vendredi 24 février 2012

Tudo em Pratos Limpos


Rogério do Carmo, neto de Alfredo Costa Cabral, fundador dos Inválidos do Comércio em Lisboa, e de Elmiro Ventura Carmo, 8 anos Regedor de Moçambique, nos tempos de Gungunhana, nasceu no Sobreiro, pequeno povoado entre Mafra e Ericeira, na Casa da Brasileira, no Sábado dia 2 de Fevereiro de 1935. Quando ele deu o seu primeiro grito, soaram as doze badaladas do meio-dia, no relógio da sala!
Aos 4 anos, já Rogério pintava pratos na olaria de José Franco, esse grande artista que fez conhecer a sua terra por esse mundo fóra !

Rogério viveu em Lisboa a partir de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, e viu erguer-se a Ponte Duarte Pacheco, ali na Rua do Arco do Carvalhão. Depois frequentou a Escola Primária de Campolide, e em 1944, com seus pais, mudaram-se para Mafra!

Em Mafra, Rogério frequentou a Escola Primária até à terceira-classe, que não acabou, pois que, aos 10 anos, teve de ir trabalhar para a Barreiralva, para evitar o contágio da tuberculose de seu irmão Alberto.

Pouco depois voltou para Mafra, onde trabalhou no Café Estrela, até aos 18 anos. Durante esses anos Rogério iniciou-se no desenho, e aos 14 anos fez um retrato do Rei D. João V., que se encontra actualmente no Museu Regional de Mafra, como Património do Estado. Iniciou-se igualmente na Poesia, e aos 12 anos já publicava poemas seus no jornal local!
Foi nessa vila que Rogério encontrou Rogério Paulo, quando ele lá fez a sua tropa, e ambos sonhavam em ser actores de cinema.

Seguiu para Lisboa em 1950. Aí trabalhou No Tique Taque, na Avenida de Roma, como barman, mais tarde no Aeroporto da Portela, como secretário, assim como pioneiro da RTP, como figurante e mais tarde como assistente de Nuno Fradique! Escreveu artigos para a Revista Turismo, e estudou Teatro com Berta de Bívar, do Dona Maria II, e iniciou uma carreira como actor, ao lado do seu amigo Rogério Paulo, no filme Encontro Com a Vida, de Arthur Duarte.

No dia 2 de Outubro de 1960, às seis e meia da manhã, apanhou um comboio em Santa Apolónia, que o levaria até Marselha. Em Marselha apanhou um Cargo Turco (Istambul) que o levou até ao Porto de Haifa, em Israel.

Em Israel viveu ano e meio no Kibbutz Beit Hashitá, onde aprendeu Hebraico e Inglês. Trabalhou na lavoura, e fez um filho. Filho que lhe foi recusado, pelo facto de Rogério não ser Judeu.

Depois instalou-se em Tel Aviv, e foi trabalhar para o Hod Hotel, em Herzelia. Mais tarde frequentou a Tadmor Hotel Training School, onde se diplomou como hoteleiro profissional. Com esse Diploma, Rogério trabalhou em hotéis de norte a sul do país, passando por Eilat, Jerusalem, Tibérias, Haifa, Nethania, e Zfat. Zfat, a cidade dos artistas plásticos, onde aprendeu pintura e posou para artistas.

Mais tarde foi para Jerusalém, onde trabalhou como recpcionista no President Hotel, se apaixonou pela música árabe, e aprendeu a bíblica história dessa cidade única !

Depois de uma temporada no Mar Morto, voltou de novo para o Hod Hotel em Herzelia. Foi então que, em Tel Aviv, teve dois julgamentos por estar ilegal no país. No cabeçalho dum dos jornais de Tel Aviv diziam que “Rogério do Carmo nasceu em Portugal por acaso, mas morrerá em Israel por sua própria decisão” ! Mesmo assim, teve de deixar esse país por ele tão amado, independentemente dos conflitos religiosos, e outros, que assolam o Médio Oriente !
Foi em 1965, que teve agrande surpresa de ter sido eleito Mr. Mar, o corpo masculino mais bonito desse ano !

No dia 2 de Outubro de 1966, apanhou um barco em Haifa, que o levaria até Nápoles. Em Itália, viveu 3 meses, visitando as grandes cidades, e trabalhando aqui e ali, como lava-pratos em restaurantes! Uma vez mais, foi expulso por estar ilegal.

Depois dum inesquecível dia passado em Veneza, apanhou um comboio que o levaria de regresso a Lisboa, passando pela Suissa e Espanha.

Em Lisboa, procurou trabalho num hotel, e foi o maior fracasso de toda a sua vida! O Chefe do Pessoal desse grande hotel de 4 estrelas, ali à Praça de Espanha, fê-lo assinar imediatamente um contracto como recepcionista, mas como todas as suas referências dos hotéis eram originárias de hotéis onde trabalhara eram de Israel, o Director Geral, que era de origem Árabe, recusou a sua admissão ! Indignado, visto que não podia viver nem Israel por não ser Judeu, e em Portugal não podia trabalhar num hotel em Lisboa por ser Judeu, apanhou um avião e foi até Londres, tentar a sua sorte, fugindo a absurdas descriminações!

Em Londres instalou-se em casa duns amigos e trabalhou num restaurante em Holbon, lavando pratos, até conseguir obter os seus papéis em Inglaterra para poder viver e trabalhar legalmente nesse país!

Logo que obteve os seus papéis foi trabalhar para o Berners Hotel, ali na Oxford Street, como recepcionista, onde, por rara casualidade, foi encontrar uma das suas melhores amigas que cursara com ele no Tadmor Hotel Trainning School, em Herzelia, a Hella, com a qual consolidou uma amizade muito especial e duradoira!

Muito rapidamente encontrou um pequeno apartamento em Chalk Farm, London W3, e juntou os trapos com um recente amigo Inglês, para partilhar a renda da casa.

Depois trabalhou no Hilton Park Lane, como "night auditor", onde teve como colega outro condiscípulo do Tadmor, que foi outra grande alegria. Mas como não gostava de trabalhar de noite, pediu transferência para o Hilton Leicester Square.
Um dia, porém, ao entrar na famosa Foyle's Book Shop para comprar um livro, esbarrou com um Israelita que lá trabalhava, e por lá ficou trabalhando como responsável do PBX, pelo facto de falar cinco línguas.

Porém um dia, quando da Guerra dos Seis Dias, o seu grande amigo Zé Melo, filho do proprietário da Tentadora e do Tique Taque, com quem residira em Jerusalém, fugindo à guerra, foi instalar-se em Paris. Inseparáveis como eram, a pedido do Melo, Rogério agarrou na trouxa e foi até essa cidade que, em Mafra, tanto o fizera sonhar quando ainda adolescente.

Em Paris, uma vez mais, sem papéis, teve de ir trabalhar "ao negro" numa Butique israelita, ali para as lados da Ópera, como responsável. Foram tempos duros, pois que o dinheiro não dava para renda do quarto na Avenida Mozart, assim como os comes e bebes num self-service ali por detrás do Olympia.

Mal obteve os papéis, pegou no seu sorriso e foi até ao Hotel Claridge, ali nos Campos Elísios, a ver se precisavam de pessoal.
Precisavam dum telefonista para fazer as noites. Como lhe davam quarto no hotel, um bom ordenado, e comida, aceitou. Para ele, trabalhar na hotelaria era capital!

Ai trabalhou dois anos, tendo sido, entretanto, promovido a Chefe do PBX, trabalhando de dia, mas as invejas das telefonistas que já lá trabalhavam há muitos anos foi tal, que Rogério viveu um verdadeiro inferno! O que lhe valeu foi ter alugado um belo apartamento com quintal, ali em Boulogne-Billancourt, mesmo à beira do Cena, onde começou a fazer jantaradas para os seus amigos e colegas, que deram que falar, por causa do barulho que muito incomodava a vizinhança!
Um dia teve a visita duma condiscípula no Tadmor Hotel Training School, que se instalou em sua casa, com o seu marido, por alguns dias.
Daí vieram muitas recordações do passado, e Meira, essa sua amiga, ao aperceber-se das saudades que o atormentavam, propôs-lhe ele voltar para Israel, e trabalhar na Discoteca do seu marido, em Eilat, ali à beira do Golfo de Akabá! Rogério não resistiu ! Despediu-se do Clarige, pegou na sua bagagem, e lá foi ele de volta ao país que tanto amava!

Uma vez mais, chegado a Eilat, recomeçou o seu calvário de não ter papéis e voltar a estar de novo ilegal em Israel. Acomodou-se no divã da sala da Meira, e lá começou novamente a fazer algo que ele detestava: Trabalhar de noite! Desesperado, como tinham aberto um novo hotel ali à beira Mar Vermelho, foi pedir trabalho como recepcionista, e foi imediatamente contratado. Rogério tinha o seu Diploma do Tadmor e todas as boas referências, mas o seu primeiro trabalho foi igualmente como "night-auditor", até haver uma vaga diurna na recepção.

O trabalho nocturno decorreu bem, pois que ele era um bom profissional, e muito rapidamente conquistou a amizade dos seus Chefes e colegas. Mas, uma bela manhã, David, o responsável da recepção, pondo-lhe uma mão sobre o ombro, com um vasto sorriso, anunciou-lhe que "a partir de amanhã, começas a trabalhar na recepção, como responsável de turno!"

A partir dessa data a vida recomeçou a sorrir-lhe generosamente. Ele trabalhava das sete da manhã até às 15 horas, e compartilhava o seu quarto ali mesmo à beira da piscina, com o seu colega e já então amigo, Jonathan. Isto era o ideal! Cama, mesa, e roupa lavada!

Todas as tardes ele ia para a praia, ali a dois passos, e começou a descobrir os famosos deslumbrantes fundos submarinos desse célebre golfo. Corais e fauna! Peixes de todas as cores e feitios! Mas um problema teria vir tudo perturbar! Uma das criadas de quarto apaixonou-se por ele, e como Rogério não correspondesse, ela atirou-se do seu terceiro andar onde ela trabalhava, e veio cair sobre a relva ali mesmo à beira da sua janela ! Felizmente, ela foi hospitalizada, e muito rapidamente voltou ao seu trabalho!

Uma tarde, porém, um dos novos hóspedes que chegara para passar um fim de semana nesse paraíso chamado Eilat, foi o seu grande amigo, o Miki, que fora igualmente seu condiscípulo no Tadmor.

Miki, depois de se ter instalado, voltou à recepção para o convidar a jantar fora nessa noite. Rogério aceitou, e durante essa jantarada, no restaurante Dag Ha’Kachol, Miki propos-lhe ele vir trabalhar com ele no Tel Avi Hilton, pois que o Hilton estava autorizado a empregar quem quer que fosse, mesmo sem papéis! E Rogério aceitou com ambas as mãos e de braços abertos!

No Hilton tudo decorreu às mil maravilhas. Rogério depressa fez amizades com todos os seus colegas, e fez de tal forma bem o seu trabalho que, em 1977 recebeu o Prémio do Melhor Recepcionista do Ano! Foi então que, alguns dos outros seus colegas começaram a manifestar um certo despeito, mas sem sérias consequências. Rapidamente ele os reconquistou!

