nuno Fradique todas as quartas feiras para o seu programa de variedades, todas as noites às 10 horas. Foram tempos excepcionais, quando conheci muita gente do cinema, do teatro, e da canção.
Conheci lá muitos actores e actrizes, mas o Rogério nunca apareceu.

Os anos continuaram a passar. Eu vivia então na Sacadura Cabral, numa pensão a que chamávamos, por graça, o “Gavião Branco”, ali mesmo ao pé do Tique-Taque. Eu passava a vida a correr para o Lumiar para fazer figurações para curtas-metragens da RTP. Um dia o Arthur Duarte propõe-me um pequeno papel no filme que andava a preparar, o “Encontro Com a Vida”. Fiquei radiante! O que eu queria era ser era actor! As Balas-Artes tinham deixado de ser o meu objectivo principal. Eu queria ser visto e apreciado e talvez um dia ser um grande e famoso actor português. Era talvez o início da minha grande carreira!

Dias depois recebo uma carta do Arthur Duarte no “Gavião Branco”, para eu estar no dia tal às oito da manhã numa garagem por detrás do edifício do Diário de Notícias. Chegada essa data, lá estava eu no local indicado para as filmagens. O Arthur Duarte explica-me o que eu tinha que fazer. Como nessa garagem havia uma bomba de gasolina, teria de ir encher o depósito dum carro qualquer, e que depois o actor principal do filme viria chamar-me à porta e perguntar-me se eu conhecia aquele senhor a quem eu tinha enchido o depósito do seu carro. A minha resposta seria que não conhecia esse senhor de parte alguma. E era tudo!
Depois fomos tomar o pequeno-almoço num Café ali perto e às nove da manhã voltámos a essa garagem para as filmagens. Tudo se passou como previsto. Fui encher o depósito do carro desse senhor e depois regresso ao interior da garagem. Então vem o actor principal do filme chamar-me e perguntar-me se eu conhecia aquele senhor. Quando vi o actor principal desse filme, nem queria acreditar!
Era o Rogério Paulo!

Ele, claro, como bom actor que era, fez o seu papel. Eu pensei que ele não me tinha reconhecido. Oito anos tinham passado desde essa rápida despedida no Café Estrela.

Ele fez o seu papel e eu fiz o meu, mas quando o Arthur Duarte grita:

- Corta!

Caímos nos braços um do outro!

– Tás a ver, Rogério? Eu bem te tinha dito que um dia faríamos um filme juntos!

Depois fomos ao Lumiar fazer a dobragem dos diálogos, pois que as filmagens tinham sido feito no exterior, com montes de mirones, e os diálogos não foram gravados directamente. Depois das dobragens feitas fomos almoçar à cantina da RTP. O Rogério mostrou abertamente a sua alegria de me rever e, sobretudo, de me ver finalmente, como ele tinha desejado, em Lisboa, a tentar a sorte como actor de cinema. Ele deu-me o seu número privado no Teatro Monumental, onde ele estava então a actuar. Que viesse um dia tomar um copo com ele.




Rogério Paulo
















Rogério Paulo foi seguramente o cadete que mais me marcou na minha já tão longa vida! Um dos muitos que não deram por mim apenas para satisfazerem a sua libido, mas muito mais pelas minhas qualidades artísticas e intelectuais. Ele viu-me desenhar e apreciou os meus desenhos. Ele viu-me escrever e gostou dos meus poemas. Ele viu-me triste, viu-me alegre, viu-me ausente, estava sempre receptivo. Algo se passou entre nós sem sabermos exactamente o que se passava. Qualquer coisa nos atraía reciprocamente, mas que nos levou algum tempo a descobrir o que era. Ele era um cliente como tantos outros mas algo de único emanava da sua pessoa que logo me prendeu. Claro, antes de mais nada, ele era um homem atraente e distinto. Depois ele reparou em mim talvez por eu ser um tanto especial. Como ele me disse um dia:

- Rogério, tu não és nem mafrense, nem português. Tu és Universal!

Ele viu em mim o Poeta, o Artista. Eu vi nele um cadete que não tinha nada a ver com os demais que me corriam atrás apenas para satisfazerem a sua luxúria . Era o artista que eu adivinhava nele que me seduziu. Eram as suas conversas profundas e filosóficas que imediatamente me conquistaram.

Todos os dias ele vinha ao Estrela tomar o seu café e fumar o seu cigarro. Ele não sabia que eu me chamava Rogério. Sabia que eu era o criado de mesa porque eu trajava um casaco branco. A primeira vez que nos vimos, para me chamar a atenção, ele bateu palmas. Acorri e, sorridente, muito amavelmente, ciciei-lhe:

- O meu nome é Rogério! Palmas só aprecio quando em cima dum palco!

Ele, primeiro ficou um pouco atónito, talvez ofendido, mas depois deu uma grande gargalhada e alegremente respondeu:

- Eu também me chamo Rogério! E, para mim, palmas, também só em cima dum palco. Como vê, já temos algumas afinidades. Podemos vir a ser bons amigos!