Foi durante esse período da sua vida que Rogério, depois dum acidente de carro na Áustria, que lhe tivera sausado, sem que ele o siubesse, um descolamento de retina. Teve de ser hospitalizado para 8 horas duma das primeiras delicadas operações no mundo, à base de laser. Tudo correu bem, e Miki levou-o para sua casa em Herzelia, para uma convalescença de duas semanas.

Dessa operação nasceu um desenho que deu que falar por ter sido considerado pornográfico! O cirurgião manifestou desejo de possuir esse desenho, mas Rogério apenas lhe deu uma cópia. Cópia essa que, tempos mais tarde, quando ele voltou a visitar o Professor Lazar, (que o tinha operado) deu com essa cópia emoldurada, numa das paredes do seu gabinete!

Uma certa tarde um dos hóspedes do Hilton, sentado no Lóbi, que Rogério notara por ele ser atentamente observado, chegou-se à recepção e deu-lhe o seu cartão-de-visita, dizendo que ele era um desperdício por detrás daquele balcão, que ele devia estar sobre um palco! Que viesse para Paris, e ele faria dele uma grande vedeta!
Rogério olhou para esse cartão e viu que ele era um realizador de cinema francês! Os seus desejos compartilhados com Rogério Paulo, de fazer cinema, assaltaram-no e não resistiu à tentação de aceitar essa proposta e não desperdiçar uma vez mais na sua vida, uma outra grande oportunidade!

Quando apresentou a sua demissão ao Director Geral, -Mr. Florijne- este implorou-lhe que não deixasse o Hilton, pois que ele tinha tomado a decisão de fazer dele seu assistente! Mas Rogério já estava com um pé em Paris e outro em Tel Aviv! Mas o pé em Tel Aviv ganhou asas, e dentro de poucos dias Rogério apanhava um avião para Paris, carregando de novo os seus tarecos, agora cheio de novos projectos de realizar esse velho e querido sonho de sempre: Ser actor de cinema!

Chegado a Paris, foi directamente ao Paris Hilton, ao qual ele tinha pedido transferência de Tel Aviv, mas deram-lhe com a porta na cara, pois que a sua "carte de travaille" tinha expirado, e nesses tempos o Governo não autorizava mais aos estrangeiros, acesso ao trabalho ou a quaisquer outras regalias!

Uma certa manhã ele pegou no cartão de visitas do tal realizador de cinema que lhe tinha proposto trabalho como actor, e telefonou-lhe. Esse realizador convidou-o a ir vê-lo aos seus escritórios nos Campos Elíseos na manhã seguinte!

Nessa dita manhã ele aparece, e esse senhor convida-o a almoçar ali num grande restaurante, mesmo ao pé dos seus escritórios. Durante esse almoço ele propôs-lhe um papel no filme que estava em preparação, pedindo-lhe o seu número de telefone, para que ele o pudesse contactar quando tivesse uma data para ele comparecer nos Estúdios.

Enquanto Rogério aguardava essa chamada, instalou-se em casa dum amigo e, para não depender inteiramente desse amigo, começou a responder a anúncios nos jornais a pedirem "mulheres-a-dias"! Ele ia respondendo, e assim, embora que surpreendidos por ser um homem a responder, os clientes ficavam tão satisfeitos com o seu trabalho que, ali na Avenida de Versailles, em Paris, a sua boa reputação foi alastrando, e a porteira, quando ele passava, dava-lhe mais novos clientes residentes nesse mesmo prédio!
Ele trabalhava 4 horas de manhã em casa dum cliente, depois ia almoçar ao Les 3 Obus, na Porte de Saint Cloud. Depois trabalhava mais quatro horas da parte da tarde em casa doutro freguês, e como ganhava 10 francos por hora, ia vivendo menos mal mas, ao fim duns tantos meses a fatiga deitou-o abaixo fisicamente, e ele teve de aceitar uma proposta duma cliente que tinha um bebé de 9 meses, de trabalhar em casa dela o dia todo todos os dias, fazer as limpezas, as compras, e tomar conta do bebé, que se chamava Vanessa, mas que era mais conhecida por Vává!

Vanessa passaria a ser para ele, talvez, a maior história de amor de quase toda a sua vida! Ela cresceu nos seus braços desde a inocência dos seus nove meses, até à ternura dos seis anos e meio! Foi com ela que, como de costume, autodidacta, aprendeu a mudar-lhe as suas fraldas, dar-lhe os seus banhos, dar-lhe os seus biberões que ela glutonamente esvaziava na sua pequena boquinha cor-de-rosa. Mais tarde fazer-lhe as papinhas, assim como as grandes passeatas que davam pelos jardins do Trocadero!

Entretanto, uma certa quinta-feira de manhã, Rogério recebeu uma chamada do tal realizador de cinema, pedindo-lhe para ele estar no Café Les 3 Obus, na Porte de Saint Cloud, às 8 da manhã, sem falta, na próxima segunda-feira, para partirem para umas filmagens de exterior, para o seu filme !
Porém, no dia seguinte, esse realizador voltou a telefonar, perguntar-lhe se ele era Judeu ? Rogério, temendo o antisemitismo e muitas coisas mais, respondeu-lhe negativamente ! No dia seguinte, Shabbat, volta a ter outra chamada desse realizdor, dizendo-lhe que não havia trabalho para ele no seu filme, porque ele não era Judeu !

Rogério continuou o seu trabalho com a sua Vává, mas um dia, de regresso dum mês de férias em Israel, ao voltar, mal Vanessa o viu, saltou-lhe ao pescoço, apertando-o muito ternamente. Sua mãe, ciumenta, prega-lhe uma bofetada, dizendo-lhe que quando ela -a sua mãe- se ausentava por alguns dias, e que quando ela regressava a casa, ela nunca se lhe tinha atirado ao pescoço, em lágrimas!
Dolorosamente ferido, Rogério lembrou a essa mãe, que ela só estava com a sua filha das seis da tarde, quando voltava do trabalho, e que depois de lhe dar o seu jantarinho a punha na cama, e que ele estava com ela todos os dias das oito da manhã até às seis e meia da tarde! E saiu, batendo com a porta! E nunca mais voltou !
Rogério só voltaria a ver a sua querida Vává, doze anos mais tarde, quando ela o convidou para o jantar a celebrar os seus dezoito anos!
Depois, nunca mais voltou a ter notícias dela. Talvez que ela agora esteja casada e que precise de alguém para tomar conta do seu primeiro bebé...

Por casualidade, soube duma Igreja Irlandesa, ali na Avenida Hoche, junto ao Arco do Triunfo, onde dois padres procuravam alguém que lhes fizesse as limpezas e a comida!
Rogério foi aceite, e aí, a sua rotina foi pouco do seu agrado. Um dos padres era um encanto de pessoa, o outro era um carrasco que só pensava em fazer rolinhos de moedas das caixas das esmolas, e a enviá-lo ao Banco depositar as dádivas dos seus crentes! Valeu-lhe os padres gostarem dos seus cozinhados, e Rogério fazia as suas preces para que o Governo lhe desse os seus papéis, para ele poder voltar à sua profissão preferida: a Hotelaria!

Milagre, milagre, a vida continuou a sorrir-lhe! Ele vivia numa bela água frutada, ali na Rua do Dragão, em Saint Germain des Près, mesmo em frente do Les Deux Magots, quando lhe bateram à porta. Era o correio. Vinha com uma carta registada para ele assinar um recibo. Abriu a carta e, Santo Deus, era a sua "Carte de Travaille" renovada!

Imediatamente começou a procurar trabalho, na sua profissão. Foi a alguns hotéis pedir trabalho, e um deles contratou-o. Ficou felicíssimo! Enfim, ele voltava de novo a ser "alguém"! Mas o pior, foram as estúpidas injustiças dos fanatismos religiosos! Como era nesse hotel que a tripulação da El-Al vinha pernoitar, como era de esperar, ele falava-lhes em Hebraico! Ora o director do hotel, um distinto senhor de origem Libanesa, começou a embirrar com ele, e despediu-o!

Uma vez mais Rogério se sentiu só! Mas, uma tarde, ao procurar alguma música no seu rádio, esbarrou com uma estação onde uma voz masculina falava em Português. Ele ficou atento, e apercebeu-se que se tratava duma rádio portuguesa em Villejuif, nos subúrbios de Paris. Ao escutar essa voz a ler poemas em Português, sendo eles obras dos próprios ouvintes, enviou igualmente alguns dos seus poemas a essa rádio.

Mais tarde, para seu grande espanto, essa bela voz masculina começou a recitar os seus poemas, nesse programa que se chamava "O Cantinho dos Poetas"! Rogério telefonou-lhe para agradecer essa voz, e essa voz, a voz se Carlos Duarte, convidou-o a visitar essa rádio, pois que gostaria de o conhecer pessoalmente!

Uma certa manhã, dentro dos horários desse programa, Rogério aparece e apresenta-se ao Carlos Duarte! Carlos Duarte convida-o a sentar-se em frente dum microfone, e pediu-lhe para ser ele a recitar os seus próprios poemas. Imediatamente as chamadas telefónicas dos ouvintes começaram a chover, e a passarem à antena! O sucesso foi rápido, mas como Villejuif era um tanto longe, Rogério, já contaminado pelo bichinho da rádio, comprou o material necessário para fazer gravações em casa e, prontamente enviou uma cassete áudio ao Carlos Duarte. Sem demora, essa cassete começou a passar à antena do RádioClube Português!

Tempos depois, Carlos Duarte propôs-lhe uma longa entrevista, já um pouco como uma atracção. Ao ver que Rogério tinha imenso jeito para fazer rádio, Carlos propôs-lhe ele colaborar num programa nessa rádio. Esse programa chamava-se "Variante", na companhia da Marilu, uma bela loiraça.
Uma vez mais, nesse programa, quem passou a ser a grande vedeta foi ele, e Marilu, despeitada, levantou voo, deixando- a cargo desse programa!

Para grande surpresa de Rogério, rapidamente os seus poemas ditos por ele começaram a passar, além de no "Cantinho dos Poetas", também no programa "Discos Pedidos"!

Como Villejuif era um tanto longe, Rogério comprou um apartamento em Villejuif, mesmo em frente dessa rádio, e logo lhe foram propostos mais dois programas. Foram o "Despertar Musical", das sete da manhã até às dez horas; "Variante" todas as sextas feiras à tarde; e o "Encontro às Dez", todos os sábados, das dez à meia-noite.
Foi então que Rogério se apercebeu que ele tinha enfim jeito para alguma coisa! Isso recompensou-o largamente da grande frustração de ter desperdiçado a sua bela carreira como actor, em Lisboa, quando, na revista "A Plateia", lhe tinham augurado um grande futuro !



« As portas do cinema abrem-se para Rogério do Carmo em « Encontro Com a Vida » e, a avaliar pela sua idade, presença e conhecimentos, dificilmente se fecharão, se o Lumiar não desaparecer…

Na verdade, Rogério do Carmo, ou Rogério Francisco Costa Cabral Carmo, -de seu nome completo- pode vir a ser um excelente galã ! Tem 24 anos,1 metro e 70 de altura, olhos verdes, e cabelos castanhos. O seu papel em Encontro Com a Vida é pequeno, mas António Vilar e Virgílio Teixeira começaram assim…

(A PLATEIA – Setembro 1960





***

Depois, esta rotina de rádio entrou-lhe no sangue, e cada vez tinha mais trabalho. Porém, como era uma rádio pirata, sem a necessária autorização do Estado para emitir, um dia a Polícia veio bater-lhes à porta e a rádio foi encerrada!
Carlos Duarte não sobreviveria muito tempo, pois que era para a sua rádio que ele vivia!
Rogério e mais dois outros animadores, decidiram pedir autorização às Altas Autoridades, alegando que os portugueses eram, por Lei, a maior comunidade estrangeira em França!

E assim, Rádio Alfa se fez embrião…

Foi em sua casa, n°5, Rue du Dr. Paul Laurens, em Villejuif que, quase que numa masturbação colectiva, a Rádio Alfa foi fecundada!

Foram serões e serões à volta da sua mesa de casa de jantar, esvaziando cafeteiras de café e maços de cigarros, que alguns voluntários se reuniram, a redigir o Projecto para enviar às Altas Autoridades!

Tempos depois receberam a autorização de emitir e, eufóricos, pegaram nesse documento e foram celebrar a grande vitória a um restaurante português, algures em Paris.
O proprietário desse restaurante, ao aperceber-se que algo de bom nos tinha ocorrido, imiscui-se na conversa, e propôs-se como colaborador, ocupando-se dos Serviços Comerciais! Ora, Rogério era suficientemente lúcido para saber que isso era de importância capital, e aceitou !

Nessa noite, procuraram encontrar um nome a ser atribuído a essa nova rádio portuguesa em França, para a qual já tanto tinham trabalhado! Uns sugeriram "Rádio Comunidade", outros "Rádio Portugal", mas ninguém se contentava com essas sugestões.
Rogério, olhando o Projecto que tinha sido aprovado pelas Altas Autoridades, a que tinham dado o título de "Associação Luso-Francesa de Audiovisual", juntou as iniciais desse projecto e… assim nasceu ALFA !

Depois começaram os problemas de arranjar material e local para as instalações dessa auspiciosa rádio. Rogério propôs a sua casa e o seu material, para começar, e depois a ver onde seriam as instalações definitivas, mas o director Comercial, muito ambicioso, alugou um vasto espaço numa torre em Paris 13 -a Torre Atlas- e Rogério começou a transportar, aos poucos, de sua casa, por Metro, o seu material e todos os seus discos.

E assim, no dia 5 de Outubro de 1987, às 17 horas em ponto, Rádio Alfa vai para o ar, tendo sido a voz de Rogério do Carmo a Voz inaugural ! A primeira cantiga a ser passada na Alfa, nessa tarde, foi o Inch’Allah, na voz de Amália Rodrigues !

A Rádio Alfa foi um sucesso! O seu programa "Bica e Copo d'Água" até chegou a ser falado na imprensa francesa! Daí alguns problemas de invejazinhas caseiras, mas durante oito anos foi para o ar das 13 às 15 horas, tendo tido como convidados grandes nomes das Artes francesas e portuguesas. Entrevistou Amália Rodrigues 8 vezes e, uma vez, quando ele recebeu Tokiko Kato (uma cantora japonesa) quando ele lhe perguntou se a Amália era realmente muito popular no Japão, Tokiko respondeu-lhe cantando à capela, batendo com as suas mãos na mesa, o Barco Negro, em Japonês!

As origens do título de Bica e Copo d'Água foram curiosas. Rogério tinha ido passar uns dias a Benfica, em Lisboa, e, estando tomando um café ali numa pastelaria na Avenida do Uruguai, achou graça aos criados de mesa virem ao balcão e pedirem: sai um galão e um queque; sai um chá e uma torrada ; sai um café e um bagaço!
Como andava à procura dum nome para a sua emissão na Alfa, decidiu chamar ao seu programa o próximo pedido dos criados de mesa! Ora o próximo foi "sai uma bica e um copo d'água"!

Rogério teve a honra de ter tido a voz de Maria João Pires a pedir:"Olhe, se faz favor! Uma bica e copo de água",e a da Amália para dizer, ao início do programa: "este programa é uma realização e apresentação de Rogério do Carmo!"
Curiosamente, quando ele pediu à Amália para fazer esta gravação, ela disse que, em vez de dizer Bica e Copo d'água, diria "programa", pois que assim ele poderia utilizar a mesma gravação em outros programas seus, com qualquer outro título!

Tudo correu bem durante 8 anos, a despeito das invejas, mas, um dia, quando Rogério regressou dumas férias em Israel, a Directora de Programação, (que nem sequer fazia parte do projecto original dessa rádio) disse-lhe friamente que Bica e Copo de Água já tinha barbas, e propôs-lhe um programa de duas horas, da meia-noite às duas da manhã. Embora o programa que essa senhora apresentava todos os dias, e que nunca tinha sido falado na imprensa francesa, continuasse com os mesmos horários! Mas, mesmo assim da meia-noite às duas da manhã o programa que ele ironicamente intitulou "E Tudo o Vento Levou", divulgando a música clássica, foi de tal forma um sucesso, que os ouvintes começaram a pedir à direcção da rádio, para modificarem os horários, pois que eles tinham que se levantar cedo para irem para os seus empregos !

Então aconteceu a grande tragédia! O Director Geral e o Director dos Serviços Comerciais venderam a Alfa a um senhor muito abonado, que transferiu a Alfa para cascos de rolha! Rogério passou então a apanhar um autocarro todas as manhãs para fazer o seu trabalho, mas como essas instalações eram mesmo à beira dumas saibreiras, e a fina poeira entrava pelas janelas, isso viria a causar um problema sério de polipose nasal e Rogério teve de abandonar o seu trabalho, e a sua rádio, essa que lhe saíra do ventre, de algum modo, um filho seu!

Os anos que se seguiram foram um calvário para Rogério do Carmo! Depressões nervosas acompanhadas de tanta coisa mais! Rogério recebeu uma generosa indemnização do actual proprietário da Alfa, mas um filho não se vende!

Rogério esteve várias vezes à beira do suicídio, mas a vida continuava a fazer-lhe sinais! Doze anos depois, uma certa bela manhã, Rogério decidiu ir matar saudades da sua Alfa e foi até lá para lhe fazer uma fotografia da fachada mas, à porta, estava um dos seus antigos colegas a fumar o seu cigarro, o qual, ao vê-lo, o convida a subir até aos estúdios, o que ele acedeu sem se fazer rogar!
Nesse dia foi recebido por todos, de braços abertos! Até o Director da rádio lhe propôs ele voltar, para fazer um programa semanal de duas horas! Mas ele vivia a 30 quilómetros, e por causa dos engarrafamentos, ser-lhe-ia muito difícil! O Director prometeu-lhe procurar um apartamento ali perto da rádio mas, até à data, nada! Entretanto, um colega que preferiu manter o seu afastamento, foi envenenar o Director contra o Rogério, e Rogério voltou a arrastar-se nas valetas!

Tempos mais tarde Rogério foi convidado para uma grande jantarada, a celebrar o vigésimo quarto aniversário da Alfa. Nessa noite houve fados e Rogério adorou ter-se sentido novamente português! Cantou o Carlos do Carmo e o Jorge Fernando. Rogério aproveitou a oportunidade para perguntar ao Jorge Fernando, (que tinha feito as músicas para as últimas gravações da Amália) se ela tinha gravado os seus dois poemas ?
Mas Jorge não estava certo, pois que nesse dia a Amália tinha gravado 30 poemas duma assentada ! Mas que se a Amália lhe tinha prometido, Amália cumpria sempre as suas promessas!

Nessa mesma noite Rogério foi abordado por uma senhora que fazia um programa de poesia todas as sextas-feiras, e como ela apreciava muito a voz do Rogério e a sua técnica declamatória, propôs-lhe ele participar nessa sua emissão todas as sextas feiras. Rogério aceitou com todos os dedos de ambas as mãos!

Rogério retomou o seu gosto pela rádio e pela vida, e logo começou à procura de apartamento perto da Alfa, mas todas as Agências apenas tinham casas e apartamentos para vender! Mais tarde ele ouviu nos noticiários da televisão que tinham havido acordos entre os Bancos e as Agências Imobiliárias, para as Agencias não alugarem e apenas venderem, para, assim, obrigarem as pessoas a irem aos seus Bancos pedir empréstimos, e pagarem-lhes os devidos interesses mensais! Tudo manobras de capitalistas! Claro que Rogério foi falar com o Director do seu Banco, mas visto a sua idade avançada, foi-lhe recusado empréstimo!

Rogério continuou a sua rotina de sempre, não faltando nenhuma sexta-feira na rádio, para participar nesse programa de Poesia. Os ouvintes começaram a apreciar o trabalho dele, a despeito das longas viagens causadas pelos engarrafamentos! Para Rogério, ir à Alfa uma vez por semana era como ir às putas! Na sua idade, uma vez por semana bastava-lhe!

Mas como na vida nada dura para sempre, no dia 8 de Junho de 2011, às três e meia da tarde, enquanto Rogério aguardava a sua vez para atravessar a rua, uma mota passou-lhe por cima, e Rogério esteve 10 dias hospitalizado, sob morfina, para a aguentar as dores! Tinham-lhe partido uma costela, ruptura dum rim, e escaveirado um cotovelo! Como ele tinha perdido os sentidos, não foi fácil recuperar completamente dos estragos físicos e mentais, pois que esteve paralizado da perna esquerda e do braço direito, algumas semanas! Foi um trauma para o resto da sua vida!
Desde então Rogério luta desesperadamente por uma modesta sobrevivência sem grandes projectos nem ambições!

Agora Rogério procura recuperar e sobreviver mais uns tempos, até ver onde param as modas!
Se, em Portugal, para se ser reconhecido como Poeta, é preciso deixar este mundo, Rogério aguarda a sua vez para ver se isso é apenas uma lenda, ou uma injusta realidade! Foi, no entanto, o que aconteceu a Fernando Pessoa e tantos mais!

Presentemente, Rogério vai-se agarrando às suas sextas-feiras na Alfa, e às suas escritas, como bóia de salvação. Tendo o Facebook muito ajudado para ele não se sentir totalmente só, nessa bicha medonha para um enterro simplório e sem flores. E, sobretudo, sem alguém que lhe tenha vindo perguntar qual a sua última vontade!

Se alguém alguma vez o fizesse, estou certo, a sua última vontade seria voltar atrás no tempo, e aceitar a proposta que um certo director dum pequeno teatro de Paris lhe fizera, quando, numa rua, ao pedir-lhe um cigarro, e achando-o pouco banal, lhe perguntou donde era ele, e o que fazia em Paris!? E ele, Rogério do Carmo, como seu velho hábito de sempre, contou-lhe a sua vida toda inteira!
Impressionado, esse inesperado desconhecido, propôs-lhe ele subir ao palco do seu teatro e, ambos sentados cada qual na sua cadeira, ele voltar a fazer-lhe a mesma pergunta, e ele, Rogério do Carmo, voltar a contar-lhe toda a sua vida de ponta a ponta!

Mas Rogério recusou, pois que algumas passagens da sua dita vida são, seguramente, para maiores de cem anos e, sobretudo, sem as retrógadas barreiras de outros tempos, quando, ser o que o que realmente somos, seria, quase duma forma geral, considerado imoral e vergonhoso!

Francisco Costa

samedi 11 février 2012

Entrevista concedida a um jornal português em Paris

O meu destino foi traçado por mão esquerda


Foi em Paris que editei o meu primeiro livro de poemas -SOMBRAS- que, em 1991 viria a ser agraciado pelo Prémio Internacional de Poesia Florbela Espanca!