E fomos! Cada dia que passava algo de ainda muito indefinido nos aproximava. Pouco a pouco começámos a conhecermo-nos melhor. Além duma amizade sempre crescente, algo de ainda não muito bem compreendido nos aproximava irresistivelmente! Falávamos de tudo e de nada. Tudo parecia fazer sentido nas nossas conversas. Discutia-se literatura, poesia, Pessoa, Espanca, e muitos mais que agora não recordo. Trocávamos impressões acerca de filmes que tínhamos visto recentemente no Cine-Teatro de Mafra. A propósito de Cine-Teatro, uma vez perguntou-me se não havia algum Teatro em Mafra. Disse-lhe que sim, o Cine-Teatro, ali na Avenida Nova, mas que nunca vinham companhias de Teatro de Lisboa apresentar as suas obras nesse recinto. Ele achou isso lamentável! Que o Teatro era a Arte mais importante da vida, do mundo! Por essa razão falávamos horas e horas acerca de teatro. Ele contou-me que tinha feito o Conservatório em Lisboa e que andava a tentar a sorte no Dona Maria II, com a Amélia Rey-Colaço e o Robles Monteiro. Falei-lhe do meu gosto por leitura em voz alta para os outros alunos da minha classe, de dançar ao som de certas músicas na telefonia. Que uma vez, no Cacém, na grande sala onde havia uma grande telefonia no chão, tinha dançado o Bolero de Ravel do princípio até ao fim, para o resto da família. Que a minha prima Maria do Rosário me tinha dito que eu devia frequentar uma escola de dança e ser bailarino profissional! Que, sobretudo, amava a Arte em geral. Que a pintura também chamava por mim, e que por essa razão começara a fazer retratos a lápis de actores e actrizes. Que tinha também feito o retrato da Florbela Espanca, do Eça, do Camilo, do Júlio Dinis, e até do Cristo. Que o retrato que eu tinha feito do D. João V., que tinha executado quando eu tinha apenas 14 anos, estava então exposto no Convento, ali numa das paredes da Biblioteca Municipal! Assim como o retrato de sua esposa, Dona Mariana de Áustria. Rogério disse-me que também apreciava muito todas essas artes, mas que o que mais o obcecava era o Teatro. Para mim, a minha obsessão era o Cinema! Que estava então com 17 anos e a vida quase toda à minha frente. Que queria ser actor de cinema e, quem sabe, talvez um dia ir ao cinema ver um filme comigo como cabeça de cartaz. Melhor ainda, ser um dia uma grande vedeta de Hollywood. Ele protestou, que eu era demasiado ambicioso, que ele se contentava com o Teatro. Para ele, Hollywood era o Dona Maria II! Fazer cinema não lhe interessava verdadeiramente. Mas que, talvez - nunca se sabe - um dia fizesse Cinema:

- Olha, talvez um dia façamos um filme juntos!


Os dias em Mafra decorriam tranquilos como habitualmente. Pela minha parte, era o Estrela, o Correio, o Cine-Teatro, o Jardim do Cerco, saltos ao Piquenique de vez em quando, e pouco mais. Quanto ao Rogério Paulo era, penso, também uma rotina trivial: O Quartel, aprender a utilizar as armas, coisa que ele detestava; as manobras na Tapada de Mafra; o rancho do refeitório que ele abominava; as idas ao cinema; as idas ao Estrela e ao Cerco e, sobretudo, as nossas grandes discussões acerca dos cabeçalhos do Diário de Notícias; do dia a dia das suas obrigações militares; de algum livro que tivéssemos lido ou um filme que se tenha sido visto, e assim por diante. Mas o mais importante era falar de peças de teatro que ele tinha lido na Biblioteca Municipal. Que tinha visto o meu D. João V., que um dia eu seria um grande artista. Que pensasse mais seriamente em frequentar as Belas Artes do que o Conservatório! Que não desperdiçasse o meu grande talento para o desenho e, eventualmente, a pintura!

Os meus encontros com o Rogério Paulo tornaram-se numa quase droga quotidiana. Mal ele entrava a porta e se acomodava a uma mesa, eu vinha a correr com a sua bica, que era a única coisa que ele tomava. Nem tinha de bater palmas! Quando o via já sabia que era o seu cafezinho o mais importante. Depois de o servir, sentava-me à sua mesa e logo começavam os nossos intercâmbios de sonhos por realizar, desacordos com certas coisas que, politicamente, se passavam no país e, por vezes, para desanuviar um pouco a atmosfera, de certas mediocridades que infestavam a Sociedade. Punhamo-nos a imaginar o que seria ver o Papa a masturbar-se ou a Rainha de Inglaterra sentada na pia, de manhã ao levantar-se. Seria que ela, a primeira coisa que fazia, quando acordava, seria pôr a coroa na cabeça antes de enfiar as chinelos? A que ele ainda mais divertida julgou, foi quando lhe disse que se um dia nós fizéssemos apenas um filme filme juntos, que "mais valia ser raínha um dia do que Pia toda a vida!" Isto, por vezes, negligenciando os outros clientes que não me batiam as palmas, mas que gritavam o meu nome, o nosso nome, para obterem alguma atenção!