A Plateia


Esta foi a referância que a revista Plateia fez à minha particippação no filme Encontro Com a Vida.

Encontro Com a Vida


Se eu, como pioneiro da RTP, depois de ter começado uma carreira como actor de cinema, ao lado de Rogério Paulo, no filme de Arthur Duarte "Encontro Com a Vida", não tivesse deixado Portugal, hoje seria provavelmente bem conhecido, pois que o Arthur Duarte voltou a contactar-me para fazer outro filme com ele, mas o resto do mundo chamava por mim, e eu fui por esse mundo fora!

D. João V.


Até um retrato de D. João V. que fiz em Mafra, quando eu tinha 14 anos, que esteve exposto numa das paredes da Biblioteca Municipal no Convento durante 42 anos, se encontra agora encafuado numa gaveta, desde que o Director da Biblioteca, o senhor Assunção, deixou este mundo!

O meu D. João V. também incomodou alguém que, provavelmente, nem sequer dois riscos feitos a preceito é capaz de fazer!

Ser Conhecido em Portugal


Resta-me agora continuar a minha penitência, no sentido de tentar ser conhecido em Portugal, pois que cada vez que tento dar nas vistas levo sempre com a porta na tromba! Como quando daquela entrevista que concedi à RDP terem recusado passar um poema meu dito por mim, o "A Pressa", num singular casamento da Poesia com a Housemusic! Assim como, todos os Editores que contactei, afim de publicar o meu livro de memórias "Tudo em Pratos Limpos", me dizerem que isso não interessa ninguém em Portugal, porque eu não ser "conhecido"! Ora se para se ser conhecido em Portugal é necessário que saibam que eu existo e que sou dono dum vasto espólio!

Por obra e graça do Espírito Santo, a Biblioteca Municipal de Cascais deram por mim e fizeram um exposição dos meus desenhos! Não sei se esse evento venha a ser o fim do princípio ou o princípio do Fim!

O Acidente


Tudo na vida tem um começo e tem um fim. A vida é uma longa ou curta peça de Teatro. Umas vezes comédia, outras vezes dum acerbo dramatismo, mas um dia o pano terá que cair! Foi o que me ia acontecendo no dia 8 de Junho de 2011, às 15.30, em Meudon, quando fui fazer as compras para o jantar. Antes de atravessar a rua, na passarela, nos semáforos, aguardei que o senhor encarnado se fizesse verde, para eu atravessar a rua sem correr grandes riscos, mas, repentinamente, senti algo que esbarrou com a minha perna direita e, o que quer que fosse, foi tão rápido, que nunca saberei ao certo o que realmente se passou! Na minha memória, depois do tal "senhor encarnado" nos semáforos, a imagem seguinte que retive, foi eu estar numa maca, dentro duma ambulância, e ao abrir os olhos vi o belo rosto dum jovem bombeiro que tentava reanimar-me. Foi ele que me explicou o que se tinha passado:
Eu tinha sido colhido por uma mota, caído de costas, aberto o cotovelo direito, e uma fractura do crânio.
Depois dos primeiros socorros fui conduzido ao Hospital Becler, em Clamar, tendo antes telefonado ao Pat para que ele me viesse buscar.

Durante o trajecto, continuando a prestar-me os primeiros socorros, pondo pensos no meu cotovelo, cabeça e perna direita seriamente esfacelada, esse zeloso bombeiro explicou-me o que se tinha passado. Eu tinha sido colhido por uma mota, mas o motorista tinha seguido viajem sem me ter prestado os tais primeiros socorros. Que tinha sido um transeunte que tinha chamado os bombeiros, e que eu estava a ser conduzido ao hospital para mais eficazes hospitalares atenções !

Chegado ao hospital, prisioneiro da minha maca, nas Urgências, aguardei a minha vez de ser atendido.
Entretanto Pat tinha chegado e, colado à minha maca, muito preocupado, indagava acerca do que se tinha passado. Expliquei-lhe o melhor que pude, segundo o pouco que eu recordava. Fomos interrompidos por um enfermeiro que me veio buscar para me levar a uma dependência onde três médicos me aguardavam impávidos. Uma das médicas começou então as suas investigações. Cuidadosamente pensou as largas chagas na minha perna direita, pensou o meu crânio, e pôs-me dois pontos de sutura no meu cotovelo direito! Isto feito, informou-me que eu teria de esperar oito horas, antes de poder fazer um scanner para mais completas verificações!

Em baixo, numa espaçosa dependência muito escura, divida em pequenos espaços por uma cortina, vários acidentados aguardavam nas suas macas o momento de serem chamados para serem observados pelo scanner. Durante oito horas ali permaneci sem qualquer assistência, uma bebida, um afago, agredido pelos gritos de dor dos outros acidentados, meus vizinhos. Durante essas infinitas oito horas senti-me como um objecto ali posto de parte, não como um ser humano carente de atenções! Senti-me lixo à espera de ser despejado!

Às tantas, aparece-me, como caído do céu aos trambolhões, uma criatura doutros planetas que, sem me dizer uma palavra, me empurra corredores fora, e me abandona, sem qualquer informação, a um canto dum dos muitos corredores que tínhamos atravessado! Aguardei ali, possuído duma angústia asfixiante, até que outro marciano me veio buscar e me empurrou para dentro da dependência onde se encontrava o scanner, onde, igualmente, outro marciano rindo às gargalhadas duma anedota que o seu assistente lhe tinha contado, me enfia no scanner sem me dirigir uma palavra! Fiquei chocado com aquele tipo de serviços hospitalares onde os pacientes eram coisas e não pessoas!

Depois do scanner reconduziram-me ao meu buraco escuro e, uma vez mais, sem uma palavra, um sorriso, fui novamente abandonado sozinho com a minha fome, a minha sede, o imenso desejo de acender um cigarro, e, sobretudo, o pavor de ter sido ali esquecido para todo o sempre!
Horas depois, um médico, infinitamente humano e atencioso, me veio falar, perguntando como me sentia eu, que o scanner não tinha acusado nada de grave, e que eu podia ir para casa. Dito isto ele entrega-me um relatório dos meis primeiros socorros, desejando-me um bom restabelecimento. E que se eu tivesse dores durante a noite, tomasse uma grama de Doliprane todas as oito horas. Com um alívio imenso telefonei ao Pat, pedindo-lhe que ele me viesse buscar logo que pudesse. Era quase uma da madrugada!

Foi quase correndo que subi as escadas que levariam à entrada das Urgências, onde eu poderia enfim respirar um pouco de ar menos bafiento e fumar um cigarro! Chegado lá fora apercebi-me que eu não tinha cigarros comigo. Ansiosamente aguardei a chegada do Pat para que ele me fornecesse um desses diabólicos cigarros que matam, mas que, quando eu era miúdo, nos gigantescos cartazes por toda a parte em Lisboa, um belo mancebo sobre um imponente cavalo, apertando um belo cigarro entre os grossos lábios, ostentava em grandes letras: « Para ser Homem tem de fumar Marlboro ! »
Mal Pat chegou pedi-lhe um cigarro, mas ele também não os tinha com ele. Como ali à porta vários jovens médicos praticantes fumavam, perguntei se algum deles me podia dar um cigarro, mas fui totalmente ignorado. Continuava a ser uma coisa, não um dos seus semelhantes!

A viagem de regresso a casa foi rápida, e mal subi os degraus que me separavam dos meus malditos cigarros, cai-lhes desalmadamente em cima, enquanto Pat preparou um bom café e umas sandes.
Depois dumas trocas de palavras e de cigarros, fomo-nos deitar. Cada qual na sua cama, no seu quarto, nas suas dúvidas e angústias!

Mal afundei a face na minha almofada, rapidamente mergulhei no mais profundo dos sonos. Não sei se tive sonhos ou pesadelos, sei apenas que, ao meio da noite, fui acordado por horrorosas dores no corpo todo! Dores diabólicas que nunca suspeitara podessem existir! Nesse momento compreendi por que razão o médico me tinha prescrito Dolipran, uma grama todas as oito horas! Levantei-me e alvoroçadamente tomei esse tal remédio! Momentos depois, as dores abrandaram e voltei a adormecer.
Durante catorze dias e catorze noites fui avassalado por essas dores escandalosas! Por sorte, o tratamento ajudou-me a suportar essas dores insuportáveis! Ao fim desses catorze dias, como prescrito, fui ao médico para ele me retirar os pontos do meu cotovelo, e pensei que o caso tinha ficado arrumado mas, muito pelo contrário, dores horrorosas começaram a roer-me de novo. Era domingo e quase meia-noite, e como as dores eram intoleráveis, chamei um médico de guarda, aqueles que nos socorrem quando toda a gente dorme ou foi de férias.
Esse médico, depois de lhe ter falado no meu acidente, explicou-me que as dores no corpo eram dores ósseas, que passariam com o tempo, mas, não sabendo o que fazer, chamou uma ambulância e reenviou-me novamente para esse pestilento hospital donde, duas semanas atrás, eu tinha tão alegremente saído!
Chegado às Urgências desse temido hospital, novamente me instalaram na mesma maca, nessa tenebrosa dependência onde reinavam os gemidos dos negligenciados pacientes, e a total indiferença dos enfermeiros.
Momentos depois apareceu um dos tais enfermeiros que se limitam a empurrar as macas, e acabei novamente enfiado num scanner. Depois duma rápida verificação, informaram-me que estava tudo muito bem, e devolveram-me ao breu da dependência das Urgências, sempre prisioneiro da minha maca, sem qualquer assistência!

Durante três dias e três noites aí fiquei abandonado às minhas dores, com apenas, quando eu pedia socorro, dois comprimidos para acalmar as dores. Ao fim desses três dias, depois de ter feito mais três scanners, queixei-me, que, ao menos, podiam pôr-me numa cama, num dos quartos do hospital!
Momentos depois transferiram-me para um quarto no quinto andar, partilhando com outro doente. Mas, para cúmulo da ineficácia desse hospital, o outro doente era um atrasado mental que quando ia à retrete defecava pelo chão, e limpava as mãos às paredes!
Chamei uma enfermeira e pedi-lhe que me enviasse alguém de responsável que me resolvesse esse problema! Momentos depois um médico veio visitar-me e anunciar-me que eu tinha um problema num rim e que eles não tinham serviço de Nefrologia, e que me iam transferir para um hospital em Villejuif. Eu conhecia esse hospital, quando morei nessa Vila, e que era tão pestilento como aquele onde então me encontrava. Recusei essa transferência ! Sugeriram-me então uma Clínica em Meudon Laforet, que eu bem conhecia e apreciava. Concordei, elevando as mãos aos céus!

Em boa hora cheguei a essa clínica em Meudon! Um sítio limpo e arejado, e as enfermeiras atentas constantemente aos cuidados com os seus doentes! Durante dez dias, sob morfina para aguentar as dores, fui lavado e alimentado com carinho! Não aprecio hospitais nem de clínicas, mas esta merece todo o meu respeito e admiração! Bem hajam todos aqueles que se ocupam de doentes que, para eles, não são doentes nem clientes, são pessoas!

Bem hajam todos aqueles que vieram a este mundo para fazerem o bem!

dimanche 14 mars 2010

O Regresso ao meu Antro Amado


Depois da grande surpresa de voltar a ver aquelas paredes onde fora tão feliz no passado, ainda mais surpreendido fiquei quando me levaram ao escritório do Fernando Lopes, o filho do proprietário, que era então o director da Alfa, me ter igualmente recebido de braços abertos e me ter proposto eu voltar às minhas funções de animador, com um programa diário de duas horas. Talvez mesmo, quem sabe? o regresso do a “Bica e Copo de Água”, como nos velhos tempos de outrora!

Para começar, como Meudon é bastante longe de Créteil - onde a Alfa se instalara - falou-se de eu me mudar para Créteil. Mas quando informei o Fernando Lopes das dificuldades de alugar casa, devido a esses indecentes acordos entre os Bancos e as Agências Imobiliárias, para que os alojamentos fossem vendidos e não alugados, para assim obrigar os interessados a recorrerem aos empréstimos feitos pelos Bancos, ele pediu-me para eu ir à Câmara Municipal me inscrever para obter um apartamento e que, depois, lhe trouxesse o número de meu dossier, pois que ele era muito amigo do Presidente da Câmara, e que lhe pediria para ele interceder a meu favor.

Entretanto, enquanto aguardava os resultados dos esforços do Presidente da Câmara, foi-me proposto pela Ana Bela, (que todas as sextas-feiras falava de Poesia) eu participar no seu programa. Aceitei e imediatamente comecei a sentir-me de novo de volta a casa! O Filho Pródigo que, pouco a pouco, foi destituído de quaisquer oportunidades de voltar a ser, como dantes, o menino-prodígio!

No programa “Alameda dos Poetas”, da Ana Bela Cunha, todas as sextas-feiras das 10 ao meio-dia, tudo decorreu bem! A minha voz e a maneira de ler um texto começou a ser amplamente apreciada pelo auditório, e todas as semanas se falava dum poeta português. Sua biografia e obra. Os ouvintes que gostavam de participar telefonicamente, todos se mostraram entusiastas com a novidade! Eles recitavam poemas do Poeta do Dia ou poemas de sua própria autoria e, por vezes, para minha grande surpresa, poemas meus dos meus dois livros, Sombras ou Vagas!

A busca de apartamento em Créteil foi continuada, mas sempre sem qualquer sucesso! Só havia apartamentos à venda e, no Banco, visto a minha avançada idade, um empréstimo foi-me categoricamente recusado! Do Fernando Lopes ou do Presidente da Câmara, nunca mais obtive qualquer resultado, positivo ou negativo! Parece que, segundo um boato, um dos colaboradores ou responsáveis da Alfa, fora dizer ao Fernando Lopes que “o Rogério do Carmo já deu o que tinha a dar”! E desde ai tudo ficou a nadar em seco! Naufragado em fingimentos!

Uma vez mais, como ao longo de toda a minha vida, as invejas deram à luz a não-realização dos meus projectos e sonhos demasiado altaneiros! A minha presença, como várias vezes me aconteceu na minha vida profissional, uma vez mais incomodou os que me rodeavam, e assim, uma vez mais me cortaram as asas, para que eu não voasse mais alto do que aqueles que me temiam pelo meu profissionalismo!

Frustrado, decidi contentar-me com as minhas inglórias sextas-feiras apenas! Renunciei aos meus mais caros anseios e desejos de voltar a ser quem tivera sido nessa rádio!

Para preencher um pouco o meu tempo e calar a raiva que de mim se apoderara, continuei a escrever e a publicar no Facebook, a tentar lembrar a todos aqueles que pudessem eventualmente vir a ler-me, que eu ainda, a despeito de todas as manobras para me deitarem abaixo, continuava de pé! Pois que as árvores morrem de pé, a despeito de todos os mais inclementes vendavais!

jeudi 4 mars 2010

Saudades imensas do microfone



Depois desta abominável agressão da Ameline e indiferença do Hospital Quinze-Vingts, da desprezível apatia da Justiça, dos Ministérios e Imprensa, reduzido a quase nada depois de tantas raspagens inúteis para mim, mas muito rentáveis para os cirurgiões que apenas se preocupam em preencher camas nas clínicas onde operam, e dos "dépassements d'Honoraires" de que são peritos, para aumentar os seus ganhos diários sem demasiado mexerem o cu, resolvi pôr pedra no assunto e viver o que me restava de existência o melhor possível, tomando em consideração que eu estava reduzido aos restos mortais de quem eu tinha até então sido ! Aprendi a viver com os meus insultos à dignidade masculina, como as ejaculações retrógradas e ameaças de impotência, devido àquela raspagem da próstata que me resolvera problemas físicos e criado novos e graves problemas psicológicos ! Continuar a minha vida rindo de mim e daqueles que de mim se riem! E é precisamente o que foi a minha vida até ao dia em que, exausto de não ser mais ninguém, farto de viver num apartamento que me custava os olhos da cara, decidimos mudar de casa, pois que cada vez que mudo de casa eu principio uma nova vida. Novos projectos, novas perspectivas, novas crenças no futuro!

Assim, uma bela manhã, fomos até Créteil em busca dum apartamento. Entretanto, depois dos repugnantes acordos entre os Bancos e as Agência Imobiliárias, essas nojentas manigâncias dos Bancos para encherem ainda mais as suas caixas com as economias dos outros, de obrigar as pessoas a comprarem casa, e assim nos vermos forçadas a pedir empréstimos a esses elos dessa nefasta corrente que nos enforca ! As Agências concordaram em não alugar casas, e apenas terem a propor casas para vender. Negócios abjectos entre monopolizadores que devoram tudo à sua passagem, sem dó nem piedade pelos outros! Apenas os lucros eram, foram, e sempre serão, de maior importância! Uma espécie de obsessão, de grave doença mortal, pela eterna ambição de ficarem todos os dias um pouco ou, de preferência, muito mais ricos e poderosos, para se vingarem de certas humilhações sofridas num já distante passado, do qual, agora, nós não temos culpa alguma!

A caminho de Créteil, em busca de casa, repentinamente me veio à ideia de dar um salto a Valenton, onde a Alfa se encontra instalada! Uma feroz saudade dos meus belos tempos frente a um microfone se apoderou de mim! Esses tempos em que eu, ao aperceber-me que, por detrás desse microfone se encontravam milhares de pessoas à escuta, que eu entrava em casa deles para lhes fazer companhia, estar com eles, trazer-lhes a minha grande vontade de os relembrar que o Português era a nossa língua materna, e acabar com essas misturas de Português e Francês, que resultou nessa extravagante linguagem que crismaram de "Imigrês"!

Depois de termos visitado todas as Agências Imobiliárias da cidade, chegámos à conclusão que era tempo perdido. Só casas e apartamentos à venda! Nada de aluguer! De regresso a casa, passámos por Valenton. Não resisti à tentação de ir embebedar os olhos naquela imensa fachada da minha Alfa. Ao mesmo tempo, talvez também fazer uma fotografia como recordação. Pat arrumou o carro dentro do "parking" da Alfa e eu saí do carro para, muito discretamente, fazer uma foto ou duas. Sobretudo eu não queria que ninguém notasse que eu tinha ali voltado sem ter sido convidado. Por acaso, o Paulo, um dos meus antigos colegas, estava a fumar um cigarro à porta, reconheceu-me ! Fez-me sinal para que eu me aproximasse. Hesitei, mas ele tanto insistiu que não resisti ao desejo enorme de lhe dar um grande abraço e talvez, discretamente, acariciar aquela parede contra a qual ele se apoiava. Depois desse curto abraço Paulo convidou-me a subir para me mostrar os progressos tecnológicos que a radio tinha sofrido e, ao mesmo tempo, dar um abraço à "malta"! Como uma donzela virgem com medo de ser violada, resisti, mas bem no fundo eu estava morto por subir e perder de novo a virginade e matar saudades de tudo e de todos.

Galguei as escadas a quatro e quatro, tão ansioso estava de rever os meus domínios de outros tempos! De rever a malta toda! Logo à entrada verifiquei que tinham havido muitas modificações! A pequena dependência que tinha sido o meu escritório com a Cássia, era agora uma pequena cabine de som, e a grande dependência mesmo ao lado, que outrora fora o espaçoso escritório da doutora, era agora um estúdio com uma grande mesa oval com muitos microfones à volta, para quando, deduzi, tivessem muitos convidados a fazerem algum muito importante debate! A primeira pessoa que procurei ver, foi o Fernando! E ele lá estava no seu pequeno mundo de computadores. Ao ver-me ele abriu-me os braços, e era evidente a alegria que ele sentiu ao ver-me, depois de 12 anos de separação. O Artur, ao topar-me, deu-me um abraço tão apertado que quase me quebrou o esqueleto! Depois vieram caras novas que nunca tinha visto antes!

mercredi 17 février 2010

Uma mulher foi-me ao olho!



Quando ele - esse belo jovem ginecologista - saiu do gabinete da Ameline, veio despedir-se de mim, dizendo-me até logo, no primeiro andar, para a "refracção" !
Mas certamente muito mais interessado num bom "aumento"... Esperei ainda até já não haver mais ninguém! Fui o último, uma vez mais, a ingressar nos domínios da bela Ameline! Ela fez-me um sinal com a cabeça (talvez para não gastar saliva) para que eu a seguisse. Entrei no seu gabinete, preparado para me sentar na tal cadeira frente ao canudo, mas ela impediu-me de o fazer, dizendo-me que nessa tarde ela não teria tempo para mim. Claro que, muito pouco sensato, lhe atirei que ela não tinha tempo para mim porque tinha dado o meu tempo ao seu amigo dos tempos da Universidade! Pois que ele tinha vindo sem consulta marcada e que ia submeter-se à refracção, ao passo que eu tinha esperado a manhã toda, que tinha ali o Pat que tinha faltado ao seu trabalho para me acompanhar, e isso não era justo! Ela esticou-me uma outra convocação para a semana seguinte, e virou-me as costas! O Pat ficou fulo e eu estava tão revoltado, que seria capaz de reconstruir o Muro de Berlim em dois segundos! O que ela acabava de me fazer era pura e simplesmente um abuso de poder!

Segundo a data que me tinha sido concedida para esse famoso retoque , lá estava eu uma vez mais na companhia do Pat aguardando ser chamado pela Senhora Dona Ameline para cumprir a sua tarefa! Como de costume fui o último a ser chamado. Depois das usuais verificações, mandou-me voltar ao primeiro andar às 14H30! Novamente pequena refeição num Café local, visita a uma casa de discos em busca de discos da Amália, e novamente a minha cadeira preferida, ao pé da janela, daquela minúscula sala de espera. Estavam apenas duas pessoas à minha frente. Pacientei resignadamente a minha chamada ao sacrifício! Como já era meu hábito, deitei-me naquela marquesa, e esperei até que a Ameline se decidisse a pegar dos seus utensílios para esses inesperados retoques. Durante o retoque ela palrou com os seus assistentes acerca do casamento ao qual ela tinha sido convidada no passado fim-de-semana. Desta vez ela não comentou o seu trabalho, apenas contava as peripécias desse copo de água presidido pelo Rabi Não Sei Quantos. Desta vez o Laser burilou o meu olho mais de 15 minutos. Achei estranho, mas como confiava no seu Sermão de Hipócrates, fiz-lhe confiança. Quando ela deu o seu trabalho por terminado arrancou as gazes da minha cara e pediu-me para me ir repousar o quarto ao lado.