Gostávamos muito de ir ao cinema. Íamos normalmente às Quintas-Feiras, pois que ao Domingo havia muita gente e grande burburinho. Depois eu voltava para casa e ele para o quartel, caminhando vagarosamente para fazer render o tempo. Discutíamos o filme acabado de ser visto. Então dávamos largas à nossa imaginação e senso crítico. O que, quanto a nós, estava certo ou errado no filme, o trabalho dos actores, e o que nós teríamos feito se tivéssemos sido os intérpretes do filme. Claro que nós teríamos sempre feito melhor do que esses actores, mesmo quando se tratava de fabulosos artistas tais como Charles Laughton e Henry Fonda!

Os nossos encontros e as nossas divagações sobre milhentas coisas que formavam a vida de todos e obrigações de cada um, tornou-se, para mim, quase como uma necessidade diária. Quando ele ia dois ou três dias a Lisboa, era como se o Café não valesse a pena abrir nessas manhãs. Até mesmo a minha gula sexual parecia perder aquela importância obsessiva. O Rogério, sem querer nem disso se aperceber, indicou-me caminhos mais largos, mais luminosos, do que apenas ir para a cama com todo o bicho-careta com quem esbarrasse na rua. Que no meu corpo haviam braços e pernas, entre as quais algo que pendia e que muito frequentemente trepava por mim acima, mas que havia também umas tantas gramas de massa encefálica que era preciso tomar em consideração. Que além de sexo tínhamos ainda a nossa sensibilidade, uma alma, e dar largas ao nosso poder criativo! Inventar a vida, um futuro, uma carreira, a realização dum destino! Não sermos apenas vítimas dos nossos instintos quase canibais! Eram muito mais emocionantes os nossos passeios pelo Jardim do Cerco, falando dos nossos projectos, das nossas frustrações, dos nossos sonhos ainda por realizar, do que ir para a cama com estranhos, só por dá cá aquela palha! Por vezes, nos nossos passeios pelo Jardim do Cerco, ele pedia-me para nos sentarmos sobre um daqueles bancos de mármore e recitar-lhe alguns poemas meus, ali sentados à sombra das acácias. Como nessa altura andava a escrever sonetos muito influenciados pela Florbela Espanca, eu sabia-os de cor, e recitava-os com todo o meu fervor. Ele achava que, afinal de contas, à parte as Belas-Artes, eu devia também seriamente pensar no Conservatório e fazer teatro, pois que eu sabia dizer um poema já com o talento de um actor experimentado. Simplesmente, que procurasse criar o meu próprio estilo não me deixar influenciar por quaisquer outros poetas ou homens de letras. Esses passeios para mim foram como uma chapada de luz nas minhas trevas. Era ele quem me incutia a vontade de trabalhar, de planear, ousar, ambicionar coisas que me pareciam para mim não merecidas, mas que devíamos lutar para as conseguir, para as obter! Que era precisamente nisso que se encontrava o gosto pela vida e pela aventura. Aventurar-me a ir para a frente, encontrar um alvo no qual eu pudesse apontar as minhas setas.

Como tudo o que nos é importante, tudo um dia se acaba! Uma manhã o Rogério Paulo entra-me pelo Café adentro com a sua mala pendurada na mão, dizendo-me que deixava a tropa para continuar a sua carreira como actor. Que o Arthur Duarte o tinha contratado para o papel principal do filme “A Garça e a Serpente”, com a Teresa Casal, a Carmen Dolores, Raul de Carvalho, Alves da Cunha, João Vilaret, e tantos outros. Fiquei triste de o perder, mas satisfeito de o ver avançar na vida e realizar um outro, afinal, tão cobiçado sonho.

Ao despedir-se de mim desejou-me muita sorte, que deixasse Mafra, que viesse para Lisboa para frequentar as Belas-Artes e aproveitar o meu talento para a pintura. Que ingressasse no Conservatório, que aprendesse e mostrasse ao mundo todos os meus talentos que em mim eram apenas embriões, embriões que eu tinha a obrigação de dar à luz, de dar ao mundo! E que talvez um dia ainda nos encontraríamos juntos, sobre o palco, em Lisboa, semi-vergados, agradecendo frenéticos aplausos, e não palmas batidas nos Cafés a chamarem os criados de mesa. Isto foi em 1952, tinha eu 17 anos e ele 25!

Muitos anos mais tarde, para nossa grande surpresa, encontrar-nos-íamos lado a lado num filme de Arthur Duarte: “O Encontro com a Vida”! E esse título de filme foi-nos, dum certo modo, um augúrio, um presságio!

Só que a Morte, traiçoeiramente, nos espreitava por detrás do espesso cortinado desse imenso palco que se chama a efemeridade duma Vida!