Um tanto aturdido, agarrado às paredes, mudei-me para o quarto ao lado. Eu via pessimamente Deitei-me na outra marquesa e, ao olhar o cartaz em frente, mal conseguia ver as letras gordas! As pequeninas tinham completamente desaparecido! Fiquei alarmado, mas pensei que isso passaria gradualmente. Ao fim desses 20 minutos de repouso, a visão continuava desastrosamente perturbada. Mal Ameline entrou nesse "quarto ao lado", amedrontadamente lhe disse que, parecia-me, desta vez a intervenção não tinha resultado. Eu via mal e porcamente! A sua reacção, olhos postos no chão, alto e bom som, alegremente, foi:

- Je saaaaaaaaaaaaais! (Eu seeeeeeei!)

Como podia ela saber os resultados antes de me ter inspeccionado o olho acabado de estar 15 minutos sob o Laser? Alarmado, levantei-me e sentei-me em frente do canudo. Ela olhou-me dentro desse olho e comentou os resultados aos seus dois estagiários. Um deles estava petrificado contra a parede atrás dela, e olhava-me com uma piedade infinita, e parecia-me à beira das lágrimas! Ele chamava-se Laurent. Não sei se era o seu nome ou apelido! Não percebi quais foram os comentários, porque tudo foi exposto em termos técnicos, os quais eu ignorava totalmente o sentido. Ela disse-me friamente que o trabalho estava feito, que voltasse dentro de dois dias, ao segundo andar, para verificações. Fui para casa lavado em lágrimas! Sentado ao lado do Pat enquanto ele conduzia de regresso a casa, apercebi-me apavoradamente que eu já não conseguia ler os nomes das ruas nem ver os números das portas. Confiei ao Pat os meus temores. Pat, como sempre, reconfortou-me dizendo que isso ia passar com o tempo!

Dois dias depois voltei a carregar o esqueleto até à Ameline para, depois de todos os outros terem passado, ser chamado a sentar-me diante do maldito canudo! Enquanto Ameline olhava para dentro meu olho e tomava apontamentos sobre o meu "dossier", anotando o que muito mais lhe convinha, repentinamente uma outra médica, como uma aparição, pediu licença à Ameline para deitar uma vista de olhos ao meu olho. Amelina cedeu-lhe o seu lugar, e essa senhora começou judiciosamente a espiolhar o meu olho. Depois de ter tudo muito bem vistoriado, voltou-se para a Ameline e disse-lhe autoritariamente:

- Ameline! O problema com o olho esquerdo do senhor Carmo " é que ele esteve demasiado tempo exposto ao Laser!

A senhora, da mesma maneira como apareceu desapareceu! Ameline retoma as suas rédeas e depois de pretender que estava a fazer o seu trabalho, disse-me que iríamos tentar mais um retoque, mas que não acreditava muito, pois que os resultados do prévio retoque eram irreparáveis! Depois enviou-me ao quarto ao lado para me dar outra data para essa nova tentativa! Nesse escritório, enquanto aguardava a decisão da senhora que procurava datas disponíveis sobre sobre o ecrã do seu computador, como ela tinha passado no gabinete da Ameline enquanto a outra médica inspeccionava o meu olho, perguntei-lhe quem era essa senhora que tinha vindo verificar o trabalho da Ameline sobre o meu olho esquerdo. Ela, sem tirar os olhos do ecrã, disse indiferentemente:

- Foi a responsável do Serviço, a Dra. Leroux Les Jardins!

Na data que essa senhora me deu para esse segundo retoque, voltei às mãos da Ameline, no primeiro andar.

Depois de alguns segundos de Laser, ela secamente me informou que não podia fazer mais nada. Que o problema era irreparável! Meses depois procurei a morada dessa outra doutora, para uma consulta privada em sua casa. Essa senhora, depois do obrigatório canudo, fez-me uma receita para fazer óculos para ver ao longe e outros para ver de perto. Quando, discretamente, lhe disse que a Amelina me tinha deixado sob o Laser demasiado tempo, que tinha sido de propósito, para se vingar. E contei-lhe tudo acerca das nossas disputas! Dra. Leroux Les Jardins soergueu os olhos dos seus papéis e disse-me que eu não devia estar bom da cabeça! Que essas coisas não se faziam! Não se faziam mas foram feitas! E agora aqui estou eu a escrever à pressa as minhas memórias, antes que os meus olhos se fechem para todo o sempre! Algumas vezes me passou pela cabeça fazer justiça com as minhas próprias mãos mas, ao pensar que ela iria direitinho ao céu e eu à prisão, mandei tudo, como se diz em Português da rua, "pó caralho"!

Essas Longas Esperas no Tempo




Chegada essa data, novamente o Pat teve de ausentar-se das suas "obrigações profissionais" para me acompanhar ao hospital para esse famoso retoque! Enquanto aguardava a minha vez, quero com isto dizer, até que a Ameline muito bem entendesse vir à sua porta e apregoar o meu nome, reparei num belo jovem que, com o seu computador portátil sobre os joelhos, me parecia muito ocupado com os seus estudos. Ele era, claro, um rapaz de pequena estatura, cabeça coberta de loiros caracóis, olhos muito azuis e penetrantes, um sorriso de acordar a Bela Adormecida, que me deu ganas de o apertar contra o o peito, esmagá-lo entre os meus braços, até que da sua boca brotassem palavras escaldantes de amor e desejo! Fechar-lhe aqueles olhos azuis com um imenso e longo beijo sobre aquela boca vermelha e carnuda! Um delírio! Eu que me tinha divorciado dessas coisas, que, como Greta Garbo, me tinha retirado sob os meus óculos escuros e o meu sorriso enigmático!

Como sou muito comunicativo, rapidamente o abordei. Perguntei-lhe se esses computadores portáteis funcionavam à base pilhas. Ele olhou-me uns segundos nos olhos e murmurou :

- Que voz! Você devia trabalhar numa rádio! Essa voz é um desperdício apenas nos meus tímpanos!

Bem, engoli em seco, fiquei um tanto perturbado, pois que o meu corpo também acabara de ressuscitar do seu túmulo, sacudindo-se das suas cinzas!

Uma conversa muito íntima se estabeleceu entre ambos. Vim a saber que, a despeito dos seus ares de adolescente, era casado e tinha dois filhos. Que era médico, especializado em ginecologia! Ao saber da sua especialidade, cinicamente lhe sussurrei que ele era um oportunista! Tratar da saúde das mulheres... Ele sorriu e martelou :

- De mulheres e não só!

A desviar o meu embaraço e medo de cair de novo em antigas e pérfidas tentações, disse-lhe que Ameline era uma bela mulher, e muito "prestável"... Ele concordou! Que tinha feito os seus estudos com ela, na mesma Universidade, que tinha vindo apenas fazer-lhe uma pergunta acerca dos seus olhos, e que, mesmo sem ter consulta marcada, ela lhe tinha proposto fazer-lhe uma fracção de miopia nesse mesmo dia! Uma jóia de rapariga!

Nesse mesmo instante Ameline pôs o nariz fora da sua porta e chamou-o! Ele fechou o seu computador, ergueu-se, e ao afastar-se na direcção de Ameline, atirou-me uma olhadela de esguelha e, quando suavemente se afastava, as suas roliças nádegas, como num perverso sorriso, ondularam lascivamente ante os meus olhos embevecidos, mas temerosos de novamente tombarem nas minhas luxúrias incontroláveis de outras eras!

mardi 16 février 2010

Podres Abusos de Poder


















Uma manhã, como habitualmente todos os anos, fui ao melhor hospital do mundo de oftalmologia para fazer a minha anual inspecção dos lhos com o Dr. Larricart, esse maravilhoso homem que, já lá iam 30 anos, tomava conta dos meus olhos. Ele era um homem que eu admirava pela sua competência e amizade pois que, como lhe dissera um dia, depois de trinta anos de cumplicidade, nós tínhamos envelhecido juntos! Eu sabia o seu nome de cor porque só tinha um oftalmologista, mas ele também sabia o meu, e eu era apenas um das muitas centenas dos seus pacientes. Ele era um homem que ao passar mim na rua me cumprimentava dizendo-me "bom dia senhor Carmo"!

Ele operou-me do olho esquerdo duma catarata, mas como esse meu olho não era normal - tinha a retina muito próxima da córnea - ele receou fazer um implante de lentilha artificial, e deu-me óculos para fazer a correcção. Anos mais tarde operou-me doutra catarata, desta vez do olho direito. Desta vez implantou-me uma lentilha, e os resultados foram surpreendentes! Como, entretanto, os progressos tecnológicos da oftalmologia tinham avançado espectacularmente, ele pediu-me para ir consultar um outro oftalmologista desse mesmo hospital, o Dr. Werthel, com uma carta a pedir-lhe para ele examinar o meu olho esquerdo para ver se seria possível ele submeter-me algo de novo de que ele era o especialista. Dr. Werthel, depois de me ter observado longamente, disse-me que essa intervenção também, pela proximidade da retina à córnea, seria bastante arriscada! Aconselhou-me ir ver a Dra. Ameline - também desse mesmo hospital - para ver se seria possível fazer uma refracção de miopia desse mesmo olho. Ao sair das suas mãos fui imediatamente ao guichet onde se encomendavam as consultas e pedi uma data para essa senhora, a Dra. Ameline!

Na data obtida para a primeira consulta com a Ameline, ansiosamente, pus os pés a caminho para estar a tempo e horas para conhecer essa senhora que me ia fazer essa refracção de miopia. Corri até ao segundo andar, para onde me tinham indicado ser o seu consultório. Como tinha a minha convocação com a hora marcada, sentei-me e aguardei a minha vez. Estavam lá meia dúzia de pessoas que tinham chegado antes de mim. Às tantas, uma bonita mulher veio à porta chamar o seu próximo paciente, chamando-o pelo seu nome. Fiquei encantado! Ela além de ser talvez a pessoa que me ia ajudar a recuperar a vista do meu olho esquerdo, ainda por cima era uma mulher muito atraente!

Quando chegou a minha vez, foi alvoroçadamente que me pus naquelas suas bonitas pequenas mãos milagrosas. Sentei-me frente àquele canudo pelo qual temos de espreitar. Ameline, depois de ter consultado o meu "dossier", sentou-se do outro lado, espreitando pelo outro lado do canudo, e começou a relatar-me o problema desse meu olho. Que era muito míope, mas que iria ser possível corrigir o problema! Que viesse no dia seguinte, dia 2 de Fevereiro, o meu aniversário, dia de festejar ou lamentar os meus 70 anos! Mas que viesse acompanhado, porque depois da intervenção eu ficaria com problemas de visão! Fui para casa a correr para fazer as minhas obrigações caseiras e, antes de mais nada, telefonei ao Pat, para ver se ele poderia estar livre no outro dia de manhã para me acompanhar ao hospital, para essa para mim tão importante intervenção!

Na manhã seguinte, depois dum rápido pequeno-almoço com o Pat, lá pegámos no carro e fomos até essa Rue Charenton, ali à Bastilha, para essa tão importante intervenção! Depois da chamada ao seu consultório, logo após um segundo estudo do meu olho, ela pede-me para estar de volta às 14H30, no primeiro andar, para ser então submetido a essa intervenção à base de Laser! Pat ficou furioso, pois que só tinha tirado a manhã! Fomos a um Café ali na Bastilha tomar uma bebida e telefonar para o O.E.C.D., a prevenir que ele não podia voltar da parte da tarde! Depois demos uma passeata, vimos as montras, e à hora requerida lá estávamos ambos nesse primeiro andar, onde se encontrava todos esses apetrechos para essa intervenção ao Laser! Enquanto esperávamos, como sou muito comunicativo, encetei uma conversa com uma senhora que lá estava com a sua filha, uma miúda dos seus 16 anos, que estava previsto de passar antes de mim! Depois dessa intervenção foi a minha vez!

Nesse pequeno bloco operatório, primeiro tive de me sentar em frente desse canudo para a Ameline, penso, tirar as medidas, ou fosse lá o que fosse! Depois deitaram-me na marquesa, cobriram-me a cara com umas gases, e logo Ameline começou o seu milagroso trabalho com o seu Laser. A operação durou uns 10 minutos. Depois pediram-me para me ir repousar sobre uma outra marquesa no quarto contíguo, a descansar uns 20 minutos, para depois ser observado para ver os resultados da refracção. Enquanto aguardava, surpreendidíssimo e felicíssimo, apercebi-me que eu podia ver lindamente! Num cartaz mesmo em frente, ali especado na parede, eu podia ler as letras miudinhas. Eu nunca tinha visto assim tão bem em tida a minha vida!

Ameline, esses 20 minutos passados, depois de ter terminado outra intervenção noutro paciente, veio ver-me sobre a minha marquesa. Pediu-me que me levantasse e que me sentasse ali em frente do tal canudo. Imediatamente ela relatou-me como se tinham passado as coisas. Que tudo tinha decorrido muito bem, que ia ver tudo um tanto turvo durante uns dias. Que voltasse dentro de dois dias para ver o andamento das coisas!

Pat, antes de voltar para o OECD, foi-me pôr a casa e, enquanto ele conduzia, eu via Paris tão nítida pela primeira vez! Eu estava contentíssimo. Eu podia até ler os nomes das ruas, os números das portas, e as placas do carro em frente do nosso! Fechei os olhos durante uns segundos, e sem que o Pat se apercebesse, agradeci a Deus aquele fabuloso milagre! Chegado a casa deitei-me para descansar um pouco, e nessa noite, para celebrar, fomos jantar a um restaurante italiano, ali mesmo à esquina da nossa rua!

Depois, durante todo esse mês, tive de voltar ao hospital para que Ameline seguisse as reacções do meu olho. Cada vez era sempre o mesmo problema. Eu chegava com a minha convocação para as 10H15 e era sempre o último a ser chamado! Mesmo aqueles que tinham convocações para o meio-dia passavam antes de mim! Nessa última consulta disse abertamente à Ameline que ela deveria respeitar os horários e não os seus preferidos serem contemplados com sua generosidade! Ela ficou fula e disse-me que "chez-elle" ela fazia o que muito bem lhe apetecia! Respondi-lhe que, "chez-elle", na sua casa, achava muito bem, mas que ali, no hospital, não era a sua casa, mas sim o seu local de trabalho! Que ela devia respeitar as suas obrigações profissionais! Isto dito e feito, ela pediu-me para me sentar diante do seu "canudo" e, dois minutos depois, declarou que o meu olho precisava dum retoque. Agarrou numa folha e deu-me outra data para esse referido retoque. Tomando em consideração que Ameline tinha assinado o "Sermão de Hipócrates", fiz-lhe confiança e aceitei a proposta!

!

dimanche 7 février 2010

Das Clínicas a um Grande Hospital



Apanhei o Metro para ir até ao hospital ver esse professor que me tinha sido recomendado. O problema subsistia e quase todos os quartos de hora tinha de urinar. Quando ia algures de carro, não era problema. Parava numa ravina e dava largas aos meus desalentos! Mas numa carruagem de Metro não me dava ao desplante de sacar uma garrafa vazia do meu bolso, para aliviar a bexiga! Nem mesmo nas horas de ponta!

Chegado a esse hospital que visitava pela primeira vez, senti-me mais à vontade! Para começar havia urinóis por toda a parte! Depois de me ter apresentado à enfermeira-chefe com a minha carta, ela pediu-me os meus documentos e preencheu uma daquelas folhas que entram no mais recôndito da nossa intimidade. Para começar, a idade! Quando, a medo, lhe disse a minha idade ela, muito surpreendida, levantou os olhos do papel, olhou-me uns momentos e muito elogiosamente afirmou:

- Está muito bem conservado para a sua idade!

Mas o que ela não sabia era que a minha bexiga começava a mostrar a sua!

***

Depois duma meia hora na sala de espera, tendo visitado duas vezes aquela pia que me sorria sempre que por lá passava, finalmente fui chamado ao gabinete do Professor. Esse professor era um homem ainda bastante jovem e bem encarado para a sua posição. A minha posição é que começou a ficar um tanto desconfortável quando ele, depois de ter lido a carta, me pediu para me despir da cintura para baixo e deitar-me naquela mais uma marquesa. Fui novamente assaltado daquele terror que me faz tremer da cabeça aos pés quando o vi começar a preparar aquele tubinho que me parecia muito ansioso de me penetrar. Mas pela uretra! Certamente mais outra sessão de sadomasoquismo! A sua assistente amparava o meu indefeso órgão enquanto o Professor apontava para atirar. Fechei os olhos e prometi a mim mesmo que essa seria a última vez! Eu não alinho muito nessas experiências de depravados sexuais. Porém ele, lentamente, começou a fazer a sua viagem através da minha uretra, na direcção da minha próstata. Ele era realmente muito carinhoso e falava-me ternamente das suas pesquisas dentro de mim. Isso acalenta bastante as vítimas de certas intervenções cirúrgicas sem anestesia! Os resultados eram sempre negativos, nada de assinalar. Às tantas ele disse-me que ia fazer um bocadinho doer, mas que seria rápido! E muito rapidamente me apercebi que aquilo não era nenhuma prenda de Natal! Às tantas ele disse-me que estava tudo muito bem mas que a próstata é que estava numa lástima, que ia ser preciso operar-me o mais rapidamente possível! Depois desenfiou o tubo, descalçou as suas luvas de borracha, desmascarou-se, e foi sentar-se à sua secretária na pequena dependência contígua, e convidou-me a segui-lo!

Sentado na sua frente, enquanto ele folheava a sua agenda em busca duma data a propor-me para essa dita urgente intervenção, eu fazia as minhas preces para que toda aquela história acabasse airosamente. Ele estacou uns momentos sobre uma das páginas da sua agenda e, fixando-me interrogativamente, sugeriu-me uma determinada data, que aceitei sem pestanejar. Eu, além das correrias para a pia para fazer a vontade à minha bexiga, estava totalmente disponível pelos anos que me restassem. Ele preencheu uma folha e estendeu-me a cópia que estava por baixo. Nessa cópia tinha a data, mais uma série de análises que teriam de ser feitas antes de ser internado. Depois informou-me dos efeitos secundários dessa raspagem à próstata. Que depois da operação eu ficaria a ter o problema de ejaculação retrógrada, e que, eventualmente, com os anos, a impotência! No meu constante desejo de gozar com as minhas próprias misérias, disse-lhe que isso seria terrível, pois que o meu ganha-pão era actuar em filmes pornográficos, e que isso ia desgraçar a minha carreira! Ele, divertido, olhou-me sorridentemente e disse-me que ou eu teria de mudar de profissão ou mudar de próstata!

Depois, muito seriamente, perguntou-me onde tinha eu feito todas aquelas raspagens à bexiga, que a bexiga estava na ponta da unha! Respondi-lhe que tinham sido feitas em três diferentes clínicas Uma em Ivry sur Seine, outra em Clamart, e a outra algures, nos arredores de Paris. Ele olhou-me embaraçadamente e disse-me algo que tanto me chocou que enquanto eu for vivo jamais me passará da memória!

- Senhor Carmo! Na região de Paris há centenas e centenas de clínicas! Cada clínica tem 30/40 camas! E essas camas têm de ser preenchidas, senão é a bancarrota e essas clínicas têm de fechar a porta! Deixe-se de clínicas! Procure sempre um hospital do Estado, coberto pela Segurança Social! Que nos hospitais eu não tinha que pagar o quarto nem despesas suplementares além da televisão!
Eu não ousei dizer-lhe o que me ia na alma ! Sobretudo na cabeça! Senti uma revolta imensa! Por momentos senti vergonha, nojo, de ser humano! Penso que ele se apercebeu do que se passava na minha mente, pois que, a fechar, disse-me que havia demasiados médicos e cirurgiões em Paris, que nenhum deles queria trabalhar na província, pois que em Paris é que se fazia muito dinheiro! Que a maioria desses médicos e cirurgiões não tinham optado por essas profissões por vocação, mas sim que tinham sido forçados pelos seus pais, que queriam oferecer um bom futuro aos seus rebentos, pois que nessas ocupações se ganha muito dinheiro! Senti vontade de vomitar e pensei em alguém que tinha dito algures muitas verdades acerca dessa casta de castiços que só pensam em castiçais!

samedi 6 février 2010

As Mil e Uma Clínicas Oportunistas



Foi neste apartamento que começaram para mim grandes problemas de saúde! A hemorragia tinha parado, mas continuava a ter que urinar quase todos os quartos de hora! Fui ver o meu médico - que por acaso era mesmo em frente da minha casa - e ele enviou-me com uma carta sua a uma clínica em Clamar, a dois passos de minha casa. Nessa clínica fui imediatamente internado e logo na manhã seguinte, depois de uma anestesia geral, fizeram-me o que eles chamaram, uma raspagem da bexiga! Depois da intervenção o cirurgião veio ao meu quarto pôr-me ao corrente do que se tinha passado. Que tinha feito não sei o quê, e que eu teria de ficar cinco dias com aquele tubo enfiado na uretra. Passados esses cinco dias voltei para casa, mas a necessidade de constantemente urinar, mantinha-se!

O tempo foi passando, e o problema continuava. Novamente o meu médico me enviou a outra clínica, desta vez em Paris. Fui ver o cirurgião no seu consultório privado, pagando 150€, que, depois de muitas perguntas me disse que a única solução era ser operado, mas que para isso teria de lhe pagar 400€ de "dépassement d'honoraires"! Na data combinada fui novamente internado nessa clínica parisiense. Uma vez mais cinco dias com um tubo pela uretra adentro e acima, mais cincos dias da hemorragia pós-operatória, e novamente, em casa, a necessidade de urinar persistia! Voltei a ver o meu médico e ele já não sabia nem o que dizer nem o que fazer!

Dias depois, no pequeno Café-Tabac onde eu ia todos os dias tomar um café e comprar tabaco, uma senhora veio sentar-se à minha mesa. Como era muito natural, começámos a conversar. Falou-se de tudo e mais alguma coisa e, às tantas, falei do meu problema de bexiga. Essa senhora perguntou o nome do meu médico. Quando lho disse ela eu um salto e disse-me que ele tinha sido o seu médico durante algum tempo mas, como ele não lhe parecia muito competente, tinha mudado de médico, e que este era muito competente! Deu-me a sua morada e imediatamente marquei consulta com ele!

Carregando comigo todos os "dossiers" possíveis e imaginários, lá foi à única consulta que tive com o médico dessa senhora. Não fui lá muitas vezes porque era mais longe e sou um grande preguiçoso para me deslocar a pé. Depois de uma meia hora na sala de espera, saiu uma senhora e quase logo a seguir ele veio convidar-me a entrar no seu gabinete. A sua sala de espera e o seu gabinete desiludiram-me um pouco. Havia teias de aranha perto do teto e um óbvio desleixo. Sentado na sua frente, aguardei uma longa meia hora que o doutor percorresse cuidadosamente todos os meus dossiers. De vez em quando fazia-me uma pergunta relacionada com algumas das suas dúvidas e, finalmente, depois de ter reposto todos esses calhamaços perto da minha cadeira, ele tirou os óculos e fez-me uma pequena carta para um professor qualquer num grande hospital de Paris. Antes de sair e depois de lhe ter pago a consulta, a mesma soma que pagava ao meu médico, ele acompanhou-me até à saída pedindo-me que o mantivesse informado acerca da continuação dos meus problemas.

De regresso a casa, a pé, fui raciocinando: Então como é que se faz que o meu médico recebe os seus pacientes sem consulta marcada e, depois, uns atrás dos outros, os seus pacientes entravam no seu gabinete, e quinze minutos mais tarde davam lugar ao próximo. Ao passo que com o outro médico, com consulta marcada, ele reteve-me quase uma hora e levou-me o mesmo preço? Foi alguns dias mais tarde que, nesse pequeno Café, voltei a encontrar essa senhora que me tinha dado a morada do seu médico. Discutimos o assunto e o que ela me contou até me arrepiou! O que ela apresentou como explicação foi realmente de fazer perder a fé na medicina e seus praticantes! Ela, olhando-me fixamente, preveniu-me: Evite os médicos que recebem os seus pacientes sem consulta marcada. Eles enchem a sala de espera com ingénuos que ainda não compreenderam as manobras, e eles despacham-se com cada qual para apenas lhes apanhar o preço da consulta. Que se estão marimbando para a nossa saúde, estão ali para apenas em quinze minutos ganharem 22€!

Residence du Parque



Antes de voltarmos para casa passámos novamente pela "Résidence du Parque", indagámos onde se encontraria a"concierge" e esbarrámos com um tipo simpatiquíssimo que foi buscar uma chave para nos mostrar o único apartamento que tinham disponível. Era realmente um apartamento espaçosíssimo! Como a casa não albergava qualquer peça de mobiliário, a sala era a vastidão dum chão assoalhado com uma grande janela da largura da superfície daquela vasta dependência, a qual dava sobre um vasto terraço que se debruçava sobre o grande jardim central. O hall de entrada também era espaçoso, assim como a cozinha, que também tinha uma grande janela que dava para esse mesmo terraço. Tinha três quartos gigantescos com janelas para as traseiras, das quais se avistava Paris lá ao longe. Boa casa de banho e novamente essas duas pequenas dependências como guarda-roupas. Ideal para ambos, pois que assim cada qual podia ter a sua independência! Imediatamente descemos até ao escritório do "concierge", assinámos um contrato, e pagámos três meses adiantados. A renda era apenas 900€, "tout compris"! Ficámos encantados e mentalmente uma vez mais enviei a prévia proprietária ao diabo, pois que tínhamos acabado de fazer um bom negócio!

A mudança foi rapidamente feita! Primeiro trouxemos o Caramelo, que fechámos num dos quartos, para o não assustar muito com toda aquela balbúrdia. Rapidamente arrumámos os móveis, mandámos fazer cortinas, decorámos a casa toda, e ficámos ali com reis, muito bem instalados, e com muito espaço para ambos. O primeiro problema foi que, para ir às compras, eu tinha de subir uma muito íngreme ladeira até à via principal onde se encontrava o supermercado. O esforço era realmente bastante violento. Um dia, de regresso a casa, fui à casa de banho urinar e, horror, urinei sangue! Agarrei nas pernas e fui a correr a uma farmácia pedir a morada dum médico. A senhora deu-me uma morada mesmo por cima do seu estabelecimento! Subi e aguardei a minha vez. A sala de espera estava a rebentar de pessoas a tossir, pois que foi durante uma grande epidemia de gripe !

Chegada a minha vez, entro no consultório, e a primeira coisa que o médico me pede sãos as minhas coordenadas. Dei-lhe o meu nome e morada e, ao escrever a minha morada, por cima dos óculos, ele disse-me que me mudasse imediatamente, que a Residência do Parque era uma "fábrica de bronquites crónicas", pelo facto do aquecimento central ser por baixo do soalho, e que isso mantinha a poeira suspensa no ar, e que isso era terrível para os brônquios, pulmões, e sinusites. Ora eu tinha deixado a Alfa por causa da poeirada e de novo ali estava eu prisioneiro desse mesmo inconveniente. Ele deu-me um tratamento para parar a hemorragia mas, mesmo assim, andei quase uma semana a urinar sangue.

Imediatamente começámos a procurar outro apartamento ali próximo, pois que Meudon era realmente um lugar muito aprazível. Durante seis meses procurámos mas eram sempre apartamentos mobilados. Cada vez que passava ao pé do apartamento na Rue des Pierres, a tabuleta anunciando "a alugar", estava lá sempre patente! Era evidente que ninguém queria aquele apartamento no deplorável estado em que o tinha visto. Finalmente, desesperados até aos colarinhos, voltámos a contactar aquela divina senhora que queria que fossemos nós a fazer as obras ao nosso gosto, mas cores clarinhas! Acabámos por alugar esse apartamento a 1.600€ e, ao pegar nas chaves, disse a essa senhora que só pensava nas entradas de dinheiro e não nas saídas, que ela tinha perdido muito mais dinheiro não tendo alugado esse apartamento durante seis meses, do que lhe teriam custado as obras! Moralidade da história, estou agora aqui a escrever as minhas memórias nesse mesmo apartamento, e já lá vão nove anos que aqui moramos!

lundi 1 février 2010

Rue des Pierres - Casa Aluga-se


Depois fomos visitar a vila, tendo como guias os nossos amigos de poucas horas. Esse passeio foi outra deslumbrante descoberta. Meudon era realmente um tesouro escondido entre as frondosas árvores! O parque, lá em cima era uma extensa arrelvada superfície com uma grande álea de arvores e um miradouro donde se avistava toda a cidade e, mais além, a Cidade Luz com a sua Torre Eiffel e Montmartre com o seu espectacular Sacré Coeur. Claro, também o impressionante Observatório de Meudon todo ao longo do outro lado do parque!

Ao descermos, apanhámos a Rue des Pierres para visitar o centro da cidade. Ao fim dessa rua, à direita, a fazer esquina com a Rue Republique - a via principal - um simpático edifício onde, no terceiro andar, numa das varandas, uma tableta que dizia: "Aluga-se", por cima dum gordo número de telefone. Como era o fim-de-semana, decidimos tomar nota desse número e telefonarmos no dia seguinte!

No dia seguinte telefonámos e foi-nos dada uma data para visitar. Chegada essa data, a essa hora marcada, a proprietária aguardava-nos à entrada para subirmos a esse terceiro andar e apreciar esse espaço que estaria disponível a partir do fim desse mês. A porta foi-nos aberta pelos então actuais inquilinos, que muito simpaticamente nos mostraram a casa toda. O apartamento era realmente muito acolhedor. Tinha três quartos, um longo corredor com casa de banho e toilette, uma grande sala com uma longa varanda que dava para as traseiras, sobre o arvoredo, uma cozinha com uma grande janela, e um hall de entrada bastante espaçoso. Tinha, sobretudo, no corredor, duas pequenas dependências sem janelas, que eram enormes espaços com varões cheios de cabides para pendurar as roupas. Gostámos do apartamento, mas como a alcatifa estava num miserável estado, assim como a pintura das janelas e paredes, perguntámos à senhora quanto tempo lhe levaria para restaurar o apartamento antes do ocuparmos. Ela respondeu, enfaticamente, que não era ela que faria as obras, que seríamos nós, ao nosso gosto. "Mas, por favor, cores muito clarinhas!" Ora ela pedia-nos 1.600€ "tout compris"! Mandei a senhora à fava desejando-lhe boa sorte com os seus próximos inquilinos, que não seríamos nós!
Depois fomos visitar a vila, tendo como guias os nossos amigos de poucas horas. Esse passeio foi outra deslumbrante descoberta. Meudon era realmente um tesouro escondido entre as frondosas árvores! O parque, lá em cima era uma extensa arrelvada superfície com uma grande álea de arvores e um miradouro donde se avistava toda a cidade e, mais além, a Cidade Luz com a sua Torre Eiffel e Montmartre e o seu milagroso Sacré Coeur. Claro, o impressionante Observatório de Meudon todo ao longo do outro lado do parque!

Ao descermos, apanhámos a Rue des Pierres para visitar o centro da cidade. Ao fim dessa rua, à direita, a fazer esquina com a Rue Republique, a via principal, um simpático edifício onde, no terceiro andar, numa das varandas, uma tableta que dizia: "Aluga-se", por cima dum gordo número de telefone. Como era o fim-de-semana, decidimos tomar nota desse número e telefonar no dia seguinte!

No dia seguinte telefonámos e foi-nos dada uma data para visitar. Chegada essa data, a essa hora marcada, a proprietária aguardava-nos à entrada para subirmos a esse terceiro andar e apreciar esse espaço que estaria disponível a partir do fim desse mês. A porta foi-nos aberta pelos então actuais inquilinos, que muito simpaticamente nos mostraram a casa toda. O apartamento era realmente muito acolhedor. Tinha três quartos, um longo corredor com casa de banho e toilette, uma grande sala que dava para as traseiras, sobre o arvoredo, uma cozinha com uma grande janela, e um hall de entrada bastante espaçoso. Tinha, sobretudo, no corredor, duas pequenas dependências sem janelas, que eram enormes espaços com varões cheios de cabides para pendurar as roupas. Gostámos do apartamento, as como a alcatifa estava num miserável estado, assim como a pintura das janelas e paredes, perguntámos à senhora quanto tempo lhe levaria para restaurar o apartamento antes do ocuparmos. Ela respondeu, enfaticamente, que não era ela que faria as obras, que seríamos nós, ao nosso gosto. Mas, por favor, cores muito clarinhas! Ora ela pedia-nos 1.600€ "tout compris"! Mandei a senhora à fava desejando-lhe boa sorte com os seus próximos inquilinos, que não seríamos nós!

O Belo Parque e o Observatório





O almoço decorreu bem. Tiveram o cuidado de preparar um almoço com um toquezinho português. Eles eram um casal acabados de regressar da sua viagem de núpcias, e o apartamento era um penugento ninho com um pequeno terraço que dava para a rua e, lá ao longe, toda aquela extensa e verdejante floresta! Falou-se da venda do nosso apartamento em Villejuif e que tínhamos de alugar um outro apartamento algures. Eles apontaram-nos lá em baixo, mesmo em frente, um aglomerado de blocos onde havia um enorme cartaz que dizia: "Apartamentos-alugam-se"! Achámos graça à coincidência e resolvemos ir deitar uma vista de olhos, mas como era domingo, os responsáveis não se encontravam e decidimos tentar no dia seguinte, telefonando para aquele número afixado no cartaz.